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AGRIPINO SOUZA COELHO NETO
Mestre em Geografia (UFBA).
Professor de Geografia Humana e Econômica da Universidade do
Estado da Bahia (UNEB/Campus XI).
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Relações entre o Estado e a Sociedade Civil nas Políticas
Territoriais: produzindo verticalidades e horizontalidades
por Agripino Souza
Coelho Neto
O exercício que proponho aqui é pensar a concepção e
a prática das políticas territoriais adotadas no Brasil,
considerando as formas de relacionamento estabelecidas entre o
Estado e a Sociedade Civil. O recorte temporal encontra-se
subdividido em dois contextos da história política brasileira, mesmo
admitindo, por um lado, as limitações deste recurso analítico, e por
outro, a possibilidade rica de outras periodizações. Contudo,
adotaremos esse recurso de periodização, como elemento de recortar o
tempo e oferecer uma compreensão da história.
Esta reflexão toma emprestados os conceitos de
verticalidades e horizontalidades, desenvolvidos por Milton Santos
(1999), na obra “A Natureza do Espaço”, empreendendo um esforço de
aplicação na interpretação do percurso das políticas territoriais no
Brasil. Quero destacar que a reflexão que apresentarei não é uma
proposta acabada, mas um exercício inicial que está sendo colocada
muito mais para abrir o debate do que apresentar uma leitura
definitiva sobre o assunto.
Estamos considerando políticas territoriais junto com
Costa (2001, p.13), designando “[...] toda e qualquer atividade
estatal que implique, simultaneamente, uma dada concepção de espaço
nacional, uma estratégia de intervenção ao nível da estrutura
territorial e, por fim, mecanismos concretos que sejam capazes de
viabilizar essas políticas”.
Segundo Santos (1999), nas condições atuais, os
arranjos espaciais não expressam apenas figuras formadas por pontos
contíguos, como se fossem manchas espaciais, mas também,
configurações formadas por pontos descontínuos e interligadas,
designando o que na concepção de Castells (1999) chama-se de espaço
de fluxos. Nesse arranjo espacial, formado por um espaço de fluxos,
de segmentações e partições, observam-se os fenômenos das
verticalidades e das horizontalidades.
As horizontalidades, segundo Santos (1996, p. 225),
são “extensões formadas de pontos que se agregam sem descontinuidade
como na definição tradicional de região”. Trata-se de um tecido
espacial conformado por relações de proximidade, de vizinhanças, de
um acontecer homólogo, na qual é possível desenvolver uma
solidariedade ativa e aumentar a eficácia política. Dessa forma, as
horizontalidades se conformam através de relações econômicas,
políticas, sociais e culturais que se estabelecem nas escalas locais
e regionais, nas quais é possível convergir solidariedades locais.
As verticalidades, por sua vez, são “pontos no espaço
que, separados um dos outros, asseguram o funcionamento global da
sociedade e da economia” (SANTOS, 1996, p. 225). Seriam conformadas
por relações que hierarquizam os espaços, nas quais imperam as
racionalidades de origem distante, portadoras de ordens estranhas ao
lugar, produzindo um efeito desintegrador das solidariedades locais
e uma perda relativa da capacidade de gestão da vida local. Nesse
sentido, as verticalidades são relações econômicas, políticas
sociais e culturais que se estabelecem entre lugares e entre
regiões, alcançando um espaço mundializado de relações.
Tomando a história como recurso, delimitamos
temporalmente nossa análise em dois contextos: o primeiro abarca os
momentos denominados pela literatura de Período Democrático
(1945-1964) e a Ditadura Militar (1964-1985); o segundo se
configurou após 1985 e vem sendo reconhecido como Nova República ou
como período de redemocratização do país.
No primeiro contexto delimitado, predominaram duas
concepções políticas empreendidas pelo Estado: (1) o
Desenvolvimentismo, enquanto
políticas com participação ativa do Estado, baseada no crescimento
da produção industrial e da infra-estrutura como base da economia e
o conseqüente aumento do consumo; (2) e as políticas de
Desenvolvimento Regional fundadas nos pressupostos da Teoria dos
Pólos de Crescimento,
que buscavam implantar ações que pudessem fomentar o desenvolvimento
nas regiões e reduzir as disparidades regionais.
Sob a égide desses modelos, um
conjunto de ações marcou a condução das políticas territoriais:
-
Ênfase no planejamento centralizado para gestão
do território nacional, a partir dos Planos Nacionais de
Desenvolvimento: Plano de Metas de JK, Plano Trienal de João
Goulart e os diversos PND’s dos governos militares.
-
Criação de um forte aparato estatal (agências
governamentais) para planejar e implantar as políticas
territoriais: Banco de Crédito da Amazônia (1950), CVSF (1948),
BNB (1953), SUDENE (1959), SUDAM (1966), SUDECO (1967).
-
No âmbito do planejamento governamental, foi
criada uma infinidade de programas e projetos pelo Estado,
tentando implantar a idéia de pólos de crescimento;
-
Criação de infra-estrutura territorial (nós,
malhas e redes) para viabilizar a modernização capitalista
difundida como um processo necessário de integração do
território nacional: redes ferroviária, viária e elétrica;
grandes obras hidráulicas, barragens, hidroelétricas e projetos
de irrigação; projetos de mineração; construção de cidades.
