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ROBERTO VITAL ANAU
Economista, mestre em Urbanismo,
docente e consultor. Curador do Programa Cultura e Pensamento,
na linha temática do Estado-nação, em conjunto com Edgard
Steffen, Publisher da Revista Raiz.

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Estado e mercado: uma resenha histórica
por Roberto Vital Anau
I. Introdução
O objetivo deste texto é historiar as relações Estado
X mercado ao longo da existência do capitalismo industrial até os
nossos dias.
A ideologia neoliberal, nas poucas tentativas de
fundamentação histórica, subverte os fatos e elide o papel essencial
do intervencionismo estatal nos processos reais de desenvolvimento
capitalista. A pretensa pendularidade “mais Estado / menos Estado”,
apresentada como explicação esotérica para os processos citados
(supostamente reforçados na vertente “menos” daquela dicotomia) é
submetida aqui a contestação apoiada na trama efetiva dos fatos,
refutando sua versão ideologizada.
No presente momento, vemos economistas, jornalistas e
cientistas políticos incensados pela mídia reescreverem
despudoradamente a história do capitalismo. O fato de a revolução
burguesa na Inglaterra ter antecedido a francesa em 1,5 século – com
seu séquito de violência, regicídio, radicalização popular com
posterior repressão pela burguesia triunfante, mudança da orientação
da política estatal e dos seus beneficiários – nada diz a tais
“re-educadores da opinião pública”. Para eles, houve apenas a
Revolução Gloriosa, o respeito aos contratos e à propriedade a o
afastamento do Estado dos negócios. Sobre os EUA, os processos de
distribuição de terras, estímulo estatal aos transportes e à
integração territorial e a Guerra de Secessão, na qual os que se
utilizavam de argumentos liberais foram derrotados, também é
ignorado. Os processos alemão e japonês, fortemente marcados pelo
intervencionismo estatal, são muito pouco citados, se o são.
É um fato que todos os impasses e dificuldades
políticas dos movimentos sociais e todos os retrocessos históricos
em termos de bem-estar social são acompanhados de recidivas liberais
que pretendem apenas estar retornando a algo que respondeu pelos
sucessos do capitalismo. Procura-se de fato, nesses períodos de
regressão social, implantar o darwinismo social e isolar os
movimentos sociais e as proposições limitadoras da barbárie
capitalista, como resquícios do passado e adversários da
“modernidade”. O propósito do artigo é contribuir para desmascarar
essa fraude ideológica, confrontando ideologia e prática política
dos Estados capitalistas.
II. Primeira
aproximação: um processo pendular
Uma visão panorâmica dos papéis assumidos pelo Estado
nas sociedades européias ao longo do IIo Milênio
apresenta-nos uma oscilação de caráter pendular. À centralização do
Império Romano do Ocidente sucede-se a dispersão medieval, seguida
pelo fortalecimento dos Estados Nacionais na era mercantilista. A
partir da emergência do capitalismo industrial, o Estado liberal
torna-se o paradigma, com exceções estatizantes como a Alemanha e o
Japão. Passada a belle époque
pretensamente liberal da virada do séc. XIX para o XX, surge
o contra-exemplo soviético (1917), em oposição aberta ao
capitalismo. Nos anos 1930, regimes autoritários e fascistas
polarizarão com as democracias liberais o predomínio nas sociedades
capitalistas. O pós-IIa Guerra Mundial trará como
traço distintivo o welfare state
– Estado do Bem-Estar Social – intervencionista, vitorioso
nos países capitalistas avançados e emulado nos países
subdesenvolvidos.
Finalmente, a estagflação do final dos anos 1970 traz
ao pódio político, intelectual e ideológico o chamado
neoliberalismo, propugnando pelo Estado mínimo e desencadeando a
ofensiva mundial das privatizações.
III. Revisão
crítica: acumulação primitiva e liberalismo
As observações acima padecem de inúmeras limitações:
exceções notáveis aos processos dominantes em cada período;
características omitidas em cada fase; e muitas outras. Destacamos
um dos maiores equívocos cometidos na análise dessa oscilação
aparentemente pendular, no que tange ao período histórico de
predomínio do capitalismo industrial. Ocorre aí, desde Adam Smith
até o atual mainstream na
Teoria Econômica, uma forte discrepância entre ideologia e prática.
O pressuposto liberal do Estado mínimo não encontra correspondência
na prática política dos Estados capitalistas.
Na própria pátria da Revolução Industrial, o
envolvimento do Estado com os negócios tornou-se uma rotina ao menos
desde a Revolução Gloriosa de 1689. No início do séc. XVIII, não há
iniciativa militar, marítima ou diplomática britânica que não tenha
objetivos predominantemente comerciais. Além disso, as encomendas
militares do Estado britânico constituíram um fator autônomo de
estímulo à produção, ao investimento e à inovação tecnológica.
