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PAULO ROBERTO DE ALMEIDA
Doutor em Ciências Sociais, diplomata, autor de vários trabalhos
sobre relações internacionais e política externa do Brasil


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As
roupas novas do Império: 21 teses rápidas
por Paulo Roberto de Almeida
Pretendo alinhar alguns argumentos de natureza
basicamente impressionista – mas nem por isso desprovidos de
fundamentação histórica, econômica ou política – para tratar da
questão mais relevante da atualidade: a chamada hegemonia americana,
que para alguns se aproximaria de uma “arrogância imperial”. Embora
eu concorde, basicamente, com o argumento de que os Estados Unidos
da América (EUA) constituam um império, embora de novo tipo, tenho
sérias reservas quanto a essa denominação e também quanto ao que se
imagina que os EUA representem no mundo atualmente. Com efeito, a
maior parte daqueles que se utilizam desse conceito para se referir
aos EUA têm uma imagem basicamente negativa dessa qualificação,
identificando-a aos antigos impérios do passado e alimentando uma
imagem essencialmente negativa desse papel “imperial” nas relações
internacionais contemporâneas.
Como não concordo com esse tipo de visão, vou
alinhar, nos parágrafos seguintes, minha interpretação do fenômeno
imperial americano, embora de forma rápida e sem o apoio em
referências documentais ou bibliográficas, deixando para uma futura
ocasião o desenvolvimento dessas “teses” informais. Esclareço,
porém, que minhas “teses” resultam de uma leitura cuidadosa do
processo histórico, com base numa ampla lista de ensaios sobre o
desenvolvimento comparado das civilizações.
I. O império americano em sete teses rápidas: uma
hegemonia involuntária, envergonhada e não reconhecida
1) Os EUA não são um império, no sentido formal da
palavra.
Um império é, basicamente, um sistema extrator de
recursos por meio da coerção, o que não ocorre no caso dos EUA, que
estão comprometidos com valores e princípios condizentes com a
liberdade de mercados e as franquias políticas democráticas.
Qualquer afirmação em contrário teria de comprovar que as ditaduras
que os EUA apoiaram em várias partes do mundo, na era da Guerra
Fria, foram obras construídas consciente e deliberadamente pelos EUA
para assegurar um tipo qualquer de extração de recursos por via da
coerção militar.
De uma parte, os EUA são um poder aroniano por
excelência, ou seja, um Estado que soube, melhor do que qualquer
outro, no concerto de nações, conjugar e combinar os dois vetores
essenciais de qualquer capacidade de projeção internacional. Esses
vetores são constituídos, de um lado, por uma presença dilatada e
ativa nos mais diversos foros e cenários abertos à sua diplomacia e,
de outro, por uma poderosa ferramenta de afirmação do seu poder
primário, isto é, sua força militar, que permanece incontrastável
desde um século aproximadamente. O diplomata e o soldado, ainda que
o primeiro apareça como bem menos eficiente do que o segundo, são os
instrumentos sempre presentes da afirmação internacional ímpar desse
hegemon relutante, desse decisor incontornável, de última
instância, nos assuntos de segurança internacional e desse árbitro
unilateral, por vezes arrogante, das questões de segurança de outros
países, incapazes, por sua própria vontade e poder, de dirimir
certas contendas ou de afastar certas ameaças.
De outra parte, os EUA constituem também um Estado
radicalmente westfaliano, no sentido em que eles serão,
provavelmente, a última nação do planeta disposta a ceder soberania
a qualquer entidade intergovernamental, internacional ou
supranacional que possa ser chamada a exercer, pela evolução natural
ou dirigida do direito internacional, competências reguladoras ou
decisoras infringindo o mandato original conferido ao seu congresso,
vale dizer, ao povo dos EUA. Contrastando com outras nações, da Ásia
do Sul à América Latina, passando sobretudo pela Europa, mas também
pelo Oriente Médio e pela África, que consentem em renunciar, por
vezes alegremente, à sua soberania – em políticas macro e setoriais,
em questões monetárias e até em matéria de defesa –, os EUA não são
sequer relutantes quanto a isso: eles simplesmente não cogitam em
colocar qualquer aspecto de sua soberania exclusiva, política,
econômica e a fortiori militar, nas mãos de qualquer outro
poder político que não seja o seu próprio Congresso e, em última
instância, o seu povo. A China talvez possa ser um Estado tão
“westfaliano” quanto os EUA, mas ela é muito pouco aroniana em sua
natureza profunda e em seu modo de ser.
