Reflexões sobre a prática docente (II)
por Antonio Ozaí da Silva
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Nota aos leitores:
os textos aqui reunidos foram
publicados em meu blog e, portanto, corresponde aos
objetivos e estilo do mesmo (ver
Por que um blog? e
Sobre o blog). São escritos de reflexão, sem
pretensão acadêmica e científica e limitados a no
máximo 3.100 caracteres. Exprimem reflexões
inspiradas em leituras, observações do cotidiano,
angústias e interrogações sobre a práxis educativa,
a política, em suma, a vida. Enquanto tal, não
mantém necessariamente uma continuidade, mas mantém
de alguma forma vínculos entre si. São reproduzidos
aqui seguindo a ordem cronológica em que foram
publicados no blog (identificados pelos subtítulos e
data). Parece-me que a publicação neste espaço se
justifica pela atualidade, extensão e diversidade do
público leitor. Comentários, críticas e sugestões
são bem-vindos e podem ser postados diretamente no
blog e/ou enviados pelo email pessoal:
antonioza@gmail.com. |
A rua e a sala de aula
É tarde, faz muito calor. Caminho em direção ao
“templo do saber” e vejo na rua uma mulher que aparenta idade
acima da que realmente tem. Seu corpo mostra as marcas de uma
vida sofrida e laboriosa. Desço a avenida e ela, no sentido
oposto, puxa um carrinho cheio de lixo reciclável. É o seu
trabalho, o ganha-pão. Isso me faz pensar sobre as contradições
da sociedade. Começo a enumerar as respostas em minha mente, mas
a materialidade é incomensurável diante das minhas idéias sobre
o presente e o futuro. Penso em abordá-la. Mas, o que dizer?
Concluo que apenas a perturbaria e faria perder precioso tempo.
Sinto-me até mesmo culpado por não ajudá-la a puxar o “veículo”
ladeira acima. Como ela reagiria diante de inusitada atitude?
Porém, ainda que aceitasse minha ajuda, não mudaria a realidade
do seu cotidiano. Se nada posso fazer para aliviar o seu esforço
diário, que direito tenho em admoestá-la? Sigo o meu caminho,
mas não a esqueço.
É noite, caminho sob o brilho da lua de beleza
ímpar. Ando absorto em pensamentos que me consomem. Uma visão me
trás de volta à realidade: um homem negro sentado à frente de um
prédio assistindo TV num desses aparelhos portáteis. Ele não
está ali por acaso, mas sim porque é o vigia do estacionamento
de um imóvel de poucos andares que aparenta ser uma república de
estudantes da classe média. Não ouso atrapalhar o seu
entretenimento, mas quase paro para conversar. Gostaria de
perguntar porque seu local de trabalho é uma cadeira na rua. Ele
deve ficar ali até o nascer do sol, a cuidar dos automóveis de
gente que é bem-cuidada. Protege a propriedade dos que lhe pagam
o salário do mês. Parece justo. Quanto receberá por seu
trabalho? O prédio fica num vale, à margem de um córrego. O
frio, portanto, é mais intenso. Por que os condôminos não
constroem uma guarita que o proteja das intempéries? Talvez
considerem que custa caro garantir uma condição de trabalho
humana; quem sabe se sintam mais protegidos se o homem estiver
ao relento. Até porque é mais difícil cochilar e dormir. E muito
provavelmente todos, inclusive o trabalhador, achem a situação
como normal e natural.
Estou na sala de aula e observo os estudantes
durante uma atividade. Uns se envolvem com o que fazem, outros
fazem de conta; uns tomam a sério a tarefa de pensar sobre as
palavras do texto; outros se recusam a pensar, seus corpos estão
presentes, mas as mentes estão distantes. Não se retiram, talvez
por respeito. Analiso tudo pacientemente e tento compreendê-los.
Não conheço suas histórias de vida, os laços que nos unem são
tênues. Sei que não são simplesmente a abstração genérica
“alunos”, mas indivíduos com personalidades e histórias de vida
específicas.
