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FERNANDA
LUZIA LUNKES
Mestre em Letras pela
Universidade Estadual de Maringá. Integra os Grupos de Pesquisa
CNPq:
GELCE:
Grupo de Estudos – UEM;
NECOIM-Memória, Cultura, Oralidade e Imagem
– UNB
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Resenha:
LE GOFF, J. TRUONG, N. Uma
história do corpo na Idade Média. [Tradução de Marcos Flamínio
Peres. Revisão técnica de Marcos de Castro]. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2006 (207 p.)
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As
tensões no/do corpo medieval
por Fernanda Luzia
Lunkes
A concepção do corpo, o lugar que ocupa na sociedade
e sua presença no imaginário sofreram modificações com o decorrer da
história, e Le Goff e Truong entendem que há uma grande lacuna
histórica no que se refere ao corpo na Idade Média. A escolha deste
período histórico, para os autores, deve-se, entre outros fatores,
ao fato de que a Idade Média provocou uma revolução nos conceitos e
nas práticas corporais desde o triunfo do cristianismo, nos séculos
IV e V; porque a Idade Média aparece como a matriz do nosso presente
mais do que qualquer outra época, ajudando-nos a compreender melhor
nosso tempo, tanto por suas convergências surpreendentes como por
suas irredutíveis divergências; porque é na Idade Média que as
instituições farão uso das metáforas do corpo e o irão modelar.
Os autores partem da hipótese de que algumas
“técnicas” vão traçando uma história para e no corpo, e que mesmo a
vergonha, o constrangimento e o pudor têm uma história. É
necessário, portanto, sair de uma perspectiva natural desses
acontecimentos para um olhar político sobre o “civilizar o corpo”.
E mostrar suas tensões na Idade Média, o qual era “glorificado e
reprimido, exaltado e rechaçado” (p. 29), das quais o cristianismo
foi um dos grandes responsáveis.
No primeiro capítulo, “Quaresma e Carnaval: uma
dinâmica do Ocidente”, os autores mostram como a Igreja buscava
controlar os gestos corporais. O esperma e o sangue eram repugnados.
Houve um intenso trabalho da Igreja no sentido de estabelecer a
diferença entre o sangue de Cristo e o sangue “impuro” dos homens,
inclusive o sangue menstrual da mulher. O sexo era controlado até
mesmo entre os casais, cujo objetivo único era o de procriar. No
entanto, citando Paul Veyne e Michel Foucault, os autores explicam
que já havia um ‘puritanismo da virilidade’ antes da guinada
decisiva do alto Império Romano (séculos I-II) em direção ao
cristianismo. De alguma forma, o cristianismo foi o operador de uma
reviravolta que já vinha sendo preparada, a qual condenava a
luxúria, a gula e o excesso de bebida e de alimentação. O corpo,
simbolicamente, era atravessado pela tensão entre o jejum sexual e
alimentício da Quaresma com os excessos do Carnaval. Para os
autores, no entanto, esta tensão estendia-se a todos os níveis do
corpo.
O cristianismo também operou outra reviravolta: o
choro e as lágrimas tornaram-se uma dádiva, uma renúncia da carne e
que compensava o que era proibido, ou seja, os líquidos relacionados
ao “pecado”. O riso, por sua vez, passou a ser relacionado ao
demônio. Com o corpo dividido entre cabeça/espírito e ventre/carne,
o riso foi silenciado dos séculos IV ao X, aproximadamente.
O segundo capítulo, “Viver e morrer na Idade Média”,
aborda o desinteresse pelo amor. O amor não era um fundamento da
sociedade medieval. A palavra, inclusive, significava paixão
devoradora e selvagem. Na Idade Média desenvolveu-se um erotismo
animalizado, cuja presença de floresta e de campos na sociedade
moldou a realidade e o imaginário social, o que foi bastante
combatido pela Igreja.
À época medieval também não interessavam a mulher
grávida e a criança. Este quadro mudou quando a Igreja passou a
promover o nascimento de Jesus, dando ao sacramento do batismo, um
gesto corporal, um imenso valor. Foi a figura do pai que sofreu um
declínio, desaparecendo também das representações artísticas da
Natividade.
Como a expectativa de vida era baixa, a velhice era
objeto de uma tensão “entre o prestígio da idade e da memória e a
malignidade da velhice, a feminina em particular” (p. 104). A doença
também não escapava à relação entre corpo e espírito. Nesta
imbricação houve muita polêmica, porque havia os que defendiam a
doença ligada ao corpo e aqueles que viam a doença como um castigo
pelos pecados. Por isso, em geral, os milagres atribuídos aos santos
são milagres de curas.
E neste sentido, a Igreja foi uma “crítica teórica da
novidade” (p. 114). A medicina buscava meios para atenuar os
sofrimentos físicos, mas mesmo assim permaneceu bastante estagnada,
porque era inaceitável considerar o corpo sem a alma. A medicina era
antes uma medicina da alma. Houve, todavia, importantes inovações
técnicas, principalmente na área cirúrgica.
