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JARBAS DAMETTO
Psicólogo, Mestrando em Educação da Universidade de
Passo Fundo. Bolsista CAPES
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Resenha:
FOUCAULT, Michel. O poder
Psiquiátrico. São Paulo: Martins Fontes, 2006. 511p.
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Saber, Poder e Disciplinamento na Constituição da Psiquiatria
por
Jarbas Dametto
A obra do filósofo francês Michel Foucault
(1926-1984) editada no Brasil sob o título O Poder Psiquiátrico,
é composta pela transcrição de suas aulas realizadas no
Collège de France proferidas nos anos de 1973 e 1974 que versam
sobre a estruturação da Psiquiatria enquanto campo de saber e
profissão. Este estudo participa de um projeto de construção de uma
“história das ciências humanas” empreendido pelo autor, em que ele,
neste caso, revira os apontamentos dos precursores da psiquiatria
francesa, e deles extrai a dinâmica de poder e saber que envolve a
ciência médica, principalmente no contexto asilar - nos manicômios.
Essas aulas diferem da proposta de trabalho d’A
história da Loucura na Idade Clássica (1961), dado que na
referida obra o autor havia trabalhado as representações que se
desenvolveram sobre a loucura nos séculos XVII e XVIII, a forma como
ela era percebida, e as práticas daí emergentes que resultaram na
reclusão da loucura. Já nas aulas de 1973-1974, Foucault se propôs a
analisar a forma como o os enfrentamentos e os dispositivos de poder
produzem enunciados, teorias, negações e afirmações, enfim, um
discurso de verdade sobre o louco e a loucura com o status de
Ciência, que acompanha os primeiros momentos da psiquiatria e se
estendem, em certos contextos, até os dias atuais.
Desta forma, aborda-se um momento posterior, em que a
internação já é um procedimento “natural” frente à insanidade
mental. Enquanto no Hospital Geral anterior à psiquiatria, a figura
do gerente local centrava em si poderes semi-jurídicos sobre o
interno, determinando seus espaços e seu futuro (FOUCAULT, 2005);
durante o século XIX, caberá ao médico exercer esta função, que
reduz a existência do indivíduo a seu corpo físico, despido de
qualquer atributo social para além da loucura. Dentro do hospício
dos séculos XIX e parte do século XX, o médico é, acima de tudo, uma
presença física, marca da dessimetria de poder que envolve a
instituição cuja proposta é manter a ordem, organizar a loucura. O
médico não possui o poder “por si”, ele ostenta o poder que emana
das múltiplas articulações, uma rede composta por uma estrutura
física: muros, grades, quartos; por outros funcionários: guardas,
enfermeiros, ajudantes; e por outras instituições: justiça, polícia,
etc., enfim, uma disposição tática que viabiliza o exercício do
poder, “[...] é um campo de batalha que está efetivamente organizado
neste asilo”(Foucault, 2006,p.10), em uma luta cujo objetivo é
vencer o louco, dobrá-lo frente à anônima ordem disciplinar, mais do
que “curá-lo” de uma doença, sendo que, por vezes, há clara confusão
entre obediência e cura, já que pouco havia de solidez
epistemológica na prática psiquiátrica. No início, tudo era
insurgência a ser contida, e a partir deste poder de sujeição e de
modelos vindos de outros campos do saber, serão erigidas
instituições e saberes próprios da psiquiatria enquanto
especialidade médica.
Através de “cenas da protopsiquiatria” onde a
especialidade ainda não existe propriamente, em que curas são
arquitetadas e executadas em um jogo de poder armado minuciosamente
com uma racionalidade que pouco lembra uma intervenção médica, se vê
nascer os primeiros enunciados da psiquiatria, que pressupunham a
necessidade de um asilo e de um poder médico. Este poder é da ordem
do poder disciplinar, que permeia toda sociedade moderna e suas
instituições, [...] uma forma de certo modo terminal, capilar, do
poder, uma última intermediação, certa modalidade pela qual o poder
político, os poderes em geral vêm, no último nível, tocar os corpos,
agir sobre eles, levar em conta seus gestos, os comportamentos, os
hábitos, as palavras [...] (FOUCAULT, 2006, p.50). Forma de poder
que, supostamente, originou-se em comunidades religiosas como
técnica e habito nos séculos XIV e XV, e daí expandiu-se para a
sociedade em geral, sendo que no século XIX torna-se no ocidente a
forma, por excelência, de contato entre o poder político e o corpo
individual. A família é um espaço residual da forma de poder que
antecede ao disciplinamento, a soberania, em que os poderes
centram-se em determinadas posições já consolidadas e ocupadas por
determinados indivíduos (o rei, o imperador, e no caso da família, o
pai, a mãe, o irmão mais velho, etc.).