2) Mesmo que os EUA se conformassem ao e se
aproximassem do modelo dos impérios, eles constituiriam um império
de novo tipo.
Os EUA não estão diretamente interessados na
construção de um poder hegemônico incontrastável e incontestável,
como os impérios “extratores” do passado. Eles estão, sim,
interessados em garantir a sua própria segurança e em criar as
condições para que essa segurança se expresse em termos não
diretamente militares e sim econômicos, comerciais e financeiros, ou
até em bens intangíveis, como são os valores da democracia, da livre
iniciativa e da liberdade individual.
3) A única hegemonia na qual os EUA estão
interessados é a hegemonia do livre-comércio.
Em outros termos, os EUA estão interessados em um
sistema de portas abertas no qual não subsistam restrições, ou que
elas sejam muito poucas e não-discriminatórias, à atuação de suas
empresas nas diversas frentes dos intercâmbios humanos e sociais que
possam, de fato, estar (e ficar) abertos à criatividade de suas
empresas e cidadãos.
4) Nesse sistema de portas abertas, a única
“ditadura” suscetível de ser criada pela hegemonia dos EUA é aquela
que destrói todas as ditaduras.
Estas são as bases indiscutíveis do “império”
americano: a livre circulação de fatores de produção e de produtos
da inteligência e da criatividade humanas. Esse é um sistema
destruidor de todas as hegemonias conhecidas historicamente. Mas
quem destrói todas as velhas hegemonias não é o poder comercial
ou econômico dos EUA, e sim a força das suas idéias, idéias
muito simples: liberdade de iniciativa, liberdade política,
liberdade de acumular e de circular riquezas.
5) Nos últimos dois séculos de sua existência
enquanto nação independente, os EUA exerceram, inquestionavelmente,
um papel eminentemente positivo na história da humanidade.
Isto se deu tanto em termos de liberdade econômica
como no terreno das franquias democráticas e dos direitos humanos,
não necessariamente porque os americanos são mais virtuosos do que
outros povos, mas pela configuração específica de sua “civilização”.
Seus valores básicos confundem-se com os do racionalismo iluminista,
embora eles sejam extremamente confusos e contraditórios na hora de
aplicá-los na prática, fruto de um regime de extrema liberdade
individual, o que redunda eventualmente em disfunções localizadas.
Os valores essenciais da vida política e social
americana – democracia, liberdade, representação, império da lei,
iniciativa individual e recompensa pelos méritos – não são
exportáveis, ainda que muitos, inclusive e principalmente os
próprios americanos acreditam sinceramente que eles são o farol da
liberdade e que, como tal, deveriam levar esses valores a outros
povos e nações. Daí um inevitável pêndulo entre duas posturas
recorrentes, o isolacionismo e o envolvimento, que agitam de forma
ambígua a história internacional dos EUA no último século e meio,
aproximadamente.
6) Os EUA são uma nação westfaliana, no sentido
clássico da palavra, mas de âmbito universalista.
Os EUA acreditam na soberania nacional, que no seu
sistema nacional se confunde com a soberania popular, e não estão –
e não estarão nunca – dispostos a renunciar a essa soberania em nome
de qualquer sistema que se proponha administrar coletivamente a
liberdade. Os EUA acreditam que a liberdade não precisa de
administração centralizada, aliás, ela não necessita sequer de
administração: a liberdade é, ou existe, ponto. Seu universalismo
consiste em propor que todos os países vivam nas mesmas bases de
soberania igualitária, que é a soberania da convivência pacífica
tendo como única postura “agressiva” a competição comercial, ou
seja, a conquista pelos méritos do que cada um tem ou pode oferecer
de melhor.
7) O westfalianismo americano não se coaduna com
nenhum projeto integracionista, apenas com acordos de livre
comércio, de implementação dos direitos de propriedade e com
garantias de promoção e proteção de investimentos.