Acresça-se o jogo duplo do Estado britânico no final daquele século,
quando o maior liberalismo interno combinou-se com atitudes
fortemente colonialistas-mercantilistas no tocante às possessões
norte-americanas, desencadeando a Revolução Americana.
Há, ainda, a considerar o papel do Estado na
acumulação primitiva de capital. Esta expressão designa os processos
de acúmulo de riqueza obtida fora do processo produtivo propriamente
dito, que antecederam a acumulação especificamente capitalista na
indústria e na agropecuária. Os lucros coloniais e monopolistas de
toda a Europa acorreram ao mercado de capitais de Londres, principal
praça financeira européia desde meados do séc. XVIII. Desta forma,
os capitais europeus, constituídos com base na força
legal-burocrática (monopólios) e militar dos Estados mercantilistas,
acabaram se reciclando para o financiamento da indústria nascente na
Grã-Bretanha.
No séc. XIX, o Estado liberal, no dizer oportuno do
Prof. Dalmo Dallari (2006), tornou-se “protetor”, mas não promotor,
das liberdades. Isto é, quem já as tinha recebe proteção estatal
contra os despossuídos dos atributos substantivos das liberdades. A
vulnerabilidade social dos deserdados da terra – vítimas dos
cercamentos voltados à rentabilização das propriedades rurais
através do fornecimento de lã à florescente indústria têxtil –
obriga-os a aceitar empregos degradantes nos estabelecimentos
surgidos em áreas rurais ou vilarejos e pequenas cidades do
interior. Essas cidades – das quais Manchester será por muito tempo
o símbolo – tornar-se-ão emblemas da péssima qualidade de vida dos
assalariados deste novo tipo de atividade que começava a
revolucionar o mundo. E suas rebeliões passam a ser combatidas pela
força do Estado liberal – para eles, um Estado policial (État-gendarme).
As guerras napoleônicas são outro momento de estímulo
à indústria britânica e de reforço da hegemonia marítima da
Grã-Bretanha, o que lhe assegurará matérias-primas e mercados
cativos. E a hegemonia política da Grã-Bretanha, consolidada no
Congresso de Viena, se sustentou na manutenção dos regimes
absolutistas (antiliberais) no continente, impedindo assim qualquer
competição que ameaçasse seu predomínio econômico no mercado
mundial.
À margem desse predomínio, no entanto, surgem novos
processos nacionais de industrialização ao longo do séc. XIX. Os
dois mais notórios desconsiderarão os pressupostos do liberalismo
econômico. Nos EUA, sob uma Constituição liberal-democrática,
verificaram-se ao menos três estratégias com traços de forte
intervenção estatal no domínio econômico: o protecionismo cambial, o
estímulo estatal aos transportes (ainda que os empreendedores fossem
privados) e uma política fundiária distributivista. Não por acaso,
os Estados sulistas, a partir de meados do século, passarão a
contrapor-se a tais políticas, invocando os princípios do
liberalismo – livre comércio e “terra para os mais aptos a
rentabilizá-la”. O próprio instituto da escravatura será defendido
com argumentos de tipo anticentralismo estatal – o “direito” de os
Estados confederados decidirem “livremente” sobre sua adoção ou não.
O discurso liberal, aqui, encobre a forma mais brutal de opressão
social: defende-se não apenas a permanência da escravidão nos
Estados que já a adotaram, como sua extensão às novas fronteiras.
Tais posições, contrapostas ao Norte industrializado, protecionista,
interessado na ampliação do mercado interno através do estímulo às
pequenas propriedades agrícolas no Meio Oeste e da emancipação dos
escravos, levaram à maior guerra civil daquele século.
A Alemanha sequer contou com uma Constituição
liberal. Ali, seja o liberalismo político, seja o econômico, foram
feitos de tabula rasa no processo de unificação
nacional e de desenvolvimento econômico. Da União Aduaneira (zollverein
- 1834) à proclamação do Império Alemão (1871), menos de quatro
décadas viram uma miscelânea de pequenos Estados basicamente rurais,
economicamente atrasados, se transformarem numa potência industrial;
em mais duas décadas, o predomínio britânico na Europa estaria
suplantado pela pujante indústria germânica. O Estado assim gestado
apoiou-se em forte protecionismo – chegando a desenvolver-se uma
escola de pensamento econômico em sua defesa -, incentivos
econômicos e, após a unificação, uma política fundiária ativa,
embora baseada num acordo com os grandes proprietários. Reformas
urbanas, grande investimento educacional, técnico e tecnológico, e
intensa militarização, estimulando a inovação tecnológica e a
produção industrial, complementaram esse quadro. Enquanto os
economistas neoclássicos – desde os anos 1870 – reforçam a “mão
invisível” do mercado contra os malefícios econômicos do
intervencionismo estatal, a realidade caminha no sentido oposto e a
Alemanha não liberal ultrapassa a Grã-Bretanha liberal.
