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WELLINGTON
AUGUSTO DA SILVA
Mestre em Teoria Literária pela
Universidade Federal do Rio de Janeiro
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Notas sobre o sentido histórico-social da violência no romance
Cidade de Deus
por Wellington Augusto da Silva
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Resumo: Para
além de assunto, o período da ditadura militar parece
imprimir no romance contemporâneo Cidade de Deus
marcas profundas. Busca-se, na análise de sua linguagem,
verificar os aspectos sociais e históricos sedimentados
na obra de Paulo Lins. Para isso, serão observados
alguns comentários críticos acerca da produção escrita
no período por Rubem Fonseca, autor que inaugurou uma
linha temática importante do sistema literário nacional,
da qual Paulo Lins parece participar.
Palavras-chave: brutalismo, violência
urbana, literatura e sociedade.
Abstract:
Beyond subject, the period of the brazilian military
dictatorship marked deeply the contemporary romance
Cidade de Deus. This text intends to analyse the
language construction and verify social and historical
aspects consolidated in the work of Paulo Lins. For
that, some notes about the literary works by Rubem
Fonseca will be observed because this author inaugurated
an important thematic line in the national literary
system, of which Paulo Lins seems to take part.
Key words: brutalismo,
urban violence, literature and society. |
A
tentativa de analisar o romance Cidade de Deus do estreante
Paulo Lins (1997) pelo ângulo histórico-estrutural se justifica dado
o esforço de ler a atualidade em sua espessura histórica, na
contracorrente, portanto, de consensos artificiais. Isto se dá
também pela exigência da obra, visto tratar-se de uma narrativa das
transformações do conjunto habitacional, operadas pela criminalidade
ligada ao tráfico de drogas no Rio de Janeiro.
A recepção da obra de Lins foi marcada por intensas
polêmicas e parece que ainda hoje isto não cessou. Vinda a público
sob este signo e credenciado por Roberto Schwarz e Alba Zaluar, com
quem Paulo Lins trabalhou em pesquisa durante anos, a obra Cidade
de Deus pode ser lida de algumas maneiras; um tipo de arco de
leitura que oscila entre o privilégio do aspecto documental até o
literário. Sem negar a forte influência exercida pela experiência do
autor na pesquisa antropológica e a também significativa mistura de
materiais diversos, a proposta de trabalho aqui é buscar a
interpretação de sua dimensão literária.
Na base da armação de sua prosa, o romance lança mão
de diversos materiais: transita pelo registro padrão da língua,
passa pelo formal acadêmico, inspira-se na notação etnográfica
impulsionada pela pesquisa, flerta com o sensacionalismo
jornalístico, conhece as gírias dos malandros e um tipo de código
próprio aos bandidos. Isto posto, o leitor pode sentir-se surpreso
pela relação estabelecida entre a quantidade de materiais
manipulados e o acabamento, haja vista sua precariedade. Por este
ângulo, há que se pensar numa hipótese: para narrar a violência
interna à comunidade seria possível uma noção beletrista de
linguagem literária? Em outras palavras, caberia entender os
desníveis da prosa em relação ao conteúdo narrado? Estas perguntas
servem de introdução para verificar se o romance, de fato, se
entronca numa certa linha da história da literatura nacional.
II
Como sabemos, a representação da vida dos pobres é
uma linha de força poderosa no sistema literário brasileiro.
Dinamizada por várias temáticas, o assunto, desde meados dos anos
70, parece dominado pela violência urbana e pela influência
crescente da indústria cultural. Em certa medida, isto é bastante
compreensível uma vez que, sob o período autoritário da ditadura
militar, a sociedade brasileira experimentou uma longa sucessão de
adaptações aos padrões internacionais: da importação de capitais aos
bens simbólicos. Desta feita, para a ponta precária da modernização
levada a cabo restaram violência e segregação, física e cultural.
