
LEANDRO
KONDER
Filósofo
marxista brasileiro. Doutor em Filosofia pela UFRJ. Professor da
Universidade Federal Fluminense e da Pontifícia Universidade Católica
do Rio de Janeiro
Nota do editor:
Os
textos desta série foram publicados pelo autor no jornal carioca Tribuna
da Imprensa, ao longo do ano de 1990. No final de cada artigo
é indicada a data de publicação. Os artigos foram reunidos e
publicados em "Intelectuais brasileiros &
marxismo" (Belo Horizonte: Oficina de Livros, 1991).
O autor, a quem agradecemos, autorizou a publicação na REA.
Também registramos o agradecimento ao Prof. Paulo Cunha.
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Intelectuais
Brasileiros & Marxismo
Antonio Candido (N. em 1918)
por
Leandro Konder
Aos
72 anos de idade, Antonio Candido alcançou uma situação muito rara
na história da nossa cultura. É um crítico literário unanimemente
respeitado pelos escritores. É um teórico que inspira a todos –
amigos ou inimigos – admiração e reverência. Ninguém lhe contesta a
competência. Ninguém põe em dúvida sua integridade.
Em sua obra se reflete o amplo conhecimento que tem
do Brasil. De certo modo, sua própria experiência de vida o
empurrava na direção de uma absorção da diversidade da nossa
sociedade: ele é carioca-mineiro-paulista. Nasceu no Rio (em 1918),
foi criado em Minas (fez o ginásio em Poços de Caldas) e se radicou
em São Paulo (onde vive desde 1937).
Mas em Antonio Candido o movimento de ampliação do
campo de visão, de alargamento dos horizontes, não decorre de
fatores externos, da pressão das circunstâncias: resulta, antes, de
uma certa vocação dialética para a universalidade. Só quem consegue
ter uma certa percepção do conjunto é que pode avaliar a dimensão e
a exata significação de cada uma das partes. É preciso evitar que a
atenção dada a cada uma das árvores nos impeça de enxergar a
floresta.
Antonio Candido cultiva um quadro de referências rico
e diferenciado, que leva em conta o que se criou de bom na
literatura de todos os países. Ele sabe que o Brasil não existe
isolado do mundo e o que se passa na cultura brasileira tem a ver,
inevitavelmente, com o que acontece em outras culturas nacionais. É
absurdo pretender eliminar as “influências estrangeiras”.
Isso não significa, obviamente, que nós devamos ser
indulgentes com a “cópia servil” dos modelos importados. Se não
houver espírito crítico, não há efetiva assimilação.
Empobrecemo-nos, espiritualmente, quando nos limitamos a macaquear o
que se faz lá fora. Feita essa ressalva, contudo, não há como
aceitarmos a ingenuidade do “nativismo”, que se baseia na
valorização artificial de uma essência mítica da brasilidade. O
material de que os brasileiros se servem na representação da sua
realidade não nasceu com eles, tem uma longa história e depende do
intercâmbio ativo que a nossa cultura mantém com as outras.
Antonio Candido é implacável na crítica que faz às
ilusões alimentadas pelos brios patrióticos do “nativismo”. Em
Formação da literatura brasileira, ele lembra que “a nossa
literatura é galho secundário da portuguesa” e que esta, por sua
vez, é “arbusto de segunda ordem no jardim das Musas”.
Dessa perspectiva poderia resultar um pessimismo
desanimado, uma autodepreciação paralisadora. Mas o nosso crítico
adverte que nós, afinal, precisamos da nossa literatura, que só ela
nos pode dar uma certa percepção de nós mesmos, daquilo que nós
efetivamente somos e das nossas potencialidades. “Comparada às
grandes, a nossa literatura é pobre e fraca. Mas é ela, não outra,
que nos exprime.”
Toda literatura inclusive a nossa, é uma “síntese de
tendências universalistas e particularistas”. Em toda literatura
está presente a fantasia, a imaginação, a “fuga do real”; e, ao
mesmo tempo, está presente a realidade histórica determinada em que
a criação literária se desenvolve. Daí a riqueza de significações
que o texto literário chega a ter.
Um sociólogo pode ler um romance e interpretá-lo como
um documento sociológico. Um médico pode analisar os problemas
médicos dos personagens. Um psicólogo pode discutir a respeito da
natureza das motivações subterrâneas e dos bloqueios que se
manifestam no comportamento dos personagens. Todos têm contribuições
a trazer para uma compreensão mais completa do texto, porém nenhum
deles, de seu ângulo particular, deve tentar “reduzir” a riqueza das
significações do texto à sua “leitura”. Por quê? Porque no texto se
encontra o resultado de uma invenção, de um movimento criativo que
se serve da linguagem, não só para “retratar” a realidade social
existente, mas também – e decisivamente – para acrescentar à
realidade histórica algo que não existia antes.
Não se pode “reduzir” uma obra de arte às condições
da sua gênese, à situação da qual partiu a sua criação; é necessário
considerá-la naquilo em que ela mudou o quadro existente. A
compreensão da obra não prescinde da consideração dos elementos
inicialmente não literários, já que o texto – ao contrário do que
pensam os formalistas –, não os anula. Mas os “transfigura”. E o
desafio do crítico consiste em tentar ir além dos horizontes do
sociólogo, do psicólogo ou do médico, para compreender essa
“transfiguração” de que a obra é um “resultado”.
Essas constatações não foram feitas de uma hora para
outra pelo jovem Antonio Candido. O moço que, desde 1941, passou a
fazer crítica literária na revista Clima (e em seguida na
Folha da Manhã) era – segundo avaliação feita por ele mesmo na
maturidade – “meio sectário”. Isto é: se concentrava um pouco demais
no exame da dimensão político-social da literatura e sublinhava com
uma ênfase talvez excessiva sua inserção nas lutas históricas mais
imediatas dos homens.