Lembro-me da senhora que vive do lixo e do senhor
negro vigilante. Percorro a sala com meus olhos e penso se os
estudantes têm consciência da realidade social e das causas que
produzem situações como estas. Não sei o que se passa em suas
cabeças, conheço-os apenas naquele restrito espaço da sala de
aula. Não tenho o direito de julgá-los, mas as atitudes sugerem
possibilidades nem sempre alentadoras. Imagino se algum deles
conhece a senhora do carro de lixo ou se moram no prédio do
vigia que trabalha sob o luar e o brilho das estrelas. Não ouso
perguntar.
Termina a aula e volto para casa. Um pensamento
me angustia: que tipo de ser humano contribuo para formar? São
indivíduos críticos e capazes de transformar a sociedade que
vivem? Ou será que nada mais faço do que legitimar a formação de
indivíduos adaptados e incapazes de questionar a ordem social?
São, pelo menos, sensíveis e capazes de se indignar? Não sei!
Depende das opções que fazem. De qualquer forma, há os que fazem
valer a pena o ofício do educador.
Método decoreba
Aprendi tabuada pelo método tradicional. A
professora nos fazia exercitar a memorização das operações
matemática. Repetia, repetia e, na aula, devia mostrar que sabia
sem recorrer ao livrinho. O método se mostrou eficaz. Hoje, na
era da internet, das máquinas de calcular potentes, encontramos
jovens que não conseguem realizar os cálculos básicos sem
recorrer às calculadoras. Na minha infância, nem sabia que elas
existiam.
Éramos educados através dos ditados e provas do
tipo “marque um X”, “verdadeiro ou falso”, “complete a frase”.
Insistia-se que memorizássemos datas e acontecimentos
históricos, como se isso fosse mais importante do que
compreender os “porquês”, influências sobre o presente etc.
Aprender história era muito chato. Claro, havia as exceções.
Até mesmo na graduação, e fiz um curso deveria
exigir reflexão e elaboração crítica, tive professores/as que
recorreram ao tradicional decoreba. As provas não eram um
estímulo ao pensar crítico, mas um exercício no qual devíamos
provar que memorizamos conceitos e teorias. Não éramos
desafiados a aprender, mas a consumir textos e vomitá-los em
forma de escrita na prova. E se nos autorizavam a pensar, como
se fosse preciso, era no sentido de “pensar” de acordo com o
autor preferido do/a professor/a. O objetivo não era ensinar,
mas doutrinar. Sim, havia exceções. E foram as que mais
contribuíram com a minha formação e que recordo mais vivamente.
Hoje, como professor, procuro não repetir as experiências que me
frustraram como aluno. Sempre aprendemos algo com nossos
professores, nem que seja, simplesmente, não agir como eles.
Após tantos anos, ainda se recorre ao método
decoreba. O aluno chega à universidade treinado para memorizar e
a expectativa de muitos/as professores/as não vai além disso. Há
quem imagine que a formação acadêmica consiste em memorizar o
código penal, os conceitos e teorias sociológicas e políticas.
Não forma, deforma. Memorizar é diferente de compreender.
Memoriza-se para tirar uma boa nota, passar no exame, mas não
necessariamente aprende-se. A memorização tende a se ater ao
objetivo imediato. Posso memorizar os eventos históricos, mas
isso não indica que compreendo.
A decoreba pressupõe a repetição conteudista e
não a reflexão sobre o conteúdo. É como exigir que se memorize
quem é o autor de uma obra de arte, local, ano etc. Essas
informações estão disponíveis nos livros e na internet. Não é
melhor educar a sensibilidade, estimular a reflexão sobre a obra
e o contexto histórico? Qualquer estudante de direito tem acesso
ao código civil e penal, leis constitucionais, trabalhistas,
etc. Por que devem memorizar? Isso é mais importante do que
compreender o significado e a realidade que sustenta a lei?
Fico a pensar sobre o que se passa na mente dos
docentes que aplicam provas do tipo “V ou F” e são extremamente
pacientes, para não usar outra expressão, em elaborar as
questões com sutilezas e “pegadinhas”. Testam a “esperteza”, não
o conhecimento. Querem provar o que?