A emergência do Japão, após a Restauração Meiji, vem
reforçar este processo, unindo uma ideologia claramente estatizante
– a obediência cega ao Imperador, símbolo da identidade nacional – a
um forte intervencionismo estatal: protecionismo, pesado imposto
fundiário, indústrias estatais de insumos básicos, educação
obrigatória, militarismo.
IV. Revisão
crítica: o século XX
A Ia Guerra Mundial (1914/18)
interrompe a belle époque, na
qual prevalece a ideologia liberal – novamente, servindo de
cobertura para práticas de fato fortemente marcadas pelo
intervencionismo estatal, como o “novo” colonialismo, a diplomacia
de canhoneira, o forte desenvolvimento da indústria bélica e, em
diversos casos, a produção e fornecimento de insumos básicos como
aço, eletricidade e serviços de utilidade pública, além de
legislações anti-sindicais, fundiárias e outras. Como afirma
Hobsbawm (2002), na era dos impérios a política e a economia se
fundiram, desde que o modelo de concorrência relativamente livre dos
anos 1850 e 1860 foi substituído pelo capitalismo dos monopólios e
oligopólios. Mas acreditava-se ainda estar na era do liberalismo
econômico e apenas críticos situados na periferia do sistema de
formação de idéias (como Hobson, Veblen, Hilferding, Luxemburgo e
Lênin) apresentavam a face real do capitalismo imperialista.
Em reforço dessas formulações críticas, há que se
insistir no papel de État-gendarme
(Estado policial) das instituições estatais, concentrando
monopolisticamente o uso da violência, invariavelmente dirigido ao
disciplinamento dos “de baixo” ou à repressão de suas insurgências.
No essencial, esse papel permaneceu inalterado no século em foco.
Nas duas primeiras décadas, o Estado burguês combinou a repressão
direta, a ameaça de utilizá-la e a cooptação dos segmentos
emergentes da classe trabalhadora nos países industrializados,
comprometendo-os com a defesa da ordem vigente à custa da
solidariedade com o conjunto de sua classe. “Agosto de 1914”
tornou-se uma citação histórica para os socialistas porque exprimiu
a culminância trágica desse processo: partidos representativos do
proletariado europeu compartilhando a responsabilidade pelo banho de
sangue entre os povos, a serviço dos interesses financeiros e
industriais de suas burguesias. A repressão aos dissidentes se
acentuou, gerando grupos de emigrados por razões políticas e
escritores pacifistas sentindo-se exilados em seus próprios países.
Ao final da guerra, o assassinato de Rosa Luxemburgo e K. Liebknecht,
por um governo já liderado pela social-democracia alemã, indica a
que ponto chegou a cooptação.
Processo semelhante se observa nos EUA, já a caminho
da liderança capitalista mundial: a Lei Anti-Truste serviu de escudo
freqüente para decisões judiciais anti-sindicais, mais eficientes no
combate às organizações laborais do que às empresas monopolistas e
oligopolistas; os ativistas contra o envolvimento do país na guerra
foram abertamente perseguidos, gerando processos e farsas judiciais,
de que o caso Sacco e Vanzetti é emblemático.
À guisa de um parêntese generalista, pode-se dizer
que, desde então, o Estado capitalista não alterou essencialmente
suas funções. O que mudou foram as condições em que elas puderam ou
não ser exercidas, dado o avanço das lutas sociais e das conquistas
democráticas, especialmente após a IIa Guerra
Mundial. Nem por isso deixou de haver retrocessos democráticos e
contra os direitos sociais, como atestam as ditaduras
latino-americanas, grega etc., que floresceram na segunda metade do
séc. XX. E, atualmente, observam-se fortes retrocessos naquelas
conquistas, como o Ato Patriótico de Bush ou seus equivalentes na
Europa, a título de combate ao terrorismo - sem falar das medidas de
repressão a imigrantes nos dois lados do Atlântico Norte.
Somente essa perspectiva permite um entendimento mais
abrangente da natureza do intervencionismo econômico do Estado
capitalista. Tal como sua contrafação neoliberal, ele visa
fundamentalmente à reprodução ampliada do capital. Em determinadas
circunstâncias políticas, expressa também uma relação de forças
entre as classes sociais que obriga a realizar concessões no campo
das políticas dirigidas ao bem-estar social. Infelizmente, tais
circunstâncias não são comuns, nem irreversíveis.