No Rio de Janeiro, a construção de conjuntos
habitacionais responde a uma demanda da justa reforma urbana mas
também da segurança das classes médias. Aquilo que, nos centros
hegemônicos do capitalismo, significou a racionalização do problema
habitacional, e, na periferia, poderia resolver o crescimento
desordenado de moradias nas encostas dos morros, uma vez mais
terminou por isolar as classes perigosas do contato com a
classe média radicalizada na sua busca do povo. Uma solução
bastante prática para a intensa politização e esclarecimento das
classes – o eterno temor dos conservadores de então.
Como se trata de um processo social poderosíssimo
cujas conseqüências dão notícias ainda hoje, a literatura não
passou, nem passaria, a ele incólume. Várias respostas literárias
foram dadas a este ciclo da urbanização, no calor mesmo daquele
momento. Daquela época de abertura de profundas marcas do capital em
todas as esferas sociais, retenha-se aquela literatura que mimetizou
o processo pelo ângulo dos pobres. Os nomes de Rubem Fonseca e João
Antonio, por exemplo, não podem ser esquecidos no que tange à
representação literária da vida cotidiana destes setores nos anos 60
e 70. Estes escritores, cada um a sua maneira, trouxeram para
interior de suas obras (contos, em sua maioria) fortes traços da
estrutura social que àquela hora se transformava.
A fim de ilustrar, registrem-se as passagens de
Alfredo Bosi acerca dos contos iniciais de Fonseca, em prefácio a
sua já clássica antologia (1995). Para o crítico, a escrita do
contista representa "a imagem do caos e da agonia de valores que a
tecnocracia produz num país de Terceiro Mundo" (Bosi, 1995, p.18).
Esta narrativa se definiria pela recriação dos ambientes e entorno
das elites cariocas e da periferia, pela língua "rápida, às vezes
compulsiva; impura, se não obscena" (Bosi, 1995, p.18) deste mundo
compulsivo. Não seria exagero dizer que Bosi identifica no emprego
de artifícios antiliterários a estilização da modernização
conservadora, ora em curso, típica da periferia do capitalismo
avançado, cuja assimilação foi penosa para o país. Contudo, estes
procedimentos não teriam vida longa além do sistema de
comportamentos formado pela burguesia letrada internacional de
então. Trata-se do brutalismo, noção que Bosi meio intuitiva
e meio esteticamente atribui à escrita de Fonseca, um tanto chocado
com ela a bem da verdade.
Interessa também recolher, a respeito daquele mesmo
Fonseca, os comentários de Antonio Candido, contidos em seu ensaio
A Nova narrativa (1986). Neste estudo, o mesmo extrato da
literatura nacional abordada anos antes por Bosi, é trabalhado por
Candido numa perspectiva mais ampliada
Sobre Rubem Fonseca, Candido fornece algumas valiosas pistas para
pensar a época e o sistema literário.
Ao caracterizar panoramicamente o período, Candido
ressalta o conjunto formado pelo perverso processo de urbanização e
conseqüentes modificações da estrutura social da periferia americana
bem como a crescente influência dos ideais de consumo, este
"inviável devido à sua [dos pobres] penúria econômica" (Candido,
1986, p. 212). Assim, é mais claro entender como os contos iniciais
de Rubem Fonseca mimetizam a violência urbana. Estes são chamados de
"ultra-realismo sem preconceito" e "realismo feroz". Devem-se
ressaltar, então, três comentários a respeito da ficção fonsequiana:
os recursos empregados, a técnica narrativa e a avaliação crítica de
sua literatura.
A agressão ao seu leitor, objetivo deste escritor,
dá-se em dois sentidos: pelo assunto e pelos recursos usados. Ou
seja, para além das cenas violentas, "a fusão de pensamento e ação,
veiculada pela primeira pessoa do discurso, expõe a brutalidade da
situação pela brutalidade do agente a que a própria voz narrativa se
identifica." (Candido, 1986, p. 212) Tal operação chega, no limite,
a impedir o distanciamento, ou discernimento analítico, entre o
narrador e a matéria narrada.
