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Padre António Vieira: um génio inquieto
por José Eduardo Franco
I
Padre
António Vieira (1608-1697), nome grande da cultura, da literatura,
da política e da Igreja Portuguesa. Teria bem merecido ficar entre
os 10 maiores portugueses de sempre no controverso programa da RTP.
Um desses 10 grandes portugueses eleitos pelos telespectadores,
Fernando Pessoa, elevou Vieira ao estatuto de “Imperador da Língua
Portuguesa” nas suas simbólicas biografias poéticas que consagrou na
sua Mensagem:
“O céu estrela o azul e
tem grandeza
Este, que teve a fama e a
glória tem,
Imperador da língua
portuguesa,
Foi-nos um céu também”.
A sua vida dava uma longa metragem de
Hollywood, um fascinante filme de acção rodado em vários cenários:
casas e ruas de Lisboa, cortes, ambientes de viagens marítimas em
frotas navais a atravessar o atlântico, colégios, igrejas, floresta
amazónica, palcos de guerras, naufrágios e aventuras, viagens por
terra e por mar pela Europa Central,…
António Vieira nasceu me Lisboa junto
da Sé. Aos 6 anos teve que se transferir para o Brasil. Acompanhou
com a família o seu pai que tinha sido destacado para desempenhar
funções na Alfandega de Salvador da Baia, então capital daquela
colónia portuguesa. Entrou para o colégio da Companhia de Jesus
daquela cidade, desejando ser missionário e dedicar a vida à
conversão dos ameríndios. Tornou-se jesuíta e evidenciou-se
rapidamente como um mestre da palavra: um ardente evangelizador e
defensor dos índios, nomeadamente lutando contra a voragem
esclavagista que grassava então nas terras de Vera Cruz.
Brilha no Brasil como pregador de
palavra competente, firme e incisiva. Os seus sermões de crítica
social acusam a consciência dos poderosos, convertem populações
indígenas, animam as tropas portuguesas contra as investidas da
pirataria, particularmente das frotas holandeses e apelam para uma
igreja mais evangélica.
Mas em 1641, proclamada a Restauração
da Independência de Portugal, foi convidado a acompanhar a delegação
enviada pelo vice-rei, Marquês de Montalvão, a fim de jurar
fidelidade e reconhecimento ao monarca português, D. João IV. Em
Lisboa teve a oportunidade de revelar os seus dotes oratórios como
pregador e logo conquistou a admiração não só do povo, mas também do
rei que o convidou para ser seu pregador pessoal. Foi então nomeado
para o importante cargo de Pregador Régio, a fim de pregar
regularmente à família real e à corte.
Instituído neste papel tão influente,
desempenhou um papel decisivo no aconselhamento político do governo
do reino. A pertinência e inteligência das suas propostas causaram a
admiração de muitos, mas também as hostilidades de alguns quantos
instalados nos seus interesses. O rei, que o admirou sempre e lhe
devotou uma amizade incondicional desde a primeira hora, incumbiu-o
de missões diplomáticas extraordinárias nos chamados Países Baixos,
na Holanda, para defender os interesses do Portugal restaurado e
angariar meios para garantir a protecção dos territórios
ultramarinos, com especial atenção para o grande território do
Brasil.
Na sequência das suas viagens
diplomáticas propôs uma série de projectos reformistas no plano
económico e social. Merecem especial menção os seus projectos de
criação de companhias comerciais monopolistas, à luz do modelo das
companhias holandeses e inglesas. Estas propostas vieirianas
anteciparam um século os projectos pombalinos de reforma da economia
portuguesa.
Mais ousada e avançada para a época
foram as suas propostas de reforma da Inquisição, particularmente
visavam o fim das denúncias anónimas e do confisco de bens, a
abolição da discriminatória distinção social entre cristãos-velhos e
cristãos-novos e a concomitante apologia do regresso a Portugal dos
judeus expulsos no século anterior. Acreditava que o nosso país
tinha erradamente perseguido e dispensado um grupo social
empreendedor que fez a grandeza do Portugal dos Descobrimentos. Os
descendentes de judeus estavam então na Holanda com a sua conhecida
capacidade de empreendimento económico a sustentar a expansão do
emergente império holandês, enquanto Portugal jazia em dificuldades
enormes para garantir a sobrevivência do seu império ultramarino
agora à mercê de piratas e da cobiça conquistadora dos novos
impérios europeus.
