JOÃO
DOS SANTOS FILHO
Professor
da Universidade Estadual de Maringá. Autor do
livro “Ontologia do turismo: estudo de suas causas
primeiras”, EDUSC, Universidade de Caxias do Sul
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Inclusão ou exclusão social:
qual
é a lógica do Turismo?
por João dos Santos Filho
A
sinalização do fenômeno turístico na história surge por meio de
diferentes e variadas manifestações societárias, a qual depende do
estágio de desenvolvimento das relações de produção e das forças
produtivas. Presente em todos os períodos históricos da humanidade
com explicitações diferentes vai ser mencionado pela primeira vez no
modo de produção tribal,
em sua face inicial, junto às necessidades básicas do ser humano.
Portanto, o turismo aparece antes do capitalismo, e assim, não pode
ser considerado produto dele, mas sim, adquire com ele uma dinâmica
econômica própria apresentando formas de se expressar diferenciadas,
que vão configurar essa atividade historicamente.
O turismo como estimulador na reprodução e ampliação
do grande capital, por ele, surgem os delirantes
megaempreendimentos turísticos, que abusam do lúdico dos homens e
inculcam nas crianças um imaginário do irreal possível: o homem que
voa; a sensação de pilotar uma nave espacial; heróis que nunca
morrem; monstros amigos, animais ferozes cativos, tudo isso, na
busca de oferecer lazeres e entretenimentos diversos e diferenciados
para classes que podem pagar pela exarcebação do lúdico
mercadológico.
O aparecimento da atividade turística ocorre no
interior das necessidades básicas, dada pela categoria movimento,
considerado a protoforma de nascimento do mesmo, que se nutriu dos
lazeres das elites e classes dominantes, como assim, se refere o
estudioso Marc Boyer ao afirmar que “O passado elitista nos dá
freqüentemente o cenário do turismo de massa” (BOYER, 2003, p. 19).
O caráter histórico do turismo se dá pela conformidade de atividades
que os grupos sociais desenvolvem para atender à necessidade básica
de movimento.
Neste sentido, duas questões devem ficar claras para
entendermos o turismo na história da humanidade. A primeira é que a
necessidade básica antecede qualquer outro fato social, e que este
se configura na matriz que sinaliza o fenômeno do turismo. A segunda
é que com o desenvolvimento de atividades para atender á necessidade
básica de movimento vai incorporar diferentes quadros culturais, que
expressam as diferenças sociais, mesmo que sutis daquela sociedade.
Movimento é uma necessidade básica que só existe em
razão da atividade na qual o grupo social a elabora e necessita para
manter o organismo sadio e indispensável à sociabilidade, pois
determinam um tipo de ação para os exercícios e iniciativa.
Sinalizando a atividade de lazer e turismo como resposta cultural
que será dada de formas diferentes, segundo o desenvolvimento das
relações de produção.
Se a atividade conhecida como turismo foi se formando
durante a história da humanidade e possui uma essencialidade
elitista, poderíamos afirmar que a mesma tem uma tendência de ser
considerada como uma atividade de exclusão. Entretanto só esse
fator, não pode qualificá-la como excludente, além do que, proceder
a essa conclusão imediatista é processar um pensamento de base
determinista e mecânico, pois existe um determinante maior a
questionar. A quem é dirigida as Políticas Nacionais de Turismo no
Brasil? Esta parece ser a questão principal, e que pode nós levar a
entender o elitismo no turismo e de forma científica questionar as
atividades que dão organicidade a esse posicionamento.
Bases teóricas para entender o elitismo no Turismo
Partimos da premissa de que atividade humana, após
certo momento da histórica, inicia um movimento triturador das
relações sociais impondo a desigualdade em razão da aceleração das
trocas de mercadorias entre as tribos. O aparecimento da mercadoria
vai quebrar o equilíbrio natural que buscava satisfazer às
necessidades imediatas e impor um processo de desigualdade pelo
acúmulo de capital na produção do excedente, para explicitar esse
processo de desigualdade, Karl Marx em seu conhecido Manifesto
Comunista, afirma:
A história de todas as sociedades que existiram
até nossos dias tem sido a história das lutas de classes.
