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DENIZE CAROLINA AURICCHIO ALVARENGA DA SILVA
Historiadora pelo Centro
Universitário Fundação Santo André, especialista em História,
Sociedade e Cultura pela Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo. Atua como educadora em escolas e museus
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Folcloristas brasileiros no fim do século XIX e o pioneirismo de
Alexandre Mello Moraes na ciganologia brasileira
por
Denize
Carolina Auricchio Alvarenga da Silva
O presente trabalho tem por objetivo um estudo da
historiografia existente acerca do povo cigano baseado na obra de
Alexandre José de Mello Moraes Filho (1844-1919), um dos principais
estudiosos da Ciganologia. A literatura que se refere ao tema surge
no Brasil em 1885, período de valorização da cultura brasileira com
os folcloristas.
Apresentação e hipóteses para a origem dos Ciganos
A curiosidade acerca de grupos ciganos não é nova. Do
mesmo modo que sempre chamaram atenção também causaram medo e
repulsa. O que faziam aqueles grupos nômades com mulheres nas ruas
lendo a mão de outréns? De onde vieram e como aprenderam tal ofício?
As primeiras explicações populares eram apenas
negativas: ladrões, vagabundos, pedintes. Mas aquelas pessoas com
hábitos tão próprios deveriam ter algum diferencial a mais do que
estas qualificações simplistas e preconceituosas.
Embora este povo tenha se inserido em nossa sociedade
a partir de 1574, apenas em 1885 aparece seu primeiro estudo, ou
seja, uma diferença de 311 anos. E desde o início da Ciganologia no
Brasil o autor mais citado em diversos trabalhos
é Alexandre José de Mello Moraes Filho (1844-1919), não
apenas por ser o precursor, mas pelo estudo realizado com pesquisa
documental e de campo.
Não podemos lidar com a trajetória cigana da mesma
forma com que tratamos do percurso de outros povos que possuem
documentos e registros escritos pelos próprios. É um povo iletrado e
a sua história é contada a partir do contato com outras sociedades;
os interessados na reconstrução de sua história usaram,
principalmente, acervos de arquivos oficiais de locais por onde eles
passaram.
Além disso, precisamos lidar com o imaginário popular
que abrange mitos, lendas e demais representações simbólicas sobre
desta minoria. Por não professarem a mesma religião local, por seus
costumes, por ser um grupo fechado, por danos que causaram, pelas
perseguições, são julgados como ladrões, hereges, vagabundos; e
qualquer indivíduo identificado como pertencente a este grupo é,
através de uma imagem pré-estabelecida, analisado negativamente.
Estes estereótipos constam de livros de literatura até de
dicionários, como a descrição relatada no Pequeno Dicionário
Brasileiro da Língua Portuguesa de Aurélio Buarque de Holanda
Ferreira (Cia. Ed. Nacional, 11º edição, São Paulo, 1977 pg. 105) “
Cigano: s.m. Homem de raça errante, que vive de ler a ‘buena
dicha’, barganhar cavalos, etc. (sin.: gitano, em São Paulo e
no centro de Minas Gerais, quico). Indivíduo boêmio, erradio, de
vida incerta, vendedor ambulante, adj. Ladino, trapaceiro, errante,
boêmio”.
Sobre suas origens ainda trabalhamos com hipóteses.
Já foram levantadas possibilidades de procedência como a indiana,
egípcia, de locais da Ásia como a Tartária, Mesopotâmia, Cáucaso,
Fenícia ou Assíria. Essa problemática trouxe lendas, opiniões e
proposições que variam de relatos bíblicos, de explicações através
de suas profissões, a análises comparativas de seus costumes e
linguagem com outros de diferentes povos, o que é bastante
complicado, pois, por onde passavam adquiriram diversos costumes.
Ainda há divergência entre pesquisadores da ciganologia, mas os
estudos mais recentes apontam para a origem indiana.