II
Aliando o seu idealismo evangélico ao
pragmatismo político Vieira criticou fortemente o poder e os métodos
do Santo Ofício português que tinha excluído os descendentes de
judeus e mouros, entretanto convertidos sob a designação de
cristãos-novos. Aquele tribunal impedia aqueles grupos étnicos de
contribuir para a afirmação do país. Desejava uma inquisição mais
pedagógica e menos persecutória.
Em favor dos índios brasileiros
apresentou propostas de reforma administrativa das aldeias
missionárias, mais conhecidas por reduções ou aldeamentos
missionários, de modo a conceder aos padres missionários poder não
só espiritual mas também temporal sobre os missionandos. Pretendia
assim proteger de forma mais eficaz as populações indígenas das
frequentes incursões esclavagistas dos colonos.
Todavia, este jesuíta genial, que
enchia as igrejas a abarrotar e esvaziava os teatros quando pregava,
não foi compreendido por muitos dos seus contemporâneos, devido às
suas propostas e à sua visão crítica da sociedade, da igreja e do
exercício do poder.
A Inquisição acabou por prendê-lo e
condená-lo, depois da morte do seu protector D. João IV, nos anos 60
do século XVI. As razões alegadas para a sua condenação não só
tiveram a ver com a sua defesa dos Judeus, mas também com o facto de
ter concebido uma utopia universalista que sonhava uma nova era
ecuménica de fraternidade e compreensão entre todos os povos,
culturas e sensibilidades religiosas. Esta utopia ficou conhecida
pelo nome de Quinto Império.
Com base na mensagem de Cristo
idealizou para o mundo a construção de uma espécie de civilização
do amor, onde o respeito e a fraternidade para com os outros,
para com o diferente, assim como a relação harmónica com a natureza
fossem as formas de estar quotidianas. A sua utopia cristã de
reunião de todos os homens num abraço universal de paz é considerada
a mais generosa utopia sonhada na Europa do seu tempo. Era uma
utopia que proponha uma solução para os conflitos que se agudizavam
em vários pontos do globo naquele tempo da emergente era da
proto-globalização.
No entanto, a sua condenação pelo
Santo Ofício português acabou por ser anulada pelo Papa, na
sequência de uma viagem de peregrinação que Vieira fez a Roma no
final da década de 60 e onde permaneceu depois até 1675. Durante a
sua estadia em Roma, depois de ter aprendido rapidamente italiano,
voltou a destacar-se como um pregador brilhante, de tal modo que
conquistou a admiração do papa e até da Rainha Cristina da Suécia
então exilada com a sua corte na Cidade Eterna. O Sumo Pontífice
convidou-o para pregar à corte papal, a Rainha Cristina quis
insistentemente nomeá-lo seu pregador pessoal. Mas o desejo do
grande pregador português não era ficar longe de Portugal por maior
que fosse o prestígio dos convites de tão poderosos senhores
europeus para permanência longe do seu país.
O Papa deixou-o regressar e fez mais
do que Vieira poderia esperar: usou da sua autoridade para moderar
os excessos da inquisição portuguesa. Reconhecendo as injustiças e
erros praticados nos processos judiciais do tribunal, o Sumo
Pontífice chegou a suspender a inquisição durante 7 anos
(1675-1681), na sequência da apresentação provada dos relatórios
críticos de António Vieira sobre os modos de procedimentos
Inquisição. Foi de facto Vieira que pioneiramente contribuiu para
que a inquisição fechasse as portas pela primeira vez em Portugal.
De regresso às terras lusas, Vieira
desejava cumprir, nos últimos anos da sua vida, aquele que era o seu
ideal de juventude: dedicar-se à evangelização dos índios. Volta
então para o Brasil e volta a realizar expedições missionárias na
Amazónia e a criar aldeias missionárias nos sertões brasileiros. Por
fim será nomeado pelo Superior Geral para exercer as funções de
Visitador das Missões do Norte do Brasil.
Vieira além de ter elevado a língua
portuguesa a uma perfeição nunca vista, explorando ao máximo as suas
capacidades de expressão, de polissemia, de subtileza, contribuiu
para sonhar um futuro melhor para Portugal e para a humanidade, de
tal modo que o historiador francês Raymond Cantel considerou-o, nos
anos 60 do século XX, precursor dos projectos contemporâneos de
criação de organismos internacionais para o entendimento entre os
povos do mundo, como é o caso da ONU.
Vieira, figura maior da missionação,
das relações entre Portugal e o Brasil e com a Europa, cantado pelos
Brasileiros e considerado um luminar da literatura portuguesa e
europeia do tempo do Barroco, é um português e um homem de igreja de
coração universal cuja vida e obra ainda muito pode inspirar os
nossos contemporâneos que desejam um mundo mais justo e fraterno.
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