O poder disciplinar, em sua forma ideal, não se
prende a nenhuma pessoa ou personificação, mas sim a funções
(discursos, instituições ou posições), sendo que dentro desta
maquinaria do poder, todos são substituíveis. O século XIX viu
nascer a “função-psi”, a qual visava, no princípio, reinserir o
sujeito desviante na ordem familiar através da ação disciplinar da
internação psiquiátrica, função esta que se estendeu a toda gama de
instituições modernas. A família, resquício da soberania, foi então,
ao mesmo tempo, minimizada pela estrutura social, e superinvestida
pelos saberes e dinâmicas de poder da Modernidade, sendo apontada,
quando ineficiente, como causa da indisciplina. A função-psi
fará, a partir deste momento, um elo de ligação entre o poder
familiar e a ordem disciplinar, produzindo discursos de verdade que
utilizarão a família como pressuposto teórico fundamental.
Posteriormente, com o avanço técnico e legal sobre a loucura, a
família perde grande parte do poder sobre o sujeito que antes
possuía, sendo excluída do processo de internação, antes, passa a
ser vista como um agente nocivo que agrava a loucura, reforçando a
necessidade do isolamento e da adoção de rotinas regulares e
forçadas. Esta situação compõe o quadro preponderante até 1850-60,
quando esta lógica asilar sofre uma flexão, saindo da ação
disciplinar ostensiva semelhante à militar, e passando a uma ação em
profundidade, “afetiva”, em que o próprio modelo familiar (mas não a
família) é tomado como importante na terapêutica moral do
doente. Isto se intensifica, na medida em que se descobre o louco
como potencialmente lucrativo, desde que este seja “refamiliarizado”.
A família pagaria para que seu doente retorne a lógica de poder
familiar após sua internação em casas de saúde. Da já corriqueira
exclusão geral do louco, nasce a possibilidade de lucro financeiro
através do poder psiquiátrico, bem como a intrusão dos parâmetros da
disciplina dentro do contexto familiar, que acaba por povoar
inclusive a infância, tornando-a objeto de intervenção-lucro, e “a
verdade íntima” sobre a loucura dos adultos - sua observação e
colonização gerou saber.
Enquanto no tratamento protopsiquiátrico, anterior ao
século XIX, tem-se a cura como a dissolução de um erro, em que a
loucura é um equivoco da razão que não pode ser reduzido apenas pela
demonstração do contrário, mas sim por uma conversão do delírio em
realidade (teatralizada); a partir do referido século, ter-se-á uma
nova forma de ação, em que não mais se desfaz o erro através de
algum artifício, mas sim, potencializa-se a realidade a ponto dela
atravessar a loucura. A questão da verdade deixa de ser buscada na
relação com o louco e concentra-se na medicina, armada com relatos
nosográficos e anatomopatológicos, e principalmente, com os aparatos
do disciplinamento. O asilo, enquanto local de múltipla sujeição,
reduz o vestuário ao elementar, programa as atividades e punições,
exige trabalho, impõe a história biográfica “real” sobre o delírio,
restringe a alimentação a um nível abaixo do conveniente, mantendo o
interno em uma constante necessidade cuidadosamente arquitetada, em
uma carência que é, em última análise, carência de liberdade e de
autonomia. Grosso modo, o poder psiquiátrico pode ser
concebido como “[...] esse suplemento de poder pelo qual o real é
imposto à loucura em nome de uma verdade detida de uma vez por todas
por esse poder sob o nome de ciência médica, de psiquiatria.”
(FOUCAULT, 2006. p.164-5).
Seria o asilo um local necessariamente médico?