Homem livre e escravo, patrício e plebeu, senhor
e servo, mestre de corporação e oficial, numa palavra,
opressores e oprimidos, em constante oposição, têm vivido numa
guerra ininterrupta, ora franca, ora disfarçada; uma guerra que
terminou sempre, ou por uma transformação revolucionária da
sociedade inteira, ou pela destruição das suas classes em luta.
(MARX, 1980: 8)
Na verdade a noção de acumulação de capital que
aparece com a mercadoria é o combustível que alimenta e expande a
desigualdade entre os homens e que vai se aprofundando no interior
dos modos de produção que surgem com o desenvolvimento da história.
O turismo encontra ambiente propício para se
desenvolver, no conjunto das necessidades básicas pela categoria
Movimento. Esta se materializa de formas diferentes, segundo o
estágio de desenvolvimento das relações de produção, assim as
sociedades vão desenvolver atividades físicas próprias de cada
cultura. A necessidade básica de “movimento” sinaliza a atividade de
lazer e turismo como resposta cultural que será dada de formas
diferentes.
Podemos relacionar as mais diferentes e curiosas
manifestações de atividades para se obter “movimento” das danças
indígenas, em que esta toda relacionada ao cotidiano daquele povo
até a mercantilização do lúdico irreal. O mercado do lazer e
entretenimento movimenta grande parte da economia mundial, em que o
tempo livre virou mercadoria que pode ser consumida segundo o poder
econômico das classes sociais.
Com o aparecimento da mercadoria surge em escala
mundial o cultivo da desigualdade em que o Capital transforma o
turismo no instrumento da modernidade, como assim afirma James
Petras:
Hoy en dia ser <<moderno>>
significa tener acceso a los circuitos industriales del
comercio, las finanzas, las inmobiliarias y la industria
turística. Ser<<marginal>> hoy significa ser nacional, regional,
local. Las élites internacionales son las que hacen la historia;
los marginales son los objetos de esta: objetos de explotación,
objetos típicos o sexuales del turismo, un emplazamiento para la
apropiación y la inversión.
(Petras, s/d: 25)
Esse processo vem acompanhado por outro mais bárbaro,
que é a pressão para que a sociedade privatize os serviços públicos
oferecidos pelo Estado, bem como, torna-se simplesmente um órgão
administrativo para normatizar o mercado segundo os interesses
privados. Esse procedimento vai limitar a ação do Estado no campo
junto às classes populares e afastá-los cada vez mais da
possibilidade de usufruir a maioria das atividades de turismo.
O Estado passa à iniciativa privada o atendimento
social em todos os campos inclusive no turismo, é ai, que surgem uma
série programas caricato:
1 – Destacamos o engenhoso marketing realizado
pela EMBRATUR na divulgação do cotidiano de seus atos, alguns
são primorosos esteticamente, outros decadentes, mentirosos,
apelativos e subliminares como é o caso da propaganda feita em
torno do programa lançado pela EMBRATUR chamado “Vai Brasil”,
divulgado com sendo o programa para as classes populares, com a
participação de personagem como Marinete (a diarista). O que
não foi explicado é que as marinetes teriam de possuir um
computador para acessar as agências de viagens na compra de
algum pacote turístico, assinar um contrato para poder financiar
sua viagem.
2 – O “Empreendetur” idealizado pela Associação
de Bacharéis em Turismo (ABBTUR) é um exemplo do irracionalismo
do pensamento burguês, pois caminha num mundo de puro
fetichismo, negando as contradições da realidade e se opondo ao
movimento dialético da história. Os elaboradores do programa,
quando criticados, se defendem argumentando que a realidade deve
ser trabalhada no conjunto do mundo privado que governa os
sistemas econômicos “sustentáveis”. Salientam que a saída para a
inoperância da atividade pública se deve ao despertar do
espírito empreendedor que existe em cada um de nós. Ressaltam
ainda que as críticas ao programa sejam resultado de análises de
viés ideológico.
