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JOSÉ
MARIO ANGELI
Professor a
Universidade Estadual de Londrina do Departamento de Filosofia.
Doutor pela Pontificia Università Sancto
Thomas d´Aquinate, Roma, Itália

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Produção, reestruturação produtiva e educação profissional: no
contexto de crise do capitalismo
por José Mario Angeli
Nominibus
mollire licet mala (Marx)
1. As formas de
exploração do trabalho e da apropriação das riquezas proposta pelo
capital através da “reestruturação produtiva” é o resultado
da evolução histórica do modo de produção capitalista. E, neste
contexto, a educação profissional aparece como uma forma de
responder às demandas do capital e do trabalho.É das crises do
capitalismo que surgem “novas” propostas para a educação
profissional. Elas aparecem como forma de dar sobrevida a um sistema
econômico e político que não tem condições de assegurar o bem-estar
da população humana no planeta, antes aprofunda a miséria e a
exclusão social das classes trabalhadora para a sua sobrevivência ou
quando não, tem-se uma “inclusão subordinada” (KUENZER, 2007. p.58)
dos trabalhadores.
A luta pela democratização da sociedade no interior
da forma capitalista e o processo formativo de seus jovens se
contrapõe à dominação da heteronomia e da alienação própria da
sociedade capitalista burguesa. Esta será obra dos trabalhadores
organizados, pois eles não têm nada a perder, a não ser os seus
grilhões (MARX & ENGELS, 1998, p.69). Para tanto é fundamental que
os agentes da educação profissional sejam portadores de uma
concepção de “intelectuais orgânicos”, que a toma, como um
instrumento de análise dos rumos táticos e estratégicos de
constituição da luta de classe nesta sociedade.
O objetivo deste artigo será fazer uma incursão por
fragmentos de textos de Marx sobre a forma de produção, organização
do trabalho e a alienação, para poder entender o trabalho, como
elemento de uma “ontologia social” o qual sofre as investidas
do Capital e do Estado. E, perceber que o trabalho no sentido
marxiano é sempre um trabalho alienado, embora encontrar-se-á formas
e defensores de um “trabalho criativo”, demandado pelas
“novas tecnologias” presente na atualidade. Além do que,
compreender que as novas formas da “reestruturação produtiva”
foram marcadas pela lógica da flexibilidade como forma de
aprofundar sua alienação. E, por fim, estabelecer um vínculo com a
educação profissional na perspectiva da construção da
omnilateralidade proposta por Gramsci.
Usar-se-á o método da “filologia vivente”,
pautado no processo estrutural produtivo que permite entender as
contradições de classe na sociedade capitalista. Trata–se de
entender como a produção e a reestruturação produtiva influenciam a
formação profissional. Então, para tanto, será importante passar da
“natural” instância da experiência pessoal, particular dos
indivíduos à expressão e instrumentos de um organismo coletivo,
anti-totalitário e democrático, que “bem articulada se pode mover
como um homem-coletivo” (GRAMSCI, 1977, p.1430), isto porque,
nos dias atuais uma pedagogia coletiva tenta eliminar tais
contradições e construir uma “unificação do gênero humano” através
da eliminação dos antagonismos de classe, criando assim um sistema
hegemônico, no qual os indivíduos delegam à sociedade e a economia
um complexo de esforços e atritos esgotando as reservas da força de
classe.
A educação profissional será compreendida, muito mais
do que as referências teóricas e da abrangência de conteúdo
científicos e profissional, como forma de desenvolver habilidades de
pesquisa, de experimentação e utilização de ferramentas outorgadas
pelas inovações tecnológicas. Ela é sobretudo um agente portador de
uma “visão de mundo”, portanto “intelectuais orgânicos”,
capazes de constituírem uma formação integral e política (ANGELI,
2007, p. 2).
2. Ao descrever a
cooperação Marx define que o início da forma capitalista da seguinte
forma: “emprega um número relativamente grande de trabalhadores;
de forma que o processo de trabalho seja extenso, gerando uma
quantidade relativamente grande de produtos. Um maior número de
trabalhadores juntos ao mesmo tempo, no mesmo lugar (ou se
quisermos, no mesmo campo de trabalho), para produzir algum tipo de
mercadoria (commodity) sobre as ordens de um capitalista,
constitui-se, tanto histórica quanto logicamente, no início do modo
de produção capitalista” (MARX,1974, p.363). Já aparece
indicado por um lado, uma submissão do trabalho ao capital quando
diz que o trabalhador passa a trabalhar para um capitalista. Por
outro, há maior eficiência das tarefas repetitivas que se consolidam
por meio da linha de montagem, com vários trabalhadores trabalhando
ao mesmo tempo e juntos.