Segundo o autor, não. O espaço asilar passou por uma medicalização,
que não era presente nos períodos anteriores ao século XIX. E esta
organização não-médica se expressa principalmente na forma de
distribuição dos internos, que obedecia ao grau de vigilância e
controle necessário, e não as categorizações nosológicas dos
tratados teóricos. De forma semelhante, “tratamentos” diversos foram
utilizados como punições por serem desagradáveis, perdendo a função
fisiológica que os motivou em um primeiro momento (o eletrochoque e
as medicações que provocam torpor são exemplos relativamente
recentes desta “perversão de raciocínio” que impregnou a
psiquiatria). Então, por que um médico e não um diretor geral de
qualquer outra formação? Porque o médico sabe, mesmo que seu
saber em nada seja aplicado no contexto asilar. O importante é sua
posição de saber, saber sobre o interno que supera o que o próprio
sabe sobre si mesmo, reafirmando sua condição de doente. O mesmo
saber que converte toda ação disciplinar em ato terapêutico, em um
estado em que o médico, com sua vontade, seu olhar, seus gestos,
impõem a cura. “Essa marcação médica é, na realidade, a instauração
de um jogo entre o corpo sujeitado do louco e o corpo
institucionalizado do psiquiatra, ampliado à dimensão de uma
instituição.” (FOUCAULT, 2006, p.235). O espaço asilar se funda como
local de realização da loucura, antes dele não há esta certeza. A
psiquiatria deve, binariamente, decidir se é loucura ou não, muito
mais que diferencia-la em graus ou tipos para então aplicar uma ação
terapêutica-disciplinar.
Como se desenha também em A história da loucura,
Foucault propõe que o problema da verdade pouco importou à
prática psiquiátrica. A crise, momento de ápice da doença, que a
medicina de fundamentação hipocrática anterior ao século XVIII,
concebia como um momento crucial para a busca da cura, recebeu da
psiquiatria apenas a repressão; e os inquéritos da ciência médica
moderna, no contexto asilar, remetiam mais a uma técnica de
articulação de poder, de organização de argumentos para a sujeição,
do que a busca efetiva de uma verdade sobre a doença. Esta verdade
será buscada posteriormente através das pesquisas anatômicas, a fim
de sanar uma idéia de “medicina sem corpo”, que rondava a
psiquiatria, mas nem sempre esta verdade física incontestável será
encontrada, pelo contrário, será um achado clínico comum apenas às
paralisias e as demências provocadas pela sífilis.
A busca desta prova da loucura afirmaria a doença do sujeito,
e ao mesmo tempo, garantiria a posição de “médico” do interventor,
movimento que será realizado, posteriormente, pela neurologia, que
se propõe como uma “medicina séria” não psiquiátrica, baseada na
realidade anatomofuncional, capaz de diferenciar as simulações da
loucura.
A difusão do poder psiquiátrico para fora dos muros
do espaço asilar se deu através de um particular interesse pela
criança, logo também, pela pedagogia, estabelecendo junto com esta,
parâmetros de normalidade. A psiquiatrização da criança retardada ou
idiota - não louca - mas sim deficiente mental em sentido cognitivo
e por vezes afetivo, é supostamente a ponte que viabilizou a
propagação da função psi para além dos manicômios.
Até o século XVIII a idiotia era categorizada dentro dos
quadros delirantes, como uma exacerbação radical destes, sendo que a
partir do século XIX passa a ser encarada como uma ausência
constitutiva de desenvolvimento, e o retardo mental como sua
lentidão, que ocasionaria um atraso em relação às demais crianças.
Elas não seriam doentes, mas anormais, e é sobre os parâmetros da
anomalia enquanto propensão à loucura que a psiquiatria se
expandirá, tomando para si o poder sobre todo desvio da normalidade
presente nas mais diversas instituições: escolares, militares,
jurídicas, etc., assumindo um papel de proteção social, que reafirma
seu poder e importância.
Com o foco no desenvolvimento, ter-se-á uma
normatização baseada no que se pressupôs ser um estágio final e
ideal – o adulto, e na criança média enquanto parâmetro de
velocidade deste desenvolvimento. Tal leitura do fenômeno
retirou da debilidade mental o status de doença, pondo-a em
uma condição de infância prolongada e acometida por degenerações
físicas e morais. O idiota pertenceria, então, a infância, e não a
doença, assim, não a medicina, mas a pedagogia: sua “cura” seria um
processo educativo adaptado a sua anormalidade. No entanto,
paradoxalmente a esta distinção teórica debilidade versus
loucura, tem-se a institucionalização, propriamente psiquiátrica, da
deficiência mental em espaços específicos, apartados da maioria, as
alas psiquiátricas para crianças débeis nos asilos já constituídos,
cuja “educação” era composta pelo afrontamento entre a vontade do
interno e do mestre, o mesmo poder psiquiátrico antes comentado, que
interferia inclusive na relação entre os familiares e a criança.
