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RACHEL SOIHET
Doutora em História Social pela
Universidade de São Paulo (USP). Professora do Departamento de
História da Universidade Federal Fluminense (UFF). Pesquisadora
do CNPq. Autora, entre outros livros, de O feminismo tático
de Bertha Lutz. Florianópolis: Mulheres, 2006.
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Preconceitos nas charges de O Pasquim:
mulheres e a luta pelo controle do corpo **
por
Rachel Soihet
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Resumo
Em crônica recente, o
jornalista Fausto Wolff, focalizando um infanticídio,
atribuiu as mazelas das mulheres pobres ao descaso das
feministas, para ele “as verdadeiras campeãs do
neoliberalismo”. Utilizo tal demonstração de misoginia
como mote para uma reconstrução das lutas empreendidas
por feministas nos anos 1970/1980 em busca da cidadania
plena, na qual se inclui o reconhecimento de seus
direitos ao controle do corpo. Nesse particular, destaco
os preconceitos enfrentados, até mesmo no seio dos
próprios feminismos, num momento em que se priorizava a
conscientização das mulheres pobres no que tange à
exploração de classe e à luta pela redemocratização do
país, então imerso na ditadura. Com a abertura política
e o empenho de mulheres em demonstrar a negação imposta
à sua sexualidade, consolida-se a consciência da
relevância dessa questão, em meio a uma forte carga de
pressões que, através da zombaria, visavam ao descrédito
dessas iniciativas.
Palavras-chave:
antifeminismo; feminismos; controle do corpo.
Abstract
In recent chronicle, the journalist Fausto Wolff,
focalizing an infanticide, attributed the problems of
the poor women to the disregard of the feminists, for
him “the true champions of the neoliberalism”. I use
this misogyny demonstration like a motto to the
reconstruction of the fights undertaken by feminists in
the years 1970/1980 searching for full citizenship,
where is included the recognizement of their rights to
the body control. In this particular, I emphasize the
prejudices faced up to, including in the middle of the
feminisms themselves, in a moment that the poor women
consciousness in relation to the class exploitation and
the fight for redemocratization of the country immersed
in the dictatorship. With the political liberalization
and the commitment of women to show the negation imposed
to their sexuality is consolidated the consciousness of
the relevance of this question, in the middle of a
strong charge of pressures, that trough the mockery aim
for the discredit of these initiative.
Keywords:
antifeminism; feminisms; body control. |
Inacreditavelmente, há poucos meses, folheando o
Jornal do Brasil, me deparei com uma crônica de Fausto Wolff na
qual ele relatava um drama que testemunhara quando saía de um
restaurante em Ipanema, na raiz da favela, e encontrou um bebê morto
numa lata de lixo. Tal fato teria lhe provocado pesadelos terríveis
“com uma jovem esgueirando-se na escuridão para depositar seu filho
morto entre outros restos da realidade”.
Uma idéia lhe ocorrera: “Se pelo menos o olhar das feministas
se voltasse para essas mulheres”. Em seguida, relembrava que, ao
surgir o movimento feminista, ele teria acentuado: “Se querem imitar
os homens, que pelo menos imitem os homens decentes”. No que
completa: “Hoje sabemos que aconteceu o contrário”. E continuava sua
peroração:
A maioria das mulheres de classe média deixou
uma babá eletrônica em casa e foi disputar o mercado de trabalho
[...] embora não o saibam, são as verdadeiras campeãs do
neoliberalismo. Aceitam uma paga sempre menor do que a do
candidato homem, pois pelo menos as casadas, têm marido e o
salário dele. As solteiras têm noivos, namorados, moram com pais
ou dividem o apartamento com uma amiga. [...] e as filhas das
feministas mais broadminded, quando são bonitinhas, dão sempre
um jeito de engravidar de algum riquíssimo jogador de futebol,
roqueiro, tenista, piloto de corridas e assim por diante. É a
prostituição light. As feias continuam sendo as professorinhas,
as empregadas domésticas, copeiras, enfermeiras, as balconistas,
as caixas de banco. [...] a grande revolução feminista redundou
na mulher objeto a serviço dos ricos de sempre. Às vezes bem
pagas, deixando a alma e o caráter no caminho. Quase sempre mal
pagas e sempre mal comidas.
Assim, atribuía às feministas os males que se
manifestavam entre as mulheres pobres e que as estariam levando a
cometer o infanticídio. Além disso, velhos estereótipos são trazidos
à tona, desfiando o autor uma série de males resultantes da “grande
revolução feminista” que transformou as gerações que as sucederam
“nas verdadeiras campeãs do neoliberalismo”. Desse modo, as mulheres
competiriam de forma desleal com os homens no mercado de trabalho
aceitando salários menores, já que contavam com o salário de seus
companheiros, e “quando são bonitinhas” exerciam o que chama de
“prostituição light”, ou seja, transformavam-se “na mulher
objeto a serviço dos ricos”, em detrimento das pobres e
feias, estas “quase sempre mal pagas e mal comidas”.