As mudanças no mundo do trabalho têm como finalidade,
como o próprio Marx indicou, a extração da mais valia. Ele observa
que:
“a finalidade do modo de produção capitalista é
extrair a maior quantidade possível de mais valia, e
consequentemente, de explorar o trabalhador o máximo possível
(...), mas é ao mesmo tempo uma função da exploração do trabalho
social, estando portanto enraizado no inevitável antagonismo que
ele explora” (idem., p.372) .
No momento em que se extrai a mais valia do
trabalhador, cresce também a resistência do trabalhador. E, um maior
controle dos meios de produção passa a ser propriedade do capital, o
que permite aumentar a necessidade do capitalista de controlar a
utilização desses meios, relegando o trabalhador a um processo de
exclusão ou quando não alguns são chamados a gerenciar ou
supervisionar esse processo. Assim, os trabalhadores são excluídos
de qualquer possibilidade de discussão sobre a destinação,
organização e planejamento do trabalho, o que dá a idéia da promoção
da alienação e da heteronomia, para exerce-se a dominação.
A manufatura tem a sua origem no trabalho artesanal.
Ela apoiava-se na cooperação entre os artesões. No período que vai,
da metade do séc. XVI e no último terço do séc. XVIII, ela irá
proporcionar um forte desenvolvimento econômico e social. Ela foi a
primeira e a principal forma de produção capitalista, agregando
trabalhadores de diversas especialidades, para produzirem
mercadorias que exigia a cooperação destas várias especialidades, e,
por um capitalista que emprega operários para fazer um produto que
poderá vir a ser comercializado ao público e ou a outras empresas.
Marx observa que para “entender exatamente a divisão do trabalho na
manufatura é de importância essencial ter firme o seguinte ponto: em
primeiro lugar, a análise do processo de produção na sua fase
particular coincide completamente com a desagregação de uma
atividade artesanal nas suas diferentes fases” (idem., 381).
O trabalho na manufatura depende da força, da
destreza, da habilidade e da segurança do operário em manejar seus
instrumentos. A profissão (o trabalho manual) que ele venha a
conseguir, permanece a base técnica do processo produtivo. À medida
que ele se desenvolve, com o passar do tempo, o processo produtivo
na manufatura se transforma e o trabalho que antes era individual e
cooperativo, agora se especializa.
A competência artesanal foi desaparecendo na medida
em que cada trabalhador, deixava de fazer todo o processo produtivo
do trabalho envolvido na produção de cada mercadoria. Isto, por sua
vez, ampliará a divisão social do trabalho e com o tempo a
produção demandará uma uniformidade no processo produtivo.
Observa Marx que:
“O trabalho manual continua sendo a base. É
exatamente porque o trabalho manual continua sendo o fundamento
do processo de produção que cada trabalhador se torna
exclusivamente ligado a uma função parcial e que, pelo restante
da sua vida seu trabalho é transformado em um órgão desta função
parcial, um mecanismo produtivo cujas partes são seres humanos.
Por fim esta divisão de trabalho é uma espécie particular da
cooperação, e muitas de suas vantagens saem da natureza geral da
cooperação, e não desta sua forma particular” (idem., p.382).
A transformação em indústria moderna é caracterizada
pela máquina e pela diversidade dos produtos capazes de ser
produzidos. O trabalhador da manufatura possui tarefas simples e
complexas, o que requer diversos níveis de treinamento e de
conseqüência, diferente remuneração. O novo processo produtivo
constitui-se por uma hierarquia de trabalhadores que
corresponde a tarefas diferentes, salários diferentes e diferentes
possibilidades de uso da capacidade criativa, sendo ela, no entanto,
limitada ou nula para todos os trabalhadores, independente do lugar
que este ocupa.
O saber fazer do artesão, dessa forma, desaparece e,
consequentemente, desenvolve-se uma especialidade às custas da
integralidade da capacidade de trabalho do homem. Integralidade
diferenciadora, pois ter-se-á um trabalhador especializado e um
trabalhador não especializado. Para este último, o custo de
apreender uma profissão fica cada vez mais distante, enquanto que o
conhecimento específico importante para o processo produtivo fica
menor em relação ao artesão, devido à simplificação das funções
desenvolvidas pela indústria.