Para este tipo de mentalidade, se o estudante
memoriza nomes, locais, datas, leis etc., “sabe”. Isso me faz
lembrar certos programas da TV que “testam” o saber
enciclopédico dos indivíduos. Pelo menos há o entretenimento e o
objetivo bem definido de competir para ganhar o prêmio. No caso
do estudante, isto significa “tortura mental”, da qual depende o
seu diploma, o prêmio merecido por suportar tais métodos de
aprendizagem. Mas este é ilusório, pois apenas indica que
conseguiu concluir o curso. Com este procedimento, os/as
professores/as estimulam estratégias de sobrevivência, incluindo
a “cola”, o plágio. Aos professores/as resta reclamar e
insistir. É patético!
Professores apaixonados
Fui à escola que minha filha estuda, Colégio
Estadual Santa Maria Goretti, cumprir o dever de pai.
Enquanto aguardava para receber o Boletim, observei o
ambiente. Vi várias imagens coladas na parede da sala da
diretoria. Aproximei-me para ler as palavras sobre as fotos. Era
uma homenagem aos “professores apaixonados”. Não se tratava de
namoro ou casamento, mas da paixão pelo próprio trabalho;
professores que amam o que fazem. Felizmente, e apesar das
dificuldades, ainda há os assumem apaixonadamente o papel de
educadores.
Após a conversa de praxe sobre as notas e o
desempenho escolar da minha filha, fui embora. Antes, porém, fiz
questão de comentar e elogiar a iniciativa, mesmo sabendo que os
“professores apaixonados” representam a minoria. Ser professor é
uma profissão como outra qualquer e, como em todas áreas, há os
que se identificam com o que fazem, e os que apenas cumprem a
jornada. Nas condições da sociedade moderna, o trabalho, já
dizia um filósofo alemão, é alienante. Portanto, é muito difícil
sentir prazer ou apaixonar-se. Ponto para os que, mesmo nas
condições de alienação do trabalho, se “apaixonam”.
Fiquei a pensar sobre o significado das palavras
e imagens dos “professores apaixonados”. Dialeticamente, como se
diz no bom sociologuês, em minhas reflexões mesclam-se o
estudante e o professor; a criança, o adolescente e o adulto.
Recordei, com carinho e saudade, da primeira professora. Lembrei
que, ao completar 18 anos de idade, na época morava em São
Paulo, retornei ao nordeste para rever a cidade da minha
infância e conhecer a que nasci. Fui informado que a professora
morava na periferia de São Paulo. Peguei o endereço e, ao
retornar, fui visitá-la. Não sei se ela compreendeu o gesto, mas
demonstrou contentamento. Foi o reconhecimento e gratidão a quem
marcou a minha vida.
Recordei também dos que me ensinaram os primeiros
conceitos e teorias; dos que me apresentaram os rudimentos das
línguas estrangeiras, em especial da minha professora de
francês, no ginasial; lembrei do professor de matemática que me
estimulou a aprender o jogo de xadrez – embora eu ainda seja
péssimo xadrezista; do professor de história que me ensinou o
significado didático da polêmica; recordei, ainda, da graduação
e dos que, mais do que conteúdos, me ensinaram pelo exemplo. No
mestrado, tive excelentes professores, em especial o meu
orientador Maurício Tragtenberg. O mesmo no doutorado, em que
convivi com professores experientes e tive a alegria de ser
orientado pelo Nelson Piletti. Da infância ao doutorado, há os
que marcaram a minha vida, os que fizeram a diferença, os que
jamais esquecerei e a quem sou grato.
“Professoras apaixonados” são os que fazem a
diferença, os que marcam a vida dos seus alunos. Há também os
que deixam marcas negativas e traumáticas. Em minha vida de
professor, desde a época que trabalhei no ensino público em
Diadema (SP) e no Guacuri (zona sul da capital paulistana),
conheci estudantes que ficaram traumatizados devido à
determinadas atitudes dos seus professores. Tenho dúvidas se,
neste caso, gostam da profissão.
Há, ainda, os professores apaixonados pelo
conteúdo, pelas disciplinas que trabalham. Eles dão o exemplo do
amor ao saber, mas pecam por darem mais importância às
abstrações dos conceitos e teorias do que às relações humanas
que se estabelecem na atividade docente.