Seu autor, além de primar pelo desrespeito nele
habitual para com as feministas, joga no lixo as conquistas por elas
obtidas na luta que desenvolveram, mais acentuadamente, do final dos
anos 1960 aos anos 1980. Desconhece, assim, a mudança cultural
ocorrida quanto à priorização do estudo e do trabalho para as
mulheres com vistas a transformá-las em sujeitos de sua existência,
no que se vale de má-fé ao reverter seu significado. Cabe acentuar
também a especial contribuição daqueles feminismos para a mudança da
tradicional concepção de política, trazendo à tona temas até então
relegados à sombra, mantidos na estrita esfera da individualidade.
Entre eles, ressaltam-se as questões relativas ao corpo e ao caráter
político da vivência pessoal, acentuando-se a interpenetração entre
público e privado, entre específico e geral.
Assim, ao estabelecer o lema “o pessoal é político”, as feministas
alertavam as mulheres sobre o caráter político de sua opressão, até
então vivenciada de forma isolada e individualizada no mundo do
privado, identificadas suas mazelas como meramente pessoais.
Tais mudanças levaram Celso Furtado, entre outros intelectuais, a
considerar o “feminismo o maior e mais importante movimento deste
final de século”.
Naqueles anos, emergira nos Estados Unidos uma nova
vaga feminista em meio à rebelião contracultural, caracterizada pela
contestação aos valores tradicionais e à sociedade de consumo,
propondo uma série de mudanças em termos de comportamento,
acompanhada pela luta dos negros em busca dos direitos civis e pelos
protestos contra a guerra do Vietnã.
Tal efervescência se manifestava igualmente em muitos países da
Europa, especialmente na França, nos quais tornaram-se emblemáticos
os acontecimentos de maio de 1968.
No Brasil, o reflorescimento feminista ocorreu numa realidade
diversa, em pleno governo militar que ascendera ao poder com o golpe
de 1964, o que concorreu para que assumisse características
peculiares. De um lado, enfrentou a oposição do governo, que via com
desconfiança qualquer forma de organização da sociedade,
de outro, a oposição de grupos de esquerda, que consideravam que a
luta deveria se polarizar contra o governo autoritário e a
desigualdade de classes aqui vigente. Ademais, muitos desses grupos
consideravam o feminismo um fenômeno burguês. Destaque-se nesse
particular o jornal alternativo O Pasquim, o qual, ao mesmo
tempo que se opunha ao regime por meio da ridicularização, voltava
sua mordacidade igualmente para as mulheres que haviam se decidido
pela luta por seus direitos, ou àquelas que assumiam atitudes
consideradas inadequadas à feminilidade e às relações estabelecidas
entre os gêneros. Ridicularizava as militantes utilizando-se dos
rótulos de “masculinizadas, feias, despeitadas”, quando não de
“depravadas, promíscuas”, rótulos através dos quais tais
articulistas conseguiam grande repercussão. Depreende-se dessa
conduta o temor da perda do predomínio masculino nas relações de
poder entre os gêneros, no que evidenciavam forte conservadorismo,
contrastante com a atitude vista como libertária de alguns desses
indivíduos em outras situações.
O autor com o qual inicio este artigo foi um dos mais destacados
participantes daquele jornal, cujo discurso agora reeditava, o que
só poderia se manifestar como uma farsa, lembrando as reflexões de
célebre pensador.
Nesse sentido, não apenas para reconhecer o empenho
daquelas mulheres na luta por direitos que lhes eram negados –
muitos dos quais conquistados, garantindo os seus benefícios às
novas gerações –, mas também para colocar as coisas em seu devido
lugar e, ainda, retrucar às afirmativas do teor acima exposto, cabe
acentuar a significação das lutas então travadas. Naquela
conjuntura, além das demandas pelos direitos sociais, novas questões
foram colocadas pelas mulheres em suas pautas de reivindicações,
distintas daquelas de feminismos anteriores, expressando o momento
histórico em que estavam inseridas. As “políticas do corpo”
assumiram naquele instante um caráter significativo. As
reivindicações manifestavam-se em favor dos direitos de reprodução,
as mulheres buscavam a plena assunção do seu corpo e de sua
sexualidade (aborto, prazer, contracepção) e insurgiam-se contra a
violência sexual, não mais admitindo que esta fosse uma questão
restrita ao privado, cabendo a sua extensão ao público.
E esta não foi uma empresa fácil, já que as mulheres eram formadas
em uma cultura na qual não poderiam dispor livremente de sua
sexualidade.
Manter-se virgem enquanto solteira e fiel quando
casada era sinônimo de honra feminina, que se estendia a toda a
família, significando um conceito sexualmente localizado – violência
que se tornou fonte de múltiplas outras violências. Enquanto aos
homens estimulava-se o livre exercício da sexualidade, símbolo de
virilidade, na mulher tal atitude era condenada, cabendo-lhe
reprimir todos os desejos e impulsos dessa natureza. Mulheres
solteiras que se deixassem desvirginar perdiam o direito a qualquer
consideração e, no caso de uma relação ilegítima, os homens não se
sentiam responsabilizados por sua atuação, devendo àquelas arcar com
o peso das conseqüências do seu “erro”. Afinal, “pureza” era
fundamental para a mulher, e o desconhecimento do corpo representava
um signo de alto valor, num contexto em que a imagem da Virgem Maria
era exemplar. E, assim, mulheres abandonadas expunham sua vida em
práticas abortivas toscas e apressadas, chegando mesmo, algumas
poucas, a se desfazer do recém-nascido nas situações mais trágicas.