A manufatura traz em si profundos impactos políticos
e sociais, que foram produzidos pela hegemonia da classe burguesa,
no momento em que ela passa a controlar os meios de produção. Ela
recusa qualquer regulamentação do processo de produção e das
relações sociais entre capital e trabalho, argumentando a defesa
da liberdade e da primazia do direito à propriedade. Na
manufatura a máquina não era um fator central de produção, pois ela
aparece, esporadicamente, mas ela tem um papel dos mais importantes
no processo produtivo capitalista, como afirma Marx
“como todo (...) aumento na produtividade do
trabalho, máquinas são destinadas a tornar os produtos
(commodities) mais baratos e, encurtando aquela porção do dia de
trabalho que o operário trabalha para si mesmo, aumentar aquela
que ele dá sem remuneração ao capitalista. Em suma, Máquinas são
recursos para produzir mais valia” (idem., p.413).
A máquina irá reestruturar todo o processo produtivo.
Por um lado, o seu surgimento buscou recompor a “taxa de lucro do
capital”, e, por outro, criará no interior da sociedade uma profunda
desagregação das classes menos favorecidas. Isto possibilitará aos
trabalhadores se organizarem – em partidos, sindicatos, associações
etc – para fazer frente à investida do capital. Na concepção
marxiana do surgimento da máquina há uma distinção do progresso
técnico e tecnológico sobre o desenvolvimento do “maquinismo”. Marx
constata que há um núcleo de racionalidade determinado pela “vitória
do homem sobre a força da natureza” e um possível desvio daquele
núcleo através do uso do progresso técnico que transformou aquela
“vitória’ no seu contrário, na “submissão do homem mediante o uso
das forças da natureza”. Mas, o progresso da tecnologia, teve um
preço muito alto:”a produção capitalista desenvolve a técnica e a
combinação do processo de produção social somente minando ao mesmo
tempo as fontes de onde surgem as riqueza:
a terra e o operário” (idem., p.535).
3. Numa fase superior de
reestruturação produtiva, o taylorismo e fordismo,
surge como método apresentado pelo capital para resolver suas
crises, superando assim “a queda tendencial da taxa de lucro”,
expressão que Gramsci retoma em Americanismo e Fordismo
(1934), como uma contratendências
e o significado dos desdobramentos que isto teve para as lutas dos
trabalhadores italianos. Em Americanismo e Fordismo, ele toma
os conceitos de indústria e industrialismo, de racionalização, de
técnica e tecnologia, apresentando uma correspondência entre a
estrutura material ou objetiva e entre processos culturais e
subjetivos, entre a força manual e atividade intelectual, entre o
processo de “industrialização” e da “formação do homem” e finalmente
entre sociedade e aprendizagem, numa rede complexa de exploração do
trabalhador.
Ele observou que é:
“relativamente fácil racionalizar a produção e o
trabalho, combinando habilmente a força (destruição do
sindicalismo operário de base territorial) com a persuasão
(altos salários, benefícios sociais diversos, propaganda
ideológica e política habilíssimas (...) A hegemonia nasce da
fábrica e não tem necessidade para exercer-se senão de uma
quantidade mínima de profissionais intermediários da política e
da ideologia” (GRAMSCI, idem., p.2154).
A sociedade estava diante de uma nova forma de
organização do trabalho. Esse processo baseou-se particularmente em
racionalizações administrativas e gerenciais, ou seja, mudança na
organização, administração e condução não só do processo de
trabalho, mas da empresa em sua totalidade. Estas mudanças
realizar-se-ão graças à introdução da máquina destinada a
centralizar, disciplinar rigidamente a atividade do trabalhador na
fábrica, baseada na esteira transportadora ou na cadeia de montagem.
