Israel – 60 anos
por Henrique Rattner

A
aspiração para o retorno á terra dos antepassados nos tempos
modernos data do fim do século XIX quando na Rússia
czarista, em conseqüência de inúmeros pogroms, foi criado o
movimento dos “Amigos de Sion” (Hovevei Tzion), um pequeno
grupo que tentou reacender a chama nacionalista via o
retorno à terra prometida conforme escrito na bíblia. Foram
poucos milhares de seguidores e o movimento ficou
praticamente ignorado pelas massas judaicas. Alguns anos
mais tarde, na década dos 80 surgiu outro movimento, os
“Biluím” (Casa de Jacó, vamos e iremos) que tentou novamente
influenciar a população judaica para emigrar a Israel. Mas,
as massas de trabalhadores judeus, organizados no “Bund”,
uma organização de ideologia socialista e
social-revolucionária, optaram por uma solução política da
“questão judaica” através de uma transformação radical das
sociedades russa e polonesa, solidários com os socialistas
de seus respectivos países. Não se admira o número elevado
de líderes revolucionários judeus, entre os
social-revolucionários e entre os mencheviques e
bolcheviques. Houve, também, tentativas de fuga do serviço
militar obrigatório que podia estender-se por mais de vinte
anos. Assim, entre os anos 1904-1910 ocorreu a primeira Aliá
e emigração de aproximadamente 10.000 jovens que
estabeleceram as primeiras comunidades coletivistas (Kibutzim)
e aldeias. Um movimento bem maior, a segunda Aliá ocorreu
após a Primeira Guerra Mundial, formando um número maior de
Kibutzim e aldeias cooperativistas. Ainda assim, a massa de
trabalhadores judeus preferiu permanecer e lutar por uma
sociedade mais justa e socialista nos paises da Europa
Oriental, mesmo após os pogroms na Rússia Czarista, em
começos do século XX, instigados pelo clero ortodoxo e
tolerados pelas autoridades, causando milhares de vítimas,
entre crianças, mulheres e idosos. Os fugitivos dos pogroms
seguiram para a então Palestina, onde ampliaram a rede de
colônias coletivistas, na Galiléia e no vale de Isreel, em
condições extremamente precárias, assolados pela malária e,
não raramente, pela fome.
Nesse mesmo tempo, ampliou-se e fortaleceu-se
o movimento sionista na Europa, inspirado por Teodor Herzl,
um jornalista oriundo do império austro-húngaro,
profundamente impressionado pela onda de anti-semitismo
desencadeada na França, em conseqüência das acusações
lançadas contra um oficial judeu do exército francês,
condenado por espionagem e traição ao desterro e prisão na
Guiana Francesa.
Mais de 10 anos mais tarde, Emile Zola lançou
seu famoso grito “J´accuse”, acusando as autoridades e
sobretudo o alto comando das forças armadas, de terem
falsificado e omitido documentos que provaram a inocência do
capitão Dreyfuss.
No início da Primeira Guerra Mundial na qual
a Turquia se alinhou às potências centrais, a Alemanha e o
império austro-húngaro, viviam na Palestina algumas dezenas
de milhares de judeus ortodoxos, nas cidades de S´fat e
Jerusalém e outros em algumas aldeias agrícolas espalhadas
pelo país. Com a derrocada do império turco pelas tropas
britânicas e os exércitos beduínos Wahabitas recrutados pelo
coronel inglês Lawrence, as imensas áreas do Oriente Médio
foram repartidas, pelo acordo Sykes-Picot, entre a França e
a Inglaterra, segundo o qual caberiam à primeira os
territórios da Síria e do Líbano, ficando os ingleses com a
parte do leão – o Egito, a Arábia Saudita, o Iraque e a
Palestina. Os ingleses ainda tentaram entronar um dos
príncipes da casa Hashemita como rei em Damasco, donde foi
expulso pelas tropas francesas. Em compensação, os ingleses
lhe cederam o trono do Iraque. A Palestina, outro pomo de
discórdia, foi dividida, sendo a parte oriental da cidade de
Jerusalém cedida ao Emir Abdalla, um dos filhos do Emir
Hussein que tinha liderado as tropas beduínos contra os
turcos. A parte ocidental, o futuro território da Palestina,
foi reduzido a 27.000 km2, habitados por algumas centenas de
milhares de Felahim, agricultores árabes trabalhando em
regime de semi-servidão para os “effendis” – os
proprietários ausentes, vivendo em Damasco, Bagdá ou Beirut
e que acharam um ótimo negócio de vender suas terras ao
Fundo Nacional Judeu, sem preocupar-se com o destino de seus
habitantes.