Outras que arriscaram viver sua sexualidade fora do casamento foram
assassinadas em nome da “legítima defesa da honra”.
Portanto, a decisão de assumir a sexualidade foi algo demolidor para
as mulheres.
Por outro lado, mesmo no interior do feminismo, no
caso do Brasil, particularmente no Centro da Mulher Brasileira – CMB
do Rio de Janeiro inúmeras foram as dificuldades enfrentadas na
colocação dessa questão. Em coerência com a maioria das sócias, a
agenda feminista priorizava naquele primeiro momento as questões
socioeconômicas, como a inferioridade salarial, a dupla jornada, a
falta de creches etc.,
o que desmente a fala do citado autor sobre a despreocupação das
feministas com as mulheres pobres. Além dessa questão, sobrelevava a
preocupação com a reforma do Código Civil e o engajamento na luta
pela libertação dos presos políticos, com o apoio ao Movimento
Feminino pela Anistia – MFA. “E o Centro foi durante algum tempo um
Centro mesmo de debates, discussão, polêmica, posicionamento
político, isso para nós sempre esteve muito claro”, informa Moema
Toscano.
Assim, eram evitados outros temas vistos como fundamentais a
respeito da opressão das mulheres, tais como a sexualidade, o
aborto, a violência doméstica, bem como a discussão sobre a
assimetria de poder nas relações entre homens e mulheres e a ênfase
em problemáticas ligadas à subjetividade e às relações
interpessoais, aspectos privilegiados nas reivindicações dos
feminismos nos Estados Unidos e na Europa Ocidental. Estes só
deveriam ser discutidos nos grupos de reflexão – aliás, nem sempre
bem-vistos –, a fim de não prejudicar as alianças entre os setores
que se opunham à ditadura, marcadamente a Igreja Católica, aliada
nessa luta.
Cabe mencionar, mais uma vez, que a maioria dos
grupos de esquerda não era simpática às demandas feministas, vistas
como incapazes de atender aos interesses das mulheres trabalhadoras
e desnecessárias em um momento em que se tornava essencial lutar
contra o autoritarismo e debater os problemas sociais do país.
Portanto, consideravam o movimento divisionista, além de julgá-lo um
fenômeno importado, “porque havia, inclusive, uma discussão na
esquerda de que a gente dividia, porque a gente colocava a luta da
igualdade das mulheres, você estava dividindo o movimento
operário”, segundo afirma Hildete Pereira de Melo.
Tal perspectiva revelou-se, porém, equivocada, segundo a entrevista
abaixo:
E aí nós fomos para uma, para uma reunião no
morro do Chapéu Mangueira e tinham me pedido para falar sobre os
direitos trabalhistas das mulheres. Então está bem, querem os
direitos trabalhistas, eu vou falar sobre os direitos
trabalhistas. E aí eu cheguei lá nos grupos das mulheres e o que
as mulheres me perguntavam era isso:
“Como é que eu registro filho? Eu me separei, vivo com
ele...”. Elas queriam saber questões de direito civil, da vida
privada, da relação delas com os homens, companheiros, e não da
relação delas com os patrões. Certo? Então, houve uma demanda
daquelas mulheres e quando nós fizemos a nossa pesquisa sobre
sexualidade feminina, nós fomos entrevistar essas mulheres.
Em que pese tal interesse por parte das mulheres
pobres e o fato de os grupos do CMB, preocupados com tais
problemáticas, também se reconhecerem como de esquerda, nele
predominavam mulheres vinculadas a organizações que subordinavam a
problemática das relações de poder entre homens e mulheres às
questões mais gerais da sociedade. Estas, de acordo com a
perspectiva marxista-leninista, colocavam-se naquele momento como
vanguarda revolucionária do movimento das mulheres, necessária para
orientar as trabalhadoras em sua missão histórica. Buscavam, assim,
legitimar-se articulando-se com os outros movimentos de luta pela
redemocratização do país.
Esse panorama contribuiu para que as mulheres que
divergiam da linha predominante se afastassem do CMB, indo atuar nos
grupos de reflexão, entre elas Maria Luiza Heilborn (Malu), que a
ele retornou em fins de 1978, estimulada com a realização do
I Encontro Nacional de Mulheres programado
para 1979. O momento coincidiu com a entrada no CMB de novas sócias
com experiência de participação em movimentos de liberação em outros
países.
“Fazer algo no Brasil para divulgar o aborto e a contracepção”
e tomar uma posição firme contra a violência em relação às mulheres
eram suas propostas, as quais desencadearam intensas discussões nas
assembléias gerais voltadas para a organização do encontro, a se
realizar nos dias 8, 9 e 10 de março de 1979. Enquanto a sócia Lígia
Maria de Souza Coelho Rodrigues propunha um painel para discussão da
violência contra a mulher – recebendo de uma das componentes do CMB
a observação: “Aqui no Brasil é diferente da França. Aqui no Brasil
mulher que apanha do marido é porque gosta
–, Malu e Maria Helena Darcy de Oliveira (Marhel)
sugeriram os seguintes temas: Saúde e Sexualidade da Mulher (os
projetos de controle da natalidade), Mulher e Anticoncepção (informativo-riscos)
e, o terceiro, Aborto.
