PAULO ROBERTO DE ALMEIDA

Doutor em Ciências Sociais, diplomata, autor de vários trabalhos sobre relações internacionais e política externa do Brasil

 

 

 

 

 

Resenha:

NÓVOA, Jorge (org.) Incontornável Marx. São Paulo/Salvador: Unesp/UFBA, 2007, 407 p.

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Marxistas totalmente contornáveis

por Paulo Roberto de Almeida

 

As ações “Marx” estão indiscutivelmente em baixa no mercado, mas ainda encontram compradores. As ações Lênin, Stalin e Mao, ao lado de déspotas menores como Enver Hoxha, Kim-Il Sung ou Pol-Pot, há muito deixaram de ser negociadas, enquanto outras preparam-se para sair do pregão, com o desaparecimento ou a obsolescência das suas personificações. O valor desses títulos tem oscilado ao longo do tempo, mas é inegável que Marx representa um valor sobretudo sentimental, para aqueles que se apegam a ficções do passado. Suas ações são valorizadas na academia – hoje, talvez, como método de tortura de estudantes que sequer sonham em ser socialistas –, mas não correm o risco de passar ao setor real da economia, pois seriam rapidamente remetidas às camadas geológicas do capitalismo pré-cambriano, quando não tomadas como brincadeira de sonhadores incuráveis.

Se Marx já não é mais o espectro que foi num passado não muito distante, marxistas autoproclamados continuam a oferecer bens e serviços “intangíveis”, que se esgotam na sua prestação. Esta coleção de ensaios de membros de um “clube filosófico” hoje melancólico aparece como absolutamente dispensável no plano editorial. À exceção de um ou outro texto que poderia ser enquadrado na categoria da “arqueologia marxista” – como por exemplo o do Michael Löwy sobre a questão nacional no marxismo –, todos os artigos falam, não do “outro mundo possível”, mas de um mundo inexistente, como um Jurassic Park ou uma Disneyworld de velhos marxistas que não conseguem se adaptar ao mundo moderno. Passo por cima dos inumeráveis erros de ortografia – falta de acentos –, de tradução – sol, do francês, vira sol e não solo –, de edição – uma editora vira autor – ou simplesmente de revisão: o líder russo é grafado como Lenin, Lênin e Lénin. Concentro-me apenas na essência dos textos, que traduzem uma incurável regressão a um passado mítico, uma incompreensível dificuldade dos autores em aceitar o mundo como ele é, uma indisfarçável raiva face ao triunfo do capitalismo e uma inacreditável capacidade desses acadêmicos em continuar a iludir a si próprios.

Como é possível levar a sério autores que insistem em querer “deter a marcha batida da humanidade em direção a um tempo de barbárie”, ou seja, o momento atual, no qual o capitalismo assume, supostamente, “uma feição ainda mais sinistra do que no passado”? Um deles acha que ignorar Marx, hoje, seria “colocar um tijolo a mais no monumento à idiotice planetária”. Se isso for verdade, os chineses estão construindo uma nova grande muralha, desta vez idiotamente capitalista. Seja como for, os artigos podem ser divididos em duas categorias: os que tentam explicar as razões do fracasso do marxismo – por extensão do socialismo – em criar a prometida sociedade justa e igualitária, sem esquecer que ela seria próspera e tecnologicamente superior ao capitalismo; e os que tentam confirmar a validade teórica e prática de Marx para os nossos tempos. Eles falham totalmente nos dois cenários.

Na abertura, Pierre Fougeyrollas acredita que, com a revolução da internet, estamos em face de um “novo pensamento”, que deverá ser cósmico, lúdico, demiúrgico e interativo, sem que ele nos explique para que serve, exatamente, tudo isso. Outro francês, trotsquista, acredita que breves considerações feitas em 1932 por seu guru intelectual sobre o capitalismo americano permanecem válidas ainda hoje, já que a “ditadura do dólar” introduzirá “as contradições do mundo inteiro em sua própria dominação”. Ele acha que não é possível compreender as características do capital financeiro sem retornar à análise original de Marx: acredito que os corretores de Wall Street e da City ainda não foram informados sobre isso.

Da história imediata, se passa à “longa duração”, mas o saudosismo é explícito em vários trabalhos, não apenas em relação a Marx, mas também Engels e Gramsci. Um defensor do “sindicalismo classista” acredita que os sindicatos precisam ter completa independência em relação ao “estado capitalista e aos patrões”, o que não parece ser muito seguido quando a classe operária chega ao poder. Uma terceira parte se dedica a “problemas teóricos e investigações”, mas as contribuições não são mais esclarecedoras. O próprio organizador acha que o “neoliberalismo”, uma noção para ele plena de ideologia, “aspira dotar a população do planeta de um pensamento único”, e que essa “consciência histórica” é dura de ser vencida porque ela “constitui também uma propriedade dos meios de produção”. Por aí se descobre a grandiosidade do pensamento marxista do século XXI.

Portanto, leitor, se você acredita “na possibilidade concreta de instaurar [no Brasil] uma sociedade próspera e socialista”, invista parte do seu dinheiro nisto que foi definido como uma “mini-enciclopédia marxista”. Se você também acha que o marxismo constitui uma “poderosa ferramenta de análise” do mundo contemporâneo, compre ações desse grupo de acadêmicos sonhadores. Pessoalmente, não creio que o conteúdo ontológico deste Marx “incontornável” valha o preço do papel no qual ele foi impresso. Pelo peso do volume, ele deve valer bem duas ou três pizzas em algum micro-empreendimento capitalista: assim, o seu dinheiro estará muito melhor empregado. O livro não é apenas contornável e dispensável: ele é totalmente indigesto. Melhor ficar com a pizza...

   

 

 

 

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