Para sistematizar e ilustrar os pontos fortes de cada
crítico, o brutalismo do primeiro Rubem Fonseca pode ser lido
como um tipo de ficção que elabora narrativas sobre o cotidiano de
personagens pobres urbanos e de classe média, com algum destaque
para bandidos e marginais, geralmente dessolidarizados pelas suas
relações sociais precárias. No âmbito técnico, esta modalidade
literária se caracterizaria por um tipo de representação que se
queira direta e crua da realidade, auxiliada pelo emprego de
expressões chulas e palavrões e que se perfaz também sob influência
de temas e recursos do cinema. Portanto, o terreno da
linguagem brutalista se consolidaria como uma espécie de unidade
contraditória que combina refino e desleixo, requinte e rudeza, com
destaque para a figura do narrador em 1ª pessoa pois marca a
invenção de Fonseca entre seus contemporâneos.
Por esta via, o campo formado faz do brutalismo
um modo especial de lidar literariamente com um tipo específico de
matéria social brasileira. Para nosso objetivo, então, as afirmações
feitas integram um tipo de plataforma cuja finalidade é acumular
elementos críticos a fim de historicizar o presente. Isto é, permite
um ângulo de observação pelo qual se acredita possível uma análise
da ficção de Paulo Lins.
Importante apontar que as características postas em
relevo são, propositalmente, de cunho generalizante, tendo em vista
sua fácil adaptação aos diversos gêneros narrativos: o conto de
Fonseca e o romance de Lins, em nosso caso específico. Isso foi
necessário pois o objetivo é recuperar o conceito do brutalismo de
modo a verificar sua produtividade em outro gênero e contexto, uma
vez que, tanto a noção descrita por Bosi como por Candido, não visam
além do conto.
III
Feita esta compilação de dados acerca da obra inicial
do autor consagrado e explicitada a hipótese, tenta-se demonstrar
como referida noção serve para pensar historicamente um romance e
sua relação com a sociedade contemporânea. Pelo prisma adotado, cabe
afirmar que a linguagem literária em Cidade de Deus, formada
por um conjunto mais ou menos complexo, formaliza certos aspectos da
experiência contemporânea combinando-os com traços históricos,
sedimentados na matéria que narra. O mesmo com outras palavras: o
romance de Paulo Lins experimenta caminhos abertos pela ficção
nacional dos anos 60/70 e sofre os impasses de um modo narrativo do
atual cotidiano violento dos pobres.
Aparentemente descuidada no trabalho com a linguagem,
com presença de gírias, palavrões e transcrições diretas da
oralidade, percebe-se uma prosa construída por um procedimento um
tanto fértil no panorama literário atual: uma combinação interna à
prosa de ritmo veloz e alto teor imagético, o que sugere alguma
ligação com a linguagem cinematográfica. Com estas características,
o romance de Paulo Lins parece se aproximar daquela ficção
brutalista do primeiro Fonseca. Há outras proximidades, por assim
dizer, formais e de conteúdo entre os dois escritores, entretanto,
aqui será enfatizado o trabalho com a linguagem literária. Mas uma
breve consideração acerca da figura narrativa.
O narrador é um elemento importante para a
compreensão deste tópico por lançar mão de recursos cujos efeitos
dependem do relacionamento com a matéria narrada. De modo breve, há
neste romance um narrador capaz de oscilar no tratamento com o
material narrado. Este movimento da voz narrativa constitui-se pelo
uso do discurso indireto livre, gerando um efeito de aproximação da
cena narrada, e por outro lado o emprego do discurso indireto que
sugere distanciamento da cena. Cada par recurso-efeito
produz, por sua vez, dois tipos de avaliação a respeito do cotidiano
cruel dos bandidos e dos trabalhadores pobres do conjunto
habitacional. Existem, portanto, formas diferentes de crítica à
matéria narrada: o mesmo discurso, de sedução pela barbárie, pode
ser enunciado pelos dois recursos apontados. Do mesmo modo, a
técnica que tende a se distanciar das seqüências violentas pode ser
a mesma que critica o absurdo da brutalidade.
