RAFAEL DA COSTA CAMPOS

Mestre em História pela Universidade Federal de Goiás

 

 

Sobre a representação de Tibério César Augusto em Tácito

por Rafael da Costa Campos*

 

Públio Cornélio Tácito (55 – 117 d.C)É imprescindível destacar que dentro do conjunto de pesquisadores que se dedicam ao estudo da obra do historiador e senador romano Públio Cornélio Tácito (55 – 117 d.C), um dos objetos mais polêmicos constitui-se da representação do Imperador Tibério César Augusto (14 – 37 d.C). Dentro dos Anais, os relatos concernentes ao seu governo englobam seis do total de doze livros que nos restaram sobre esta obra. É notável a existência de uma caracterização da narrativa que se difere dos relatos posteriores dos governos de Cláudio e Nero, e sobre os motivos desta discrepância ainda não se firmou um consenso.

As existências de grandes ressalvas na descrição feita por Tácito tornam-se nítidas a partir do momento em que são comparadas as generalizações do historiador com os dados oferecidos por ele próprio. Um claro exemplo destas generalizações refere-se às perseguições e à ampla disseminação das acusações e julgamentos pelo crime de traição durante o governo de Tibério: a alusão feita a uma “tirania sangrenta” desarmoniza-se com os fatos à medida que estes são narrados (JEROME, 1912:265).

Além disso, outra acusação persistente do autor diz respeito à duplicidade e à dissimulação que caracteriza a ambigüidade e a desonestidade de seus pensamentos, palavras e ações, pois Tácito exibe em sua escrita uma grande preocupação em explicar o mau governo de Tibério com base na compreensão de seu caráter. Contudo, diante de suas afirmações de duplicidade e dissimulação nas palavras de Tibério, à exceção de pouquíssimas instâncias (seis ao todo), não se encontra nas mais de setenta passagens quaisquer indicações de obscuridade ou dissimulação. Não podemos inferir que o autor se utilizou de quaisquer bases concretas de afirmação de sua torpeza de caráter, pois muito de seu discurso corrobora a impressão que sua ordem social herdou de uma memória política dos primeiros anos do Principado.

Calcado em artifícios retóricos que caracterizam a elaboração de um discurso dramático, Tácito, visando constituir uma caracterização convincente dos personagens de sua trama, através de Tibério estabelece uma narrativa que pouco se apega a um uso responsável das fontes. Tal procedimento é justificado pela forma como o autor faz uso da retórica, visando convencer o leitor de sua perspectiva, conquanto isto afete a lógica da narrativa e gere uma compilação de contradições no texto. Embora ele tenha apresentado uma perspectiva extremamente desfavorável do Imperador, uma imediata conseqüência desta postura crítica foi o questionamento de sua credibilidade enquanto historiador; várias apreciações acadêmicas colocaram em cheque a honestidade de seu relato. Entretanto, apesar de ter existido uma tradição literária desfavorável a Tibério e do provável uso por Tácito desta, o autor claramente não a criou (HARRER, 1920:67).

As descrições oferecidas sobre Tibério presentes em Veléio Patérculo, Valério Máximo e Filo de Alexandria são bastante favoráveis, mas oferecem muito poucos detalhes para se fazer uma contraposição precisa às afirmações de Tácito, principalmente por Veléio e Valério terem estado presentes na vida pública e por terem sido contemporâneos de Tibério. Sêneca, assim como Tácito, nos fornece uma descrição de Tibério como insensível, isolado e cruel, principalmente no último período de sua vida. Suetônio dedica uma seção de sua biografia sobre Tibério para a boa conduta do Imperador, no início de seu governo.

Dio Cássio, posterior a Suetônio e Tácito, possui uma seção similar não dependente de Suetônio, mas possivelmente advinda de uma fonte comum. Esta clara divisão do principado de Tibério em fases distintas está presente tanto nestes três últimos autores quanto em Sêneca: partindo de fontes comuns, aparentemente estes escritores podem ter acreditado em um governante que foi se tornando mais cruel e sombrio à medida que o tempo foi passando, embora fosse bom no início; mas estes se diferem ao caracterizar o bom começo de seu governo.

A representação de Tibério se estabeleceu no esteio de uma opinião pública composta pela aristocracia letrada. Tácito converteu parcialmente este consenso em uma obra de arte se utilizando da técnica literária e da pesquisa histórica com o mesmo propósito: galgar razões para explicar a supressão da liberdade política da aristocracia senatorial no período Imperial, advinda do colapso político da República em Roma, e legitimada sob uma nova forma de governo por Otávio Augusto, a partir de 31 a.C.

Dentro das experiências pessoais do historiador também podem ter existido elementos justificadores da tirania de Tibério (SYME, 1997:420). O Imperador Domiciano, contemporâneo de Tácito, tinha o hábito de estudar os documentos oficiais de Tibério, e ambos se destacaram por uma cuidadosa administração imperial e pela enérgica perseguição aos acusados de crime de traição. O amplo uso desta ferramenta de proteção do Princeps no presente pode ter influenciado Tácito nas incriminações sobre os abusos durante o governo de Tibério.