Trata-se de uma integração “light”, compatível,
filosoficamente, com o exercício das liberdades individuais nos
demais planos da vida social. Os Estados Unidos são, ademais de
westfalianos e aronianos, schumpeterianos, isto é, a favor da
“destruição criativa”, o que significa uma constante remise en
cause, ou contestação, das condições estabelecidas. Seu sistema
econômico e social funciona com base no mérito, o que implica uma
constante luta pelo sucesso, sobretudo de tipo econômico. É o que os
economistas chamam de “market contestability”, aquilo que pode ser
testado e contestado num sistema que funcione sem barreiras à
entrada. Daí a desconfiança de princípio, histórica, dos EUA pelos
esquemas preferenciais, tendência apenas revertida nas últimas duas
décadas em favor de um minilateralismo de ocasião, em face das
tendências regionalistas e da relutância dos muitos membros da OMC
em se engajar num desmantelamento comercial verdadeiramente
multilateral.
Aceitas, ou pelo menos propostas, estas simples teses
sobre a posição dos EUA no plano mundial, caberia agora abordar a
questão do seu papel na segurança internacional e na ordem econômica
mundial. Este é o objeto da seção seguinte.
II. O império e sua segurança: quatorze novas
teses sobre o equilíbrio estratégico e a auto-suficiência militar
Disponho, igualmente, de algumas breves teses sobre o
papel dos EUA na segurança internacional, que não pretendo elaborar
substantivamente ou discorrer longamente sobre elas, basicamente por
razões de espaço, mas acredito que elas sejam suficientemente
explícitas para se justificarem a si mesmas. Em conformidade com os
argumentos anteriormente expostos, acredito que o padrão histórico
de referência para avaliar a natureza do poder americano, no
confronto com outros candidatos imperiais da atualidade, já não seja
mais o acordo de Ialta dos tempos da Guerra Fria – isto é, uma
espécie de Tordesilhas da era contemporânea, com a divisão do mundo
entre as duas grandes potências navais, como na época dos
descobrimentos –, mas Westfália, apenas Westfália, isto é, a
afirmação absoluta do soberanismo estatal (com, talvez, um pouco de
Viena e Versalhes).
8) Os EUA não se ocupam, nem pretenderiam se
ocupar, da segurança mundial: eles se ocupam de sua própria
segurança nacional e a de seus cidadãos e empresas, ponto.
A despeito do fato que alguns intelectuais apreciem
racionalizar os impulsos de política internacional dos EUA como
divididos ambiguamente, entre, de um lado, um idealismo de tipo
wilsoniano, e portanto engajados nos assuntos do mundo, e de outro,
um realismo de extração bem jacksoniana, e portanto determinados a
atender única e exclusivamente o seu próprio interesse nacional, a
verdade é que os EUA não pretendem, por vontade própria, se imiscuir
nos assuntos dos demais países, nem desejariam se ligar a outros
países em esquemas permanentes de coordenação ou aliança militar.
Os EUA acreditam que se bastam a si próprios e
pretenderiam manter-se nessa situação, não fosse pelos apelos que
lhes são feitos ou pelas demandas de ação externa que emergem
inevitavelmente de um mundo complexo e constantemente agitado por
ameaças latentes e recorrentes à segurança nacional americana. Os
europeus, que viveram décadas sob a proteção do guarda-chuva nuclear
americano, e deixaram de investir em sua própria segurança (e nem
têm o desejo de fazê-lo), são os primeiros a chamar os EUA to the
rescue quando eles têm de enfrentar alguns problemas em seu
próprio jardim (como nos Bálcãs, por exemplo).
9) Os EUA não estão interessados em impulsionar
nenhum esquema multilateral de segurança estratégica, de tipo
onusiano ou outro, que consistiria em armar forças de intervenção
que possam, de alguma forma, interferir com os seus próprios
esquemas domésticos de segurança e de defesa nacional. Nisso, eles
são westfalianos radicais.
Não há nenhuma chance, no futuro previsível, que os
EUA venham a concordar com a implementação prática do que está
estipulado no artigo 47 da Carta da ONU, relativo ao estabelecimento
de um Comitê de Estado Maior para assessorar e assistir o Conselho
de Segurança em todas as questões relativas às necessidades
militares do CSNU, inclusive quanto ao emprego e comando de forças
colocadas à disposição desse Comitê. Os EUA nunca permitirão que
tropas americanas, ou quaisquer forças suas, sirvam sob comando
alheio, ainda que este seja formalmente da ONU, em situações que
digam diretamente respeito à segurança e à defesa dos interesses dos
EUA.