De um modo geral, todas estiveram de acordo com os
dois primeiros painéis. Quanto ao último, surgiram discordâncias, do
que resultou a realização de três assembléias.
Na ocasião, uma das sócias reitera sua posição contrária à
introdução desse tema, recorrendo ao argumento de que a realidade da
França e do Brasil era muito diferente, no que se vale do
estratagema, já citado, muito utilizado na época para deslegitimar
tais reivindicações, alegando o seu caráter importado, estranho a
nossa realidade. Completava, ainda, que era necessário considerar a
posição da Igreja, além de duvidar que o CMB estivesse interessado
no tema, já que o número de mulheres presentes era muito pequeno.
Outras apoiaram tal posição, mencionando questões mais relevantes na
sua perspectiva, como o trabalho das mulheres, a necessidade de
locais para deixarem as crianças, salário, referendando a questão de
que a discussão representaria o abandono de aliados. Enfim, as
discussões mantiveram-se acesas, e o tema Mulher e Sexualidade
figurou na programação do evento. Assim, apesar de toda oposição, os
temas foram incorporados e, das oito comissões, nas quais se
repartiram 400 mulheres, duas voltavam-se para a sexualidade e para
a violência, embora a questão do aborto não estivesse presente.
A respeito do fato, afirma Lígia Rodrigues: [Foi] “a primeira vez
que um grupo de mulheres se juntou no Brasil para discutir estupro,
espancamento no casamento, todas essas coisas”.
Tais fatos teriam levado a uma reunião fora do
Centro, em que se elaborou o “Documento das 21”, a ser lido no
Encontro Nacional. Entre aquelas que o assinaram estavam algumas das
sócias fundadoras do CMB e mulheres que buscavam uma aproximação com
o feminismo no Rio, recém-chegadas do exterior que haviam
desenvolvido uma prática com grupos feministas europeus. Nele, após
discorrerem acerca das esperanças iniciais no advento do CMB como um
espaço de troca de experiências e de realização coletiva de
objetivos, pelo despertar da consciência da opressão específica que
recai sobre as mulheres, manifestavam o desapontamento com o rumo
tomado pelo Centro. Criticavam comportamentos e atitudes
autoritárias, a agressividade, a ausência de afetividade entre as
mulheres, a existência de temas tabus, presentes em muitas
assembléias. Enfatizavam, ainda, o desinteresse pelo estreitamento
de laços com outras mulheres numa perspectiva feminista, pelos
espaços abertos pelas associações de bairro, profissionais e de
comunidades. Assim, questionavam como seria possível conhecer a
realidade e a amplitude da sexualidade feminina, diferenciando suas
experiências sexuais dos mitos masculinos impostos às mulheres.
Por meio desse documento, buscavam mobilizar as
mulheres para uma reflexão sobre o feminismo e o CMB, expressando
coletivamente suas críticas e expectativas a fim de transformar a
entidade num espaço que consideravam, realmente, “feminista”. Ainda
propunham que os grupos de reflexão se constituíssem em espaços de
debates entre as mulheres que os integravam, programando e
realizando suas práticas segundo seus interesses e conveniências,
sem vinculação burocrática com o espaço que ocupavam, numa estrutura
descentralizada, em que as reuniões não reproduzissem os modelos
masculinos de hierarquização e competitividade. Frisavam que as
mulheres deviam “assumir suas aspirações e reivindicações
específicas na vida pessoal, política e econômica, fortalecidas por
um movimento próprio, sem subordinação a outros grupos que também
travavam debates e lutavam pela transformação da sociedade”.
Depreende-se que suas signatárias apresentavam
posições próximas do “movimento de liberação das mulheres”, como se
apresentava na França nos anos 1970, ou do chamado “feminismo
radical” dos Estados Unidos. Para tais correntes, o feminismo
significava a aquisição de uma atitude solidária entre as mulheres,
às quais caberia assumir a luta contra as atitudes autoritárias e as
práticas opressoras em todas as instâncias da vida privada e
pública, sem o que não se poderia conceber nenhuma revolução na
ordem social, daí a ênfase do documento na importância de uma
“estrutura descentralizada” para o CMB. Observa-se também que
destacavam a relevância da discussão da sexualidade, considerada por
aquelas correntes como uma questão fundamental à conquista da
autonomia para as mulheres. Ser expropriada do seu corpo era
simplesmente ser expropriada do seu eu.
E tal autonomia seria conquistada pela troca de experiências em
pequenos grupos de autoconsciência, aqui chamados de grupos de
reflexão, espaços nos quais as mulheres compartilhariam experiências
e problemas vivenciados nas relações entre os sexos, como aqueles
relativos à sexualidade, à contracepção, à violência. Tal recurso
possibilitaria constatar a semelhança de inúmeras de suas
problemáticas e a descoberta de que não se tratava de problemas
únicos nem particulares, mas que eram parte da opressão sofrida por
todas as mulheres, dando margem ao estabelecimento da irmandade de
gênero ou da sororidade.
