TÂNIA MARA DE ALMEIDA PADILHA

Mestranda em Ciências Sociais na Universidade Estadual Paulista/UNESP - Faculdade de Filosofia e Ciências/FFC, Campus de Marília. Professora de Sociologia na FAJOPA - Faculdade João Paulo II - Marília/SP

 

 

Questão agrária e camponesa: as influências da Rússia na teoria de Marx e Engels

por Tânia Mara de Almeida Padilha*

 

A questão agrária e camponesa sempre suscitou polêmica no cenário histórico – principalmente dentro das tradições que se reivindicam marxistas –, desde seu surgimento, como problemática a ser refletida e superada no século XIX, até os dias atuais quando vimos emergir durante o século XX diversos movimentos sociais que reivindicam uma base rural/camponesa e que estão atuando em pleno século XXI como uma das principais forças, consideradas, anticapitalistas do cenário mundial.

No decorrer do século XIX, o movimento operário e socialista do Ocidente, nas suas fases iniciais, praticamente deixou de lado a questão agrária e camponesa. O campesinato era visto como uma camada social em vias de extinção proveniente da ordem feudal que sucumbiria na medida em que o capitalismo se revelasse. Dessa forma, a questão agrária ou camponesa no marxismo[1] só tangenciou um estatuto teórico quando sua formulação relacionou-se com as tendências que se constituíram dentro do socialismo europeu em torno da controvérsia que se convencionou chamar “Debate sobre a Rússia".

Segundo Hegedüs (1984), Marx passou a pensar a questão agrária quando se preparou para escrever sobre a miséria dos viticultores de Mosella, redigindo dois artigos, em que se apresentou como defensor dos pequenos produtores reduzidos à miséria devido à queda dos preços de mercado, colocando-se contra as políticas emergenciais do Estado. Nos anos da década de 1850 Marx se dedicou a questão agrária em sentido estrito, analisando as leis de desenvolvimento da agricultura, considerando a teoria da renda fundiária e conseqüentemente a nacionalização da propriedade fundiária. Essa reflexão parte da hipótese teórica de que na produção agrícola reinam as relações mercantis, no entanto, naquela época, as relações de mercado estavam presentes na Europa Ocidental e na Europa Oriental não havia se desenvolvido. Esse fato fez com que Marx se interessasse em analisar as condições da Rússia. Infelizmente seus manuscritos ficaram inacabados no Livro III de O Capital, onde se pode encontrar apenas uma explanação da teoria da renda fundiária. (HEGEDÜS, 1984).

O interesse de Marx e Engels pela Rússia aconteceu na época da guerra da Criméia contra a Turquia (1853-1856), no que diz respeito à influência da Rússia no debate europeu e sobre a polêmica de seu regime político e social, considerado, num primeiro momento, um obstáculo à revolução proletária européia. Essa guerra demonstrou o atraso econômico desse país, fazendo com que o czar implantasse uma série de medidas para o desenvolvimento, culminando em 1861 na abolição formal da servidão[2]. Nesse contexto surge em 1870 o movimento social chamado Khosdenie u narod, que significa ir ao povo, conhecidos como populistas russos ou narodiniks.

Para Walicki (1984), foi através dos narodiniks que as idéias de Marx e Engels se difundiram na Rússia[3]. Os populistas difundiram as idéias desses autores entre os camponeses e operários russos, considerando a teoria do valor-trabalho e as análises de desmascaramento da natureza do capitalismo. A partir dessas reflexões, os populistas entendiam que era possível barrar o capitalismo na Rússia através da unificação da agricultura e da indústria nas mãos dos produtores diretos.

Circunscritos nesse debate foi que Marx e Engels passam a dialogar com os narodiniks, através da pergunta posta por eles: será possível realizar o socialismo na Rússia sem passar pelo capitalismo? Fernandes estudando o dialogo entre narodiniks e Marx e Engels, considerou que:

partiram de uma posição de antagonismo radical em 1875, evoluíram para uma aproximação máxima em 1881, e passaram a recuar, chegando, com Engels sozinho, a uma ruptura ainda cautelosa por volta de 1885, que passou a uma ruptura radical na década seguinte (FERNANDES, 1982:44).

Assim, o primeiro dialogo desses autores com os narodiniks se deu 1875 com a carta aberta de Tkatchov (1982) a Engels. Nesse período, Marx e Engels se concentraram no sentido de acalmar as esperanças de revolução baseadas na insatisfação popular propagadas pelos narodiniks, defendiam que a Rússia era o baluarte das forças reacionárias da Europa.

Em um segundo momento, chegaram a considerar a Rússia como vanguarda do movimento revolucionário europeu, como podemos observar no prefácio de 1882 a edição russa do Manifesto Comunista.

O Manifesto Comunista tinha como tarefa a proclamação do desaparecimento próximo e inevitável da moderna propriedade burguesa. Mas na Rússia vemos que, ao lado do florescimento acelerado da velhacaria capitalista e da propriedade burguesa, que começa a desenvolver-se, mais da metade das terras é possuída em comum pelos camponeses. O problema agora é: poderia a obshchina russa – forma já muito deteriorada da antiga posse em comum da terra – transformar-se diretamente na propriedade comunista? Ou, ao contrário, deveria primeiramente passar pelo mesmo processo de dissolução que constitui a evolução histórica do Ocidente?

Hoje em dia, a única resposta possível é a seguinte: se a revolução russa constituir-se no sinal para a revolução proletária do Ocidente, de modo que uma complemente a outra, a atual propriedade comum da terra na Rússia poderia servir de ponto de partida para uma evolução comunista.(MARX & ENGELS, 1998:73).