Disto isto, pode-se perceber que, no âmbito de
elaboração da linguagem, Cidade de Deus não se apresenta
apenas como um conjunto discrepante de expressões lingüísticas, mas
sim como uma seqüência de encadeamentos de várias narrativas
pessoais entrelaçadas pela violência histórica e cotidiana. Esta é
uma chave de leitura que dá conta da dimensão histórica interna ao
projeto literário do romance, sua ambição de narrar a tragédia do
dia a dia dominado pelo tráfico de drogas na comunidade do Rio de
Janeiro.
Admitindo a validade de tais pequenos enredos (as
brigas entre casais, as rixas entre grupos rivais, os assaltos e
outros crimes praticados por bandidos e prostitutas, a preparação do
carnaval etc.) entrelaçados, ao longo da história, e transformados
que são pela estruturação do tráfico de entorpecentes, chega-se a
uma outra possibilidade de leitura da organização textual do
romance.
A disposição espacial forma blocos narrativos mais ou
menos extensos, que não resistem, na maioria das vezes, uma página
ou duas. A linguagem, construída de maneira visualmente
entrecortada, insinua-se como significante, portador ele mesmo de
interpretação. Para além da formatação, o caráter fragmentado da
narrativa lhe auxilia no efeito geral de velocidade interna ao texto
e externa, para o leitor. Indo além, esta disposição poderia ainda
ser uma maneira de recortar os vários pequenos enredos e também uma
forma de estruturar os becos, vielas e esquinas do espaço narrado.
Interessa aqui ressaltar que um traço característico
da obra é a interrupção do clímax narrativo. Parece sempre haver um
fato mais importante que surge repentinamente para o qual o narrador
tem de se debruçar imediatamente. O corte da linearidade parece ser
auxiliado pelo corte espacial dos blocos narrativos. Tal é o
procedimento do anticonvencionalismo metódico, que é a matriz
capaz de dar continuidade às descontinuidades internas à estrutura
literária. De modo geral, as ações narradas sempre são interrompidas
antes de seu desfecho, fazendo com que o arranjo, composto de
fracionamento, resulte em suspense (porque interrompe a linearidade)
e impressão de agilidade da narrativa (pois apresenta vários ângulos
e situações narradas).
A partir desta descontinuidade da forma narrativa,
são possíveis duas conclusões: a primeira seria a aguda movimentação
de personagens revelando um sistema de relações sociais internas à
favela. Neste sentido, o enredo focado no coletivo, lembrando as
obras naturalistas, faz com que a multidão de personagens seja uma
exigência da matéria narrada. Como efeito, a linearidade é rompida
apenas na aparência uma vez que há eventos que sugerem
simultaneidade. A segunda conseqüência, prendendo-se ao nível
profundo, seria uma aposta na continuidade dos conflitos da trama.
Se corretos estes argumentos, o conjunto de lutas travadas no enredo
instaura um movimento de movimentos: ao persistirem, os ciclos levam
adiante a narrativa com o citado ritmo sem trégua e a crescente
complexidade do entrecho.
O efeito construtivo é, portanto, o suspense derivado
do arme e desarme das ações cujas conseqüências sempre são adiadas.
A resolução dos conflitos, capaz de reorganizá-los num outro
patamar, é sempre postergada pela introdução de uma problemática
inesperada. Assim, com o entrecho interrompido, as ações encontram
seu desfecho páginas depois. Desta maneira, este procedimento se
adapta, a título de exemplo, à rotina sinistramente repetitiva dos
bandidos e pode ser base de uma aposta na continuidade do próprio
fazer narrativo. Neste caso, as "possibilidades robustas"
(Schwarz, 1999, p.163) exploradas por esta literatura são
configuradas pelo acúmulo de situações aparentemente aleatórias cujo
fim é sempre desencontrado. A recriação ficcional do universo
fechado de Cidade de Deus parece indicar, no âmbito da forma do
romance, uma contradição entre o tema escolhido (a expansão da
criminalidade), intensivamente explorado, e a técnica usada (a
fratura da linearidade).