A maioria das mulheres que assinou o documento
citado, após uma assembléia que rejeitou a proposta de uma estrutura
mais descentralizada para o CMB, decidiu-se pelo desligamento do
Centro em abril de 1979, dando origem ao Coletivo de Mulheres – do
qual se desprendeu, em 1981, uma outra organização voltada para a
violência contra as mulheres, o SOS Mulher.
Após a cisão, constata-se, por outro lado, que o CMB passa a
incorporar reivindicações das demais tendências e questões outrora
combatidas com afinco, como aquelas do aborto e da violência contra
as mulheres. Essas questões passaram a integrar as preocupações do
Centro não apenas através da participação de algumas de suas
componentes, mas também por decisões em assembléias gerais.
Tal mudança é confirmada pela física Lígia Rodrigues: “Não, aí
depois que o Coletivo se firmou, o CMB mudou. E depois de
algum tempo. A gente fazia tudo, todo mundo junto”
– o que é ratificado pelas investigações em jornais da época.
Sem dúvida, nesse momento, com a abertura política
intensificada com a aprovação pelo Congresso da Lei da Anistia, em
28 de agosto de 1979, a conjuntura revelava-se mais favorável à
emergência de tais manifestações e à consolidação de suas propostas.
A volta das exiladas com viva influência dos feminismos,
especialmente europeus, e a experiência daquelas que permaneceram no
país nos anos 1970 e construíram os feminismos locais deram a esses
movimentos uma nova configuração. A anistia representou uma época de
maior liberalização, menos repressão e mais possibilidades de
manifestação, até mesmo porque o AI-5 não estava mais em vigor.
Com o fim do bipartidarismo, em novembro de 1979,
surgem outras agremiações, desenvolvem-se associações de diversos
tipos, assim como sindicatos. Isso contribuiu para que muitas
mulheres que permaneciam até então no CMB se decidissem pela atuação
em outros espaços, mais identificados com a postura clássica dos
movimentos de mulheres, sem quaisquer pretensões feministas. Outras
ingressaram, além das que permaneceram e que se consideravam
feministas ou haviam se “convertido” ao feminismo, como é o caso de
Santinha, que confessa ter ido “para dentro do Centro da Mulher
Brasileira levando essas questões marxistas-leninistas”.
Gradativamente, porém, sem abrir mão de desejar a igualdade social,
Santinha passou a considerar que “tem uma coisa que se chama
igualdade de gênero que é uma base superior...”. Verifica-se aqui a
tomada de consciência de gênero como decorrência de sua participação
naquela entidade, parafraseando E. P. Thompson, para quem é no
processo de luta que emerge a consciência de classe.
Nos diversos casos, porém, o termo “feminismo” mantinha-se associado
a diferentes significados e representações.
Na verdade, na década de 1980 os movimentos
feministas no país foram se tornando uma força política e social
consolidada, em que as relações de gênero assumiram primeiro plano.
Campanhas contra os abusos em relação às mulheres ligados a temas
até então ignorados, como a violência física e simbólica, assim como
a questão do aborto, merecem espaço cada vez mais amplo nos meios de
comunicação, um resultado da mobilização das feministas e da própria
modernização da sociedade brasileira.
Assim, a partir desse momento tais questões, antes colocadas em
segundo plano, vistas como próprias da esfera privada, foram
legitimadas e trazidas à esfera pública, reconhecendo-se sua
dimensão política. Parte-se para a afirmação do universo cultural
feminino e temas tabus são trazidos à tona, forçando o alargamento e
a democratização daquele espaço.
Particularmente, a reivindicação em prol de medidas
legislativas pela liberação do aborto galvanizara as feministas na
Europa Ocidental e nos Estados Unidos desde o início dos anos 1970.
Arrancar a sexualidade feminina da dominação masculina passou a ser
uma questão crucial, tornando as mulheres “donas de seu próprio
corpo”, e a maternidade uma opção sua no caso de uma gravidez
indesejada.
Entre as formas de mobilização com esse objetivo
estavam as desafiadoras admissões de culpa por parte de mulheres e
médicos proeminentes. Também nesse movimento incluía-se a cooperação
internacional entre as feministas envolvidas em atividades centradas
na prestação de serviços de aborto. Assim, em 1971, conhecidas
mulheres da Alemanha Ocidental declararam num artigo publicado pela
revista Stern ter interrompido voluntariamente a gravidez.
Esses depoimentos deram lugar a uma mobilização geral,
reivindicando-se a abolição das leis restritivas numa declaração de
apoio contendo 86.500 assinaturas. A mobilização resultou na
aprovação, em 1974, de legislação que garantia a liberdade de
abortar nos três primeiros meses de gravidez. Tal legislação
sofreria, um ano mais tarde, algumas restrições, limitando-se as
situações em que o aborto era considerado legal.
No mesmo ano em que as mulheres alemãs declaravam sua
“culpa”, 343 francesas, entre as quais conhecidas artistas,
diretoras de cinema e escritoras, como Simone de Beauvoir e
Françoise Sagan, lançaram um apelo na revista Nouvel Observateur
para a liberação do uso de anticoncepcionais e do aborto na França.