No começo da década de 20, iniciou-se uma
onda de imigração judaica, numericamente mais expressiva.
Eram em sua maioria membros da classe média, de movimentos
juvenis, com boa formação escolar, decididos de implantar
novas colônias agrícolas coletivistas, em pontos
estratégicos do país. Os “halutzim” - pioneiros, viviam de
acordo com os princípios socialistas. As decisões
importantes sobre a admissão de novos membros; os
investimentos prioritários; as construções de moradias ou de
infra-estrutura eram tomadas em assembléias gerais,
geralmente realizadas no refeitório comum da coletividade.
Criou-se um forte ethos de vida e do trabalho em comum,
vedando o trabalho assalariado. A educação das crianças
desde a mais tenra idade foi coletiva, do berçário até a
fase adulta. Os investimentos em infra-estrutura, compra de
tratores para a lavoura, de caminhões para o escoamento da
produção, tudo obedecia aos princípios do Kibutz,
considerado o núcleo de uma nova organização social, mais
justa e eqüitativa.
Os palestinos não ficaram passivos diante a
contínua expansão das terras e colônias judaicas. Em 1921,
irrompeu uma onda de assaltos noturnos às colônias,
geralmente rechaçadas pelos colonos, com o apoio hesitante
da polícia inglesa.
Outro levante, mais amplo e violento, ocorrem
em 1929 quando os guerrilheiros palestinos penetraram em
vários assentamentos, matando seus habitantes.
Durante os anos que precederam a Segunda
Guerra Mundial, a efervescência no meio árabe cresceu,
sobretudo com o aumento da imigração de judeus da Europa
Central, refugiados da sanha assassina dos nazistas. Em
1936, o parlamento inglês encarregou a Comissão Peel de
elaborar um relatório sobre a situação na Palestina e
recomendar medidas para reduzir a tensão entre as duas
populações. A recomendação mais drástica da Comissão Peel
foi a de impedir a entrada no país de novos imigrantes.
O estouro da Segunda Guerra Mundial em 1939,
mudou radicalmente o cenário no Oriente Médio e, também, na
Palestina.
As tropas inglesas estacionadas no Egito
foram acuadas e rechaçadas pelas tropas alemãs sob o comando
do general Erwin Rommel, que chegou até 110 km de Port Said,
procurando fechar o canal de Suéz, vital para o transporte
de tropas e abastecimentos da Índia, África do Sul e
Austrália.
Do outro lado do campo da batalha, os
exércitos alemães avançaram rapidamente em direção ao
Cáucaso, pretendendo fechar a “tenaz” sobre o movimento das
tropas inglesas. Outro fato de complicação para os ingleses
foi o levante quase simultaneamente de oficiais pró-nazistas
no Egito e no Iraque, que declararam abertamente sua adesão
e preferência pelo regime nazista. Os dois levantes foram
reprimidos e os oficiais, entre os quais os coronéis Gamal
Abdel Nasser e Anwar Sadat, futuros presidentes, foram
encarcerados.
No mesmo tempo, o ímpeto do avanço das tropas
alemãs foi quebrado na batalha de El-Almein pelas tropas
britânicas sob o comando do general Montgomery. Percebendo
que entre todas as populações do Oriente Médio, os únicos
que tiveram interesse vital na vitória dos ingleses, esses
começaram a treinar jovens judeus para uma tropa de elite (o
Palmach), distribuíram armas à população e consentiram na
formação de uma brigada de judeus como tropas auxiliares na
guerra. Vários oficiais dos mais graduados da brigada,
tornaram-se os futuros comandantes das tropas israelenses,
na época da guerra da independência.