10) Os EUA podem, eventualmente, vir a integrar-se
a, de preferência liderando, esforços multilaterais que digam
respeito à segurança de outros países – e, indiretamente, à sua
própria – desde que percebam eventuais ameaças como suficientemente
credíveis e suscetíveis de afetar, no plano colateral, a segurança
de seus cidadãos e empresas em territórios estrangeiros.
Em outros termos: forças americanas não são solúveis
em qualquer “líquido” ou recipiente estranho à própria vontade do
povo dos EUA, materializado em seu Congresso e na autoridade
executiva, na pessoa do presidente. Não há hipótese de soldados
americanos servirem sob qualquer outro comando que não os de seu
próprio país. Não se trata aqui de isolacionismo; trata-se,
simplesmente, de exercício de soberania plena, ou seja,
irrenunciável.
11) Os EUA mantêm, como regra de princípio, a
decisão política de antepor-se e mesmo de sobrepor-se a qualquer
outro poder, no plano da dissuasão e do balanço de forças, e de
antecipar qualquer desafio estratégico, tendo estabelecido, para si
mesmos, a postura de conservar uma supremacia estratégica clara e
certa sobre qualquer outro poder exterior, amigo ou desafiante,
sendo totalmente indiferentes quanto à natureza política ou
ideológica desse suposto contendor.
Isto significa que, independentemente do fato de
disporem de supostos aliados estratégicos no âmbito da OTAN, ou
indiferentes à situação de que contendores possam emergir de países
hostis ao modo de vida americano – quer seja a antiga União
Soviética ou a China atual –, os EUA sempre estarão dois ou três
passos, pelo menos, à frente de possíveis poderes desafiantes. Esta
atitude de dissuasão total e absoluta se aplica a todo e qualquer
tipo de cenário estratégico e a toda a panóplia das ferramentas
militares. Desse ponto de vista, a velha Europa da OTAN reduzida – a
da Alemanha ocupada dos tempos da Guerra Fria – não se distinguia em
absoluto da União Soviética inimiga: ambas tinhas de ser mantidas em
estado de inferioridade estratégica, o que implicava, obviamente, um
crescimento contínuo da capacidade ofensiva dos EUA. O mesmo pode
ser dito dos dias atuais, aplicando esses princípios à OTAN
ampliada, à nova Rússia, à velha China ou a qualquer outro Estado,
vilão ou amigo. Não se trata, cabe deixar claro, de uma atitude
belicista, mas tão simplesmente, de um seguro militar preventivo. A
preeminência estratégica é a própria alma do sistema de segurança
nacional americano.
12) A segurança nacional americana não é concebida
em termos exclusivamente ou mesmo essencialmente militares e nisso
os EUA são perfeitamente aronianos. Eles integram, mais do que o
soldado e o diplomata, também o cientista e o empresário em seus
cálculos de preeminência estratégica.
Na base desse sistema integrado de defesa nacional,
que vai da concepção original à implementação prática dos princípios
de segurança estratégica, encontra-se um conceito de organização
social da produção que é propriamente marxista ou marxiano, pelo
menos alegoricamente, em seu desenho e expressão: os EUA conceberam
e desenvolveram um “modo inventivo de produção” que não encontra
paralelo na história econômica mundial. Trata-se da mais perfeita
máquina de produzir inovações, de qualquer tipo, inclusive as
militares, que se conhece no sistema planetário. Se houvesse um
“prêmio Nobel” para a defesa, ou para a guerra, os EUA também se
situariam entre os primeiros contemplados, como ocorre, aliás, nos
demais campos, com a possível exceção (ainda) das humanidades, ou
seja, da literatura. Não se trata de uma máquina exclusivamente
americana, pois ela integra cérebros de todas as partes do mundo, se
trata apenas de uma máquina “made in USA”, como ocorre, aliás, nos
prêmios Nobel da área científica.
13) Os EUA não parecem dispostos a colocar todo o
seu potencial à disposição do resto do mundo e provavelmente nunca o
farão.
Eles se contentam em fazer com que o resto do mundo
seja um lugar não suficientemente ameaçador do ponto de vista dos
interesses nacionais americanos. Ao garantir essa situação, os EUA
estão contribuindo, de forma indireta, para a segurança do planeta,
ao impedir a emergência de forças contestadoras da supremacia
militar e estratégica americana.