Também elas confessavam ter abortado e, dois anos mais tarde, 345
médicos admitiram ter feito abortos. Concomitantemente, o Movimento
pela Liberalização do Aborto e da Contracepção (MLAC) abriu várias
clínicas de abortos ilegais. Finalmente, em 1975, foi estabelecida a
legalização do aborto na França, permitido até a décima semana de
gravidez e sujeito à aprovação médica. Em 1978, as mulheres
italianas obtiveram a aprovação de uma lei no Senado
reconhecendo-lhes esse direito. Na Europa, apenas Portugal, Espanha
e Grécia, até aquele momento, não haviam legalizado a prática.
No Brasil, a mobilização a favor do aborto teve
início a partir de um episódio, ocorrido em 8 de janeiro de 1980,
envolvendo a prisão em flagrante de um médico e duas jovens que
recorreram a essa prática numa clínica em Jacarepaguá, bairro da
Zona Oeste do Rio de Janeiro. Um grupo de mulheres, membros do CMB,
tomou conhecimento do fato e decidiu organizar uma manifestação
– que foi realizada no dia 16 seguinte e da qual participaram também
outras mulheres do próprio CMB, do Coletivo de Mulheres, da
Sociedade Brasil Mulher e departamentos femininos de entidades
estudantis. A manifestação visava à liberação das pessoas envolvidas
e desenvolveu uma ampla movimentação, a fim de obter um contato com
o juiz Alberto Mota Morais, encarregado do processo e que se
confessava contrário ao aborto: uma “violência contra os direitos
humanos do nascituro”, segundo ele. O juiz se recusou
a recebê-las, ameaçou-as de prisão e alegou que “a Justiça
não recebe e não admite qualquer tipo de movimento de solidariedade
a um ato criminoso.
Na ocasião, as feministas distribuíram um manifesto no qual
protestavam contra a ilegalidade do aborto, contra a política de
natalidade do governo e se posicionavam pelo direito de abortar como
último recurso, assim como pelo direito de optar por ter ou não ter
filhos.
Além disso, as entidades feministas que promoveram a manifestação se
comprometeram a dar apoio às mulheres envolvidas por intermédio de
duas advogadas colocadas à disposição do caso. Ainda assim, algumas
feministas opinaram que não seria o momento de se iniciar uma
campanha em favor do aborto, acreditando ser “mais importante agora
conscientizar as mulheres sobre o problema, além de realizar
primeiro um trabalho de consulta às mulheres”.
Já Lígia Rodrigues, entrevistada na ocasião, apoiava
integralmente a campanha. Considerava que a legislação vigente se
baseava numa preocupação “absolutamente falsa” com os direitos
humanos, preocupando-se com um coágulo de sangue – “porque o feto de
um mês não passa disso” – e esquecendo o ser humano, que é a
mulher. Na entrevista, ela lembra que, na maioria das vezes, as
mulheres abortam por falta de informações sobre os métodos
contraceptivos. Refere-se, ainda, às dificuldades das mulheres
pobres, cujo índice de mortes por abortos malfeitos era
considerável, além das situações em que tentavam fazer abortos
sozinhas, com a introdução de objetos estranhos no útero,
arriscando-se a sofrer repressões nos hospitais públicos no caso de
hemorragias e infecções. O assunto teria sido objeto de denúncias no
Congresso de Metalúrgicas, em São Paulo, em 1979: “Elas disseram que
quando recorrem aos hospitais por problemas desse tipo os próprios
médicos determinam que a curetagem (raspagem do útero) seja feita a
frio (sem anestesia), como uma espécie de castigo. E nesse caso a
dor é literalmente insuportável”.
Enfim, em meio a essa que seria a primeira
manifestação pública na história do país sobre o aborto, observa-se
uma ampliação dos debates sobre a questão, e o próprio CMB, até
então resistente a essa discussão, em ata da Assembléia Geral de 19
de janeiro de 1980 aprova a sua participação na campanha em favor da
legalização do aborto. Ressalte-se a comunicação estabelecida por
feministas com grupos internacionais, que através de cartas ao juiz
e ao promotor encarregados da ocorrência, desaprovaram a punição
aplicada ao médico, como às demais personagens envolvidas.
A partir desses fatos o assunto vem à tona nos diversos meios de
comunicação. Feministas são entrevistadas valendo-se dos argumentos
utilizados naquele momento, inclusive pelos feminismos
internacionais, para justificar a defesa do aborto:
Nós preferimos analisar a sociedade baseada na
exploração e na opressão, onde a opressão do corpo é um dos
instrumentos. No caso específico das mulheres, nós somos
condicionadas a produzir filhos antes de mais nada e a
corresponder às expectativas da sexualidade masculina. Isto gera
uma ideologia em que a sexualidade feminina é assimilada à sua
função reprodutora e à conseqüente negação dessa sexualidade. De
um ponto de vista mais econômico, os poderes dominantes
manipulam e controlam o corpo das mulheres.
Por outro lado, na mesma entrevista, as feministas
aludem à realidade brasileira. Nesse sentido, afirmam que as
autoridades, preocupadas com o que consideravam uma excessiva
fertilidade das mulheres pobres, pondo em perigo o equilíbrio do
sistema, estavam apoiando a atuação de uma instituição americana, a
Benfam,
a fim de esterilizá-las, até mesmo sem sua autorização.