A rendição do marechal von Paulus com seus
500.000 soldados em Stalingrado; os avanços contínuos dos
exércitos russos, reconquistando os territórios perdidos no
“Blitzkrieg” alemão; o recuo destes, por falta de armas e
suprimento no norte da África; a invasão pelos aliados da
Grécia e da Itália; o forte movimento de partisãos na
Iugoslávia culminou com a invasão no lado atlântico da
Normandia, que quebrou as linhas de defesa dos alemães e
assinalaram o próximo fim do pesadelo de uma guerra que
ceifou a vida de trinta milhões de pessoas, entre militares
e civis e destruiu grande parte das cidades, instalações
industriais e da infra-estrutura.
Terminou a guerra e com ela recrudesceram as
atividades de facções armadas extremistas da população
judaica, para obrigar os ingleses a abandonarem o país.
Diversos atentados foram cometidos, sendo o mais conhecido a
explosão do hotel King David em Jerusalém, que abrigava o
alto comando do exército inglês. Com isto cresceu a
repressão, mesmo a manifestações pacificas pela
independência do país que estava praticamente em estado de
guerra.
Numa madrugada de junho de 1946, as tropas
inglesas cercaram o Kibutz Tel Yossef, onde eu passava os
fins de semana em companhia de minha mulher Miriam e o filho
Iossi. Todos os homens foram feitos prisioneiros, pois por
ordem da “Hagana” não deviam identificar-se. Escapei por ter
comigo a carteira da marinha mercante e durante duas semanas
trabalhei dia e noite para atender às necessidades básicas
da população de 600 pessoas, mulheres, crianças e idosos. Os
“presos” foram deportados para um campo de concentração,
Sarafend, em antigas barracas do exército inglês durante a
guerra, e lá permaneceram por meses.
O fim da guerra em maio de 1945, com a
conquista de Berlim pelos russos,, revelou ao mundo a
indescritível barbárie nazista. 6 milhões de judeus mortos
nos crematórios e nos campos de concentração, Auschwitz,
Birkenau, Dachau e outros, enquanto os sobreviventes estavam
em condições físicas e psíquicas terríveis (talvez melhor
descrito por Primo Levy, também ex-prisioneiro, no livro “É
este um homem”?). Os líderes do mundo convenceram-se do
desastre que se abateu sobre o povo judeu e, em novembro de
1947, a Assembléia Geral das Nações Unidas resolveu criar o
Estado de Israel e o dos palestinos, na Terra Santa. O mundo
árabe recebeu com indignação e revolta a resolução e começou
seus preparativos para expulsar os judeus, a partir do
momento em que os ingleses iriam abandonar o país, em maio
de 1948. Efetivamente, a guerra irrompeu nesta data em
condições extremamente críticas para os judeus, numa minoria
de 600.000 contra quase um milhão de palestinos. Os ingleses
tinham deixado os postos policiais fortificados e com armas
abundantes nas mãos dos palestinos.
Os judeus não dispunham de armamentos para
enfrentar os exércitos do Egito, Jordânia, Síria, Líbano e
tropas auxiliares do Iraque, além dos próprios palestinos
cujos líderes proclamaram como seu objetivo de “jogar os
judeus no mar”.
Não é aqui o momento de relatar as batalhas
travadas, no norte e no sul do país, sustentadas pelos
jovens do “Palmach”. Quando em fins de 1948 foi proclamado
um armistício pelas Nações Unidas, os judeus tinham não
somente preservado seus territórios, conforme estipulava a
partilha, mas tinham também ocupado uma parte da Galiléia,
de maioria árabe, as cidades de Jaffo, Acre e outros pontos
estratégicos, assinalando uma tremenda derrota dos países
árabes. Em maio de 1948 foi celebrado sob intenso jubilo o
dia da “Independência” e Israel passou a ter assento na
Assembléia das Nações Unidas e de suas organizações.