Retomando o tema principal, o esforço de guerra em
1914-18 marcou uma fase de óbvio intervencionismo estatal na
economia, seguida de curta etapa de retorno do pretenso liberalismo.
Nos anos 1930, a Grande Depressão, deflagrada em out/1929, leva ao
poder regimes fascistas e instaura, mesmo nas democracias liberais,
políticas pró-ativas, de que o New Deal rooseveltiano
é o maior emblema. A teoria keynesiana desenvolve-se nesse ambiente,
no qual o liberalismo parece agonizar. O ápice de tal processo
revela-se na IIa Guerra Mundial (1939/45). No
aspecto econômico, os EUA eliminam rapidamente o desemprego
persistente que perdurava mesmo sob o New Deal e
inauguram uma época de planejamento econômico generalizado,
inclusive incidindo sobre o setor privado.
Durante a Guerra Fria, três décadas de Estado
pró-ativo assinalam os chamados “Anos Dourados”. Governos de todos
os matizes políticos – do trabalhismo britânico à democracia cristã
alemã e italiana – seguem o modelo keynesiano de políticas fiscais
anti-cíclicas e adotam políticas sociais redutoras das desigualdades
sociais. O ambiente propício a essa generalização de um Estado não
apenas pró-ativo no campo econômico, mas promotor de políticas
sociais equalizadoras de oportunidades, reside nas lembranças dos
anos 1930 e na Guerra Fria. Parece então amplamente majoritária a
opinião de que, se a iniciativa privada é eficiente em termos
alocativos, não o é em termos distributivos. Ademais, passou-se a
admitir nas teorias acadêmicas predominantes que, mesmo na alocação
de recursos, o setor privado, em certos casos, deixa a desejar
quando se trata de insumos fundamentais, cuja produção requer grande
volume de capital imobilizado e apresenta longos prazos de retorno.
Por fim, o novo cânon keynesiano prescreverá que as tendências
cíclicas que constituem o cerne do capitalismo devem ser
contra-restadas pelo Estado, defendendo o capitalismo de si próprio.
É indubitável que a convivência entre o capitalismo e
o “socialismo real”, tidos e assumidos à época como sistemas sociais
antagônicos e alternativos, tem forte responsabilidade nesse
contexto. A necessidade de reconstruir os capitalismos nacionais
europeus ocidentais face à devastação da guerra e o medo da
repetição de depressões como a de 1929 somaram-se à prevenção contra
a possível sedução dos regimes ditos comunistas. Mas o verdadeiro
pano de fundo foi a ressurgência de fortes movimentos trabalhistas e
o reforço dos partidos socialistas e comunistas na Europa, ao lado
das tensões decorrentes da desmobilização e do pujante sindicalismo
nos EUA. No Velho Continente, estimulados pela queda das ditaduras
fascistas, pela experiência dos movimentos de resistência à ocupação
alemã e pelo quadro de escassez geral e penúria dos trabalhadores no
pós-guerra, movimentos e partidos operários se ampliam e fortalecem.
Os EUA também enfrentam tensões sociais com a desmobilização, além
de um início de recessão cujo remédio foi a re-edição da economia de
guerra (“Veio a Coréia e nos salvou”
)).
Em tais circunstâncias, o capitalismo se vê constrangido a ceder
parte da riqueza que, em outra situação, se acumularia nas mãos dos
proprietários dos meios de produção. Extraindo-a através da
tributação, sob sistemas progressivos de arrecadação, e
reorientando-os para os serviços públicos, a proteção social e a
infra-estrutura, o capitalismo mostra-se mais “humano” nesse período
histórico. Voltando aos termos do Prof. Dallari (2006), o Estado
passa de protetor a promotor das liberdades. Mas o que se esperava
fosse um avanço irreversível mostrou-se um episódio efêmero.
Os fatores históricos citados também contribuem para
afirmar uma ideologia política e econômica mais favorável a um papel
pró-ativo do Estado. É amplamente conhecido o impacto provocado em
todos os formadores de opinião, nos anos 1930, do formidável avanço
rumo à industrialização pesada pelo Estado soviético, perseguindo os
famosos Planos Qüinqüenais, enquanto o mundo capitalista afundava
numa crise que a muitos – inclusive os que lamentavam o fato -
pareceu terminal. As políticas intervencionistas postas em ação
pelos Estados capitalistas de cunho liberal, pressionados pela crise
social, acabaram encontrando justificativa coerente na
recém-formulada teoria keynesiana. E a IIa Guerra
Mundial propiciou a aplicação do chamado keynesianismo militar, do
planejamento econômico generalizado para subsidiar o esforço de
guerra e, mais tarde, a reconstrução econômica da Europa Ocidental e
do Japão. Já nos “Anos Dourados”, a ideologia pró-Estado planejador
e intervencionista nas economias de mercado chegou ao ponto de
alguns economistas disseminarem a pretensiosa tese segundo a qual o
capitalismo houvera superado as crises cíclicas. Uma versão quiçá
“progressista” (e atenuada pelo conflito Leste-Oeste) do “Fim da
História”, ironicamente afirmado pelos neoliberais décadas mais
tarde...
