O homem que explodiu
por Eva Paulino Bueno
O
que leva um homem cuja vida pública sempre foi envolvida com
política, e que chegou a um dos postos mais visíveis da
administração de seu país, e que era conhecido durante toda
sua carreira em Washington como “o homem que dava
não-respostas”, a abrir o peito e dizer tudo o que estava
arrolhado lá dentro? Não sou psicóloga, nem conselheira, mas
tenho algumas idéias do que fez com que o ex-porta voz da
Casa Branca, Scott McClellan, escrevesse um livro mostrando
como as coisas funcionam “por dentro”. What Happened:
Inside the Bush White House
and Washington’s Culture of Deception (O que aconteceu:
Dentro da Casa Branca de Bush e a cultura do engano em
Washington) só atinge as prateleiras das livrarias nos
últimos dias de maio de 2008, mas as explosões causadas
pelas palavras de McClellan começaram antes do público ler o
livro. O antigo secretário de imprensa, que ocupou este
posto de julho de 2003 a abril de 2006, tem sido objeto de
inúmeras entrevistas e comentários em toda a imprensa
americana e mesmo para os que, como eu, ainda não leram o
livro, é possível ter-se uma idéia do seu conteúdo e da
batalha interior que levou o seu autor a escrevê-lo.
Mas primeiro, um pouco da história de Scott
McClellan. Ele nasceu animal político, filho da três vezes
prefeita da cidade de Austin, no Texas. Durante sua
infância, sua mãe sempre lhe disse que o que seus amigos
fizessem era uma coisa, mas o que ele e seus irmãos fizessem
apareceria na primeira página dos jornais.
Assim ele aprendeu a ser reservado ao extremo, a não expor
suas opiniões abertamente de forma nenhuma, e a ser um
modelo de discrição na sua vida profissional e pessoal.
McClellan trabalhou com Bush no Texas, quando ele era
governador, e juntou-se ao “time” de Bush outra vez em
Washington. De uma certa maneira, este homem extremamente
consciente de que qualquer coisa que dissesse teria
conseqüências era a pessoa indicada para ser a capa da
administração de Bush. Durante suas falas diárias com a
imprensa americana, ele se apegava à linha do partido, à
linha do presidente, e não abria o bico, limitando-se a
repetir a mesma frase e sempre que podia, criticava a
imprensa por ser muito insistente e agressiva.
Mas houve uma ocasião em que os repórteres
notaram algo interessante: quando estourou o escândalo
causado pela revelação que a mulher de um diplomata era uma
agente da CIA,
Scott McClellan disse aos repórteres que Karl Rove e Scooter
Libby (ambos homens de muito poder, e de confiança do
presidente), "have assured me they were not involved in
this" (“me garantiram que eles não estavam envolvidos
nisto”). Na época, os jornalistas notaram a escolha das
palavras: McClellan não disse que “Rove e Libby não estão
envolvidos nisto”, mas que eles “tinham garantido que” não
estavam envolvidos. Hoje, ambos Rove e Libby estão fora da
administração, e depois de terem sido julgados e julgados
culpados de perjúrio, obstrução da justiça, e de darem
declarações falsas aos investigadores federais, foram
perdoados pelo presidente. Não ficaram nem um segundo na
cadeia. As chances de que eles algum dia paguem pela sua
atuação são mínimas neste clima estabelecido por George W.
Bush, mas pelo menos suas caras arrogantes não têm que ser
vistas diariamente na televisão como arautos de honestidade
e desinteresse. Talvez este momento em que a podridão
bushiana se revelou com toda sua glória tenha sido um dos
principais motivos da ruptura da casca de McClellan.
Outro momento foi durante o desastre de
Katrina. Não o furacão, mas a atitude do governo, que levou
vários dias para assumir o controle da situação, e até hoje
New Orleans continua sofrendo as conseqüências do desmazelo
e falta de organização. Qualquer pessoa com um mínimo de
senso crítico pôde ver que o atendimento ao público foi
mínimo, fora de hora, sem coordenação e os resultados foram
desastrosos. McClellan participou de perto e foi o porta-voz
do governo, transmitindo o que lhe diziam que transmitisse,
vendo pau e dizendo que era pedra, vendo devastação e usando
eufemismos, tapinhas nas costas.
Mas, quem sabe mesmo o que terá feito com que
este homem tenha compreendido o quanto estava causando de
mal não só ao povo americano, mas, de uma certa forma, ao
mundo inteiro, ao ser conivente com as mentiras que o
governo lhe fazia falar à imprensa? O Washington Post
do dia 29 de maio de 2008 tem um interessante artigo em que
contrapõe o que McClellan disse enquanto era secretário de
imprensa, e o que ele escreve no livro. Aqui está uma
amostra:
Press briefing
(Nov. 14, 2002)
"The president seeks a
peaceful resolution. War is a last resort. But the
choice is Saddam Hussein. And we don't want any
game-playing, and we've made that abundantly clear."
Comunicado à imprensa (14 de novembro
de 2002)
“O presidente busca uma solução pacífica.
A guerra é um último recurso. Mas a escolha é de Saddam
Hussein. E não queremos nenhum truque, como já fomos
bastante claros.”
