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RODRIGO FREIRE DE
CARVALHO E SILVA
Professor Assistente de Ciência
Política (UFPB). Mestre em Ciência Política (UFPE). Doutorando
em Ciências Sociais - Estudos comparados das Américas (UnB).
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Coalizões partidárias de centro-esquerda: o que a experiência do
Chile tem a ensinar ao Brasil?
por
Rodrigo Freire de Carvalho e Silva
 Mais
uma vez, Brasil e Chile se encontram historicamente. Em ambos os
países, governos de centro-esquerda, eleitos em processos
democráticos, ocupam o posto mais alto do Executivo Nacional. Lula e
Michelle Bachelet são presidentes de seus países, militam em dois
dos mais importantes partidos de esquerda da América Latina, o PT e
o PS, respectivamente, e governam em conjunto com partidos de
centro. Também em suas preferências políticas, parece haver
convergências: a prioridade no crescimento da economia, combinado
com rigor fiscal, estabilidade macro-econômica e com políticas
sociais de natureza redistributiva, onde o Estado e os gastos
públicos aparecem como fatores essenciais para a diminuição da
pobreza, são características de ambos os governos.
Esta opção de políticas públicas tem valido a ambos a
depreciativa qualificação de “neoliberal”, por seus opositores de
esquerda e, inclusive, de direita. Mesmo que eu reconheça que
existem personalidades claramente neoliberais nestes dois governos -
como, por exemplo, o presidente do Banco Central brasileiro,
Henrique Meirelles -, este qualificativo não me parece o mais
apropriado para estes governos em seu conjunto. A preocupação, em
ambos os casos, com a diminuição da pobreza, materializada no
incremento dos gastos sociais públicos e na positiva intervenção do
Estado, certamente, não é característica de um modelo neoliberal.
Para os neoliberais, o mercado é o principal
mecanismo de desenvolvimento em uma sociedade, então, para eles, o
crescimento da economia e a conseqüente geração de empregos
bastariam para combater a pobreza. Ao máximo, o Estado deveria
preocupar-se em garantir segurança jurídica e educação pública, esta
última apenas nos níveis adequados para incentivar a formação de uma
mão de obra medianamente capacitada para servir ao mercado. A
eficácia das políticas sociais dos dois governos em questão na
diminuição da pobreza, inclusive na geração, direta e indireta, de
novos empregos, comprova a impropriedade do paradigma neoliberal.
Não é este, entretanto, o ponto central deste artigo,
onde a comparação entre as experiências do Brasil e do Chile se dará
a partir de um enfoque mais institucional. A capacidade de
construção e de manutenção de uma coalizão de partidos é o que me
interessa particularmente. Nesta matéria, os atuais governos do
Brasil e do Chile também coincidem: ambos optaram pela mesma
estratégia de construir coalizões de partidos de centro-esquerda
como mecanismo de conquista do poder. A diferença entre os dois
casos se relaciona com a estabilidade de ambas as coalizões e, por
sua vez, a estabilidade se relaciona com as diferenças observadas na
construção das coalizões brasileira e chilena.
O ambiente institucional do Brasil é muito confuso,
marcado pela exótica e original combinação de elementos como:
federalismo; sistema eleitoral proporcional para eleição de
vereadores e deputados, com lista partidária aberta e possibilidade
de coligação entre partidos nesta disputa proporcional; distritos
eleitores de alta magnitude; possibilidade de troca de partidos por
políticos no exercício de um mandato popular; orçamento autorizativo,
definido pelo Congresso Nacional e executado pelo Executivo Federal.
O curioso é que esta combinação foi legada pela Constituição Federal
de 1988, redigida por parlamentares democraticamente eleitos após a
ditadura militar.
Como resultado, temos no Brasil um Congresso Nacional
fragmentado em muitos partidos (atualmente, são 20 partidos
parlamentares) e interesses regionais. Muitos destes parlamentares
foram eleitos exclusivamente por causa das coligações que firmaram
nos seus estados - ou seja, se não existisse a possibilidade de
coligação nas eleições parlamentares, muitos partidos não estariam
sequer representados no Congresso. Os parlamentares brasileiros, em
sua maioria, se mostram dispostos a negociar, fisiologicamente, com
o Executivo, liberação de recursos orçamentários para sua base
eleitoral, em troca do apoio ao governo no Congresso. È comum que
políticos mudem de partido, inclusive durante o exercício de um
mandato, e estas mudanças ocorrem, principalmente, para partidos
governistas. Entretanto, logo que um político se sinta
“desprestigiado” pelo governo, pode tranquilamente mudar de partido
outra vez. Ou seja, as lealdades parlamentares ao governo são
inteiramente difusas.
