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GERALDO MÁRTIRES COELHO
Docente da Faculdade de História da Universidade
Federal do Pará

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Vieira: Natureza, Verbo e História na Amazônia
por Geraldo Mártires Coelho
Breve,
mas intensa, foi tanto a passagem quanto a experiência de Antônio
Vieira pela Amazônia do século XVII, um gigantesco território que
abrigava os atuais domínios do Pará, do Amazonas e do Maranhão.
Nesses cenários tropicais, entre 1653 e 1661, dar-se-iam alguns dos
mais vivos e conflitantes processos do missionarismo jesuítico no
Brasil colonial. Afinal, com seus milhares de índios, a Amazônia
parecia figurar na condição dos genus angelicum, do mundo
beatificado de almas à espera da chegada da Palavra e da Instauração
do Verbo, almas passíveis da catequese que as levaria ao encontro do
Evangelho. Ao chegar a São Luís do Maranhão, em 1653, procedente de
Lisboa, Vieira daria início a um apostolado altamente complexo, em
razão das reações que, no Maranhão e no Grão-Pará, enfrentaria a
Companhia de Jesus por parte dos colonos que não aceitavam a
intervenção dos jesuítas em defesa do não-cativeiro indígena.
O sentido de apostolado para a ação de Vieira na
Amazônia e no Brasil como um todo, não pode ficar restrito a um
conjunto de práticas – como o seu combate desabrido em defesa da
liberdade indígena – dissociadas, por sua vez, de um projeto maior.
E este projeto, conhecida a teologia política de Vieira, voltava-se
para a construção, a um só tempo canônica e histórica, do que o
grande pregador depois chamaria de Reino de Cristo na Terra
Consumado, o Quinto Império da teologia política vieiriana. As
vitórias e as derrotas, sobretudo as segundas, da Companhia de Jesus
no norte do Brasil não deixariam de se refletir sobre o élan
vieiriano, mas fazer triunfar a Palavra era espelhar a certeza do
caminho por Vieira pensado para chegar a um novo Reino de Cristo.
Dito de outro modo, os enfrentamentos entre Vieira e os sujeitos
históricos da colonização no Maranhão e no Pará não o impediriam de
seguir na construção de seu edifício cristológico.
O enfrentamento entre os jesuítas, as Câmaras e os
colonos maranhenses e paraenses seria constante e representaria, do
ponto de vista do imperialismo cristológico de Vieira, um sinal
inquietante para a construção do edifício da Palavra nas selvas.
Expulsos os jesuítas do Maranhão e do Pará em 1661, Vieira
registraria, no Sermão da Epifania, pregado em 1662 na Capela
Real de Lisboa, que o Anticristo marchava sobre o mundo do Verbo no
país das Amazonas (COELHO: 2005, 207). O texto do grande
sermão realça, por meio de imagens de marcante intensidade,
precisamente o lugar que a Amazônia ocupava na espacialidade
possível do Quinto Império. A sua perda, ainda que temporária, seria
um golpe na concepção de Vieira acerca do que pensava, como será
visto mais à frente, sobre o destino evangelizador de Portugal.
Apenas para recuperar imagens fundadoras do conflito
entre colonos e jesuítas no Maranhão e no Pará, veja-se que em 1622,
quando o padre Luís Figueira voltava a São Luís (lá estivera numa
primeira missão, em 1607), o Senado da Câmara requerera a sua saída
da Capitania, pois seus moradores temiam “sempre a comunicação dos
missionários de Jesus, como embaraço dos particulares interesses no
serviço dos índios” (BERREDO: 1905, t.I, 195). Em 1626, os jesuítas
requereram ao Senado da Câmara de Belém permissão para estabelecer a
Ordem na Capitania. A permissão foi recusada pelo Procurador da
Câmara, recusa feita “com mais paixão que zelo”, argumentando a
autoridade que a vereação, com base no fato de “a Povoação [estar]
tanto nos seus princípios”, mas assim mesmo estava assistida
espiritualmente pelos religiosos do Carmo e de Santo Antônio. Dessa
forma, nela não havia “lugar” para uma terceira ordem (BERREDO:
1905, t.I, 223-24).
