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JOÃO
ADOLFO HANSEN
Professor titular de Literatura
Brasileira na Universidade de São Paulo. Autor de A Sátira e o
Engenho. Gregório de Matos e a Bahia do século XVII. 2 ed.
revista. Campinas/Cotia, Editora da Unicamp/Ateliê, 2004 e de
estudos sobre as representações luso-brasileiras dos séculos
XVI, XVII e XVIII.
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Vieira e o intelecto angélico
por João Adolfo Hansen
Para
falar de Antônio Vieira com alguma verossimilhança, é pertinente
lembrar seus pressupostos metafísicos e teológico-políticos hoje
mortos e esquecidos. Falemos do Anjo. Saber se um Anjo pode conceber
representações e se pode comunicá-las a outro foi uma questão
debatida vezes sem conta nas aulas dos jesuítas de Coimbra e de
Salvador no tempo de Vieira. A resposta invariável sempre foi a de
que o Anjo fala não com signos dos conceitos, mas com os conceitos
mesmos, de modo que uma mesma coisa é significante e significada
como protótipo e tipo. O Anjo produz a imagem espiritual de seus
pensamentos em outro espírito angélico sem recorrer a nenhum meio
simbólico. Aqui, a referência ao Anjo é diferencial: Robert Klein
demonstrou, ao estudar os
livros
de empresas italianos dos
séculos XVI e XVII, que eles
doutrinam a imagem comparando o intelecto
humano
com o intelecto
angélico (Klein, 1998; 117-140). A comparação é corrente nas
preceptivas retóricas e poéticas do tempo de Vieira, como a do
jesuíta Emanuele Tesauro, Il Cannocchiale Aristotelico
(1654). Elas afirmam, invariavelmente, que
o pensamento humano se diferencia do pensamento angélico pela
representação. Nenhum Anjo é
poeta ou pintor, pois é a significação de uma
coisa
por outra- a metáfora- que fundamenta
a poesia, a pintura e a representação
em
geral. Quando doutrinam a representação
humana por meio da comparação do intelecto humano com o intelecto
angélico, Vieira e seus contemporâneos acreditam, com Aristóteles,
que uma inteligência superior
se caracteriza pela
capacidade
de estabelecer
relações rápidas e inesperadas entre conceitos, representando-os exteriormente em
signos agudos. Sendo católicos contra-reformistas, sempre lembram a
Autoridade que fundamenta a representação, propondo que, para
demonstrar que a natureza humana não é angélica, Deus inventa na
Bíblia uma Escada que sobe ao Céu, um Livro fechado com Sete Selos,
um Pão voador e mais imagens que atuam metaforicamente na mente
extática de seus Profetas e dos homens que os ouvem. Deus sabe que o
homem ama o que admira e que só admira a verdade vestida, não a
verdade nua, que é amarga
(Tesauro, 1670; 17). Por outras palavras, o
amor
das imagens é a causa
eficiente e instrumental das representações agudas
produzidas pelos homens.
Artista, Deus goza como Poeta fabulador de altíssimos
conceitos. O seu estilo é composto de nobres figuras porque o
sublime faz a maravilha e a maravilha faz a veneração. Nas
Escrituras, dita os preceitos necessários para a salvação em
estilo chão e claro, pois Ele é para todos: Non occides soa
universalmente tanto à orelha rústica quanto ao intelecto agudo.
Este é o sentido literal. No estilo divino, contudo, as coisas altas
e peregrinas aparecem pintadas em claro-escuro, com três modos de
Símbolos figurados ou metafóricos, o sentido tropológico, o sentido
alegórico e o sentido anagógico. Metáforas tropológicas são as que
figuram e ensinam verdades morais. Por exemplo, Quicquid
obtuleris sacrificii sale condies, para significar que, ainda na
liberalidade é necessária a prudência, figurada no sal. Agudezas
alegóricas são as que figuram mistérios da Fé concernentes a coisas
terrenas. Como esta: Egredietur virga de radice Iesse: et flos de
radice eius ascendet. Argúcias anagógicas levam a alma humana
para cima e são as que figuram algum segredo das Coisas eternas,
como Beati qui lavant stolas suas in
sanguine agni; ut fiat potestas eorum in ligno vitae.
O homem é tempo e, porque é linear e sucessiva, sua
eloqüência só diz o sentido próprio excluindo o figurado.