Se os EUA são “the world’s cop”, isto é, os policiais
do mundo, eles têm de agir e se comportar, efetivamente, como o
“porrete de última instância”, ou seja, como aquele poder acima do
qual nenhum outro prevalece ou se mantém. Não se trata de uma
atitude arrogante, imperial ou unilateral, como pensam muitos;
apenas de um comportamento que é a própria essência do ser
americano: não há poderes acima do xerife da aldeia.
14) Os EUA não precisam de aliados ou parceiros
militares, eles apenas desejam países que paguem a conta das
operações militares ou de manutenção da paz que não sejam aquelas
estritamente vinculadas à defesa do território americano ou da
segurança de suas empresas e cidadãos.
O conceito de “burden sharing”, no plano da ONU e das
operações onusianas de imposição e de manutenção da paz, aplica-se
exclusivamente no plano político e a esferas externas à segurança
nacional americana. Ou seja, o compartilhamento de tarefas no plano
da defesa e da segurança internacionais se referem a cenários
estratégicos que se situam todos fora do território americano,
apenas interagindo com esquemas nacionais de defesa na medida em que
cenários estratégicos situados em outras latitudes e longitudes
tenham ou exerçam algum tipo de impacto na segurança nacional
americana.
Foi exclusivamente em função do “burden sharing” que
os EUA patrocinaram, numa primeira fase, as candidaturas da Alemanha
e do Japão a uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU,
isso ainda nos anos 1980. Com o passar dos anos, com o emasculamento
da Rússia e a diluição da grande Alemanha no conjunto puramente
hedonista da União Européia, os EUA deixaram de patrocinar o
ingresso da Alemanha nesse foro restrito dos “mais iguais”,
preferindo, por razões puramente estratégicas – e não mais de ordem
orçamentária, como era o caso na fase de keynesianismo militar da
era Reagan –, promover a ascensão do Japão e da Índia em tal foro.
15) O conceito, a construção e a operacionalização
prática da OTAN de forma nenhuma implicam em qualquer tipo de
multilateralismo securitário ou estratégico da parte dos EUA.
A OTAN é simplesmente um braço armado dos EUA para
determinadas tarefas e funções específicas, uma das muitas
ferramentas utilizadas, ao longo do seu processo de afirmação
imperial, para ampliar sua capacidade de projeção externa, no plano
militar e diplomático, e para contribuir à manutenção de uma mesma
concepção civilizatória geral, no plano dos valores e dos princípios
de organização econômica e social.
A OTAN não deve ser vista apenas como uma aliança
militar dotada de um conceito puramente defensivo – a proteção do
Ocidente contra a ameaça militar soviética, de acordo com a doutrina
do containment, inspirada por George Kennan – mas também como
uma esfera de liberdade política e econômica, não necessariamente no
sentido mais puro da palavra, como os exemplos de Portugal
salazarista e da Turquia semicapitalista podem comprovar. Com esses
flancos garantidos, a Espanha franquista era dispensável, mas se
ela, por acaso, fosse estrategicamente relevante, também teria sido
integrada ao baluarte da democracia.
16) A OTAN não foi vitoriosamente militarmente:
ela apenas cumpriu uma função defensiva, dissuasiva, de treinamento
e de enquadramento dos países subordinados, sem mencionar o lado da
demanda por equipamentos militares, que também faz parte do
supply-side economics da indústria americana.
A URSS manteve, na maior parte do tempo, uma
capacidade ofensiva superior em forças de terreno, e talvez mesmo no
terreno dos dispositivos nucleares. Ela tampouco foi “esgotada” pela
competição armamentista, mas estiolou-se a si mesma. A URSS perdeu a
competição em meias de nylon, não em equipamentos militares: ela
implodiu, por sua própria incapacidade produtiva, por manter um
sistema que não podia simplesmente funcionar. Mas isso já estava
previsto e comprovado desde 1919 pelo economista austríaco Ludwig
Von Mises, que demonstrou, tanto lógica quanto empiricamente a
impossibilidade de cálculo econômico e, portanto, de funcionamento
do processo produtivo, numa economia socialista.
17) A OTAN assumiu, desde a derrocada (não
derrota) do socialismo, funções bem mais abrangentes do que eram as
suas no período da Guerra Fria. Isso não tem muita importância do
ponto de vista americano, uma vez que ela é acessória à sua própria
segurança nacional.