V. A
passagem ao neoliberalismo
O esgotamento do modelo de relações Estado-mercado
dos “Anos Dourados” teve diversas razões. O gasto público
ascendente, associado a uma crescente inelasticidade da tributação
em relação à renda – expressa na resistência cada vez maior dos
segmentos de rendas elevadas de seguir bancando o esquema, no plano
das pessoas físicas, e nas burlas empresariais à legislação
tributária, através das plataformas “off-shore” e abertura de
filiais pelo mundo, no caso das pessoas jurídicas – levaram a
déficits crônicos nos orçamentos públicos. A ajuda dos EUA à
reconstrução das economias desenvolvidas, seus amplos gastos
militares e seus sucessivos déficits externos abalaram o pilar
monetário-cambial em que assentava o edifício institucional montado
ao final da IIa Guerra Mundial, no Acordo de
Breton Woods. A decretação da
inconversibilidade do dólar pelo Presidente Nixon (1971) deu o sinal
de alarme: doravante, os EUA não mais se responsabilizavam pela
estabilidade da economia capitalista mundial. A resultante foi um
incremento das guerras comerciais e monetárias, com manipulações de
taxas de câmbio e de juros pelas grandes potências econômicas, os
EUA à frente.
O abuso de um modelo energético baseado em um insumo
finito como o petróleo também foi afetado quando a OPEP decretou a
primeira grande alta dos preços do barril (1973). E o modelo de
forte endividamento familiar voltado ao consumo de bens duráveis
viu-se atingido por todas essas turbulências, gerando efeitos em
cadeia. A conseqüência foi a stagflation
(estagflação) que surpreendeu os otimistas keynesianos. O
pressuposto dos grandes gastos orçamentários com o Bem Estar Social
era a manutenção de taxas razoáveis de crescimento econômico
apoiadas em inflação sob controle. Esse pressuposto desmoronou, em
relação com o desequilíbrio orçamentário dos EUA e a disparidade
entre o volume de dólares em circulação pelo mundo e a paridade fixa
em que se apoiava o sistema de Breton Woods.
Até então, os críticos conservadores do keynesianismo
constituíam pequenos redutos acadêmicos e de mídia – ainda que
alguns de seus expoentes fossem respeitados. Mas a reviravolta
mundial funcionou como maré montante para suas teses antiestatais e
liberalizantes. E acontecimentos subseqüentes reforçaram ainda mais
esta vertente, propugnadora do retorno ao “velho e bom” liberalismo
econômico. Podemos resumi-los em três itens: o declínio político do
“socialismo real”, as transformações econômicas e tecnológicas do
capitalismo no último quartel do séc. XX e a renovação do credo
econômico liberal nos centros difusores de ideologia sob roupagem
científica.
Não há espaço neste ensaio para desenvolver cada um
desses itens detalhadamente. Para resumir o primeiro, podemos voltar
ao Prof. Dallari (2006), que responsabiliza a corrupção interna do
sistema soviético pela sua queda. Sabe-se que a corrupção está
ligada à concentração de poder. Em países de democracia
representativa, isso ocorre primordialmente nas ligações entre os
poderes constituídos por eleições periódicas (Executivo e
Legislativo) e o poder econômico intrinsecamente concentrado. No
sistema soviético, o regime de partido-Estado totalitário dá aos
ocupantes do poder um domínio extraordinário do poder econômico, sem
controle social. Mas a corrupção não explica tudo. Talvez o mais
importante seja o fator explicado cuidadosamente por Vito Letizia
(1996): “poder-se-ia inquirir se uma industrialização obtida a
chicote pode ter vida longa. O senso comum já é suficiente para
suspeitar que o chicote não é bom instrumento para desenvolver a
criatividade. O chicote pôde fazer a URSS alcançar momentaneamente o
Ocidente, mas não ultrapassá-lo.”
Face às restrições à liberdade e aos avanços
tecnológicos do Ocidente - ambos fatores que se agravavam para as
novas gerações soviéticas e nos países da Europa Oriental - o regime
totalitário mostrou-se crescentemente inapto para adquirir qualquer
legitimidade. Como afirma Letizia, a esplêndida vitória soviética
sobre a máquina militar nazista, devida ao engajamento heróico da
população soviética, conferiu ao regime stalinista uma legitimidade
limitada. Decorridas poucas décadas, a menção às tradições
revolucionárias de Outubro, de fato abandonadas na prática do regime
totalitário, deixou de ter sentido. Para as gerações nascidas após a
guerra, a pretensa legitimidade do regime já não se referia à sua
experiência vivida, ao passo que suas deficiências eram
crescentemente intoleráveis na vida cotidiana.