Em 1651, a administração ultramarina separou Maranhão
e Pará, passando cada Capitania a dispor de governo próprio. Em
1652, o Governador da Capitania, Inácio do Rego Barreto, procurou
executar disposição do seu Regimento que “prescreve a liberdade de
todos os indianos que até então tinham vivido com o nome de
escravos”. A reação dos habitantes de Belém foi imediata: “ferve dos
homens o tumulto” (BAENA, 1969: 64-5). Pressões exerceu a Câmara
sobre o Governador para que recuasse da sua determinação, ao mesmo
tempo que, para Lisboa, seguiram representantes do Pará e do
Maranhão com o fim de revelar ao governo metropolitano, do ponto de
vista da colonização, os inconvenientes de tão irrestrita liberdade.
Para os colonos de Belém e de São Luís, em jogo estava a
sobrevivência do mercantilismo possível no Pará e no Maranhão, até
porque as bases econômicas locais ainda não haviam despontado como
produção ajustada aos mercados metropolitanos. De qualquer modo, em
1653, a Companhia de Jesus achava-se atuando no Pará e no Maranhão.
No cruzamento desses eixos, o das necessidades
práticas da colonização, imperativo da conquista do espaço
amazônico, e o da evangelização, instrumento da realização do
espírito tridentino no mundo, mas principalmente demanda do
imperialismo cristológico de Vieira em construção, produziram-se as
realidades que assinalaram a primeira experiência da Companhia de
Jesus na Amazônia seiscentista. A ação apostólica de Vieira no norte
do Brasil estaria profundamente relacionada à sua visão profética da
história, na forma como assumiu a construção, a um só tempo
apostólica e histórica, do acreditado e apregoado Quinto Império
vieiriano.
Vistos por esse ângulo, os anos passados na Amazônia
foram também marcantes para Vieira aprofundar as suas leituras da
história profetizada de Portugal, cujas chaves de entendimento, por
isso mesmo, o grande pregador buscava nas Escrituras, inclusive para
melhor compreender o então presente lusitano. Afinal, como foi
rapidamente mencionado em outra passagem, Vieira, quando chegou ao
Maranhão, já andava avançado na construção de um sistema messiânico
e milenarista para pensar a história futura de Portugal como
manifestação de uma nova era do cristianismo: o Quinto Império.
Afinal, é quase certo que Vieira já estivesse a se dedicar à sua
teologia política desde meados da década de 1640 (PELOSO: 2007, 52),
com as interrupções que a sua vida agitada e suas freqüentes viagens
provocavam. Na Amazônia, ele não interrompeu seus vôos proféticos;
antes, a natureza ciclópica da região certamente o fazia pensar
ainda mais no corpo planetário e evangélico do Quinto Império.
Vieira trabalharia com o sentido da história de um
Portugal povo do Verbo, uma história que responderia à eleição
lusitana de levar a Palavra ao mundo, e ao assim proceder, construiu
um império que realizava, a um só tempo, a semeadura do Evangelho e
a proclamação das Legendas lusitanas. Para Antônio Vieira, o
Portugal histórico era também o Portugal do Milagre de Ourique,
quando Cristo aparece a D. Afonso Henriques antes de sua vitória
contra os árabes em 1139, assim como era o Portugal do Bandarra,
cujas trovas, escritas provavelmente entre 1520 e 1540, anunciavam o
reino cristão e cristológico messiânico e milenarista lusitano. A
presença da Companhia de Jesus no Brasil – e, no caso, no Maranhão e
no Pará – inscrevia-se no corpo místico da eleição portuguesa de
semear o Evangelho pelo mundo. O Novo Mundo/Mundo Novo seria um
império único e planetário da Palavra, o corpo empírico do Verbo.