Poder-se-ia pensar que tal institucionalização seria
decorrente da inadequação desses sujeitos à lógica escolar, o que
efetivamente aconteceu, mas mais tardiamente. Neste período,
primeira metade do século XIX, o que motivou este processo foi,
antes, a necessidade de liberar os pais dos cuidados que tais
crianças exigiam, a fim de que eles pudessem trabalhar nas
estruturas urbanas e industriais que surgiam neste período. Diante
desta necessidade, as deficiências mentais antes destacadas
do todo das doenças mentais, da loucura, vem a recompor um
grupo com esta, sob o nome de alienação mental, que seria
composta por todos os problemas que, de uma forma ou outra, inserem
o indivíduo na instituição manicomial.
Como toda forma de poder, o poder psiquiátrico não
esteve livre de resistências. Ele foi desafiado pela simulação (que
se tornava conveniente frente à seguridade social que surgia naquele
momento histórico) amplamente difundida no contexto asilar do século
XIX, que pos em xeque a verdade médica adquirida pelos
interrogatórios. E a pela histeria, que ostenta o sintoma
teatralmente e nega qualquer possibilidade de acesso a uma etiologia
orgânica, sendo a negação da demência e da idiotia (psicofísica) que
dominavam o asilo do século XIX.
O conhecimento neurológico, enquanto rearranjo de
saber-poder, irá possibilitar a diferenciação entre a simulação, a
histeria, e os problemas “reais” resultantes de lesões físicas. O
exame neurológico solicitará que o corpo do paciente responda por
ele. “Faça!” É um interrogatório em que a resposta do doente é
física, não verbal, inibindo a mentira e a simulação. Da mesma
forma, as drogas e a hipnose serviram como forma de se assenhorar do
doente ainda mais, de impor seu poder abaixo do nível da consciência
e da moral, em seu organismo e seu sintoma, para além da relação de
confronto médico-doente.
Neste contexto a histeria irá afirmar: “Quer que meu
corpo fale, pois ele falará!”, e o fará em resposta ao poder do
médico, mas em uma barganha por um lugar “nobre” entre as
patologias, que será possível pela idéia do “trauma psíquico”, já
que não haviam lesões perceptíveis. Dada a possibilidade de
diferenciação entre a simulação, a histeria e as verdadeiras lesões
neurológicas, foi possível um diagnóstico diferencial entre esses
quadros, o que incluía a histeria no rol das patologias – a
neurologia a “patologizou”, e desta forma ela saiu do asilo e
mereceu um hospital de verdade e médicos de verdade, para doentes
de verdade, e não o tratamento dado aos loucos. Neste momento,
fins do século XIX, a etiologia sexual da histeria não foi posta à
luz como o faria Freud nas próximas décadas mesmo já sendo
percebida, dado que reconhecê-la como um problema desta ordem, a
faria perder o status que alcançou, logo também, o médico
perderia seus direitos sobre os afetados.
Como em toda obra foucaultiana, o passado do qual se
fala se presentifica na realidade hodierna, como resquícios daquelas
épocas ou como novas organizações de poder-saber em outros
contextos. A atenção médica, psiquiátrica ou não, persiste enquanto
regulação dos costumes e imposição de normas, muitas delas sem uma
fundamentação epistemológica digna de confiança. A intervenção, em
especial a hospitalar, tem como pré-requisito esta incomoda sujeição
que retira do homem a sua intimidade, dos seus hábitos. O ambiente,
as vestes, a alimentação, tudo expõe e fragiliza a fim de entregar o
sujeito, agora reduzido a corpo, ao cuidado dos diversos
profissionais, hoje divididos em numerosas especialidades.
Atualmente se intensificam as ações alternativas e as
críticas ao modelo hospitalar, que patologizou até o que há de mais
natural, como o nascimento e a morte, havendo grandes resistências
frente a uma mudança paradigmática, o que remete a interesses
políticos e econômicos envolvidos no modelo baseado na internação. O
movimento pela desospitalização é ainda mais intenso no campo da
psiquiatria, frente a estudos, dentre os quais os de Foucault, que
comprovam a lógica disciplinar, estigmatizante e iatrogênica
empreendida nos manicômios, onde a debilidade geral do interno
reflete, fundamentalmente, o cerceamento de liberdade e de direitos
no qual o sujeito está submetido.
Referências
FOUCAULT, Michel. O poder
Psiquiátrico. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
_____. A história da loucura:
na Idade Clássica. 8.ed. São Paulo: Perspectiva, 2005.
_____. Os anormais. São Paulo:
Martins Fontes, 2002.
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