A respeito de sua dispersão, sabemos que há séculos
eles percorrem diversos territórios pelo mundo. Examinando obras
disponíveis podemos trilhar, da melhor forma, a época e o caminho
que os ciganos fizeram. Com as informações obtidas, acredito que os
antepassados dos ciganos foram identificados por volta de 1050
através de uma solicitação do imperador de Constantinopla de
feiticeiros e adivinhos chamados de Adsincani para matar uns animais
ferozes. Alcançaram a região dos Balcãs nos primeiros anos do século
XIV e depois de um período de 100 anos já estavam espalhados por
toda a Europa. Distribuíram-se por várias zonas geográficas da
Europa, mas as razões históricas que levaram ao seu nomadismo
devem-se essencialmente à sua difícil integração social. Os
preconceitos e a hostilidade geraram diversos tipos de perseguições:
eram vistos como malditos ou enviados do demônio, o fato de
praticarem a quiromancia e adivinhação fez com que fossem repudiados
e excomungados pela Igreja Católica, foram vítimas tanto da
Inquisição quanto do Holocausto, proibidos de usar os seus trajes
típicos, de falar a sua língua, de viajar, de exercer os seus
ofícios tradicionais ou até mesmo de se casar com pessoas do mesmo
grupo étnico, escravizados em locais como Romênia, Sérvia e Hungria,
esquartejados e enterrados vivos em pântanos. Acusados de heresia,
bruxaria e diversos crimes na Península Ibérica.
Sem ter uma pátria, a história comprova que o grande
talento dos ciganos foi conseguir sobreviver em meio aos mais
diversos povos e para resistir aos golpes de repulsa e assimilação
forçada, permaneceram valorizando suas tradições.
No Brasil, não muito diferente de outras partes do
mundo, o cigano era reduzido a um estereótipo contrário a boa
sociedade. Através da legislação portuguesa sabe se que o primeiro
cigano a chegar ao Brasil foi José de Torres, pertencente ao grupo
Calon, pois dele se dá noticias na solução de D. Sebastião em 1574,
pela qual a pena de Galés que lhe fora imposta foi o desterro para o
Brasil com mulher e filhos. A presença de ciganos em nosso
território é constante a partir do século XVII e isso é comprovado
através de alvarás como o de 1689 que trata da deportação deles para
o Maranhão. Desde sua chegada incomodaram e se transformaram em
motivo de vários alvarás.
Os ciganos vêm sobrevivendo há séculos como uma
minoria espalhada pelo mundo e tem condições de sobrevivência como
grupo étnico inserido em diferentes sociedades dominantes, pois sua
organização social lhe oferece mecanismos para continuarem
essencialmente fechados, com modo de vida próprio, sem necessidade
de se prender, quer a contextos geográficos quer a sociais,
econômicos ou políticos.
Acreditando no método de convivência direta com o
grupo, o estudioso Alexandre Mello Moraes Filho analisa suas
influências na nossa formação. Chega a afirmar na obra de 1886 que
“... a reprodução entre si (dos ciganos) deu-se em grande escala; o
cruzamento com as três raças existentes efetuou-se, sendo o cigano a
solda que uniu as três peças de fundição da mestiçagem atual do
Brasil.” (MORAES FILHO, 1886:27).
Foi o primeiro tradicionalista do seu tempo, encabeçando campanha
pela valorização de festas, autos e bailes populares, muitos dos
quais encenou. O Cancioneiro dos
Ciganos e Ciganos no Brasil foi o livro pioneiro nos estudos
ciganológicos no Brasil e traz um autor - segundo Silvio Romero, dos
mais conhecedores da literatura contemporânea brasileira.
No século XIX há a valorização das manifestações
populares e com isso a criação e o desenvolvimento dos estudos
folclóricos na Europa (período de organização e formação dos
Estados) e América como forma de oferecer elementos para definir a
nação. Esses estudos variavam de elementos da cultura popular
oriundos de grupos maiores - como os negros no Brasil - e de menores
como no caso do trabalho sobre ciganos de Mello Moraes. Essas
pesquisas possibilitavam discutir elementos para a nacionalidade
brasileira.