O sentido último do império crístico e cristológico
de Vieira, portanto, se observado à luz das Escrituras, encarnava a
eleição evangélica portuguesa. Se, entretanto, for visto pela ótica
das novas realidades materiais da Europa moderna, sustenta-se sobre
uma res mundi resultante do alargamento dos horizontes do
próprio mundo desvendado pelas Grandes Navegações e pela expansão
colonial portuguesa. No caso dos avanços náuticos lusitanos, sua
dimensão empírica abrangeu espaços nos continentes asiático,
africano e americano, e mesmo estando esse império em crise à época
de Vieira, servia, à perfeição, como imagem e como cenário do
Império de Cristo na Terra. Assim, ainda que profeticamente argüido
e teologicamente justificado, o Quinto Império deita raízes
no Mundo e na História (BORGES: 1995, 247).
Em distintos espaços do seu edifício retórico,
Antônio Vieira recupera o papel dos argonautas portugueses na
revelação/invenção do Novo Mundo/Mundo Novo, profeticamente
anunciada, encarnado nas terras da Ásia, África e América. Já na
História do Futuro, tratando do avanço dos nautas lusitanos pela
costa atlântica da África, Vieira, ao eleger a passagem do Cabo Não
(1428), descortina o mundo aberto pelas quilhas portuguesas na
conquista unívoca do espaço e do tempo planetários. A força das
imagens reunidas nos quadros da narrativa recupera, de forma
hiperbólica, o lugar que o Atlântico ocupava nas mentalidades
européias de um recém-começado século XV, de uma Europa
contingenciada, material e mentalmente, pelo Non plus ultra
remissivo às Colunas de Hércules e ao canto XXVI do Inferno
de Dante:
“Ali onde chega o presente e começa o futuro, era
até agora o Cabo de Não. Não havia historiador que dali passasse
um ponto com a narração dos sucessos de sua história. Não havia
cronológico que dali adiantasse um momento a conta de seus anos
e dias. Não havia pensamento que ainda com a imaginação (que a
tudo se atreve) desse um passo seguro mais adiante naquele tão
desusado caminho; o que confusamente se representava adiante, e
ao longe deste Cabo, era a carranca medonha e o temerosíssimo
Bojador do futuro, coberto todo de névoas, de sombras, de nuvens
espessas, de escuridade, de cegueira, de medos, de horrores, de
impossíveis. Mas se agora virmos desfeitas estas névoas,
desvanecido este escuro, facilitada esta passagem, dobrado este
Cabo, sondado este fundo, e navegável, e navegada a imensidade
dos mares (...) demos louvores a Deus e às disposições de sua
Providência e entendamos que se passou o Cabo porque chegou a
hora”. (VIEIRA: 1998, 192-3)
Compreensível, portanto, que na sua também profética
ordenação da História e do seu movimento, Vieira tenha reservado aos
portugueses papel de máxima expressão da disseminação do Verbo pelo
que chamava as três partes do Mundo.
Ao proceder a sua leitura de
Zacarias, por exemplo, Vieira recupera a primeira profecia de
Daniel, agora trabalhada à luz da sua teologia política, projetado o
seu foco sobre o lócus da Península Ibérica e do Portugal da
Restauração. Tratando-se da relação entre a história passada e a
história futura de Portugal, diz ele que do Império Romano os
“fortíssimos” foram, dentre os homens mais fortes, os “Espanhóis”,
mas que “entre esses Espanhóis os fortíssimos dos fortíssimos foram
os Portugueses”, como assim demonstrou “a conquista dos mares e
terras do Oriente”. (VIEIRA: 1998, 272-73)
A existência, profetizada, do Novo Mundo, e em
particular do Brasil, Vieira buscou-a a Isaías (Isaías:18), quando o
profeta se refere às terras “além dos rios da Etiópia”, profecia não
decifrada pelos “intérpretes antigos”, já que estes não conseguiram
vislumbrar que terras eram aquelas. Proclama, então, Vieira, ele
mesmo intérprete e profeta: “digo primeiramente, que o Texto de
Isaías se entende do Brasil, porque o Brasil é a terra que
diretamente está além e da outra banda da Etiópia, como diz o
Profeta...”, terra que o Espírito Santo reservara à Palavra, no que
o pregador atrelava o expansionismo mercantil lusitano à condição do
português povo eleito na semeadura do Verbo (VIEIRA: 1998, 297-98).