Contudo, não se pode simplesmente alegar sua caracterização seja apenas uma alusão à Domiciano, pois o peso da tradição que provavelmente se estabeleceu em vários autores, não poderia ser isoladamente contestado apenas três gerações depois.  Ao passo que se utilizou dos documentos com uma declarada precaução e imparcialidade, todavia as convenções de seu tempo o impeliram a acoplar uma tradicional concepção de Tibério existente na memória política da aristocracia com os resultados de suas pesquisas. É importante ainda evitar o anacronismo de se supor que a função e o sentido da história para os romanos tiveram fundamentações semelhantes às da história enquanto ciência que se estabeleceu por meio de pressupostos modernos.

Sobre este esforço coerente com as preocupações de seu tempo Tácito se utilizou de duas técnicas literárias de caracterização: a descrição direta e a auto-revelação do caráter. Por meio da descrição direta o historiador relaciona a linhagem do Imperador com a sua personalidade (DAITZ, 1960:30-52). A personalidade de Tibério se relacionava com as suas posteriores ações, justificadas por motivos especulados em versões convergentes de um fato, ou aspectos psicológicos do personagem, marcando decisivamente a evidência de insinuações de Tácito.  A técnica da auto-revelação mostra discursos de Tibério que visam complementar a caracterização da personalidade do Imperador. O simulacro da liberdade pela qual o principado foi estabelecido não condizia mais com o real estado de coisas, sendo latente o esforço para ressaltar que ele não se enganou por qualquer fachada de republicanismo difundida pelos Imperadores.

Tácito não demonstra dúvidas quanto à natureza do governo: as premissas estabelecidas por Augusto são sinteticamente desmentidas como o acobertamento do poder assegurado pelo controle do exército, cooptação das massas e pela sucessão dinástica (SEAGER, 2004:234). Se a justificação do Principado foi a de trazer paz e segurança após as graves dissensões civis que exauriram a população do Império, a admissão deste fato não abranda a libertas perdida: o termo República é sinônimo de liberdade, enquanto Principado é sinônimo de servidão (seruito, seruituum) (ANNALS, I-1, 7, 46; VI-48). 

O Tibério caracterizado por Tácito é cruel, vingativo, arrogante, suspeito, ambíguo e hesitante ao tomar decisões[1]. Conquanto a caracterização de Tácito possa por vezes parecer uma simplificação exagerada, o Tibério de apologéticos como Veléio Patérculo precisa ser observado com cautela. Além disto, uma obsessão pelo tratamento conferido por Tácito aos vícios de Tibério pode ofuscar outros aspectos da figura taciteana, como o êxito na administração imperial, principalmente no que tange o auxílio e a concessão de benefícios públicos e privados (liberalitas e munificentia) [2].

Podemos dizer que Tácito reconheceu algumas das qualidades de Tibério: seu relato não foi construído simplesmente visando denegrir a imagem de um único Princeps, mas demonstrar em sucessivos episódios as intrigas dentro do processo de sucessão dinástica, o distanciamento do Senado das decisões políticas, e a transformação gradual da percepção da liberdade política se intensificou ainda mais pela inabilidade de Tibério e seus contemporâneos em se relacionar mutuamente (SHOTTER, 2005:85). Sua insegurança e hesitação contribuíram para a deterioração de seu governo a partir do momento em que tanto ele quanto outros cidadãos começaram a temer pelas próprias vidas. De forma geral, teria sido a cegueira do Princeps para a perseguição exagerada que estava ocorrendo em seu governo que levou ao espectro do medo e da tirania, mas esta não teria sido sua intenção fundamental.

 

Bibliografia.

DAITZ, Sthephen G. “Tacitus' Technique of Character Portrayal”. The American Journal of Philology Vol.81. Maryland: The Johns Hopkins University Press, 1960. Pp. 30-52.

HARRER, G.A. “Tacitus and Tiberius”. The American Journal of Philology Vol.41. Maryland: The Johns Hopkins University Press, 1920. Pp.57-68.

JEROME, Thomas Spencer. “The Tacitean Tiberius: a Study in Historiographic Method”. Classical Philology Vol.7. Chicago: The University of Chicago Press, 1912. Pp.265-292.

SEAGER, Robin. Tiberius. London: Blackwell Publishing, 2005.

SHOTTER, David. Tiberius Caesar. New York: Routledge, 2004.

SYME, Ronald. Tacitus. 2 vols. London: Oxford University Press, 1997.

TACITUS. The Annals. Trad. A.J. Woodman. London: Hackett, 2005.

 

* Mestre em História pela Universidade Federal de Goiás

[1] Tácito. ANNALS, I-4, 8, 10, 11, 12, 13, 69, 74, 80; II-65; III-51; VI-1, 11, 29, 30, 57, 60, 67, 71; V-3, 5; VI-1, 45, 46, 50.

[2] ANNALS, I-46, 75; II-42, 48, 87; III-72; IV-6, 13, 64; VI-13, 17,45.

 

 

 

 

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