Contrapunham-se a tal intromissão defendendo o direito de as
mulheres decidirem ter ou não ter filhos. Ao mesmo tempo denunciavam
“essa hipocrisia e ilegalidade do aborto por um lado e a
proliferação de clínicas paralegais por outro” e concluíam: “Na
verdade, a gente considera o aborto como última alternativa”.
A questão torna-se tão candente que atrai o interesse
dos órgãos encarregados da informação do governo militar, que produz
um documento informando a ida de mulheres, identificadas como
militantes comunistas, membros do CMB, ao programa Fantástico,
da Rede Globo, em 27 de janeiro de 1980, para uma entrevista sobre a
legalização do aborto. Conclui o documento que essa campanha teria
“origem e vínculo com o movimento comunista internacional
– algo risível, no caso, já que as grandes campanhas em prol do
aborto têm suas matrizes em países, como os Estados Unidos e aqueles
da Europa Ocidental, centros do capitalismo hegemônico. Além do quê,
no Brasil, pelas razões já comentadas, o Partido Comunista opunha-se
a essa campanha naquele momento.
As feministas procuraram, também, atingir as mulheres
dos segmentos populares através de panfletagens na Feira da Glória,
no Rio de Janeiro, denunciando a criminalização do aborto e buscando
apoio para essa causa. Ainda, para marcar o “Dia de Ação
Internacional”, integrantes do CMB distribuíram panfletos em três
praças da Zona Sul – a praça Nossa Senhora da Paz, o Lido e o Largo
do Machado. Um cartaz apresentava as palavras de ordem: “Que as
mulheres decidam. Nosso corpo nos pertence”. Constavam do
citado panfleto inúmeras reivindicações com relação a medidas
ligadas à saúde reprodutiva, além da denúncia sobre a inexistência
de creches, boas escolas públicas e equipamentos coletivos. Frisavam
ainda a injustiça da legislação em considerar criminosas as mulheres
que abortavam. “Ilegalidade (que) não impede a realização desses
abortos, mas deteriora as condições em que eles são realizados,
tanto do ponto de vista médico, quanto das condições psicológicas
das mulheres”. E finalizava o panfleto: “Pelo direito ao prazer.
Pelo aborto livre e gratuito. Que as mulheres decidam. Nosso corpo
nos pertence.
Aliás, segundo depoimento de Hildete Pereira de Melo, um dos líderes
do Partido Comunista, numa das faixas em que estava escrito o lema
“Nosso corpo nos pertence”, trocou a letra “N” inicial pelo “V” –
fato que demonstra a utilização, também pela esquerda, de recursos
(no caso, a zombaria) para garantir o controle do corpo feminino, o
que só pode ser compreendido dentro do contexto das batalhas em
torno do gênero e do poder. Nesse sentido, considerando-se o
poder na perspectiva foucaultiana, ou seja, em sua multiplicidade,
como algo que circula atravessando o corpo social, apoiando-se nos
corpos e nos atos e exercido através da vigilância.
O citado lema chegou a ser motivo de acirrada
polêmica com Ziraldo, um dos principais componentes de O Pasquim.
O desenhista fez uma charge, publicada no Jornal do Brasil,
na qual modificara o significado da frase, valendo-se de um dos
recursos corriqueiros em relação à representação das mulheres quando
se buscava sua desqualificação. Ao lado do dístico lançado pelas
feministas, apresentava uma mulher com formas das mais exuberantes,
exaltando a sua nudez. A charge provocou a indignação das feministas
envolvidas na causa, diante da importância que atribuíam à questão e
das dificuldades que enfrentavam para propagá-la.

Um pequeno grupo decidiu se vingar pichando o muro da
casa do autor, com a frase: “Ziraldo, o Doca Street
do humor”, provocando uma série de protestos do cartunista, que
afirmava conhecer algumas feministas brasileiras que lhe pareciam
“apesar de profundamente neuróticas, agressivas e carentes, bastante
inteligentes e até mesmo brilhantes. São em geral, muito bem
informadas, cheias de cursos e diplomas. Como, porém, a maioria das
pessoas que se informam deformadamente, não conseguem transar bem a
chamada decodificação da mensagem humorística.”
E a partir daí várias matérias se sucederam, com
Ziraldo externando sua preocupação com o fato de seu endereço, que
até então não figurava no catálogo telefônico, ter se tornado
público. Disse sentir-se ameaçado, assim como sua família, naquele
momento de tensão política. Logo a seguir, em outra crônica, ele
reiterava: “Abaixo o feminismo de Direita!!!”, alegando “Eu não sou
contra a mulher; eu sou é contra burrice!” e censurando o fato
de a “ação” ter sido feita em sintonia com a revista
IstoÉ
.
E a “vingança” foi demolidora, presente em uma série de charges.
Numa delas, um homem informa serem três os mentores da pichação:
“Duas mulheres feias e uma pessoa do sexo masculino ao
volante...” Em outra, o motorista, ao lhe perguntarem como aceitara
a incumbência de “dirigir Fusca de madrugada para feminista pichar
muro”, responde: “Meu sonho mesmo era trabalhar no Lampião”.