Diferentemente dela, na escrita divina a propriedade literal contém
a agudeza tropológica e, abaixo desta, a alegórica e, mais abaixo, a
anagógica. No Verbo divino, cada palavra tem simultaneamente três
conceitos e cada conceito é três metáforas. Deus é o próprio
Engenho; logo, também compõe sua arte usando palavras de outros para
aproximar conceitos distanciadíssimos e de uma blasfêmia fazer uma
metáfora santa, como ocorre com a fala de Caifás, que pronuncia a
sentença contra Cristo para aquietar o tumulto da plebe de
Jerusalém:
Expedit ut unus homo moriatur, ne tota gens pereat.
Emanuele Tesauro diz que Caifás afirma: "EXPEDIT:
assim requer a razão de Estado. UT UNUS HOMO: que um homem
plebeu. MORIATUR: seja levado à morte. NE TOTA GENS PEREAT:
para que não haja um massacre dos Cidadãos”. E que Deus traduz o
enunciado metaforicamente, com outro sentido salvífico e profético:
"EXPEDIT: assim requer a Divina Justiça. UT UNUS HOMO:
que Cristo, o único que se pode chamar Homem, havendo todos os
outros degenerado em ferozes animais. MORIATUR: seja
sacrificado na Cruz. NE TOTA GENS PEREAT: para que não seja
danado todo o gênero humano”. Logo, o mesmo mote que é literal para
Caifás é simbólico para Deus: a blasfêmia é um oráculo e, quando
delira, o sacerdote profetiza.
Na "Carta Apologética", que escreve em castelhano e
dirige ao Pe. Jácome Iquazafigo, Provincial da Andaluzia, em 30 de
abril de 1686, Vieira novamente defende a interpretação profética
das Trovas de Bandarra contra o texto
Respuesta a una Carta, que Antonio de Vieira
Monopanto
escrivió à un Señor Obispo de la Orden de los Predicadores,
de autoria de um anônimo oculto pelo pseudônimo Escoto Patavino.
Propondo a mesma interpretação de "Caifás sacrílego" como profeta,
afirma que a Graça da verdadeira profecia – assim como as outras,
chamadas de gratis datas pelos teólogos - não supõe
necessariamente a santidade ou a virtude do homem que a revela, pois
Deus usa como causas segundas ou instrumentos de sua Vontade também
homens rústicos e vulgares, como o sapateiro de Trancoso, Gonçalo
Eanes Bandarra, cujas trovas interpreta profeticamente.
Vieira, Tesauro e contemporâneos acreditavam que
também numa ação física Deus age agudamente. Cristo nasce entre
jumentos mudos, num presépio, quando o Planeta luminoso, brilhando
nos Antípodas, abandona o meridiano da Judéia. É metáfora divina
escrita com coisas ou alegoria factual (allegoria in factis)
significando que a luz evangélica, abandonando a Sinagoga, devia
revelar-se aos Gentios. Nasce quando o Sol, junto ao Trópico,
evidencia o solstício de inverno: como conceito agudo do Sol da
Graça que começa a voltar-se para outros homens, enquanto faz o
solstício em um presépio. Nasce também quando Saturno reina no meio
do Céu, enquanto o signo da Virgem Astréia aparece sobre o
horizonte. Símbolos do Século de Ouro cantado por Virgílio nos
versos da "Bucólica IV", aliás, que Santo Agostinho, Justino,
Aliacense e Alberto Magno interpretaram como Horóscopo Natalício do
Salvador:
Iam redit et Virgo; redeunt Saturnia Regna:
Iam nova Progenies Caelo demittitur alto.