Ao final, o que os “reformadores” de dentro do
sistema tinham a oferecer não era mais que o retorno ao capitalismo,
divergindo quanto ao ritmo e velocidade dessa contra-revolução, ou
ao papel que o partido-Estado deveria ocupar na transição. Já na
Europa Oriental, os partidos satelitizados pela URSS perderam toda
capacidade de sobrevivência assim que o patrocinador desabou. Sua
remoção foi feita de fora para dentro (isto é, a sociedade
mobilizada contra o poder constituído, em lugar da sua
auto-reforma). Todas as tentativas de repetir o exemplo soviético,
com quadros de dentro do partido, foram malsucedidas na Europa do
Leste, à exceção da Sérvia – com os trágicos resultados conhecidos.
O exemplo bem-sucedido (?) é o da China: uma espécie de
perestroika sem glasnost, combinando na
atualidade a exploração mais brutal da mão-de-obra proveniente do
êxodo rural com franquias a empresas capitalistas mundiais nas Zonas
de Processamento de Exportação, joint
ventures com grupos
privados em busca de altos lucros e admiração mundial para suas
taxas extraordinárias de crescimento. Será necessário dizer que a
ante-sala para esse desempenho foi o massacre da Praça da Paz
Celestial (1989), na qual se abria a possibilidade de outro caminho?
As transformações econômicas e tecnológicas do
capitalismo decorreram do impasse econômico e produtivo que se
ampliou ao longo da década de 1970. Rigidez pode ser
uma palavra-chave para entendê-lo, segundo Arrighi (1995). Desde a
Revolução Industrial, o processo de inovação científica e
principalmente tecnológica seguiu percursos traçados a partir dos
impasses da esfera produtiva, buscando superá-los. A burguesia
nascente requeria tecnologias capazes de aumentar a produtividade no
ramo têxtil e na mineração; a genealogia das invenções marcantes do
período mostra sua profunda ligação com tais requisitos. Naquele
momento, já se tornava imprescindível reduzir a força de trabalho a
um fator passivo de produção, eliminando qualquer vestígio de
autonomia dos produtores diretos. Também era preciso escapar dos
regulamentos mercantilistas que constrangiam a inovação em processos
e produtos. Nas três décadas finais do século XX, o mesmo problema
se manifestou, sob a perspectiva da ruptura com o padrão fordista-
regulacionista do então vigente welfare
state.
A autonomia do capital face à força de trabalho e aos
regulamentos estatais parece ser sempre um fator de enorme motivação
para os avanços tecnológicos. Nessa ótica, não surpreende - por mais
impressionante que seja o processo ainda em curso - que na virada
para o século XXI o capital tenha adquirido uma mobilidade
extraordinária face aos Estados nacionais e às regras de proteção da
força de trabalho, o que lhe permite, não apenas desafiar
legislações específicas (trabalhistas, ambientais, previdenciárias e
sobre os mercados de capitais), mas inclusive chantagear os
dirigentes políticos dos Estados nacionais mundo afora, impondo-lhes
regras tendentes a conceder total liberdade de movimento aos
investidores e financistas, sob pena de isolamento e marginalização
econômica.
Aspecto de destaque é a desigualdade crescente entre
a mobilidade preconizada aos fatores clássicos de produção na
economia política da globalização. Para o capital, exige-se
franqueamento total das fronteiras, ausência máxima de controles e
relaxamento de todas as exigências. Ao trabalho, impõem-se muros
físicos, barreiras burocráticas e controles policiais. O modelo
neoclássico de vantagens comparativas, no qual a abundância relativa
de capital ou de trabalho determina os produtos e processos de
produção mais vantajosos a cada país, encontra aqui uma negação
frontal, na medida em que os fatores têm tratamento completamente
assimétrico em sua capacidade de deslocamento pelo globo. Mais uma
vez, a teoria revela-se como ideologia a mascarar as relações reais
– caso contrário, deveríamos ouvir um coro de economistas indignados
com as restrições à mobilidade internacional do trabalho, com a
mesma intensidade com que se insurgem contra restrições ao movimento
de capitais. E esta última insurgência também é seletiva, pois trata
com maior amenidade restrições parciais adotadas por países como o
Chile e os Tigres Asiáticos, enquanto se horroriza à mera menção de
controles de capitais no restante da América Latina ou noutras
plagas.