Memoir
"Though I sensed we
were on the verge of war, I didn't fully appreciate how
clearly yet subtly our messages demonstrated that Bush
had been set on regime change from the earliest days of
his decision to confront Iraq. . . . President Bush
managed the crisis in a way that almost guaranteed that
the use of force would become the only feasible option."
Memórias
“Embora eu sentisse que estávamos à beira
da Guerra, eu não entendia ainda como as nossas
mensagens demonstravam claramente e sutilmente que Bush
havia tomado a decisão de mudar o regime desde os
primeiros dias em que decidiu confrontar o Iraque... O
presidente Bush gerenciou a crise de uma forma que
praticamente garantia que o uso da força seria a única
opção possível.”
A reação ao livro, como já disse acima, está
sendo estrondosa, com vários membros do governo Bush
imediatamente saindo à luta para defender o chefe, seu
governo, sua política, e dizendo-se “boquiabertos” com Scott
McClellan. Uma das principais defensoras de Bush, sua
secretária da Defesa, Condoleezza Rice, por exemplo,
enquanto recusando-se a comentar o livro (que ainda não
leu), disse em Estocolmo que a guerra era justificável para
liberar o povo iraquiano do “monstro Saddam Hussein.” Rice,
que está na Suécia participando em uma conferência cuja
função não é outra senão conseguir aliados para a
continuação da guerra no Iraque, obviamente iria defender as
razões da guerra, mesmo que, ela mesma admite, “não
existissem armas de destruição massiva.” Para McClellan, o
presidente queria derrubar Saddam "primarily for the
ambitious purpose of transforming the Middle East"
(“principalmente pelo propósito ambicioso de transformar o
Oriente Médio”), mas ele “knew that the US public would
never agree to send troops into harm's way for that purpose”
(“sabia que o público americano jamais concordaria em
colocar as tropas em perigo para aquele propósito”).
Mas Rice não é a única
pessoa que está se manifestando sobre este livro.
Outros, também ligados ao governo
Bush, têm se manifestado, todos contra McClellan. Isto,
obviamente, não surpreende ninguém. Os bois de presépio
gostam de estar juntos, e se protegem, se aquecem uns aos
outros com seu hálito. Este governo criou
toda uma manada destes bois. O clima de retaliação,
de vingança e de segredos que se criou neste país desde a
tomada de poder (“tomada” é a palavra correta aqui) por
George W. Bush e seu parceiro, Dr. Dick “Death” Chenney,
faria Maquiavel sentir-se como um menininho da escola
primária. Este presidente, que disse ao chegar a Washington
que vinha para unir, veio com as armas da discórdia, da
insegurança, do poder da panelinha. Hoje,
os cidadãos americanos, quando atendem o telefone e escutam
um discreto “clic”, podem ter certeza que estão grampeados.
E aqueles que têm que viajar de avião, sabem que
podem ser submetidos a todas as humilhações em público, nos
aeroportos, em nome da “segurança nacional”, e não podem
falar nada, não podem reclamar, senão serão sumariamente
presos. Enquanto isto, milhões são gastos
na construção de uma cerca separando Estados Unidos e
México. Enquanto isto, menos de 5% dos containers que chegam
de todas as partes do mundo são inspecionados nos portos.
Enquanto isto, muitas cidadezinhas estão sem dinheiro
para por gasolina nos carros de polícia. O país está à beira
da falência, mas o governo continua a gastar como se ainda
tivesse os trilhões de superávit que recebeu do governo
Clinton em 2000. E, enquanto isto, somos forçados a digerir
diariamente na televisão e no cinema imagens de jovens
vestidos com roupa militar e a propaganda, que faria
qualquer ditador invejoso, dizendo aos jovens que podem ser
mais fortes, com o exército, com os marines. Como qualquer
ditadorzinho da América Latina entende muito bem: quando as
coisas não estão bem dentro de casa, arrume uma briga com
alguém de fora para galvanizar a atenção do povo e fazê-lo
esquecer do dia-a-dia. Basta perguntar a Leopoldo Galtieri,
da Argentina.[5]
Voltando à minha primeira pergunta, como
podemos entender o que levou Scott McClellan a revelar – por
escrito – aquilo que todos os americanos de consciência já
sabem (e os malucos direitistas jamais vão ver), que esta
administração é a mais desastrada e a mais desastrosa da
história do país?
Como pode um homem que claramente tem laços de amizade
pessoal com George W. Bush, e que sabe que este livro vai
destruir toda e qualquer possibilidade de uma carreira
pública na sua vida? Ele é, afinal, alguém ligado aos
republicanos, e, pior ainda, a Bush. Mesmo com este livro
revelador, ele jamais seria considerado para um cargo em uma
administração democrata.
Talvez o que levou este homem de maneiras
calmas e fala tranqüila a se expor desta maneira seja aquilo
que chamamos de caráter.
Ou, talvez, como todos os marinheiros
experientes sabem, seja porque quando o navio está para
afundar, os ratos são os primeiros a abandoná-lo. O
complicado, neste caso, é que neste navio só tem ratos.