Veja-se, nesse sentido, a fulgurância das imagens reunidas no
Sermão da Epifania, pregado na Capela Real de Lisboa em 1662,
peça oratória e doutrinária reflexiva da expulsão dos jesuítas do
Maranhão e do Pará. Ali, sentencia o pregador a propósito do destino
crístico lusitano:
“...digo que esta nova terra e estes novos Céus,
são as terras e os Céus do Mundo Novo descoberto pelos
Portugueses. Não é verdade que quando os nossos Argonautas
começaram e prosseguiram as suas primeiras navegações iam
juntamente descobrindo novas terras, novos mares, novos climas,
novos Céus, novas Estrelas? (...) E porque o fim deste novo
descobrimento ou desta nova criação era a Igreja também nova que
Deus pretendia fundar no mesmo Novo Mundo, acrescentou logo
(pelo mesmo Profeta e pelos mesmos termos) que havia também de
criar uma nova Jerusalém, isto é, uma nova Igreja...” (VIEIRA:
2000, v.1, 596-97).
Assim, a parenética de Vieira revela que os passos
dados no que seria a invenção e a dilatação do Portugal Império
eram, porque profeticamente anunciados, os mesmos da universalização
da Fé, o que, para o autor da História do Futuro, manifestava
a Eleição e o apostolado lusitano na mundialização da Palavra
(NEVES: 1997, 191-94). Já dizia, a esse propósito, Vieira, no
Sermão de Santo Antônio, pregado em Roma, na Igreja dos
Portugueses, que “o brasão de nascer português era obrigação de
morrer peregrino” (VIEIRA: 2000, v.1, 285), uma
peregrinação-evangelização voltada para a realização do triunfo
último da Palavra. Afinal, como em outra narrativa ainda observou
Vieira, sabiam os portugueses “que tinha Cristo prometido ao seu
primeiro Rei, que os escolhera para Argonautas Apostólicos do seu
Evangelho, e para levarem seu nome, e fundarem o seu Império entre
gentes remotas e não conhecidas, e esta fé os animava nos
trabalhos...”.(VIEIRA: 1998, 81).
Com ficou assinalado no início deste artigo, foi
precisamente na Amazônia, no que seria, à época, o Pará e o
Maranhão, que Antônio Vieira, entre 1653 e 1661, investiu
profundamente na concretização do seu élan missionário, mas
também na construção da sua teologia política. Sempre fundado na
leitura do Livro de Isaías, Vieira encontra nas figuras da profecia
a razão canônica – e, claro, humanística, quando, à Montaigne,
relativiza a antropofagia – da catequese, da evangelização do
indígena, da sua conversão em ovelha do rebanho do Senhor. Em
Isaías, “Cronista de Portugal e suas conquistas”, escreveu Vieira,
encontrou o pregador a identidade canônica dos índios do norte do
Brasil. Fiel ao profetismo milenarista joaquimita, um dos suportes
teológicos da escatologia jesuítica, Vieira tomou as populações
indígenas do setentrião brasileiro – e do Brasil do missionarismo
inaciano como um todo – em sua identidade de encarnação do genus
angelicum, o estado de pureza anunciador do estado de graça a
dominar o futuro Império do Mundo ou o Quinto Império. Reza,
a esse propósito, Vieira, na História do Futuro:
“Continua Isaías a sua descrição, e diz que os
habitantes desta Província são gente arrancada e despedaçada
[pela ação dos colonos em seu avanço sobre a terra]; e só o
Espírito Santo poderá recopilar em duas palavras a história e
última fortuna daquela gente (...) Deixo muitos outros lugares
[à descrição] do Profeta Isaías, o qual verdadeiramente se pode
contar entre os Cronistas de Portugal, segundo fala muitas vezes