O governo enfrentou uma tarefa hercúlea:
prover transporte; acolher e alimentar centenas de milhares
de sobreviventes de campos de concentração e, também, os
refugiados judeus dos países árabes, desde Marrocos,
Tunísia, Líbia, Egito, Iraque, Síria e, mais tarde, da
Etiópia. Seria possível acolher essas centenas de milhares
de imigrantes, privados de tudo e assegurá-los moradia,
trabalho, educação e saúde para todos?
Sob este aspecto, Israel cumpriu suas tarefas
de oferecer numa nova pátria aos desterrados e
desenraizados.
Nos primeiros anos de sua existência o novo
estado obteve a simpatia e o apoio – talvez por sentimentos
de culpa da maioria do mundo ocidental pelo holocausto e,
pela epopéia dos sobreviventes encarcerados na ilha de
Chipre, da qual procuraram fugir clandestinamente, com a
ajuda de barcos vindos e tripulados por jovens marinheiros
israelenses.
Apesar da política abertamente pró-árabe do
governo inglês, nada conseguiu deter a onda de entusiasmo
pelo cumprimento da promessa bíblica – a volta à terra dos
antepassados. Contudo, o sonho de dois mil anos tão
expressivamente manifesto na “Hatikva” (a esperança) o hino
nacional judeu, não se concretizou pelo retorno de todos os
judeus, cuja maioria preferiu permanecer nos países da
“Diáspora”. Enquanto isso, a política oficial dos sucessivos
governos minimizou a resistência dos palestinos, e tentou
ignorar o drama das famílias árabes expulsas de suas casas
e aldeias, constituindo uma massa de refugiados, para as
quais também os países árabes não prestaram ouvidos.
Continuavam a acreditar que logo iriam expulsar os judeus e
re-ocupar toda a Palestina.
Na guerra de 1948 e do armistício seguido, os
judeus saíram com a parte maior do território do que lhes
foi alocado pela ONU, em conseqüência da derrota infligida
aos exércitos árabes.
Havia muitos anos, a população judaica tinha
se preparado para o confronto através da formação do
Palmach – uma tropa de choque constituída basicamente pelos
jovens, filhos dos assentamentos coletivistas e treinados
pelo capitão Charles Ord Wingate, posteriormente promovido a
brigadeiro e morto na guerra da Birmânia, que deu o nome ao
instituto de treinamento avançado de oficiais e quadros
superiores do serviço de contra espionagem de Israel.
Também, em cada núcleo rural - Kibutz e Moshav - funcionava
um treinamento permanente para a defesa da população civil
pela Hagana (defesa), de cujos quadros foram recrutados os
comandantes militares e funcionários graduados do ministério
da defesa. A escassez de armamentos foi superada, pelo menos
parcialmente, pelo envio de carregamentos a mando da
ex-União Soviética, da Tchecoslováquia.
Quando em 1948 foi declarado o armistício
entre os combatentes dos dois lados, os judeus tinham
conquistado terras que pela partição declarada pela ONU
deveriam pertencer ao futuro estado da Palestina. A situação
de guerra continua até hoje, com a Síria, Iraque e outros
países árabes, com exceção da Jordânia e do Egito que
assinaram um tratado de paz, após a guerra de 1973,
recebendo a devolução de seus territórios do Estado de
Israel. O movimento de resistência palestina que vinha de
1919 após a Primeira Guerra Mundial, irrompeu com força em
1929, invadindo várias localidades e assassinaram suas
populações. O movimento ressurgia em 1936, com repetidos
ataques de guerrilheiros infiltrados do Iraque, atacando os
Kibutzim na Galiléia e no Vale de Isreel e voltaram com
renovado vigor nos anos de 1950, com a criação de
destacamentos de Fedayen – guerrilheiros comandados por
Yasser Arafat. Do lado israelense, o movimento nacionalista
palestino foi praticamente ignorado, sobretudo após as
campanhas militares vitoriosas de 1956, com Israel aliado à
França e Inglaterra que queriam recuperar o controle do
Canal de Suez, nacionalizado pelo presidente Gamal Abdel
Nasser. Nova derrota acapachante foi infligida nos exércitos
do Egito, Jordânia e Síria que planejaram um ataque abortado
na famosa “Guerra de 6 Dias”, em junho de 1967, o que levou
os exércitos israelenses até o canal de Suez, ocupando a
península de Sinai e a conquista no norte do país, das
colinas do Golan. No centro do país, os soldados israelenses
ocuparam a Cisjordânia e parte de Jerusalém antiga ocupada
pelos jordanianos, sob o reino de Hussein, descendente dos
Hashemitas.