Conclui que sou alguém de sorte. Faço o que
gosto. Sou apaixonado pelo que faço. Agradeço aos meus
professores e professoras e, também, aos discentes. Obrigado e
parabéns aos professores, apaixonados ou não, pelo nosso dia!
Deus na Escola?!
A Assembléia Legislativa do estado de São Paulo
aprovou a lei que prevê a formação de um grupo de estudo cuja
tarefa é elaborar o manual “Deus na Escola” a ser utilizado nas
escolas. O projeto foi vetado pelo governador do estado, José
Serra.
Não deixa de ser curioso que as nobres almas que
freqüentam o legislativo paulista imaginem que o Todo Poderoso
necessita dos seus préstimos para se fazer presente no ambiente
escolar. E sob a forma de um manual a ser usado por educadores,
transformados em soldados do exército de salvação do Senhor.
Ironicamente, a autora do projeto afirmou que “tentar impedir a
entrada de "Deus na escola" é, no mínimo, um ato
antidemocrático”.
Deus não é Onipresente? Por que precisaria da ajuda da nobre
deputada para adentrar às escolas? Seria um caso de
incredulidade na capacidade do Divino? Talvez ela se refira a si
mesma e aos que se consideram porta-vozes do Altíssimo!
Isso me fez lembrar uma historinha. A professora
entra na sala de aula e se apresenta aos adolescentes. Ela os
chama de “meus filhos”. Eles estranham, afinal têm as suas
genitoras e não imaginam ter outra mãe, muito menos que fosse a
professora. Ela pede que não estranhem e explica que os ama como
“filhos”. Risinhos, troca de olhares irônicos, e a “aula”
continua. A “mãe-professora”, cheia de amor, diz que precisa ter
uma conversa muito séria. Os estudantes se entreolham. Será que
ela falará sobre o “diga não às drogas”? O assunto é sexo. Em
tom maternal, ela pede que mantenham a abstinência sexual, que
se guardem para os seus respectivos esposos e esposas e não usem
camisinha. Ainda sobram críticas ao presidente da república que
teria defendido o uso do preservativo.
Nada contra a liberdade de opinião e o direito da
professora-mãe ter posições sobre temas controversos na
sociedade. Porém, vale destacar que: 1) a aula não era de ensino
religioso (e mesmo se o fosse me parece que não se trata de
determinar comportamentos, mas de estimular o debate); 2) a
professora, mesmo que com a melhor das intenções, foi motivada
por suas convicções religiosas e confundiu o seu papel de
educadora laica com o de catequista, sem atentar para as
diferenças que caracterizam a sua igreja e a sala de aula; 3)
desrespeita, ainda que não tenha intenção, os que não comungam
da mesma religião e usa inadequadamente a autoridade de
professora; 4) ela confunde o papel que deve desempenhar
enquanto educadora com a função de mãe.
É admissível, e até desejável, que os educadores
estimulem os alunos a discutirem temas polêmicos, com o cuidado
de prepará-los para esse debate, evitando que resvalem para o
preconceito, racismo, intolerância religiosa e etc. Mas não como
sermão e de maneira condicional. A professora, mesmo que se veja
como mãe dos educandos, tem a autoridade instituída e sua fala
tem peso – ou deveria ter. Pode influir e essa influência não é
necessariamente benéfica.
Será que os jovens aceitaram a moral religiosa da
professora? Mas se não se “controlam” e têm relações sexuais,
não seria melhor orientá-los a usar a camisa-de-vênus? Na ótica
moralista da “mãe-professora”, se as jovens engravidam ou
contraem Aids e doenças sexualmente transmissíveis, isso se deve
ao pecado, ao fato de não terem dado ouvido às suas palavras. É
um castigo, uma punição.
Contudo, talvez o mais grave seja a confusão
entre o laico e o religioso. Tal professora é o exemplo de como
o espaço laico da escola é tomado como extensão do templo e,
portanto, sujeito ao discurso da religião. E isso sem que exista
o tal manual. Imagine esse tipo de educadora legitimada por
manuais e com a certeza de que expressa a vontade divina, como
se o Todo Poderoso falasse por sua boca. Deus nos livre!