IV
A recriação em escala numerosa do processo crescente
de violência urbana sugere uma ligação da linguagem literária com a
do roteiro cinematográfico (Id.). Esta proximidade pode ser
explicada por um dos níveis da prosa romanesca: alto teor visual, a
correspondência entre a velocidade das ações narradas e sua
transposição para o texto, o conseqüente ritmo frenético focalizando
a narração e, por fim, o fracionamento da linguagem. Esta combinação
veicula uma estratégia de um narrador cuja visão é caleidoscópica:
tenta registrar, na tensão dos momentos, os vários ângulos das
situações em que recai seu olhar. Importante salientar que este
estilo, por mais que contribua para a quebra da linearidade
narrativa e aumente, por conseguinte, o efeito de velocidade
narrativa, não deixa de estruturar processos, capazes de captar
impasses também sociais (DUARTE, 2006, p.205).
Para além da temática, chega-se então a um ponto da
análise que une ficção e um traço típico da experiência
contemporânea. Avançando nas camadas internas à construção da
linguagem, acredita-se também que o modo de narrar alimenta-se
daquela mesma matriz essencialmente moderna.
Partindo do contexto histórico narrado em Cidade
de Deus e vivido pelo brutalismo de primeira hora de R. Fonseca,
não é exagero imaginar correspondências entre a organização textual
da obra de Lins e os meios de comunicação de massas. É possível
afirmar, então, um forte intercâmbio entre, de um lado, a TV e o
Cinema, e de outro, a Literatura. Isso pode ser percebido em: a)
organização em blocos curtos; b) pelo efeito de suspense – causado
pelas descontinuidades–; c) pela impressão de velocidade – pelas
frases coordenadas e pela continuidade da tensão entre os blocos. A
referência ao contexto histórico é importante pois, no limite, nos
autoriza a crer que a crescente influência, sobretudo, da TV e do
rádio na sociedade brasileira sob anos militares é parte importante
da história contemporânea e, sem a qual a interpretação da forma
literária perde em parte a inteligibilidade.
Presentes no cotidiano de todas as classes, o rádio,
o jornal, a TV, (e de uma parcela, o cinema) condicionam, em maior
ou menor grau, a rotina e a subjetividade dos indivíduos. As raízes
históricas deste processo encontram-se, no entanto, alguns anos após
o golpe de 64, quando o país assistiu ao abandono do cunho avançado
do nacional-desenvolvimentismo, já que o objetivo dos militares era
aliar o progresso econômico ao seu projeto de segurança nacional.
Nesta etapa, a sociedade brasileira abriu-se à importação de bens e
valores da indústria cultural. Tal processo desencadeou o apagamento
das relações entre cultura e política. A sedimentação deste caminho
se deu por, pelo menos, duas vias: pela repressão feroz ao contato
entre as classes e pela intensa censura.
Hegemonizada pelo padrão da cultura de massas, por
sua vez, veiculada pelos poderosos canais da indústria cultural, a
subjetividade é seriamente abalada. Assim, a sociedade brasileira
participa da experiência moderna, novamente, em descompasso frente
às nações centrais. Os reflexos artísticos destas mudanças podem ser
atestados, entre outros, na introdução de procedimentos televisivos
e jornalísticos aos textos literários da época.
Entretanto, se pensarmos, em nosso caso, nos efeitos
de suspense e de velocidade como derivados do anticonvencionalismo
metódico, encontraremos uma dupla chave de interpretação para esta
transposição literária de estratégias da comunicação de massas. Um
tipo ambíguo de tratamento literário da matéria social do qual surge
uma dicotomia: a) uma narrativa de manifestações em perspectiva
histórica, e b) outra que, de modo inverso, que lança mão dos
fragmentos descontextualizados, sem ligação à estrutura profunda do
enredo. Encarada por este lado, a composição narrativa passa a ser
um conjunto amplo de linguagens, cujas referências autorizam a
indicação do brutalismo como uma ficção híbrida, alimentada em parte
pela modernização correspondente ao período militar nacional. Assim,
esta modalidade ficcional pode ser encarada não só pelo seu tema ou
tempo narrativo, mas também por aquela incorporação de técnicas e
procedimentos diversos (em princípio) à linguagem literária.