As novas tecnologias alteraram os modos de produzir e
consumir, afetando inclusive a cultura social. Seus efeitos
benéficos para o aumento da produtividade e para maior fruição dos
indivíduos dificilmente podem ser subestimados. Mas a técnica não é
neutra. Informática e a telemática permitem muito maior rapidez e
poupam esforços humanos - mas o que se vê é um ritmo cada vez mais
alucinante de trabalho, uma escassez cada vez maior de tempo e uma
exclusão imensa de pessoas dos benefícios dessas tecnologias, além
do desemprego estrutural e da conseqüente precarização das relações
de trabalho. As novas tecnologias, criadas pelo capital e atuando a
seu serviço, estão produzindo um maior ritmo de exploração – um
retorno à extração de mais-valia absoluta (Paulani - 2006) -, o
predomínio financeiro sobre a atividade produtiva – uma volta à
acumulação primitiva (id., ibid.) – e uma reconcentração da renda em
escala mundial, seja no plano pessoal, seja entre nações e regiões
do mundo.
Finalmente, a Teoria Econômica vem recebendo, desde o
final dos anos 1970 e em especial nos anos 1980, novos aportes
conservadores consubstanciados na Teoria das Expectativas Racionais.
Nesta, os agentes econômicos – empresários e consumidores,
basicamente – compreendem os objetivos ocultos das políticas
econômicas e se antecipam às mesmas, inutilizando-as. Concluem seus
autores que o Estado pró-ativo só logra produzir inflação e, no
limite, mais desemprego (devido à ineficiência econômica), ao se
propor a combatê-los com políticas fiscais ou monetárias
não-ortodoxas. Equilíbrio fiscal, política monetária “neutra”,
liberdade total aos mercados e aos fluxos de bens e de capitais,
desregulamentação geral e privatização dos setores produtivos sob
controle estatal, são as principais conseqüências práticas desta
escola. Elas vêem sendo advogadas com desenvoltura cada vez maior
pelos economistas denominados “novos clássicos”, sucedâneos da
escola monetarista, adversária do keynesianismo e inimiga jurada do
socialismo. O Consenso de Washington de 1989 formalizou tais
recomendações num receituário com impacto mundial sobre o
conceito-padrão de boa governança. Desnecessário insistir na
aderência de tais teorias e políticas aos interesses dos grupos
financeiros predominantes na economia mundial.
VI. Ideologia
e prática do neoliberalismo
O discurso liberal omite as características
pró-ativas do Estado ao longo do capitalismo. E tal equívoco se
reproduz em escala ampliada na atual quadra dominada pelo
neoliberalismo.
O caráter ideológico da defesa do “Estado mínimo”
desmascara-se ao se observar o tamanho relativo das atividades
estatais nos países pretensamente aderentes a esse modelo. Na
Grã-Bretanha, matriz do neoliberalismo, assim como nos países
continentais da Europa, não obstante as privatizações, a proporção
do PIB representada pelo gasto público não diminuiu
significativamente, conforme indica o depoimento do Prof. Jeroen
Klink (2006) com base em estudos de economistas europeus. Nos EUA, o
papel do Estado é menor nas atividades diretamente produtivas, mas
as instituições reguladoras ocupam um espaço substancial. Essa
configuração não foi alterada no último quarto de século, desde que
Ronald Reagan anunciou ao povo norte-americano que “o Governo não
é a solução, ele é o problema”.
O que mudou, e muito, foi a orientação do gasto
público. As despesas sociais deixaram de ter a importância da época
do welfare state. Em
compensação, os gastos militares e com segurança pública, o apoio
direto ou indireto ao capital e outras despesas de interesse para a
preservação das sociedades capitalistas ocuparam maiores espaços. Um
exemplo: as barreiras à imigração têm envolvido complexas operações
com a participação não apenas das polícias, mas das forças armadas
(por exemplo, os bloqueios da Europa meridional ao desembarque de
imigrantes provenientes do Norte da África pelo Mediterrâneo). No
caso dos EUA, as duas guerras da dinastia Bush no Iraque, a invasão
do Afeganistão e os dispositivos draconianos de prevenção do
terrorismo (incluindo a supressão de garantias democráticas
históricas e as prisões-centros de tortura e de seqüestro ilegal de
suspeitos, como Abu Graib e Guantánamo) são outras tantas aplicações
do poder estatal com objetivos econômicos, além dos
político-estratégicos.
Observamos os resultados sociais dessa reorientação
das prioridades do gasto público na dramática situação da população
negra e pobre de New Orleans após o
furacão Katrina – muitos deles até hoje desalojados e proibidos de
retornar – e na explosão dos filhos de imigrantes árabes na França.