nas espirituais conquistas dos Portugueses, e nas gentes e
nações que por seus Pregadores se converterão à Fé...” (VIEIRA:
1998, 311-12)
Os domínios setentrionais do Brasil ocupariam, assim,
um lugar destacado no pensamento simbólico de Antônio Vieira,
precisamente e o Grão-Pará e o Maranhão, espaços da amplíssima e
planetária Amazônia, partes do universal, terreno e ao mesmo tempo
cristológico Quinto Império esculpido pela exegese e pela
hermenêutica testamentárias vieiriana. Afinal, o Brasil, como foi
antes referido, e nele compreendida a Amazônia, foram, o todo e a
parte, anunciados, profetizados por Isaías, 18. A leitura canônica
da Escritura feita por Vieira conferiu figuração empírica, no
presente, ao que fora buscado como antevisão no passado e escrita de
uma história, esta a consumar-se no futuro. Pela designação genérica
de Maranhão, assim figura a Amazônia, no caso, repita-se, o
Maranhão e o Pará, no cenário impressionista que Antônio Vieira
pintou à luz da Escritura:
“...e esta gente, e esta Província, mostraremos
agora que é a que com toda a propriedade chamamos Maranhão, que
por ser tão pouco conhecida, e menos nomeada dos Escritores, não
é muito que a falta de suas notícias lhe tivesse até agora
escurecido, e divertido a honra deste famoso Oráculo do mais
ilustre Profeta, que tão expressamente tinha falado nesta gente.
Diz pois o Profeta que são estes homens uma gente, a quem os
rios lhe roubaram a sua terra (...) E é admirável a propriedade
desta diferença, porque em toda aquela terra, em que os rios são
infinitos, e os maiores, e mais caudalosos do mundo, quase todos
os campos estão alagados, e cobertos de água doce, não se vendo
em muitas jornadas, mais que bosques, palmares e arvoredos
altíssimos, todos com as raízes, e troncos metidos na água (...)
E posto que estes alagadiços sejam ordinários em toda aquela
costa, vê-se esta destroço, e roubo, que os rios fizeram à
terra, muito mais particularmente naquele vastíssimo Arquipélago
do rio chamado Orellana, e agora das Amazonas...”(VIEIRA: 1998,
300-1)
Quer como arquiteto da obra física da Igreja, quer
como edificador da obra espiritual da Palavra, Vieira peregrinou,
pregou e semeou durante os anos em que esteve na Amazônia em meio ao
universo daqueles que, em “pecado filosófico”, ou seja, ao
desconhecimento do Verbo, formavam o rebanho que deveria ser tangido
ao encontro da Igreja de Cristo. Esse foi o cenário cristológico
onde, como discurso elaborado, nasceu o texto Esperanças de
Portugal, Quinto Império do Mundo, na forma da carta que
Antônio Vieira escreveu a 29 de abril de1659 ao jesuíta André
Fernandes, bispo nomeado do Japão, documento a que o pregador deu
forma estando ele em Camutá (hoje, Cametá), num ponto da floresta
amazônica situado nas confluências dos rios Amazonas e Tocantins.
Vinha mais claramente à cena, com as mais diferentes formas de
repercussão, um pensamento teológico-histórico atrelado à
envergadura do nome de Antônio Vieira, pensamento esse que
recuperava as tradições proféticas e milenaristas portuguesas, na
sua forma então mais conhecida, o já visto sebastianismo. Em
Esperanças de Portugal, e segundo foi dada a carta a
conhecer, D. João IV, e não mais D. Sebastião, animava o paradigma
do rei redivivus, ultrapassava a profecia sebastianista e
atualizava a origem cristológica de Portugal.