Tais agudezas divinas fundamentam os pensamentos de
Vieira quando usa os conceitos predicáveis. Extrai o conceito
predicável da matéria sacra fundada nas argúcias divinas das
Escrituras e figura-o em uma forma aguda, baseada em metáfora,
que interpreta para a audiência do sermão os sentidos tropológico,
alegórico e anagógico. Orador sacro, aplica as agudezas metafóricas
e alegóricas para ser um scolastico insegnatore, como diz
Tesauro, um intérprete que ensina. Sendo escolástico, pensa sua ação
oratória, sua obra profética e suas cartas como adaequatio rei ad
intellectum, adequação da coisa ao intelecto. Pressupõe que a
essência e a existência das coisas, que são seres singulares como
entes criados, correspondem à Idéia que Deus concebe delas em seu
Intelecto segundo uma concordância que as faz analogamente
verdadeiras. Seu intelecto também é ens creatum e,
adequando-se por analogia à Idéia de Deus, faz adequações dos
conceitos com coisas e signos conformes com a Idéia. Logo, quando
fala, enuncia verdadeiramente porque pressupõe a convenientia
das coisas, dos conceitos, dos signos e das proposições com a
Identidade divina e o projeto de Deus para a Criação. A
conveniência define as operações intelectuais de sua
representação, que evidencia as relações próximas e distantes,
explícitas e implícitas, simpáticas e antipáticas da participação
das coisas, do intelecto e da linguagem na unidade metafísica de
Deus segundo a analogia que faz a História e a Natureza ser espelhos
que O refratam. Monstro do engenho, Vieira evidencia as
conveniências retoricamente, aplicando preceitos dos gêneros
oratórios, que usa para falar, ao cálculo da relação entre conceitos
distantes fundidos na agudeza dos efeitos; eticamente, porque afirma
a prudência e defende a concórdia do bem comum; politicamente, pois
faz da eloqüência um instrumento de unificação das vontades do
Império subordinado à vontade de um só, o rei; teologicamente,
porque seu discurso participa na analogia do Ser evidenciando os
níveis do sentido espiritual da Palavra de Deus revelada na Bíblia e
na Natureza que toma como matérias do sermão. Seu discurso sempre
evidencia a dominante do conceito teológico-político de ordem,
ordo. A ordem articula as causas temporais do Império Português
à lei natural e à lei eterna, sacralizando a autoridade do poder
absolutista dos Bragança, que dá a ver em formas sensíveis que fazem
o público crer. A cerrada "unidade teológico-retórico-política" dos
sermões, na síntese feliz de Alcir Pécora, condensa vários níveis de
significação ordenados pelo sentido providencialista. Nos sermões,
as três primordialidades da Trindade, Potência, Amor, Sabedoria,
aparecem como a Potência do Pai, que subordina o Amor do Espírito e
a Sabedoria do Filho à ação sobre as coisas do tempo. A Companhia de
Jesus é ordem guerreira, Loyola não dissocia contemplação de ação
e, no grande teatro do mundo, Vieira é sempre homem da vontade
férrea, disposta a convencer e vencer.
Como Vieira pensa? Seu intelecto é como um espelho
sempre idêntico a si e sempre vário, refletindo imagens de coisas e
produzindo pensamentos como um texto ordenado de fantasmas
interiores; logo, seu discurso exterior é por definição metáfora,
como ordem de signos sensíveis que substituem e imitam os tipos do
seu pensamento arquétipo. Desses signos exteriores, alguns são
falantes, outros mudos e muitos compostos. Vieira pode representar o
agudo e figurado de um conceito predicável por meio do conceito
mental ou arquétipo; por meio da voz; por meio de caracteres
escritos; por meio de gestos; por meio de representação das coisas
e, ainda, por meio de uma maneira misturada. A agudeza arquétipa é a
que se desenha no seu ânimo com seu pensamento: por exemplo, quando
decide tomar por conceito predicável do Sermão da Sexagésima (1655)
o Ecce exit qui seminat seminare semen suum da parábola do
Novo Testamento para alegorizar a ação da Companhia no Estado do
Maranhão e Grão-Pará contra a ordem rival, os dominicanos; ou quando
toma um verso ou uma trova do Bandarra, como na carta para o jesuíta
André Fernandes, futuro Bispo do Japão, para figurar sucessos
presentes e futuros da sua pátria. É essa argúcia arquétipa que
comunica ao espírito de outros homens com signos exteriores: não é
possível fazê-lo sem o recurso dos sentidos, o que também fundamenta
as convenções retóricas e as formas da sociabilidade constituídas
nos seus discursos como discrição, prudência e agudeza. Como
"sensível Imagem do Arquétipo", sua agudeza vocal faz o ouvido gozar
suas pinturas, que têm o som por cor e a língua por pincel. Suas
agudezas vocais são elípticas, cheias de subentendidos, uma vez que
, se os ditos fossem muito claros, elas perderiam seu brilho, assim
como as estrelas, que só luzem na escuridão. Vieira pressupõe a
condensação sutil, tendencialmente hermética da fala, pois um duplo
prazer se produz nas agudezas vocais:quem as emite sente prazer de
dar vida no intelecto de outro homem a um efeito do seu e, o outro,
o prazer de encontrar o que estava oculto. No caso, a pragmática
cortesã define Vieira e outros produtores de agudezas de seu tempo
como tipos urbanos, dotados de instrumentos dialéticos e retóricos
proporcionados pelo juízo nas situações em que a elegância é a
primeira norma da etiqueta cortesã. Por isso, o que especifica sua
agudeza vocal é a ocasião: um mesmo dito agudo pode ser tomado como
ironia, jogo, obscenidade, agressão ou afetação de excesso de
fineza, o que pressupõe o regramento do discurso por um sistema de
decoros externos, que especificam as ocasiões e o sentido apto.