E, em escala mundial, a concentração de renda não faz mais que
aumentar. Os dados apresentados pelo Dr. Célio Turino (2006) são
aterradores: as seiscentas maiores fortunas do mundo concentram uma
riqueza equivalente à dos 2 bilhões mais pobres do planeta; as três
pessoas mais ricas do mundo concentram uma riqueza igual à dos
seiscentos milhões mais pobres. O regime chinês, tido e havido como
a nova vanguarda do desenvolvimento econômico, ironicamente dirigido
pelo Partido Comunista sob regime unipartidário, vem manifestando
publicamente sua preocupação com o intenso êxodo rural e os sinais
de forte polarização social com o aumento das desigualdades.
VII.
Conclusões
Desfazendo a distorção da história pelo
neoliberalismo, observamos que o laissez-faire
proposto por Smith a partir dos fisiocratas não foi seguido à risca
sequer pelo Império Britânico, especialmente na aurora do novo modo
de produção. Se a Grã-Bretanha efetivamente adotou o livre comércio,
só o fez anos após a morte de D. Ricardo, seu maior paladino, graças
à sua hegemonia no mercado mundial. As novas economias
industrializadas não seguiram esse modelo para se desenvolverem, com
poucas exceções. Após atingirem o pódio, passaram a exigir políticas
liberais dos países subdesenvolvidos (“faça o que eu digo, não
faça o que faço”). Os Estados fortes do período monopolista da
passagem do século XIX ao XX acabaram levando à Ia
Guerra Mundial. Das catástrofes que ocuparam três décadas a partir
de 1914, surgiu o welfare state no pós-guerra,
comprometido com o intervencionismo e justificando-o teoricamente.
Seus detratores, fortes desde o início dos 1980, relançaram a
ideologia liberal sob nova forma, escorados nas novas tecnologias e
na derrocada do “socialismo real” – mas não reduziram, de fato, o
peso econômico do Estado. Apenas o descomprometeram com o Bem-Estar
Social, reforçando seus compromissos com as necessidades mais atuais
do capital.
Na atualidade, o “pensamento único” busca
homogeneizar também a visão retrospectiva, reescrevendo a história
dos últimos três séculos para conferir à ideologia liberal o papel
retroativo de “deus ex-macchina” do desenvolvimento
capitalista. Mantendo sempre presente que o Estado capitalista é em
última instância um instrumento político a serviço da reprodução
ampliada do capital, não se pode perder de vista o fato de que o
próprio desenvolvimento das sociedades capitalistas avançadas não
prescindiu da ação e intervenção estatais no domínio econômico.
Tampouco é secundária a relação entre o fortalecimento dos
movimentos sociais e as políticas de bem-estar e de redistribuição
de renda, que esse mesmo Estado viu-se na contingência de aplicar e
aperfeiçoar em determinados momentos. Aqueles que preservam o
objetivo de uma sociedade igualitária e radicalmente democrática não
podem manter-se indiferentes à deturpação da história real das
sociedades capitalistas, cuja função é legitimar ideologicamente a
barbárie social e a concentração econômica entre e internamente às
nações contemporâneas, incrementadas pelo neoliberalismo.
A projeção para a realidade brasileira do quadro
descrito mais acima e da necessária clarificação face aos dogmas
neoliberais ainda vigentes entre nós deveria ser tema de outro
texto, tamanha a sua complexidade. Um Estado que se “modernizou” sem
extinguir suas características oligárquicas, patrimonialistas e
corporativistas, num País que foi incapaz de democratizar o acesso à
propriedade fundiária, desenvolver um mercado de consumo integrando
a maioria de sua população e que só logrou muito tardiamente
universalizar o ensino fundamental à custa de uma brutal queda na
qualidade da escola pública, apresenta um conjunto de desafios que
já seriam gravíssimos sem a manifestação das tendências regressivas
irradiadas pelos centros hegemônicos do capitalismo. A tendência das
elites sociais brasileiras a importar ideologias acriticamente,
focando mais seus aspectos formais e nunca observando seus
contrapesos nos países de origem, agrava o quadro. Nestas
circunstâncias, o paradoxo de um governo publicamente comprometido
com a redução das desigualdades acabar dando continuidade à política
macroeconômica neoliberal vigente na gestão antecessora não é
exatamente uma surpresa, mas uma decorrência do esvaziamento do
espaço de decisão política enquanto perdurar a subordinação aos
diktats das poucas centenas de mandantes da economia
mundial. O que não diminui o mérito de políticas desconcentradoras
de renda, como se tem visto, mas limita o seu alcance e a
abrangência das mudanças esperáveis.
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21/11/06 e Rio Branco - 28/11/06 no menu lateral, bem como Textos
Adicionais no mesmo menu).
Declaração do então subsecretário de Estado Dean Acheson.
Citado em Arrighi (1996), pág 307.
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