Professor(a) seminarista
Não se trata da formação eclesiástica, mas do
recurso usado pelos docentes, em especial no ensino superior, de
dividir as turmas em grupos, os quais ficam responsáveis por
apresentar determinados temas. Enquanto expediente didático
alternativo à aula expositiva centrada no professor, é uma idéia
louvável e apresenta aspectos positivos. Os acadêmicos são
estimulados a pesquisar, se organizar enquanto coletivo e
planejar a apresentação.
O professor Antonio Joaquim Severino, em seu
livro sobre a Metodologia do Trabalho Científico,
indica as condições necessárias para que o seminário atinja o
objetivo de “levar todos os participantes a uma reflexão
aprofundada de determinado problema, a partir de textos e em
equipe”. É preciso que todos tenham “um contato íntimo com o
texto básico, criando condições para uma análise rigorosa e
radical do mesmo”; que o estudo leve “à compreensão da mensagem
central do texto, de seu conteúdo temático”; “à interpretação
desse conteúdo, ou seja, a uma compreensão da mensagem de uma
perspectiva de situação de julgamento e de crítica da mensagem”;
e que propicie a “discussão da problemática presente explícita
ou implicitamente no texto”. “Essas etapas”, salienta o
professor, “devem ser preparadas e realizadas de acordo com as
diretrizes da leitura analítica, sendo que a análise textual,
pelo menos em cursos avançados, deve ser realizada previamente
por todos os participantes”.
Portanto, realizar o seminário não é tarefa fácil!
O problema é que a prática dos seminários nem
sempre corresponde ao ideal. Embora tenha o objetivo de
estimular a participação do acadêmico, e neste sentido favorecer
a sua autonomia intelectual, esta prática tende a incorrer em
vícios que comprometem o processo de ensino-aprendizagem. A
responsabilidade de preparar o seminário também pressupõe o
convencimento dos acadêmicos para que efetivem as condições
necessárias ao bom desempenho e sucesso da atividade. Não é
fácil! Estes, em geral, foram treinados a passivamente ouvir o
professor, anotar e fazer a prova. Para eles, a aula só é aula
se centrada no discurso professoral; tendem a medir a qualidade
da aula pelo total de anotações no caderno.
Por outro lado, o excesso de tarefas a que são
submetidos leva-os a adotar estratégias de sobrevivência. Neste
caso, é comum a divisão taylorista do trabalho intelectual: cada
um faz parte da atividade, o que na maioria das vezes indica que
lerá apenas o trecho sobre o qual falará. Há os que se fazem
fisicamente presente, sem qualquer participação efetiva – isso,
sem contar os que descaradamente constam do grupo apenas para
“tirar a nota”, sem que efetivamente dêem qualquer contribuição.
Em suma, não há trabalho coletivo e o aprendizado individual
fica comprometido na medida em que a apreensão, se ocorre, se dá
de forma parcelada.
Os equívocos são amplificados em relação à turma.
Nas condições descritas, cada grupo preocupa-se apenas com o seu
tema e em se livrar da tarefa. Torna-se difícil manter todos
concentrados e envolvidos, de forma que se produza a discussão e
aprofundamento do tema. E se as apresentações se estenderem, há
o risco de que as aulas seguintes sejam esvaziadas. Quem já
apresentou, simplesmente não comparece. Os professores, é claro,
podem cobrar a presença e estabelecer critérios que obrigue os
acadêmicos a participar, mas isso se revela ineficaz. Ainda que
presentes, ficam alheios à dinâmica e chegam até a adormecer. Em
suma, nestas condições o seminário tende a fracassar e apenas
preenche o tempo da aula. Qual a responsabilidade dos
professores nisso?
O que prova a prova?
Os tempos de aprendizagem são diferenciados; a
capacidade de aprender, diferente de memorizar, não é igual para
todos. Em vez de estimular a solidariedade, o sistema instiga a
concorrência e desestimula os que não conseguem as boas e ótimas
notas. Eis um dos fatores de evasão escolar. Ao confundir
memorização com aprendizado, o aluno nota DEZ vive a ilusão de
ser o melhor, o mais inteligente. Dê-lhe uma questão que exija
análise e reflexão, ou seja, simplesmente pensar, e ver-se-á as
dificuldades. Já o aluno que tira nota baixa, tende a se ver
como pouco inteligente. O sistema se fundamenta no pressuposto
de que há uma inteligência padrão e que é possível medi-la. A
nota é sobrevalorizada e os meios se transformam em fins.