Tradicionalmente, os partidos dos Presidentes da
República são muito atrativos para os parlamentares brasileiros.
Assim foi com o PMDB de Sarney, com o PRN de Collor e com o PSDB de
Fernando Henrique Cardoso, cujos partidos cresceram muito em
representação através de migrações de parlamentares. Entretanto, o
mesmo não acontece com Lula. Sendo o PT um partido ideológico e
internamente muito fechado, os parlamentares que querem aproximar-se
do governo buscam outros partidos da base governista. E são muitos
os partidos governistas no Brasil, da esquerda à direita.
Um partido de centro como, por exemplo, o PMDB - o
maior do Congresso -, que está representado no governo em
ministérios importantes e com grandes orçamentos, como os
ministérios da Saúde e dos Transportes, tem alguns líderes regionais
- sejam parlamentares ou governadores de estado - que são fortes
oposicionistas de Lula. O mesmo acontece com outros partidos de
centro e de direita da base governista. Mais um exemplo: o ministro
responsável pela articulação política com o Congresso, José Múcio, é
de um partido, o PTB, cujo presidente nacional é um dos mais duros
críticos de Lula. Os partidos da esquerda governista, não obstante
serem os mais fiéis ao governo, não têm mais do que 30% da Câmara
dos Deputados (o PT, o segundo maior partido da Câmara, tem pouco
mais de 15%), e estão em disputa para apresentar o candidato
presidencial para as próximas eleições. Ou seja, neste cenário que
Sérgio Abranches muito bem chamou de “presidencialismo de coalizão”,
não é fácil a vida de um presidente brasileiro. Mesmo os presidentes
mais populares, como Lula, têm que equilibrar-se em uma obrigatória
coalizão muito pouco estável, cujo principal estímulo é o
fisiologismo.
Neste sentido, a Concertación, coalizão de
partidos de centro-esquerda que governa o Chile desde o regresso da
democracia, em 1990, me parece uma coalizão muito mais exitosa. É
certo que, no Chile assim como no Brasil, os elementos
institucionais praticamente obrigam os partidos políticos a se
aproximarem, em coalizões. Com o sistema eleitoral binominal,
me parece quase impossível que um partido sozinho atinja maioria
absoluta no Congresso chileno. E mesmo com o chamado
“super-presidencialismo” chileno, nunca é cômodo, para um
presidente, governar sem maioria parlamentar. Por outro lado, mesmo
que obtenha uma pretensa maioria absoluta, em um sistema
pluripartidário como no Brasil e no Chile é sempre perigoso e
incômodo para um partido governar sozinho. Quase como regra, os
sistemas pluripartidários (sejam parlamentaristas ou
presidencialistas) são caracterizados por governos de coalizão.
Não me parece que o mais adequado para o Brasil seja
a adoção de um sistema eleitoral como o binominal chileno, nem
sequer de um sistema majoritário para a eleição de deputados e
vereadores, mesmo que acredite que o sistema proporcional brasileiro
precisa de muitas mudanças - por exemplo, o fim das coligações entre
partidos políticos e da lista partidária aberta. Assim mesmo, vejo a
experiência da Concertación como exemplar para o Brasil.
Mesmo os críticos do projeto político da
Concertación têm que reconhecer que ela é uma coalizão
vitoriosa, já que conseguiu atingir todos os objetivos de qualquer
coalizão de partidos: elegeu todos os presidentes desde o regresso
da democracia; garantiu estabilidade política e apoio parlamentar a
seus presidentes e; teve sucesso na execução do seu projeto
político. Nestes anos da Concertación, a democracia se fez
realidade, o Chile é a nação mais globalizada da América Latina, a
economia chilena, em média, vem obtendo crescimento anual
expressivo, com controle da inflação, geração de empregos e, mais
ainda, a redução da pobreza tem sido muito expressiva.
Se, para a direita ou para a esquerda
extra-parlamentar, estes sucessos parecem ser insuficientes - e
mesmo para muitos setores da própria Concertación também
parecem ser - estes foram os objetivos fundacionais da
Concertación, cuja conquista foi produto das políticas dos seus
governos. E se já estão realizados, me parecem normais os
questionamentos - inclusive, internos - para que a Concertación
avance, desde agora, em seus objetivos, sobretudo, no sentido do
combate das desigualdades sociais e de uma melhor qualidade para a
educação e para a saúde públicas. Um bom exemplo deste
questionamento à Concertación não surgiu de dentro dos
partidos políticos, e sim da sociedade civil: o novo movimento
estudantil secundarista - os chamados “pingüinos”, ou pingüins, uma
alusão bem-humorada à tradicional farda escolar chilena -, liderado
por uma geração nascida após o final da ditadura, acostumada à
democracia, que saiu às ruas em 2006 reclamando mudanças que a
Concertación, todavia, não havia feito, a reforma da lei
educacional chilena (a LOCE), mais um “enclave autoritário” legado
pela ditadura. Se são uma convocatória a mudanças sociais, os “pingüinos”,
também são um produto desta nova realidade democrática que se
desenvolve no Chile há quase 20 anos.