Foi a partir do tratado “dos cuidados devidos aos
mortos”, de Agostinho, escrito em 421 e 422, que a Igreja inaugurou
sua “carta funerária para o Ocidente” (p. 121). A Igreja passou a se
encarregar dos mortos, ritualizando e regulamentando a morte. A
morte passou a ser individualizada.
A presença dos mortos ganhou muitos significados na
Idade Média. As narrativas com espectros passaram a ser difundidas
pela Igreja após serem acusadas de supersticiosas e pagãs. O
discurso cristão passou a apresentar o corpo dos mortos glorificado
juntamente com a alma. Houve a redenção do corpo morto que era
desprezado em vida. Mas uma questão atormentou teólogos e provocou
muita polêmica na Idade Média: os corpos dos eleitos ficarão nus ou
vestidos no paraíso? Em geral optou-se pela nudez. Pela nudez
codificada, civilizada. A partir da segunda metade do século XII,
surgiu um terceiro lugar além do céu e do inferno: o purgatório, uma
espécie de “sala de espera” para os pecadores comuns.
As piores descrições dos sofrimentos e dos castigos
infernais eram corporais, principalmente a danação, que priva o
condenado de ver a Santíssima Trindade. Diversificaram-se os
suplícios e procurou-se adaptar o castigo à falta cometida. A Igreja
tentou negar o corpo, mas pela necessidade de dar “visibilidade” ao
inferno, deu forma e volume aos corpos, não os excluiu.
No terceiro capítulo, “Civilizar o corpo”, os autores
falam sobre a criação, pelo cristianismo e pela sociedade de corte
nascente, de uma instituição das boas maneiras. Abordam também os
modelos alimentares herdados pela Idade Média: a civilização do
trigo e a civilização da carne e quais as conseqüências no
imaginário medieval. Uma delas, bastante relevante, foi que “no
lugar da oposição entre a civilização do pão e a da carne, que
separava a civilização dos antigos e dos bárbaros, aparece então a
oposição entre pobres e ricos, que, de algum modo, se reveza com ela
e a substitui” (p. 137). Esta preocupação fez surgir os livros de
culinária entre os séculos XIII e XIV. O alimento se transformou em
cultura e a cozinha em gastronomia, dando à refeição um caráter
social, codificado, hierarquizado.
Os movimentos e os gestos corporais eram centrais na
vida social na Idade Média, acentuando a tensão de uma sociedade na
qual o corpo oscilava entre o glorificado e o desprezado. A nudez,
por exemplo, encontrava-se no limiar entre a inocência anterior ao
pecado original e a luxúria. Houve uma significação na passagem da
nudez à roupa, principalmente nos personagens iminentes da
sociedade, e a nudez tornou-se cada vez mais associada à selvageria.
A beleza feminina dividia-se entre Eva, “a tentadora”, e Maria, “a
redentora”, personagens que constituíram os pólos da beleza feminina
na Idade Média.
Os esportes na Idade Média eram praticados, embora
não apresentem “nem o caráter de referência à sociedade de
organização institucional, nem as condições econômicas que foram as
do esporte na Antigüidade ou quando de seu renascimento, no século
XIX” (p. 149). Os exercícios físicos na Idade Média foram uma
contribuição ao processo de civilizar o corpo.
No capítulo “O corpo como metáfora”, os autores
mostram como na Idade Média se enraíza o uso da metáfora do corpo
para designar uma instituição, seja na religião, na ciência, na
literatura. Há um trabalho político em associar certos órgãos e
lados com melhor e pior, superior e inferior. O coração tornou-se o
lugar do sofrimento, por exemplo, enquanto o fígado foi associado às
partes inferiores, vergonhosas. A mão repousou sobre uma grande
tensão: representava a proteção e o comando ao mesmo tempo em que
era um instrumento de penitência, de trabalho inferior.
O discurso político também se apropriou da metáfora
do corpo, utilizada com mais entusiasmo no século XII,
principalmente nos tratados. De modo geral, a cabeça foi associada a
permanecer ou a se tornar líder do corpo político. A metáfora
corporal estendeu-se também à cidade, cuja idéia é a da “necessidade
solidária entre o corpo e os membros” (p. 172), representando um
conjunto funcional de solidariedades das quais o corpo foi o modelo.
Le Goff e Truong conseguem abordar as práticas
políticas institucionais com relação ao corpo e desconstruir noções
cristalizados na sociedade atual. É certo que o corpo não foi
ignorado por algumas instituições que, cientes de sua importância,
tiveram o cuidado de controlá-lo, de civilizá-lo. A obra consegue,
sem dúvida, atentar para um perigoso jogo político com relação ao
esquecimento do corpo na história.
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