Como medir capacidades diferenciadas quando se
homogeneíza os processos pedagógicos? Como explicar diferenças
quantitativas ínfimas? O que justifica que um aluno seja
reprovado porque não atingiu a nota 6.0, mas apenas 5.7 ou 5.8?
Será culpa do aluno ou capricho do professor? Quem garante que a
subjetividade do professor não influencia? Se ele avaliasse o
aluno em outras circunstâncias a nota seria a mesma?
O pressuposto em que se fundamenta o sistema de
provas é um engodo. Quantos de nós, professores, passaríamos
novamente num exame vestibular? É simples: o que memorizamos,
com o tempo esquecemos. Os pais que acompanham a vida escolar
dos filhos sabem-no. Quantas vezes não conseguimos responder
suas perguntas sobre conteúdos que há muito foram excluídos da
nossa memória? Façamos um teste simples: quantos de nós não se
atrapalharia se tivesse que responder às questões colocadas aos
nossos alunos por professores de outras disciplinas? Quantos não
nos tornamos dependentes do livro didático ou dos textos
adotados no ensino superior? Sabemos tudo da nossa área de
conhecimento?
O sistema da prova também estimula a fraude: da
simples cola à encomenda do trabalho a um colega da própria
turma, geralmente considerado c.d.f. ou mais inteligente, que
aproveita para ganhar uns trocados. O aluno que tem mais
recursos pode comprar o trabalho em sites que oferecem esse tipo
de serviços ou, por seu próprio “esforço”, pesquisar na
Internet, salvar, selecionar o conteúdo, copiar, colar, editar,
fazer uma bela capa. Eis um trabalho nota DEZ! Ainda há o
recurso de comprar o CD na banca de jornal (os quais oferecem
trabalhos praticamente prontos). Os alunos sem recursos
financeiros podem simplesmente ir à biblioteca e copiar do livro
ou da enciclopédia. São estratégias de sobrevivência! Contudo,
talvez a conseqüência mais nefasta desse sistema seja o
assassinato da curiosidade intelectual da criança e do jovem:
estuda-se apenas pela nota.
Alguns até tentam ser criativos e adotam
mecanismos que disfarçam a tortura – tanto para o aluno quanto
para o professor – de ter que dar a prova e a nota. Inventam-se
coisas como simulacros de educação continuada que se resume à
mera transformação da nota bimestral em semestral. A tortura
passa a ser aplicada em doses homeopáticas: tudo passa a valer
pontos e a prova bimestral é substituída por várias provinhas e
atividades que somadas valem DEZ. E isso é apresentado aos pais
e alunos como avanço. Estes, em geral, nem são consultados, mas
apenas informados.
O que prova a prova afinal? Nada. Ela é
um instrumento burocrático de controle que legitima o poder da
instituição e, em decorrência, dos professores. Afinal, como
controlar a turma sem a “prova”? E o pior é que parece não ter
como romper com o esquema. Mesmo quem discorda, tem que “dar a
nota”. Não obstante, é preciso avaliar. Como fazê-lo de uma
maneira justa e que estimule a solidariedade e o aprendizado?
O projeto é de autoria da deputada Maria Lúcia Amary,
líder do PSDB na Assembléia Legislativa do estado de São
Paulo. A defesa da autora está disponível em
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=50993.
Roseli Fischmann, doutora e livre-docente, é professora
do programa de pós-graduação em educação da USP e expert
da Unesco para a Coalizão de Cidades contra o Racismo, a
Discriminação e a Xenofobia, defendeu o veto ao projeto
em artigo publicado na Folha de S. Paulo e
disponível em
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=50992
Sobre as orientações para a realização de seminários,
ver: SEVERINO, Antônio Joaquim. Metodologia do Trabalho
Científico. São Paulo: Cortez Editora, 2007, pp. 89-98
(23ª edição revista e atualizada).