O Americanismo e Fordismo segundo Gramsci foi
a criação de um novo tipo de homem correspondendo a um novo tipo de
trabalho e de processo produtivo. Ele irá materializar um novo modo
de vida. Ele foi um processo doloroso e sangrento, logo violento,
porque com ele gestava-se uma nova classe trabalhadora e de uma nova
cultura que irá determinar um modo de “viver, pensar e sentir a
vida”, segundo o modelo americano. Ele redefine novas
habilidades. Gramsci observa que “a vida na indústria exige um
tirocínio geral, um processo de adaptação psico-físico a determinada
condições de trabalho, de nutrição, de habilitação, de costumes,
etc, que não é algo inato, “natural”, mas demanda ser adquirido
(....)” (idem.,p. 2149)
A forma de vida capitalista passou a controlar a vida
dos indivíduos, segundo Gramsci,
“Na América, a racionalização do trabalho e o
proibicionismo estão conectados indubitavelmente: as pesquisas
dos industriais sobre a vida íntima dos operários, os serviços
de inspeção criados por algumas empresas para controlar a
“moralidade” dos operários são necessidades do novo método de
trabalho... um novo tipo de trabalhador e de homem” (idem., p.
2164).
A forma de vida passou a efetivar uma destruição
ativa de uma personalidade histórica. Para construir o homem de novo
tipo, não bastava apenas a coerção unilateral, era necessário que a
coerção fosse transformada em persuasão, era preciso que os
indivíduos percebessem o significado intrínseco nos gestos que
realizavam e não apenas “obedecessem ordens”, segundo Gramsci,
“o velho nexo psico-físico do trabalho
profissional qualificado, (...) exigia uma certa participação ativa
da inteligência, da fantasia, da iniciativa do trabalhador e redução
das operações produtivas apenas ao aspecto físico maquinal” (idem.,
p., 2165).
Verificou-se que o método produtivo taylorista/
fordista é simplesmente de adaptação do trabalhador ao
trabalho fabril. Para conseguir esse equilíbrio, entre a coerção e a
persuasão, será necessário um Estado Liberal capaz de garantir a
legalidade e a institucionalidade da “hegemonia americana” que
combinasse coerção e consentimento ao mesmo tempo. Para Gramsci é
sobretudo o aparato estatal que lhe dá coerência e sustentação as
formas mercantis que se está desenvolvendo. Ela
“requer um ambiente dado, uma dada estrutura
social (ou a vontade decidida de criá-la) e um certo tipo de
Estado (...) liberal, não no sentido do liberalismo alfandegário
ou da liberdade política efetiva, mas no sentido mais
fundamental da livre-iniciativa e do individualismo econômico
que atinge com meios próprios, como “sociedade civil”, pelo
próprio desenvolvimento histórico, ao regime da concentração
industrial e do monopólio”(idem., 2157).
Essa contratendência ele chamou de “revolução
passiva”, que nada mais é que, uma transformação que ocorre mais
pela intervenção legislativa do Estado e através da organização
corporativa na estrutura econômica do país. Em virtude da
contratendência, o processo de construção do trabalhador coletivo
estava sendo realizado, pela reestruturação produtiva mais uma vez.
Reestruturação que nada mais é que uma adequação entre o econômico e
político. Esta adequação permite que o Americanismo e Fordismo
– capitalismo monopolista – obtenha sucesso no campo da cultura.
4. Assiste-se, nos dias
atuais, o avanço da contratendência, na forma de reestruturação,
onde o capital, para fazer-lhes frente às conquistas dos
trabalhadores é absolutamente vital redesenhar não apenas sua
estruturação econômica, mas reconstruir suas formas mercantis e o
aparato estatal que lhe dá sustentação.
A resposta capitalista virá no sentido de conter a
rebeldia da classe trabalhadora que lutava por um Estado de
Bem-Estar-Social e que nos países centrais havia minimamente
conseguido esta realização. Produziram-se respostas nos locais de
trabalho e a nível estatal. Quanto à produção, o capital modificou
tanto o processo de produção em si como as relações dentro da
empresa. Ele irá mudar principalmente no tocante das racionalizações
administrativas e gerenciais tanto no processo de trabalho como da
empresa em sua totalidade. Estas mudanças puderam realizar-se graças
à introdução do processamento eletrônico de dados, computadores e
microprocessadores, uma vez que eles serviam para centralizar a
direção e o controle e descentralizar a execução do trabalho.
Pode-se dizer de “um novo redesenho do trabalho” está
sendo configurado pelas “novas fábricas”. As novas fábricas são
caracterizadas pelo abandono da cadeia de montagem, descentralização
das tarefas de produção nestes grupos e coordenação da atividade de
indivíduos e grupos autônomos. O capital teve ainda de fazer frente
ao aumento da popularidade do Estado do Bem-Estar e ao crescimento
do movimento socialista. Até porque a identificação dos partidos
socialistas com o Estado do Bem-Estar era a causa principal da
crescente popularidade dos mesmos.