Segundo Costa Neto essa mudança de postura de Marx foi resultado da troca de correspondência com os intelectuais populistas e diversos estudos dedicados à Rússia. “Essa mudança não deixará de se expressar em uma nova reflexão sobre a possibilidade de diferentes vias históricas de desenvolvimento”.(COSTA NETO, 2006:23). Costa Neto atenta para isso através da tradução francesa do capital, onde Marx acrescenta a validade da sua teoria apenas para a Europa ocidental. Logo após em 1883 Marx morreu em Londres no dia 14 de março, a partir disso Engels manteve sozinho o debate com os teóricos russos.

As posições de Marx e Engels sobre essa questão diferiram em alguns aspectos. Engels via na comuna russa o ponto de apoio da autocracia russa e que a revolução socialista deveria ocorrer primeiramente no Ocidente enfatizando a objetividade das leis do desenvolvimento capitalista, enquanto Marx chegou a tangenciar uma reflexão de uma possível revolução russa edificada na comuna agrária. Marx, ao assimilar o debate que se desenvolvia na Rússia com relação aos camponeses, pensou numa proposta mais dialética do que a de Engels, que, de certa forma, desconsiderou a “função” revolucionária desse movimento.

Para Marx, em seus últimos textos, não existia uma regra de desenvolvimento para todos os países, enquanto que para Engels a Rússia era um país agrário e deveria passar necessariamente pelo capitalismo. Localizados nesse debate é que se forjaram as reflexões marxistas de diversas vertentes acerca da questão agrária e camponesa, como podemos observar nas reflexões de Plekhanov, Kautski, Lênin, Rosa e outros intelectuais que de certa forma influenciaram ou influenciam os movimentos sociais agrários – e não somente - na atualidade.

 

Referências

COSTA NETO, Pedro Leão da. Marx e a Rússia: a leitura de Antonio Gramsci e Karl Korsch. In: Novos Rumos, ano 21, n 46. 2006 p.23-33.

FERNANDES, Rubem César. Dilemas do socialismo: a controvérsia entre Marx, Engels e os populistas russos. Rio de janeiro: Paz & Terra, 1982.

HEGEDÜS, András. A questão agrária. In: HOBSBAWM, Eric. História do marxismo IV: O marxismo na época da Segunda Internacional. Trad. Carlos Nelson Coutinho e Luiz Sérgio N. Henriques. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 1984. (Coleção Pensamento Crítico, V. 56) p. 149-172.

LÊNIN. O Partido Operário e o Campesinato. In: LÊNIN. Obras Escolhidas. Moscovo: Avante, 1984  p. 28-35.

MARX e ENGELS. Manifesto Comunista. Org. e Introdução Oswaldo Coggiola. São Paulo: Boitempo, 1998.

TKATCHOV, P. N. Carta Aberta ao Sr. F. Engels. [1874] In: FERNANDES, Rubem César (Org.) Dilemas do socialismo: a controvérsia entre Marx, Engels e os populistas russos. Rio de janeiro: Paz & Terra, 1982. p. 131-139

WALICKI, Andrzej. Socialismo russo e populismo. In: HOBSBAWM, Eric. História do marxismo III: O marxismo na época da Segunda Internacional. Trad. Carlos Nelson Coutinho e Luiz Sérgio N. Henriques. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 1984. (Coleção Pensamento Crítico; v. 56) p. 53-75.

 


* Mestranda em Ciências Sociais na Universidade Estadual Paulista/UNESP - Faculdade de Filosofia e Ciências/FFC, Campus de Marília. Professora de Sociologia na FAJOPA - Faculdade João Paulo II - Marília/SP.

[1] A questão agrária e camponesa, como demonstrou Hegedüs (1984), foi pensada no marxismo de duas maneiras: como análise das relações de propriedade e de produção vigentes no campo, que seria a questão agrária no sentido estrito; e como uma análise das estruturas sociais, onde o campesinato se apresentava como uma classe em transição, ou como uma classe que provinha da ordem econômico-social feudal que continuaria a existir no capitalismo, ou ainda, como uma classe social de transição entre a burguesia e o proletariado, classes fundamentais do capitalismo. Esta última forma da questão agrária pode ser apresentada como questão camponesa. O marxismo, também, analisou a articulação interna do campesinato a fim de entender sua relação com a classe operária ou o partido operário, a fim de formular os programas agrários das social-democracias.

[2] A reforma de 1861 permitiu apenas que os camponeses se emancipassem em relação à propriedade senhorial, reconhecendo a propriedade das comunas camponesas sobre uma parcela das terras aráveis da Rússia, mas, com um alto pagamento de indenização ao Estado, pois, para que os camponeses ficassem com a terra era necessário pagar um resgate estabelecido muito além do valor real. Sobre essa reforma, Lênin (1984), ressaltou que dez anos após sua execução até os latifundiários reconheceram que os camponeses, além de pagar pela terra, pagavam também suas liberdades. Logo, os camponeses continuavam a ser o estado social mais baixo, pois não dispunham de nenhuma espécie de liberdade.

[3] O Manifesto Comunista foi traduzido por Bakunin em 1869 e O Capital por Nicolau Frantsevitch Danielson (1844-1918) – economista populista que se dedicou à argumentação econômica da necessidade de um desenvolvimento não capitalista para a Rússia – em 1872, sendo essa a primeira edição do livro.

 

 

 

 

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