O delírio coletivo pelas vitórias relâmpagas
contra os três exércitos inimigos permeou o espírito não
somente da população, mas também das altas esferas do
governo e das forças armadas e a superioridade militar
flagrante afastou a possibilidade de celebração de um acordo
de paz com os árabes.
Reforçou a tendência de ocupação das áreas
palestinas ocupadas que passaram por um processo
ininterrupto de assentamentos, os quais aumentariam as
dificuldades de um futuro e hipotético processo de paz.
Israel prosperava com a imigração de centenas de milhares
de refugiados dos países árabes, imigrantes dos países
europeus, sobretudo dos oriundos da ex-união soviética após
seu desmoronamento em 1989. Junto com os novos imigrantes,
chegaram investimentos os quais, em combinação com a
criatividade e as inovações tecnológicas israelenses fizeram
a economia prosperar, alcançar o elevado nível do PIB e o
ingresso na o OCDE – o clube dos países seletos de
desenvolvimento econômico e social.
Mas, social e culturalmente, a sociedade
israelense aburguesou-se; o número de Kibutzim – as colônias
agrícolas coletivistas regidas por princípios socialistas e
igualitárias, diminuiu a cada ano, abandonando seus membros
o estilo de vida na lavoura, em troco pelo suposto conforto
e consumo conspícuo das cidades. A imensa maioria dos
imigrantes e refugiados, sobretudo os oriundos dos países
árabes, estabeleceram-se nas cidades, alterando sua
fisionomia e cultura, com a penetração e difusão de padrões
orientais levantinos. O serviço militar obrigatório de três
anos funcionou durante muito tempo como poderoso fator de
integração e socialização. Mas, não impediu a expansão de um
estilo de vida individualista e consumista, de pouca
preocupação com os destinos da sociedade ampla.
Politicamente, essas transformações sociais e
culturais inclinaram a sociedade israelense para a
“direita”, tendo o partido trabalhista, no governo desde a
Independência perdido a maioria no parlamento (Knesset) que
passou para o Likud (União) cujos os líderes Menachem Begin
e Benjamim Netanyahu assumiram sucessivamente a posição de
primeiro ministro. A eles, após a renúncia de Itzhak Shamir,
seguiu o general Ariel Sharon, conhecido por suas posições
extremistas. Com a doença de Sharon assumiu seu vice Ehud
Olmert, no poder até hoje mas politicamente fraco e acusado,
reiteradas vezes, por atos de corrupção. Mas, no cenário
político atual, não parece haver alternativas. O partido
trabalhista perdeu votos, apesar da eleição de Shimon Peres,
recentemente para a presidência do estado e que exerce uma
função puramente decorativa. A “esquerda” – a trabalhista, o
“Meretz” e outros grupos não conseguem construir uma
coalizão no parlamento sem o apoio dos grupos de religiosos
– ortodoxos (Shaas) e dos radicais da direita – “Israel
Beiteinu”. Israel é nossa casa, ambos radicalmente opostos a
concessões políticas e devolução da terra aos palestinos.