As concepções e as práticas políticas no âmbito do
Planejamento e Gestão do Território assumiram uma linha
centralizada, autoritária e vertical, conforme destacam diversos
estudos (FAORO, 1999; LEAL, 1997; OLIVEIRA, 1981; BURZTYN, 1987).
O caráter centralizador pela concentração das decisões no poder
estatal, sobretudo, na escala do poder central. As agências federais
se impunham sobre os estados da federação e a instância municipal,
produzindo conflito de competências entre as escalas da gestão
pública.
O caráter autoritário se manifestava no processo de
condução das decisões que ocorriam sem ouvir, consultar ou discutir
com a sociedade civil. O governo federal decidia os objetivos e
metas, executando as ações, independente das aspirações e
necessidades das diversas comunidades territoriais. Os planos,
programas e projetos eram concebidos nos gabinetes e pranchetas
técnicas e impostas às diversas regiões e lugares do país.
As relações verticalizadas, se manifestam pelo
distanciamento físico e de interesses, entre o lugar da decisão e os
lugares da materialização das ações. As relações verticais
caracterizam-se pelas soluções externas ao contexto regional/local,
criando interdependência estrutural, de ordem política e econômica.
As políticas territoriais adotadas nos moldes
destacados produziram uma série de repercussões no plano da
economia, da política, do espaço e da sociedade. A ação do Estado
produziu a chamada modernização conservadora (BECKER e EGLER, 1992),
elevando os índices de crescimento econômico e modernizando a
estrutura técnica de produção à custa do endividamento externo,
concentração de renda e produção de desigualdades sociais.
O modelo político favoreceu os esquemas de controle e
dominação política, oligárquica e coronelista, de caráter
autoritário, paternalista, clientelista e conservador, (BURZTYN,
1987). Engendrou uma concentração espacial do aparato produtivo e de
circulação no país, conformando o que Santos (2001) chama, por um
lado, de “zonas de densidade e de rarefação”, devido à elevada ou
reduzida concentração dos fixos (objetos geográficos), e por outro,
os “espaços de fluidez e de viscosidade”, em função da intensidade
ou pequena incidência dos fluxos de pessoas, mercadorias, capitais e
informações.
Ocorreu uma redistribuição espacial da população,
concentrando-a em algumas regiões do país e criando um intenso
processo de urbanização (BECKER, EGLER, 1992; SANTOS, 1993). Por
fim, promoveu a construção de territórios superpostos entre as
escalas nacional, estadual e municipal, sob a jurisdição das
agências governamentais do poder central.
Considerando esses elementos, as políticas
territoriais durante o primeiro contexto demarcado eram produtoras
de verticalidades, pois imperavam racionalidades de origem distante,
com finalidades estranhas às demandas, peculiaridades e interesses
dos lugares. O Estado atuava a partir de outras perspectivas,
seguindo um modelo hegemônico e autoritário fundado na idéia de
unidade nacional; orientado por uma lógica de patrocínio ao
desenvolvimento capitalista, fortemente influenciado e dirigido
pelos interesses do grande capital; e moldado pelos interesses
particularistas e privados das elites regionais.
Nesse sentido, as políticas territoriais implantadas
inserem-se no movimento das verticalidades enquanto “vetores de uma
racionalidade superior e do discurso pragmático dos setores
hegemônicos, criando um cotidiano obediente e disciplinado” (SANTOS,
2002, p. 227). Produziram um efeito desintegrador das solidariedades
locais, inviabilizando as possibilidades e capacidade de gestão da
vida local. As políticas territoriais operavam de forma vertical,
com relações espaciais hierárquicas entre os níveis hegemônicos,
global e nacional, e os níveis hegemonizados, regional e local;
estabeleciam relações sociais verticalizadas entre Estado (agências
governamentais) e sociedade civil (comunidades territoriais),
criando verticalidades como na idéia de lugares que mandam e lugares
que obedecem (SANTOS, 2001).
O segundo contexto se configurou após 1985 e tem sido
reconhecido como Nova República ou como período de redemocratização
do país, não apenas pelo retorno das eleições presidenciais,
como por uma série de fatores e pelas transformações ocorridas na
sociedade, na concepção do Estado, nas novas formas de relação entre
o Estado e a Sociedade Civil, conforme tem demonstrado diversos
estudos (PEREIRA, 1999; TEIXEIRA, 2001; AVRITZER, 2004; NOGUEIRA,
2005; FONSECA, 2006).
Verifica-se um processo de descentralização
administrativa e dos recursos públicos promovida pela Constituição
de 1988, conferindo maior autonomia aos Estados federativos e,
sobretudo, aos municípios, juntamente com a emergência e ampliação
de instrumentos de planejamento e gestão participativa e democrática
na esfera pública, a exemplo do Plano Diretor das Cidades, do
Orçamento Participativo, da criação dos Conselhos Municipais, e da
Agenda 21. A implantação dos novos instrumentos tem criado
mecanismos e aberto possibilidades de transparência e controle
social sobre as decisões e sobre as contas públicas.