Precursor da Ciganologia brasileira – segundo Silvio
Romero um dos autores mais conhecidos da literatura contemporânea
brasileira - Alexandre José de Mello Moraes Filho (1844-1919) nasceu
em Salvador a 23 de fevereiro de 1844, foi jornalista, cronista,
poeta e médico formado na Bélgica. Matriculou-se no seminário de São
José no Rio de Janeiro, mas não ficou até a ordenação, mesmo tendo
pregado determinados sermões. Fez do jornalismo e da literatura
instrumentos para divulgar valores nacionais, pesquisas e estudos
folclóricos. Redigiu o jornal Eco Americano em Londres; foi diretor
do Arquivo Municipal do Rio de Janeiro até 1918; animador cultural,
fazendo campanhas para valorizar as festas tradicionais e encenou
cultos e bailes populares. A partir dele se lançou às sementes da
Ciganologia no Brasil, especificamente na cidade do Rio de Janeiro
nos fins do século XIX. Marca o início dos estudos que tardaram em
se consolidar.
Posteriormente temos no Brasil, como destaque, o
trabalho de José B. D’Oliveira China (1936). China em seu livro
Os Ciganos do Brasil faz um estudo bastante satisfatório, usando
como fontes outros autores, jornais, alvarás, dicionários
históricos, geográficos e etnográficos. Ele aborda detalhadamente na
primeira parte do livro as hipóteses de origens; a dispersão pela
Europa e, posteriormente, Brasil; suas adaptações; na segunda parte
trabalha os subsídios etnográficos, ou seja, características físicas
e a terceira parte baseada nas contribuições lingüísticas com
informações sobre o dialeto cigano e comparações com outros idiomas,
origem de suas palavras e as diferenças notadas em seu vocabulário
que varia devido a sua localização.
O primeiro livro de Mello Moraes a respeito deste
grupo foi O Cancioneiro dos Ciganos – com trovas líricas,
elegíacas, funerárias e cantigas – em 1885 e em 1886
complementou seu estudo com Os Ciganos no Brasil. Seu
trabalho é baseado em depoimentos e convivências com aproximadamente
500 ciganos, além de outras pesquisas de autores europeus,
Ordenações e Cartas de Lei. Pelo fato de ser um estudo precursor
seus sucessores enriqueceram muitas de suas informações e também
contestaram outras.
A respeito da obra de Mello Moraes, o livro possui
falhas advertidas por Silvio Romero como superstições que Mello
Moraes Filho julgava serem ciganas, mas na verdade eram européias.
Há exageros como a referência que os ciganos fazem parte da
miscigenação nacional assim como os negros, portugueses e índios,
eles não vieram em número suficiente para isto. O livro não faz
citações sobre nenhum tipo de costume alimentar, apesar de serem
nômades e se adaptarem as condições locais, não há informações sobre
estes hábitos. Mas nada que diminua seu valor histórico, tanto sua
importância no período que foi escrito quanto hoje, mais de cem anos
depois e ainda livro mencionado em diversas outras obras.
Como avanços da pesquisa de Mello Moraes, devo
destacar a preocupação com o vocabulário – o que não ocorre
comumente -; com as trovas e cancioneiro como forma de conhecer as
artes; é interessante a utilização de bastante documentação e
relatos de convivência; rezas (crenças) e a vida de personagens como
o Sr. Pinto Noites.
Quanto à importância da obra, é fundamental para se
iniciar os estudos sobre este povo, pois abrange vários aspectos
importantes e é referência para diversos livros posteriores, tanto
pela rica documentação que utiliza, quanto pela convivência que o
autor teve com os ciganos - a rigor as ciências do século XIX
postulavam distância para um trabalho crítico, o que Mello Moraes
ignorou.
No contexto atual onde os estudos culturais ganham
grande espaço, a releitura da obra dos folcloristas expõe um rico
exercício de repensar como foram sendo construídas as imagens
nacionais e as interpretações destes estudiosos.
Referências
CHINA, José B. d’Oliveira. Os
Ciganos do Brasil – Subsídios Históricos, tnográphicos e
Linguísticos. São Paulo; Imprensa Official do Estado, 1936.
MORAES FILHO, Mello. Os Ciganos no
Brasil e Cancioneiro dos Ciganos. São Paulo; Itatiaia,
1886.
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