Entre os anos de 1967 e 1973, o país viveu
numa euforia, confiando em sua superioridade militar contra
os árabes. Afluíram investimentos externos, criaram-se novas
empresas e a sociedade israelense, antes austera,
igualitária e baseada em sólidas relações de cooperação
transformou-se em mais uma presa do capitalismo global. O
relaxamento no treinamento e nos preparativos das forças
armadas resultou no maior desastre militar da história do
estado de Israel. No dia de Yom Kippur de 1973, o dia mais
sagrado da religião judaica, quando toda a população estava
nas casas de oração, as forças armadas egípcias lançaram um
ataque relâmpago, apoiado por pesado fogo de artilharia. Os
soldados israelenses, na frente da batalha, estavam
inferiores em número e armamentos e milhares foram vítimas
dos ataques egípcios. Demorou a mobilização e o envio de
reforços para a frente de batalha no Sinai o que aumentou o
número de vítimas. Quando os reforços chegaram, conseguiram
rechaçar as tropas e blindados egípcios e, sob a liderança
do então general Ariel Sharon, avançaram em profundidade no
território do Sinai, cercando mais de 150.000 soldados e
cortando as linhas de abastecimento, inclusive de água, dos
egípcios. Salvos por um armistício imposto pelos EUA e a
ex-União Soviética, foi criado o clima para prolongadas
negociações que resultaram na assinatura de um acordo de paz
entre os beligerantes, com o reconhecimento de Israel e o
estabelecimento de relações diplomáticas e comerciais entre
os dois países, em troca da devolução do Sinai por Israel.
Acordo semelhante foi celebrado com a Jordânia, apesar dos
protestos do mundo árabe.
Em Israel, o desastre militar teve graves
conseqüências políticas. O comandante em chefe Moshe Dayan,
herói da guerra dos seis dias, demitiu-se e, poucos meses
depois, também a primeira ministra Golda Meir renunciou ao
cargo, que foi assumido por outro militar, o general Itzhak
Rabin. A confiança da população em seu governo foi
seriamente abalada e deu origem à ascensão do movimento
nacionalista de direita, sob a chefia de Benjamin Netanyahu,
seguido por Menachem Begin, ex-líder guerrilheiro do Etzel –
Irgun Tzevai Leumi que posteriormente transformou-se no
partido Likud (União).
Paradoxalmente, foi Begin, nacionalista
extremista quem assinou o tratado de paz com o primeiro
ministro egípcio Anwar Sadat, posteriormente assassinado por
militantes da Irmandade Muçulmana.
A aparente trégua que se seguiu à paz com o
Egito e a Jordânia, não impediu a irrupção de um novo
movimento guerrilheiro palestino, sob liderança de Yasser
Arafat. Apesar de tentativas de mediação de um acordo por
Bill Clinton, as conversas sigilosas em Oslo, na Noruega, em
Genebra e outros, os esforços fracassaram pela
intransigência dos dois lados em ceder nos problemas
essenciais. O movimento insurrecional cresceu após uma
visita provocativa de Ariel Sharon, acompanhado por
deputados numa sexta feira, dia sagrado dos mulçumanos, no
recinto da mesquita de Omar. Desde então e até hoje, os
ataques de guerrilheiros, de homens-bomba e de veículos
carregados de explosivos não pararam.
Mesmo depois da retirada unilateral de Israel
da Faixa de Gaza, onde vive 1 ½ milhão de palestinos em
condições extremamente precárias, os ataques com foguetes
Quassam de pouco alcance continuam a afligir a população
israelense estabelecida perto da fronteira.
Nas eleições palestinas em 2006, o Hamas –
partido radical que se recusa a reconhecer Israel e assim,
sentar-se à mesa de negociação – obteve a maioria de votos,
nomeando o primeiro ministro Ismael Haniya – franco opositor
do presidente da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas.
A Cisjordânia, sob o governo nominal do Fatah
mais moderado, está literalmente cercada pelas tropas
israelenses e por uma muralha de dezenas de quilômetros que
deve impedir a penetração de terroristas. Os poucos postos
de entrada e saída dificultam a vida dos palestinos, cada
vez mais dependentes de auxílio financeiro do exterior.
Todas as tentativas de negociação mais
recentes, com a intermediação de Condoleezza Rice, Dick
Cheney, Romano Prodi, Tony Blair e outros; têm esbarrado em
três pontos cruciais cuja superação parece cada vez mais
difícil e distante: a questão de Jerusalém Oriental, como
capital do futuro estado palestino; a evacuação e devolução
das terras ocupadas hoje por 250.000 colonos israelenses; e
uma solução satisfatória para os refugiados, ou melhor, seus
descentes, até hoje abrigados em condições precárias nos
países árabes vizinhos. Enquanto perdura o impasse, o Hamas
continua a lançar seus foguetes Quassam, provocando reações
da aviação e da artilharia israelense, com dezenas de
vítimas.