Dessa forma, Ziraldo não só aproveitava para apontar o “supremo
pecado das mulheres”, a sua feiúra, como insinuava que o homem
supostamente envolvido era homossexual, revelando igualmente o
preconceito contra esses segmentos.

A questão parecia encerrar-se com uma entrevista
realizada com feministas do CMB.
Nela, ao entrevistar a socióloga Moema Toscano, uma das fundadoras
do CMB, Ziraldo aproveitou para reafirmar os estereótipos,
questionando: “Você é uma mulher bonita. Como é que mulher bonita
vira feminista?” Ao que Moema replica, delicadamente, não
entrando no jogo, sobre a necessidade de se abandonar a idéia de que
a opção pelo feminismo resulta de frustração.
Depois de dois anos, Ziraldo ainda ruminava sobre o
ocorrido. Indagado por Jaguar
sobre a razão de ser odiado pelas feministas, responde: “ o Pasquim
é que virou símbolo do antifeminismo”. E, referindo-se ao episódio,
como de hábito naqueles que visavam desacreditar as reivindicações
feministas, recorria ao velho recurso de considerá-las um fenômeno
importado, além da recorrente alusão à despreocupação das
feministas, e mesmo sua responsabilidade, a respeito da desigualdade
entre as mulheres:
o feminismo é tão atabalhoado como qualquer
outro movimento novo. [...] O Pasquim
caiu de pau no feminismo pelo lado grotesco da proposta, porque
o feminismo brasileiro, na verdade, foi uma importação de
postura. Ora, vir com esse papo de igualdade? É o cacete! E a
mulher da favela? Agner e Hubert têm uma charge de uma empregada
dizendo “Madame, chegou a hora do teu programa”. Na TV, um
programa feminista. Não acho ruim o movimento porque gosto de
tudo que é novo. Tô aberto. Mas admito a hipótese de serem
atabalhoadas como crianças, metendo os pés pelas mãos.
Observe-se a presença nesse trecho de argumentos
similares àqueles utilizados por Fausto Wolff para desacreditar os
esforços das mulheres na sua luta pela liberação dos preconceitos
que sobre elas incidiam. Assim, é reiterada a concepção do caráter
exógeno do “feminismo brasileiro”, concepção presente em outros de
seus companheiros de jornal, como Millôr Fernandes, em charge datada
dos primeiros anos das movimentações feministas, como se observa a
seguir.
No mesmo trecho citado, Ziraldo busca acentuar o caráter secundário
das reivindicações feministas diante das desigualdades de classe.
Nesse sentido, aliás, explicita a omissão e a
responsabilidade daquelas pela situação das
mulheres pobres, presente no diálogo entre a patroa e a empregada.

Mais adiante, em outra peroração, volta a atacar as
feministas e, como outros, atribui a presença do movimento no Brasil
a uma tendência de imitação: “São umas babacas, idiotas,
compradoras de emoção! Preferem importar do que viver”. E aproveita
para descarregar seu moralismo: “Não adianta fazer feminismo
enquanto as mulheres estiverem despojando (...) seus corpos nus e
entregando para os outros”, além de acentuar um velho
argumento de que as feministas “partem de uma premissa errada. Não
existe nenhuma luta pela igualdade. O feminino e o masculino são
duas coisas distintas”.
Afirmação que se coadunava com uma outra feita alguns anos antes,
quando rebatia uma colocação de Betty Friedan, em que ela enfatizava
a importância de que “devíamos deixar de nos ver através de
categorias sexuais para nos ver apenas como seres humanos (...)
capazes de livremente nos amar, uns aos outros”. Ziraldo retruca:
“No ato sexual, nós realmente precisamos uma certa submissão da
mulher. Isso não é apenas uma tradição: é importante para nós.”
Apesar desse contexto manifestamente hostil, as
feministas conseguiram assegurar inúmeras conquistas, observando-se
uma profunda mudança cultural acerca das posições femininas na
sociedade. Por outro lado, no que tange ao controle sobre o seu
corpo, não foram alcançadas todas as suas reivindicações, em
especial com relação ao aborto. E, não obstante as acusações de que
essa seria uma demanda das mulheres dos segmentos médios, sobretudo
as mulheres pobres seriam as suas grandes beneficiadas. Isso porque,
no caso de uma gravidez indesejada, elas são obrigadas a recorrer
aos métodos mais precários, com grave prejuízo de sua saúde. Nesse
sentido, rechaça-se a pecha que ainda hoje se pretende impingir às
feministas, de serem as responsáveis pelas vicissitudes por que
passam aquelas desprovidas de recursos, como de forma malévola o faz
o conhecido articulista, cuja crônica dá início a esta reflexão.
Apud AUGUSTO, Sérgio. É isso aí... O Pasquim,
n. 312, Rio de Janeiro, 20 a 26 jun. 1975, p. 3.
TOSCANO, Moema. Entrevista concedida à autora em 17 jun.
2003.
BARSTED, Leila Linhares. Entrevista concedida à autora em 13
abr. 2004.
RODRIGUES, Lígia Maria Coelho. Entrevista concedida à autora
em 1 fev. 2005.
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