Observa-se também, o fortalecimento da atuação da
sociedade civil organizada, que se manifesta através do aumento do
número dos movimentos sociais lutando por direitos de cidadania;
pela ampliação dos fenômenos de associativismo e cooperativismo;
pela ampliação das redes sociais de solidariedades em escala global
entre movimentos sociais, ONG’s e a população; pela ampliação dos
fóruns sociais de debate sobre relevantes questões públicas, com a
participação de diversos segmentos representativos da sociedade e
com a presença de integrantes do Estado. Relevante destacar que os
diversos movimentos têm conseguido colocar suas pautas
reivindicatórias nas políticas públicas, mesmo que ainda de forma
bastante tímida, e que os avanços estão ocorrendo em função da
atuação e da luta de segmentos da sociedade civil e não como uma
dádiva oriunda de um processo de amadurecimento do Estado.
No novo contexto tem predominado a concepção de
desenvolvimento local, que é definido por Boisier (1996), a partir
de alguns pressupostos: (1) crescente processo de
autonomia regional de decisão – capacidade de definição de seu
próprio estilo de desenvolvimento e encaminhar instrumentos
políticos nessa direção; (2) crescente capacidade regional para
apropriar de parte do excedente econômico produzido revertendo-o
para própria região; (3) crescente movimento de inclusão social: i)
melhoria da repartição do que é gerado; ii) possibilidade de
participação da população nas decisões de competência regional; (4)
crescente processo de conscientização e mobilização social para a
proteção ambiental e manejo racional dos recursos naturais
regionais; (5) crescente autopercepção coletiva de pertencimento
regional e identificação da população com sua região. Esses
pressupostos nos permitem pensar no reforço das horizontalidades, o
lugar/região empreendendo ações localmente construídas, formando uma
base que possibilite a coesão da sociedade civil, a serviço do
interesse coletivo.
Esses princípios e experiências em curso apontam
possibilidades de construção de horizontalidades, mas se colocam
também como desafios para as novas políticas territoriais e
sinalizam algumas preocupações sobre os novos arranjos
participativos, pois, apesar dos avanços, ainda persistem práticas
de conservadorismo político e estratégias de esvaziamento do espaço
público, viabilizadas pelas novas estratégias da acumulação do
capital contidas nas políticas neoliberais e na ideologia perversa
da globalização.
Outra preocupação é com o produto das solidariedades
e construções locais, que podem e vêm sendo capturadas por
interesses específicos, promovendo, em certos casos, um processo de
participação acrítica que possibilita o uso da população e dos
movimentos sociais como massa de manobra. A formação de novos grupos
dominantes mascarados por um falacioso discurso democrático
(esvaziado de prática), que usam os esforços das comunidades locais
e dos movimentos sociais em favor de interesses particularistas e
projetos de hegemonia política.
No passado próximo, coabitávamos com a negação da
participação e até com a dominação violenta, seja no plano físico,
seja no plano simbólico. Atualmente, convivemos com a emergência de
novas práticas de dominação simbólica, mascarada por uma
pseudo-participação. Observa-se também, a restritividade de certos
segmentos da sociedade civil que lutam por interesses pontuais,
exclusivistas, conjunturais e fragmentados, ignorando a
possibilidade de incorporar em suas pautas questões universais e
estruturais da sociedade.
Referências
AVRITZER, L. (Org.).
A participação em São Paulo.
São Paulo: UNESP, 2004.
BECKER, B. K.; EGLER, C. A. G.
Brasil: uma nova potência regional na Economia-mundo. São
Paulo: Bertrand Brasil, 1993.
BOISIER, S. Modernidad y Território.
Cadernos del Instituto Latinoamericano y del Caribe de
Planificacion Econômica y Social, n. 2, ILPES, Santiago do
Chile, 1996.
BURZTYN, M. O Poder dos donos.
Petrópolis: Vozes, 1987.
CASTELLS, Manuel. A Sociedade em
Rede. 3. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1999.
COSTA, W. M. O Estado e as
políticas territoriais no Brasil. São Paulo: Contexto, 2001.
FAORO, R. Os donos do poder.
São Paulo: Globo, 1999.
LEAL, V. N. Coronelismo, Enxada e
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NOGUEIRA, M. A. Um Estado para a
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OLIVEIRA, F. Elegia para uma
re(li)gião. 5. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.
PEREIRA, L. C. B. et. al.
Sociedade e Estado em transformação.
São Paulo: UNESP, 1999.
SANTOS, M. A Urbanização
Brasileira. São Paulo: Hucitec, 1993.
______. A Natureza do Espaço.
São Paulo: Hucitec, 1999.
SANTOS, M.; SILVEIRA, M. L. O
Brasil: território e sociedade no início do século XXI. Rio de
Janeiro: Record, 2001.
TEIXEIRA, E. O local e o global:
limites e desafios da participação cidadã. 2. ed. São Paulo: Cortez,
2001.
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