Por que a Concertación tem obtido estes
êxitos? Parece-me que estes êxitos estão associados principalmente a
dois elementos: a) a fortaleza das fidelidades existentes entre os
partidos que a compõem e; b) a construção comum de um projeto
político claro para o Chile, apoiado por todos os partidos da
coalizão. Esta capacidade de construir um acordo partidário -
parlamentar e de governo - estável, inexistente em outros países da
nossa região, inclusive no Brasil, foi determinante para as mudanças
e avanços vividos no Chile desde o retorno da democracia. Por outro
lado, é certo que o sistema binominal contribuiu para que os
partidos seguissem juntos na Concertación, e tampouco é
desprezível a experiência histórica do Chile, com as conseqüências
polarizantes e centrífugas da chamada “regra dos três terços” - que
dividia a política chilena entre a direita, a esquerda e o centro -,
que marcou o período democrático anterior a 1973, além do próprio
regime de Pinochet, onde a direita ocupou espaços importantes. Tudo
isto parece haver servido de estímulo para que o centro e a esquerda
escolhessem por formar e manter a Concertación.
A experiência das prévias suprapartidárias, quando
não do consenso, na escolha dos seus candidatos presidenciais, é uma
virtude dos partidos que compõem a Concertación, contribuindo
para estabilizar a coalizão. Mesmo que os dois maiores partidos da
Concertación, a Democracia Cristã - DC e o Partido Socialista
- PS, sempre tivessem suas pretensões de lançar candidaturas
próprias, a realização destas prévias legitimou a unidade. Mas um
dado me parece simbólico. Com a vitória de Ricardo Lagos nas prévias
de 2000, o maior partido da coalizão, a DC, abriu mão de apresentar
candidatura própria, repetindo esta opção na campanha eleitoral
seguinte, quando apoiou outro candidato do PS, Michelle Bachelet.
Nesta última eleição, a DC sequer disputou as prévias: sua
pré-candidata, a atual senadora e presidente da DC Soledad Avelar,
retirou-se da disputa em prol de Bachelet.
Esta postura da DC, fundamental para a sobrevivência
da Concertación, na conjuntura atual, me parece a mais
improvável de se esperar dos três principais eixos que compõem a
coalizão de Lula no Brasil: o PT, o PMDB e o “Bloco de Esquerda”
(PSB - PDT - PCdoB - PMN - PRB). Este último é uma “coalizão dentro
da coalizão”, formada por partidos de centro-esquerda médios que, em
conjunto, têm uma bancada parlamentar quase igual ao PT. Estes três
eixos seguem disputando a ocupação de espaços dentro do governo
Lula, e se inclinam a apresentar seus candidatos presidenciais
próprios em 2010, sem que, até agora, surja qualquer perspectiva de
construção de uma candidatura conjunta. Mantido este cenário, é cada
vez mais real a possibilidade de que os partidos da direita
neoliberal regressem ao poder no Brasil em 2010. Inclusive, com uma
possível transferência de Aécio Neves para o PMDB, os partidos de
centro-esquerda podem se ver obrigados a votar em um candidato
presidencial neoliberal, num eventual 2º turno entre José Serra e
Aécio Neves. Por outro lado, mais do que uma disputa por espaços de
poder, esta luta entre os partidos governistas brasileiros reflete
uma clara ausência de construção unitária e suprapartidária de um
projeto político.
Entretanto, a política é dinâmica e muitas mudanças
podem acontecer até 2010, ao sabor das conjunturas. Se os partidos
que compõem a coalizão de Lula compreenderem que a falta de unidade
entre eles pode comprometer a continuidade do projeto político deste
governo, é possível que apareçam mudanças nas suas posturas. O PMDB,
mesmo que indispensável para a sustentação de qualquer governo de
centro-esquerda, é um caso a parte, já que é uma federação das mais
díspares lideranças regionais. Então, a unidade da centro-esquerda
governista brasileira - o PT e os partidos do “Bloco de Esquerda” -,
nos moldes da Concertación chilena - com prévias
suprapartidárias para a escolha de uma candidatura presidencial
unitária, e a construção comum de um projeto de governo, nos moldes
do programa de governo de Lula - é fundamental para a continuidade
de uma experiência de governo de centro-esquerda no Brasil e para a
derrota, mais uma vez em 2010, dos partidos neoliberais na corrida
presidencial.
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