Em julho 2006, o Hesbolla – partido de Deus –
abrigado no sul do Líbano, capturou e matou dez soldados
judeus, num claro ato de provocação. O conflito militar
seguido durou algumas semanas causando pesadas perdas em
homens entre os israelenses e o Hesbolla.
Novamente, as forças israelenses se mostraram
despreparadas para enfrentar guerrilheiros urbanos contra os
quais os pesados bombardeios da aviação tiveram pouco
efeito, a não ser a destruição de parte da infra-estrutura e
das cidades libanesas.
O armistício imposto em agosto de 2006,
deixou as forças do Hesbolla, apesar de pesadas perdas em
homens, intactas e continuando instaladas no sul do Líbano,
com o apoio da Síria e do Irã. O que foi proclamada como
vitória pelos chefes do Hesbolla, evidenciou, outra vez, o
despreparo e a falta de planejamento estratégico nesta nova
fase do conflito com os árabes, por parte de Israel cuja
invencibilidade militar foi seriamente posta em dúvida.
A comissão de inquérito criada pelo
parlamento israelense sob a chefia do juiz Winograd
recomendou a renúncia do comandante chefe das forças
armadas, o brigadeiro-tenente da força aérea Dan Halutz e,
também, do ministro de defesa, Amir Peres. Isentou de culpa
o primeiro ministro Ehud Olmert, que continua no cargo por
causa da instabilidade das relações entre as forças
políticas, o que inviabiliza a convocação antecipada de
eleições, devido a sua fraqueza política no parlamento. O
governo de Olmert, dependente das facções intransigentes e
ortodoxas que rejeitam qualquer concessão aos palestinos,
não oferece qualquer solução alternativa e, cedendo às
pressões dos radicais, autorizou recentemente a construção
de novas casas, apesar da promessa feita a Bush, nos
territórios em disputa. Pressionado, por um lado, pelas
ameaças do Irã que desenvolve ativamente sua indústria
nuclear e cujo presidente proclama como meta de seu governo
“apagar Israel do mapa mundi” e, por outro, pelas incertezas
sobre o resultado das futuras eleições para presidência nos
Estados Unidos, o estado de Israel, politicamente
enfraquecido, deve se preparar para enfrentar seus mais
sérios desafios desde sua fundação em 1948.
Inserido no mundo árabe, com mais de 150
milhões de habitantes pró-palestinos e considerado o
“inimigo” por mais de 1 bilhão de islâmicos, a posição
estratégica de Israel depende fundamentalmente do apoio
norte-americano, cujo maior interesse na região são os
imensos depósitos e reservas de petróleo, vitais para a
economia dos EUA.
Apesar de tantas guerras e seu enorme
orçamento militar, a economia israelense tem crescido quase
ininterruptamente, ostentando um PIB invejável de
aproximadamente US$ 16.000 per cápita. Mas, as ameaças que
pairam sobre o jovem estado são mais políticas do que
econômicas e militares. Apesar dos regimes autocráticos nos
principais países da região – Egito e Arábia Saudita –
deixando de lado os países praticamente em guerra civil – o
Afeganistão e o Iraque – em todos cresce a insatisfação da
população com seus governantes e com ela, aumenta o número
dos partidários da Irmandade Muçulmana no Egito, e dos fiéis
de Al Quaeda na Arábia Saudita. Engajados em programas
sociais para aliviar a situação dos mais indigentes,
mantendo escolas, centros de saúde e, obviamente, de
doutrinação e treinamento militar, essas organizações têm
crescido e espalhado seus homens por todos os lugares. A
popularidade crescente dessas organizações que mantém
milícias treinadas militarmente, ameaça derrubar os governos
árabes mais moderados e conciliatórios com relação à questão
palestina.