O discurso de que a iniciativa privada tem um
comprometimento ético com a sociedade, e não com a ampliação da mais
valia, ficando o turismo dependente de sua conduta e atuação; não
proporciona o entendimento de que a atividade empreendedora se deve
ao desemprego e a política recessiva imposta pelo Estado brasileiro;
e, finalmente, acaba fazendo uma apologia contra a luta pela
regulamentação, uma vez que afirma implicitamente ou explicitamente
(conforme o entendimento de cada um) que não é necessário
profissional devidamente formado em cursos de nível superior para
atuarem e promoverem o turismo com responsabilidade.
Essa parceria da ABBTUR nacional com a empresa citada
não é especificada no site. Isso nos remete a alguns
questionamentos: O Empreendetur foi desenvolvido por e para uma
empresa privada com a estrutura da ABBTUR e Ministério do Turismo?
Como são as relações entre as organizações, incluindo fluxo
financeiro e de informações cadastrais? A empresa Bureau de
Consultoria terá acesso ao cadastro de inscritos e poderá utilizá-lo
para venda de seus serviços? Finalmente, retornamos a outra pergunta
que diz respeito à organização profissional: por que a ABBTUR assume
um programa que tem como ‘’público alvo’’ qualquer interessado,
mesmo não sendo turismólogo?
Conclusão
As políticas públicas existentes no campo do turismo
são inconseqüentes, porque são privatizantes, elitistas,
pulverizadas e obedecem ao princípio de estar descomprometidas com
as classes populares. Dentre as diferentes ações desenvolvidas pelo
governo, é no turismo que o mesmo delega à iniciativa privada a
totalidade de suas atividades, pois não entende que, no Brasil, o
turismo deve ser encarado como um investimento social a fundo
perdido e não simplesmente como gerador de mais-valia.
As características abismosas da estrutura social
brasileira exigem que o Estado desenvolva política de turismo de
cunho social e cidadã, em que a responsabilidade principal deve ser
do governo, com o apoio do trade. Com isso, não estamos
negando o papel e a importância da iniciativa privada, mas, sim,
alertando aos responsáveis pelo turismo no Brasil que o Estado tem o
dever de desenvolver políticas públicas para as classes populares,
com diretrizes claras de inclusão social para os diferentes estratos
sociais.
Por essa razão, a tendência do Estado é sempre
formalizar programas inconsistentes para o turismo receptivo, ou
seja, afirmamos que a preocupação do poder público nesse caso é
oportunizar que o trade maximize seu lucro nos períodos de baixa
estação. Por meio da falsa idéia, de que todos devem fazer algum
sacrifício para diminuir os custos operacionais, como programas
temporários e perenes para a terceira idade.
Com referência a programas para o turismo receptivo
o Estado investe massiçamente em programas de Marketing,
infra-estrutura e nos escritórios internacionais comandados por
pessoas não concursadas e indicadas politicamente. O que comprova
que o Estado desenvolve uma Política Nacional de Turismo de exclusão
no que se refere ao turismo doméstico.
Referências
BOYER,
Marc. História do Turismo de Massa. Bauru, São Paulo: EDUSC,
2003
PETRAS, James.
Modernidad versus comunidad.
In. Interrogantes de la Modernidad.
Cuba: Ediciones Tempo, s/d: 25
SANTOS FILHO, João
dos. Ontologia do Turismo: estudos de suas causas primeiras.
Caxias do Sul: Educs, 2005.
Estudo aprofundado sobre essa questão pode ser encontrado no
meu livro: SANTOS FILHO, João dos. Ontologia do turismo:
estudos de suas causas primeiras. Caxias do Sul, RS: EDUCS,
2005.
Esse assunto foi por mim amplamente discutido em trabalho
apresentado no III Seminário de Pesquisa em Turismo do
Mercosul na Universidade de Caxias do Sul e publicado
pela Revista de Turismo y Patrimônio Cultural – Pasos -, em
Janeiro de 2007 – Espanha. Acesse
info@pasosonline.org volume 5. Número 1 e consulte o
artigo Espelho da história: o
fenômeno turístico no percurso da humanidade.
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