Admitindo a validade deste argumento, percebe-se a
relação entre a organização dos blocos narrativos da ficção e os da
TV (ou os takes do cinema) que condicionam a atenção do seu
leitor ou espectador, programando-os ao tempo curto de comerciais e
propagandas, bem como ao encadeamento das cenas. A impressão de
velocidade embutida na prosa também pode ser explicada segundo esta
linha: a exposição veloz das imagens supostamente veicula
informações, mas, dada a saturação, impede a reflexão do
receptor que encontra-se na maioria das vezes isolado. Produtor e
produto, em certa medida, da indústria cultural, a leitura do texto
brutalista parece não se dissociar da influência da comunicação de
massas.
Se é verdade que o brutalismo da primeira hora
mimetizava o ritmo social do período militar experimentando técnicas
da insipiente cultura de massa e estilizando hábitos sociais
característicos da época, a ficção de Paulo Lins lança mão destes
recursos trabalhando-os como matéria pré-formada – em certo sentido,
uma forma objetiva – que carrega em si a ambigüidade própria do
ponto de vista narrado. Assim, a representação desta realidade em
Cidade de Deus é contraditória porque oscila entre o consumo
grotesco da violência e a sua crítica.
No entanto, o método de composição e a construção da
linguagem contêm ainda mais uma interpretação. O
anticonvencionalismo metódico pode ser um esforço de disciplina
literária da matéria romanesca que desmente o suposto aspecto
aleatório do enredo. A esta aparência fortuita, a técnica contrapõe
os ciclos de transformações em patamares. O fundamento concreto da
técnica narrativa tem algo a ver com a atual etapa da modernização
periférica. Como expressão possível de um tempo de dissolução das
formações nacionais, o procedimento construtivo de Cidade de Deus
confirma os limites objetivos do ato de narrar na
contemporaneidade: num passo, transpõe a velocidade das imagens sem
contexto e, no outro, resiste ao conformismo, que apaga as relações
históricas, dando-lhes espessura narrativa. Aliás, a tentativa de
dissolver a densidade do presente revela-se também na perda da
memória coletiva, uma das chaves de compreensão da atualidade. Este
certamente um desdobramento do processo de acumulação capitalista,
do qual a ascensão da cultura de massa é contemporânea. A vitória
deste processo histórico, que se acirrou no período militar, implica
em ausência de tradição, o que desautoriza, momentaneamente, a
possibilidade de transformação do real.
No cenário atual, cuja reordenação contra-hegemônica
está fora do horizonte, o texto literário não poderia apontar uma
solução para os conflitos. Sua produtividade frente ao impasse é,
então, insistir pesadamente no lado difícil da experiência
contemporânea. Apoiado que está no travamento das seqüências e
apostando na continuidade do ato de narrar, Cidade de Deus
internaliza, a seu modo, a pressão do processo social em curso.
Referências
BOSI, Alfredo. Situação do conto
contemporâneo brasileiro. São Paulo: Cultrix, 1995;
CANDIDO, Antonio.
A Educação pela noite e outros
ensaios,
São Paulo: Ática, 1986;
DUARTE, Lívia Lemos. "Ação e
narração, em cena Cidade de Deus", In: BUENO, André (org.).
Literatura e Sociedade. Rio de Janeiro: 7Letras, 2006;
LINS, Paulo. Cidade de Deus,
São Paulo: Cia. das Letras, 1997;
SCHWARZ, Roberto. Seqüências
Brasileiras. São Paulo: Cia. das Letras, 1999.
SILVA, Wellington Augusto. Cidade de Deus: Uma leitura formativa
da desagregação. 2007. Dissertação (Mestrado em Teoria
Literária) – Faculdade de Letras, Universidade de Federal do Rio de
Janeiro, Rio de Janeiro, 2007.
Sobre isso, uma nota é válida. Cidade de Deus
pode ser argüido por vários lados e discrepa de uma parte
bastante influente da ficção nacional contemporânea,
entretanto, ao que nos parece, sustenta-se no panorama com
semelhante teor de elaboração artística. O acentuado
preconceito contra o livro talvez se deva a critérios
extra-artísticos (como parece ainda estar em moda na crítica
nacional) do que seu eventual trabalho estético.
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