Os seguidores de Hamas e, provavelmente a
maioria da população palestina ameaçam derrubar um governo
disposto a estabelecer um acordo de paz.
Outro problema que paira no horizonte é o
crescimento demográfico da população palestina, hoje 1/5 da
população do Estado, e que coloca em questão o futuro de
Israel, como estado judeu. Como resolver a questão de um
“Estado Judeu” em que uma parte crescente de sua população é
palestina e, se e quando houver negociação, exigirão um
estado binacional ou para “todos” seus cidadãos?
Nos últimos anos, ocorreu uma lenta, mas
contínua mudança no relacionamento entre Israel e os judeus
da diáspora, particularmente, dos EUA, cuja população
judaica equivale à de Israel e que possa vir a se tornar um
novo centro espiritual e cultural do judaísmo.
Internamente, o sistema eleitoral antiquado e
inoperante imobiliza a renovação dos quadros políticos, com
novo conteúdo ideológico. Já foi mencionado o impasse com os
colonos nos territórios palestinos, segundo as clausulas da
resolução das Nações Unidas, em 1948. O exemplo da
resistência e desocupação da Faixa de Gaza e a comoção que
causou no país, não prometem saídas fáceis para o processo
de restauração das terras aos palestinos, nas quais estão
estabelecidos 250.000 colonos. É importante frisar que a
política de ocupação das terras palestinas pelos israelenses
foi praticada por todos os governos, desde os primeiros
liderados pelos trabalhistas Ben Gurion, Levy Eshkol, Golda
Meir, Itzhak Rabin e, com maior vigor, nos governos do Likud
por Netanyahu, Begin, Shamir, Sharon e Olmert e constitui um
legado histórico capaz de dar origem a conflitos armados
internos, fragilizando ainda mais a coesão social e a
solidariedade que caracterizaram Israel nos primeiros anos
após a sua fundação quando foram acolhidos milhões de
imigrantes e integrados produtivamente à sociedade.
O crescimento econômico e a prosperidade em
conseqüência da adoção de políticas econômicas neoliberais,
além de praticamente liquidar as colônias coletivistas –
espinha dorsal do Estado de Israel na Guerra da
Independência, contribuiu rapidamente para aumentar as
disparidades em renda, consumo e bem estar, em prejuízo dos
mais carentes.
Assim, apesar dos avanços inquestionáveis de
Israel nas áreas das ciências – veja o número de prêmios
Nobel em Física, Química, Medicina e Literatura - e em
inovações tecnológicas na agricultura e indústria, os
desafios que se colocam ao jovem Estado ao completar os
primeiros sessenta anos, são formidáveis e constituem sérias
barreiras à criatividade e ousadia ao enfrentar seus
problemas internos e externos.
A tendência de prestar apoio irrestrito e
incondicional a Israel afasta ou elimina os judeus da
diáspora dos debates travados no país sobre suas políticas.
Judeus secularizados e religiosos costumavam ter posições em
comum ainda que por razões diferentes, como por exemplo,
manter os territórios ocupados, seja por razões de
segurança, seja por causa da próxima redenção pelo Messiah.
Mas, o desacordo persiste quanto às questões
mais básicas: quem é judeu; o papel da religião e o “status”
de não judeu na sociedade?. A sociedade israelense não
consegue chegar a um acordo sobre sua identidade e, enquanto
não forem respondidas essas indagações parece impossível
resolver o problema das relações com os palestinos,
inclusive aqueles que são cidadãos israelenses. Ajudar a
Israel não pode mais significar conceder apoio sem qualquer
crítica. As instituições da diáspora não podem omitir-se de
críticas a políticos israelenses que pregam o racismo e a
intolerância, tal como o recém nomeado ministro Avigdor
Lieberman.
O debate sobre as políticas israelenses deve
ser encorajado, a fim de mobilizar todos aqueles que
concordam com a desocupação dos territórios, para que os
palestinos possam construir seu próprio estado e, assim,
assegurar a paz e retorno de Israel a sua vocação de
construir um porto seguro democrático para todos os judeus
do mundo.