A OTAN cumpre funções subsidiárias nos esquemas
americanos de defesa, ainda que ela seja, hoje, algo bem mais amplo
do que a coordenação de esquemas militares, uma espécie de
ferramenta polivalente, numa palavra, um canivete suíço com
administrador europeu e manipulador americano. Seu novo mandato lhe
dá poderes para intervir praticamente em todos os assuntos, da luta
contra as agressões ao meio ambiente e as violações aos direitos
humanos à defesa da democracia e da paz, num cenário que há muito
extravasou o Atlântico Norte, alcançando praticamente todo o mundo
(com a exceção do universo, isto é, do espaço exterior, que
permanece “americano”).
18) A OTAN e, de certa forma, também os EUA não
parecem estar preparados para as novas ameaças, mais difusas do que
claramente identificadas, ainda que o inimigo tenha contornos muito
nítidos: trata-se do fundamentalismo islâmico.
A OTAN estava teoricamente preparada para combater um
inimigo claramente identificado, com divisões e instâncias de
comando apoiadas em coisas tangíveis: tanques e canhões, navios e
aviões, quartéis e linhas de comunicação, enfim, ferro, aço,
cimento, um pouco de cobre. Hoje, isso não se aplica, pois o
“inimigo” vive no próprio território e confunde-se com a população
em geral ou com imigrantes honestos. A globalização, neste caso,
traz um processo de declínio civilizacional – que é o do Islã em
crise social e econômica e capturado por minorias ativistas – para
dentro do Ocidente desenvolvido.
Trata-se de uma ameaça que não assume contornos
militares muito claros, e que não tem, provavelmente, nenhum perfil
tático-militar preciso, mas poderosas implicações estratégicas,
situadas mais no terreno da sociedade, como um todo, do que no campo
dos quartéis-generais. Aliás, a arte da guerra, hoje, apresenta, bem
mais, elementos de Sun Tzu do que aspectos de Clausewitz, mas pede,
sobretudo, mais ações de inteligência do que operações de força
bruta. Não se trata apenas do terrorismo islâmico, que é uma mera
manifestação material de algo bem mais insidioso, o
fundamentalismo islâmico. Este deriva do islamismo “normal”,
constitui uma recusa direta da modernidade “ocidental” e se
apresenta, materialmente, como uma mobilização de forças para
destruir, material e humanamente, a diversidade ocidental e seus
valores associados.
A OTAN pode até estender um pouco mais seus cenários
de atuação, mas não se trata de um terreno no qual seus pensadores e
estrategistas tenham algo de relevante a trazer para o
equacionamento do problema. A batalha é mais de idéias e de
conceitos, de corações e mentes, do que propriamente um combate de
trincheiras, aliás impossíveis a definir, ainda que essa nova guerra
tenha alguns cenários privilegiados de atuação. Todos eles se situam
no arco civilizacional do islamismo, que engloba mesmo os países que
tinham feito opção por sua versão light, ou laica, em todo
caso, separada do Estado. Nessa luta, a ignorância popular sustenta
o obscurantismo político, num cenário no qual a democracia tem de
enfrentar com transparência e bons modos um inimigo que se utiliza
da mentira e da deception.
19) A proliferação nuclear não constitui, de
verdade, um problema militar, nem no plano dos Estados, nem ao nível
dos grupos terroristas. Trata-se de um problema político e como tal
deveria ser enfrentado.
Durante a Guerra Fria, o mundo foi dividido a partir
de Ialta, que é uma espécie de tratado de Tordesilhas da era
contemporânea (ambos acordos falhos e incompletos). No mundo
pós-Guerra Fria, o cenário é bem mais do tipo Congresso de Viena ou
tratado de Versalhes, sem que os grandes atores consigam se entender
sobre uma agenda comum que combine segurança com oportunidade para
todos, como foi o caso em Bretton Woods. Uma das razões é,
precisamente, o gênio que saiu da garrafa, a capacitação nuclear,
difícil de engarrafar outra vez. Não há uma solução militar ao
problema dos novos proliferadores e não há suficiente consenso entre
os “donos” do gênio para domá-lo de maneira credível, o que
implicaria em esforços credíveis para o desarmamento nuclear. A
situação de impasse político deve persistir e mesmo uma nação
poderosa como os EUA não conseguem controlá-la, em parte devido a um
grande déficit de liderança política. Este é, provavelmente, o único
terreno nas relações internacionais contemporâneas no qual os EUA
não conseguem obter resultados isoladamente ou por iniciativas
unilaterais e necessitam da cooperação de outros Estados, não
necessariamente no plano multilateral. Um exemplo dessa necessidade
está expressa na iniciativa tendente a controlar os fluxos civis de
materiais nucleares, mais um clube restrito ao estilo do finado
Cocom (hoje Wassenaer), dos grupos de Londres e do MTCR.