A carta escrita ao bispo André Fernandes está
diretamente relacionada à morte de D. João IV, em 1656, e tinha como
fim externar à regente do trono de Portugal, D. Luísa de Gusmão, a
solidariedade de Vieira pela morte do rei. Ainda que Vieira, ao
comparecer, em 1663, ao Tribunal da Inquisição de Coimbra, houvesse
declarado que as preocupações intelectuais e doutrinárias que o
levaram à concepção do Quinto Império remetessem, em suas
origens, aos meados da década de 1640, foi com Esperanças de
Portugal que tais preocupações assumiram uma dimensão pública. A
ida de Vieira perante o Santo Ofício está relacionada ao
conhecimento de Esperanças de Portugal. Ainda que o
profetismo de Vieira, como aqui está sendo tratado, já viesse de há
muito sendo construído, é de se admitir que a sua vivência na
Amazônia reforçou o que ele considerava como sendo as partes do
corpo empírico do Quinto Império.
Com efeito, entrada a segunda metade do século XVII,
mais ou menos à altura da expulsão de Vieira do Grão-Pará e
Maranhão, os vinte e pouco jesuítas em ação no norte do Brasil
haviam avançado na construção do mundo dos índios livres. Diz, nesse
sentido, João Lúcio de Azevedo, que os jesuítas estavam presentes em
imenso território e agiam sobre uma expressiva população tribal. Em
outras palavras, “onze aldeias de índios mansos no Maranhão e Gurupi;
seis nas vizinhanças do Pará, sete no Tocantins, vinte e oito no
Amazonas, constituíam por então o domínio efetivo dos jesuítas [que]
sonhavam imperar em todo o imenso rio, ainda incógnito, que, no seu
longo curso e nas inúmeras ramificações, era povoado de tantas e tão
diversas gentes, matéria-prima escolhida da catequese” (AZEVEDO:
1999, 64-5).
Foi no interior dessa Amazônia e de suas populações
tribais, vistas como habitantes de um futuro Reino de Cristo na
Terra Consumado, que Antônio Vieira defendeu a liberdade
indígena face à lógica da colonização. E o fez, já foi salientado,
de um ponto de vista canônico: somente livres dos colonos e livres
de sua herança cultural, habitando as missões e seguindo o
apostolado jesuítico, é que os índios chegariam ao Quinto Império.
Afinal, genus angelicum, eram criaturas prontas para receber
o Verbo.
Bibliografia
AZEVEDO, João Lúcio de. Os jesuítas
no Grão-Pará; suas missões e a colonização. Bosquejo histórico
com vários documentos inéditos. Belém: Secult, 1999. Fac-símile de
Lisboa: T. Cardoso, 1901.
BAENA,
Antônio. Compêndio das eras da Província do Pará. 2.ed.
Belém: Universidade Federal do Pará.
BERREDO
[Bernardo Pereira]. Anais históricos do Estado do Maranhão.
3.ed. Tipografia Baebèra, 1905. 2 vol.
BORGES, Paulo Alexandre Esteves. A
plenificação da História em António Vieira; estudo sobre a idéia
de Quinto Império na defesa perante o Tribunal do Santo Ofício.
Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1995.
COELHO, Geraldo Mártires. “O
Anticristo na Selva”, em_______O violino de Ingres; leituras
de História Cultural. Belém: Paka-Tatu, 2005.
NEVES, Luiz Felipe Baetas. Vieira e
a imaginação social jesuítica; Maranhão e Grão-Pará no século
XVII. Rio de Janeiro: Topbooks, 1997.
PELOSO, Silvano. Antônio Vieira e o
Império Universal; a Clavis Prophetarum e os documentos
inquisitoriais. Rio de Janeiro: De Letras, 2007.
VIEIRA, António. História do Futuro;
Livro Anteprimeiro. Belém: Secult, 1998. Fac-símile de Lisboa
Ocidental: António Pedrozo Galram, 1718.
__________. Sermões (org. Alcir
Pécora). São Paulo: Hedra, 2000. 2 v.
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