Vieira sabe, absolutamente bem, que as agudezas escritas são imagens
das vocais, como propõe Aristóteles. Sabe que a escrita faculta
ilimitados jogos de conceitos, sendo superior à agudeza vocal,
porque é aere perennius, como dizia outro. Sabe que é dela
que surgem as inscrições agudas; os motes das empresas; as
sentenças; as missivas lacônicas; os epigramas; os caligramas; os
hierogramas; os mil jogos do engenho. Como na divisa dos Sabinos
S.P.Q.R, Sabinis Populis Quis Resistet?, que os romanos
mantiveram, mas eliminando os sabinos.
Assim, se trata das circunstâncias, nelas lê a marca
do projeto amoroso e guerreiro de Deus. E, se trata da essência
divina, nela pesquisa o sentido tropológico, o sentido alegórico e o
sentido anagógico das circunstâncias. A agudeza dos sermões é
operada retoricamente como técnica de aproximar e condensar análogos
distantes fundamentada na metafísica escolástica. Não deve ser
entendida como jogo de palavras inconseqüente, sem relação com o
real das definições positivistas de “realidade” em que o discurso
não é prática real. Vieira é discreto, ou seja, pauta a fantasia com
o juízo, ordenando o efeito aristotelicamente como prudência e
discrição. Por fantásticas que pareçam para seu eventual leitor que
hoje não mais conhece a experiência do sagrado, elas revelam a
universal mediação da luz natural da Graça inata.
Ora, em Vieira, como Alcir Pécora demonstra em seu
trabalho decisivo (Pécora, 1992), o que mais importa é o cumprimento
da finalidade divina da história e não só como redenção pessoal, mas
coletiva. Quando se lê o sermão como prática didática e política,
observa-se que visa convencer as vontades individuais a se tornarem
uma só vontade unificada como único corpo místico de vontades agindo
para a universalização da verdadeira fé, a católica, comandadas por
um rei escolhido, o rei português. Vieira sempre afirma que Portugal
é o agente escolhido para realizar temporalmente a eficiência
divina, pois há, desde Tubal e Luso, evidências proféticas que
atestam tal destinação. Ciceroniano, sempre lembra cristãmente a
história pátria como figura temporal da eternidade; por isso, prevê
que o Estado do Brasil e o Estado do Maranhão e Grão-Pará têm
garantido seu lugar no futuro pelo comércio das frotas que
desbancarão Holanda, França e Espanha; pela conversão de gentios
que, livres da escravidão, serão exércitos católicos no combate ao
turco e ao mouro; e, sempre, pela concordada integração de todas as
ordens e estamentos do Império no projeto boteriano da paz fundada
no interesse mercantilista com o qual a guerra maquiavélica de todos
contra todos se extinguirá.
Aqui, Vieira ativa as técnicas de interpretação da
Patrística e da Escolástica, citando profeticamente a história de
Portugal para estabelecer a concordância de seus eventos com os
eventos narrados no Velho e no Novo Testamento. O Estado do Brasil e
o Estado do Maranhão e Grão-Pará incluem-se com toda a necessidade
no seu objetivo mais amplo - integrar harmonicamente todas as ordens
e estamentos do Reino, desde os príncipes da casa real e cortesãos
discretos até os mais humildes escravos e bárbaros gentios, no
projeto de redenção do tempo que se dará no tempo português. Ora,
sacramentando o Estado português como eleito de Deus, Vieira
sacraliza também o regime monárquico. Para tanto, Pécora demonstra
bem, estabelece homologia dos sacramentos litúrgicos do ritual
católico com as hierarquias do Estado monárquico definido como
instrumento da divindade. Não é qualquer monarquia; obviamente, a
portuguesa governada por um rei Bragança.
Textos citados
KLEIN, Robert. "La théorie de l'expression figurée dans les traités
italiens sur les 'imprese', 1555-1612"; "Giudizio et Gusto dans la
théorie de l'art au Cinquecento". In La forme et l'intelligible.
Préface de A. Chastel. Paris, Gallimard, 1970.(
Trad. brasileira A Forma e o Inteligível. São
Paulo, EDUSP, 1998).
PÉCORA,
Alcir. Teatro do Sacramento. A unidade
teológico-retórico-política dos Sermões de Vieira. São Paulo/
Campinas, EDUSP/EDUNICAMP, 1992.
TESAURO,
Emanuele. Il Cannochiale Aristotelico. 5. ed. Torino, Zavatta,
1670.
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