20) O “fator China” não é propriamente um desafio
militar aos EUA ou ao Ocidente, e sim uma recomposição dos dados do
jogo econômico, uma “nova geografia”.
A despeito de muitas especulações sobre o desafio
militar ou estratégico chinês ao poderio incomensurável dos EUA, o
que há é uma reestruturação dos fluxos de bens tangíveis e
intangíveis no hemisfério norte (para esses efeitos, tanto China
quanto Índia pertencem ao Norte, não ao Sul). A “nova geografia do
mundo”, que alguns pretendem fundar a partir de intercâmbios
concentrados no sul, na verdade já existe, e ela não é apenas
comercial, mas sobretudo econômica e tecnológica, mas também
financeira e de cérebros (eventualmente materializados em P&D e
propriedade intelectual).
Essa “nova geografia” se manifesta na incorporação de
novos grandes emergentes ao conjunto de países desenvolvidos,
basicamente um clube constituído pela OCDE mais emergentes
dinâmicos, que seriam os RICs, com grande ênfase na China e na
Índia. A nova geografia econômica, que é também uma divisão mundial
do trabalho, faz o mundo convergir pela primeira vez em dois
séculos, a despeito mesmo da grande divergência nas rendas
individuais. Os EUA já se adaptaram a ela, inclusive no terreno
estratégico, de que é prova a parceria nuclear com a Índia. No
terreno comercial, financeiro e tecnológico o que existe é uma
simbiose cada vez maior entre os EUA e os emergentes asiáticos:
tanto os chineses são dependentes da avidez de consumo dos
americanos quanto estes são hoje dependentes da boa disposição dos
asiáticos em continuarem financiando seus déficits.
A América Latina não está a priori excluída da nova
geografia, mas ela se exclui a si mesma quando recusa concluir
acordos comerciais, estender garantias ao investimento direto
estrangeiro, oferecer maior abertura em serviços ou outras rubricas.
Ela se exclui, igualmente, quando se contenta em explorar suas
vantagens ricardianas em recursos naturais, mas não avança na
qualificação educacional da sua população, não investe o suficiente
em ciência e tecnologia, mantém a desigualdade social em níveis
inaceitáveis e apresenta um péssimo ambiente micro e macro para o
mundo dos negócios.
21) As ameaças aos EUA provindas da América Latina
não são derivadas de qualquer desafio estratégico, mas emergem de
fatores negativos internos (tanto aos EUA como à América Latina),
ligados à economia da droga, basicamente. A oferta contínua de
imigrantes, por outro lado, é um fator positivo, para ambos os
lados, mas pode estar associado a outras fontes de criminalidade.
Com uma demanda irrefreável dos EUA por drogas duras,
não há dúvida de que qualquer plano de contenção atuando no
“supply-side” econômico, apenas – como é o caso do Plano Colômbia –
tende a não produzir resultados significativos, ainda que possa
trazer benefícios residuais do ponto de vista do combate à
narcoguerrilha. O problema da droga não será resolvido enquanto não
for equacionado o lado da demanda. Mas, trata-se de um problema para
os dois lados, pois ele tende a gerar, no território dos produtores
e dos países de trânsito – o que é obviamente o caso do Brasil –,
uma corrupção ativa dos agentes públicos, que atinge basicamente o
sistema político e o aparato policial.
No que se refere à oferta do fator humano, ela
atende, igualmente, aos dois lados da equação, mas com
desequilíbrios sociais e econômicos, pois os países exportadores
retiram vantagens que eles não estão dispostos a renunciar,
diminuindo, por outro lado, a pressão política para que os
dirigentes políticos reformem suas instituições esclerosadas,
ofereçam novas oportunidades de emprego local, qualifiquem
educacionalmente suas populações e atuem decisivamente no plano das
desigualdades distributivas. Os EUA retiram vantagens desse fluxo
importador, mas eles se preparam para gastar inutilmente US$ 6
bilhões com um muro de fronteira rigorosamente inútil e ineficiente.
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