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FRANCISCA
VERGÍNIO SOARES
Doutora em Ciências Sociais (Antropologia)
pela PUC/SP. Diretora e Pesquisadora do Observatório Social
Londrinense de Estudos da Violência, Conflito
e Segurança
Pública
– OBSOCIL; Docente da
Faculdade
Norte Paranaense –
UNINORTE e docente
licenciada
da Universidade
Cândido
Mendes, Rio de Janeiro.
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Tropa de Elite e a
banalização
da violência institucional
por
Francisca Vergínio Soares
Mesmo
sendo um filme cujo enredo se diz fictício,
o filme
Tropa de Elite,
homônimo do livro
Elite da Tropa,
não é tão
fictício como
parece, considerando que os
autores
do livro tiveram uma experiência no campo
da segurança
pública.
Um deles é o
antropólogo
Luiz Eduardo Soares, que no Governo
de Anthony Garotinho, no Rio de
Janeiro, foi coordenador de
Segurança, Justiça
e Cidadania no
período
de 1999 a 2000 e secretário
nacional
de Segurança
Pública
em 2003,
no primeiro
Governo Lula.
São autores também
André Batista e Rodrigo
Pimentel que, durante a década de 1990, integraram o
Batalhão
de Operações
Policiais
Especiais da
Polícia
Militar do Rio e Janeiro (Bope).
O filme tem
sido alvo de várias análises,
aliás, como
todos os filmes
brasileiros –
como
‘‘Central do Brasil’’ e ‘‘Cidade de Deus’’
entre outros
– que procuram
retratar
o cotidiano
popular
enfocando determinados problemas sociais.
No caso do filme Tropa
de Elite, o que
chama a atenção
é a reação do
público
durante o tempo
em que
a história (?) transcorre. Há
uma certa empatia
do público,
principalmente
quando o
personagem
do ator Wagner
Moura,
aliás, de um
convencimento que
causa perplexidade, o Capitão
Nascimento, usa de
métodos
condenáveis para
conseguir
suas informações.
A cena
deixa
a impressão
que
ainda estamos nos
anos de chumbo
da ditadura
militar. Neste aspecto, chamo a
atenção
quanto à idéia
de segurança
pública
no que se refere ao
entendimento
da sociedade, ou
seja, todos
nós
que assistimos ao
filme.
O que quero dizer? Continuamos a aplaudir
uma polícia
violenta
e que tem
autonomia,
não sei ainda
se relativa
ou
absoluta, mas
que executa suas
ações centradas no
fazer
‘‘justiça a
qualquer
preço’’ ou
conseguir informações, independente
se os métodos
empregados
sejam ou
não
discricionários
porque
os fins justificam os meios.
Estaria no inconsciente coletivo a idéia
de que
segurança
pública tem a ver
com o aperfeiçoamento do aparelho repressivo
do Estado
sem
levar em consideração que
esse tipo
de política é
incompatível
com a democracia?
Como convencer
as pessoas
que
assistiram ou assistirão ao filme sobre sua responsabilidade
na compreensão desse problema?
O contexto do filme, embora
seja o Rio de
Janeiro,
não é diferente
do que tem ocorrido
em
outros centros
urbanos em
relação à
violência
e todos somos chamados a
repensarmos nossas posturas
sobre
se queremos ou
não
uma polícia cidadã.
É preciso perceber que o ‘‘filme mostra que as regras atuais e as condições
sociais de nossa
sociedade nos
condenam a repetir continuamente um processo de corrupção e violência
policial inaceitável’’,
declarou o diretor José
Padilha.
Na verdade, à
sociedade
ou pelo menos em alguns setores
dela, parece normal o uso da violência
para arrancar confissões dos supostos
bandidos capturados. O
aspecto
negativo do filme
é que
ele
pode contribuir
ainda
mais para reforçar o cansaço do público na espera por uma política
de segurança centrada
não
somente no puro
uso da violência.
Ou seja, é temível
que
possa se reforçar
ainda
mais a idéia
de uma cultura
que
acredita que a
violência
urbana possa ser
solucionada pela
violência.
Por
isso, é interessante chamar
a atenção
para que o mesmo seja visto
não apenas
como entretenimento,
mas como
um instrumento
de reflexão
sobre
a urgência de se
pôr
em prática
uma política de
segurança
que não
incentive ainda
mais
a violência
através
do confronto, da
pura
vingança e da desvalorização
do policial que
cotidianamente põe
em
risco sua
vida. Aliás,
tem crescido o número de policiais mortos
em confronto,
em execuções
por meio
de ataques
surpresos
de grupos do
crime
organizado.
Desde os
anos de 1980, quando se iniciou o processo
de democratização do país, os sucessivos governos
não conseguiram definir
uma política de
segurança
que pudesse dar
conta da ‘‘criminalidade
nova’’ que
assolou os Estados. O filme expõe essa problemática
e mostra o
que
está no mundo
real:
que as ‘‘políticas’’
de segurança não
prescindem da violência
policial
no combate à
criminalidade,
que a corrupção
está profundamente arraigada
nas instituições, que
existe uma forte
relação
entre violência
e corrupção, que
há uma linha
muito
tênue entre
a barbárie e a
civilização,
que o tráfico
de drogas
só
persiste porque há
quem
o sustente, que se
ele
- tráfico - está nas comunidades pobres
é porque o
poder
público perdeu
sua
legitimidade, etc.
Parafraseando o antropólogo
Rodrigo Gomes Guimarães, Padilha ‘‘apostou na
inteligência
das pessoas fazendo
um
filme inteligente,
porque não
aponta ‘‘causas’’
ou
‘‘soluções’’; ‘‘deixa-nos
pensar’’.
Então é preciso
sair do estado
apático em
que nos
encontramos acreditando que apenas o uso da
força vai resolver
o problema da
violência. Uma política
de segurança
pública inclui
antes
de tudo,
mudança
de mentalidade
porque
há uma consciência
coletiva
que reduz a
violência
em dois pólos: os ‘‘bons’’
e os ‘‘maus’’.
O filme Tropa de Elite
deve despertar a
consciência
do público no
sentido
de que veja uma
outra
possibilidade de segurança
pública
que desestimule as
corrupções
policiais, que
construa uma nova
relação
do cidadão
comum
com a polícia,
que, independente
de se ser favorável
à descriminalização das drogas,
a sociedade precisa encarar esse debate; etc. O filme
e a situação a
que
chegou o acumpliciamento de certos setores do poder público com a criminalidade em
tempos
contemporâneos,
nos remete aos
anos
de 1970, período
em
que o bandido
Lúcio Flávio, dizia não
negociar
com agentes
da segurança, sua
máxima era: bandido é bandido, polícia é polícia,
como água
e azeite
não
se misturam.
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