O crescimento contínuo do movimento dos trabalhadores
nos âmbitos da produção e do Estado converteu-se numa clara ameaça
para a classe capitalista. O movimento sindical reivindicava o
controle operário sobre o processo trabalhista considerado por um
amplo setor sindical estritamente ligado à propriedade da empresa.
Isto explica as mudanças ocorridas em fins dos anos 70 e princípio
da década de 80. A força da classe trabalhadora determinou as
mudanças ocorridas nos anos dourados.
Outra resposta dada pelo capital foi a
terceirização ou subcontratação de pequenas empresas,
segundo o modelo japonês. A produção baseia-se num núcleo central de
trabalhadores e um grande número de fornecedores, e apóia-se
fortemente num trabalho mal pago, pobremente organizado e de tempo
parcial.
Este modelo denominado japonês requer o
enfraquecimento sistemático das organizações sindicais nas fábricas
e a introdução de estruturas trabalhistas e mercantis que atuam
contra a coesão do movimento do trabalhador. A flexibilização
suposta vantagem dessa nova forma de produção contribuiu para
quebrar os sindicatos e incrementar a intensidade do trabalho
especialmente entre mulheres mal pagas e temporárias e em tempo
parcial.
A reestruturação do trabalho está fundada no
paradigma de base material - em que a informática, eletrônica e
microeletrônica, biotecnologia, sistemas integrados de
telecomunicações - que idealmente deveria dispensar a mão-de-obra
humana, mas que de fato não ocorre. Ela exalta a figura do trabalhador
modelo: aquele trabalhador que possuiu alta qualificação,
aproximando-o dos técnicos especializados e que permite reduzir a
divisão do trabalho entre agentes de concepção e de execução.
O fato é que este processo não está por toda a
economia. Ao contrário houve aumento real de qualificação
técnico-científica só em uma pequena fração dos trabalhadores. Além
do que, estes estágios formativos estão desconectados da formação
teórica dos trabalhadores.
As novas tecnologias têm ainda outras utilidades do
ponto de vista do capital. Pois, o controle do software permite à
empresa depender muito menos do trabalhador qualificado. O trabalho
pode ser reorganizado na fábrica de maneira a se estabelecer uma
nova hierarquia e autoridade mais invisível por exemplo, sem
feitores – e, no entanto, mais efetiva, devido à informatização da
folha funcional de cada trabalhador. Uma aparência de autonomia do
processo de trabalho e uma semelhança entre o que acontece com o
avanço do capitalismo e a introdução das máquinas na produção.
Gramsci entende que o mundo mecanizado desqualifica o
trabalho. Ele afirma que no
“mundo moderno, a educação técnica, estreitamente
ligada ao trabalho industrial, mesmo ao mais primitivo ou
desqualificado, deve construir a base do novo tipo de
intelectual (...) O modo de ser do novo intelectual não pode
consistir mais na eloqüência, moto exterior e momentâneo das
paixões, mas num imiscuir-se ativamente na vida prática, como
construtor, organizador, “persuasor permanente” (...) e,
todavia, superior ao espírito matemático abstrato. Da técnica
trabalho chega-se à técnica-ciência e à concepção humanista
histórica, sem a qual se permanece “especialista” e não se torna
“dirigente” (especialista + político)” (idem., p., .1551).
O fio condutor da analise gramsciana sobre a
sociedade moderna, denominada por alguns teóricos de “sociedade da
informação” ou “do conhecimento” – é uma analise eminentemente
relacional – que conjuga o conceito de “democracia” e “hegemonia”
por um lado e por outro sublinha o nexo entre a “hegemonia” e a
“economia”. “No sistema hegemônico – escreve Gramsci
referindo-se a uma sociedade capaz de não cristalizar e exasperar,
mas de valorizar produtivamente as próprias contradições – existe
democracia entre o grupo dirigente e os grupos diretos, na medida em
que (o desenvolvimento da economia) a legislação (que exprime tal
desenvolvimento) favorece a passagem (molecular) dos grupos diretos
a grupo dirigente”(idem., p., 1056). Pode-se dizer que a
sociedade do conhecimento para ele é a ”sociedade civil” na
qual os governantes no sentido econômico e político estão muito
próximos dos governados, ou simplesmente que esta sociedade requer
um “mercado determinado” e não simplesmente um mercado exposto à
fortuna do “livre jogo” entre a demanda e a oferta do trabalho (BARATTA,
2000, p., 209).
4. Conclusão
A partir da manufatura pode-se perceber a evolução de
novas formas produtivas cuja finalidade é recuperar a taxa de lucro
ciclicamente decrescente no capitalismo. Nos dias atuais, a
intensificação da flexibilidade e da polivalência mitiga-se os males
do trabalho dando-lhes outros nomes como traduziu Marx na
manufatura: “nominibus mollire licet mala”, mas a forma de
exploração do trabalho é sempre a mesma.
O processo de reestruturação produtiva tem nos novos
métodos de produção a forma última do aumento da acumulação e a
desorganização do trabalhador. Esse processo tem sido intensificado
nos últimos anos pela presença das novas tecnologias – robótica –
que ganhou uma dimensão internacional do capital e pela
terceirização da produção mediada pelo Estado Liberal que ataca o
coração da organização dos trabalhadores, a suas organizações
sindicais.
A formação profissional por um lado, está sendo
entendida como uma resposta à crise do trabalho apregoada por um
setor empresarial que demanda qualificação do trabalhador,
entendendo-a como uma “qualificação em si”, mas por outro,
ela aparece como conditio sine qua non para enfrentar
as novas tecnologias por correntes marxistas. Para tanto, parece que
será preciso entendê-las nas circunstâncias histórico-social e das
determinações históricas do capitalismo, e neste sentido, a formação
profissional que interessa aos trabalhadores é uma formação
política, que o ajude a entender a sua existência.
Embora, a sociedade tenha alcançado um alto
desenvolvimento tecnológico, há uma intensificação do controle sobre
o sistema de produção, característica do taylorismo/fordismo, o
saber do trabalhador foi apropriado pela máquina, faz dele um
estranho no processo produtivo. Os trabalhadores que controlam e
operam sistemas automáticos, estão no núcleo da nova organização do
processo produtivo e se constituem numa parcela pequena do processo
produtivo. Eles têm hoje o mesmo lugar, porém tarefas distintas, que
os chefes e superiores de produção das fabricas clássicas, pelos
mesmos motivos. Além do que, o resultado das novas tecnologias não
está difuso para a totalidade da sociedade, mas sim para um setor
pequeno que a tem como uma força produtiva (instrumento/meio) que
lhe aumenta a acumulação.
Uma profunda imbricação entre o processo produtivo,
reestruturação e formação profissional aparece em processos de crise
do capitalismo. Isto porque as classes dominantes elaboram
estratégias de grande período. A reestruturação é uma forma de
erigir contratendências para retardar as conseqüências da queda
tendencial da taxa de lucro. O problema fundamental para elas como
diz Gramsci é o produtivo, no momento em que elas se interessam pela
formação profissional, esta não aparece como problema fundamental,
mas como um corolário. Em conjunto com a reestruturação ela
retardar a queda tendencial de lucro. Daí então, a necessidade de
intensificar os métodos de trabalho, as formas de vida do
trabalhador, inventar novas forças produtivas e uma programação
econômica compatível com a reprodução das relações sociais.
Referências
ANGELI,
J.M., “Gramsci e a educação integral” in Folha de Londrina
(19/09/2007)
___________.
Análise da “questão meridional”e “americanismo e fordismo de A.
Gramsci: Hipótese de aplicabilidade das categorias
filosófico-políticas à sociedade brasileira. Tese de doutorado.
Roma. Itália, 1992
BARATTA,
G., Le rose e i quaderni. Gamberetti Editrice. Roma. 200
GRAMSCI, A.,
Quaderno del Carcere. Edizione critica dell”istituto Gramsci (a
cura di) Valentino Gerratana. Einaudi Editore. Torino. 1975
____________. L”Ordine
Nuovo (1919-20). Einaudi Editore. Torino. 1970
KUENZER,
A., A escola como espaço de inclusão: limites e perspectivas. In
Cadernos pedagógico. n. 4. APP, Sindicato. Curitiba. 2007
MARX,
K., Il Capitale. (a cura di) Délio Cantimori, libro primo,
Editori Riuniti, Roma, 1974
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