Lendo a coletânea de ensaios de 1945 (Brigada
ligeira) e a tese de livre docência O método crítico de
Sílvio Romero (publicada em livro também em 1945), tive a
impressão de que essa autocrítica é, possivelmente, exagerada: não
enxerguei sectarismo algum.
Em todo caso, os escritos do período que vai de 1942
a 1945 trazem certamente a marca das circunstâncias daquele momento.
Antonio Candido, ainda em Poços de Caldas, tinha entrado em contato
com anarquistas e socialistas; e simpatizara com os ideais deles. Em
São Paulo, em 1942, sofreu a influência de um amigo muito especial –
Paulo Emílio Salles Gomes – que lhe revelou toda a gravidade das
monstruosidades do stalinismo, a profundidade das deformações
burocráticas no modelo soviético, mas simultaneamente lhe fez ver
como eram instigantes algumas observações de Trotsky e como era
estimulante o pensamento do jovem Marx.
Antonio Candido passa, então, a se mover entre dois
fogos, sob a pressão tanto de uma ideologia liberal “moderada”,
eventualmente “social-democrática”, como de uma ideologia
comprometida com a manipulação criada pelo sistema do comunismo
leninista. O stalinismo falava grosso: a cúpula dos partidos
comunistas se permitia fazer todos os acordos e conchavos que lhe
parecessem convenientes, mas se apresentava como detentora do
monopólio do genuíno espírito revolucionário e caracterizava como
“reformistas” ou “vacilantes” aqueles que não se compunham com a sua
liderança. Por outro lado, os liberais e os reformistas aproveitavam
o endurecimento da linguagem dos comunistas, o “doutrinarismo”
deles, para sabotar os esforços daqueles que buscavam uma “terceira
via”, um caminho revolucionário independente. Diziam-lhes, com
pragmático descaramento: “se vocês não ficarem conosco, estarão
levando água para o moinho dos fanáticos, dos agentes de Moscou. Se
não nos apoiarem, estarão agindo como teleguiados do Kremlin;
estarão sendo usados por Stálin como inocentes úteis”.
Como alguém poderia caminhar sem vacilações por uma
estrada tão nova, por uma trilha tão despovoada? Como poderia
avançar com firmeza se sentindo posto sob tanta suspeita?
Antonio Candido conseguiu preservar sua inteireza,
sua lucidez e – o que era especialmente difícil – sua posição
democrática e socialista. E o socialismo, tal como ele o concebia,
não devia impor critérios estreitamente utilitários à arte e à
cultura.
A procura de uma combinação de socialismo e qualidade
literária leva o nosso crítico à obra de um excelente romancista
brasileiro de notórias convicções socialistas: Graciliano Ramos. Em
Ficção e confissão, livro de 1956, ele se debruçou sobre os
romances de Graciliano, seus contos e sua memorialística (as
recordações da infância e da cadeia). E mostrou que o intenso desejo
de “testemunhar sobre o homem” levou o escritor a passar da ficção
para o depoimento direto. Mostrou mais: que a caracterização áspera
do mundo como uma prisão, que se encontra nos romances, cedeu lugar
à descoberta de um mundo (rico de humanidade) dentro da prisão.
Mas Antonio Candido jamais poderia se interessar
exclusivamente por autores socialistas. Seu interesse pela
literatura sempre foi muito vasto, sempre se mostrou disposto a
abranger uma gama extremamente diversificada de expressões
literárias, desde a poesia popular do mundo caipira (como se percebe
em Os parceiros do Rio Bonito, de 1964) até a sofisticação de
Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, “essa navegação no
mar alto, esse jorro de imaginação criadora na linguagem, na
composição, no enredo, na psicologia” (como se lê num dos ensaios de
Tese e antítese, 1964).
A literatura brasileira deve muito a Antonio Candido.
Depois de ter lhe dito as duras verdades da introdução de
Formação da literatura brasileira, ele lhe dedicou uma atenção
carinhosa que ela, se não sofrer de amnésia, jamais poderá esquecer.
Os olhos do crítico se detiveram, pacientemente, nos “doutores
versejantes”, nos “maus poetas e letrados pedantes” da sociedade
colonial, fazendo observações capazes de nos ajudar a lê-los.
Detiveram-se, com maior animação, nos autores da época romântica, no
“honrado e fecundo Joaquim Manuel de Macedo”, na “notável
possibilidade artística” esboçada na obra de Álvares de Azevedo, no
“romance em moto contínuo” de Manuel Antônio de Almeida, em
Gonçalves Dias e Castro Alves; e se detiveram com entusiasmo nas
perspectivas abertas de Machado de Assis, quando esse autor de gênio
tornou clara “a fragilidade do descritivismo e da cor local”.
Os autores do século XX, entre nós, puderam começar a
escrever com maior desenvoltura. Depois de 1930, sobretudo, as
condições passaram a proporcionar maiores chances para a
aventura da criação literária. “Depois de 1930 se esboçou uma
mentalidade mais democrática a respeito da cultura, que começou a
ser vista, pelo menos em tese, como direito de todos, contrastando
com a visão de tipo aristocrático que sempre havia predominado no
Brasil, com uma tranqüilidade de consciência que não perturbava a
paz de espírito de quase ninguém. Para esta visão tradicional, as
formas elevadas de cultura erudita eram destinadas apenas às elites,
como equipamento (que se transformava em direito) para a ‘missão’
que lhes competia, em lugar do povo e em seu nome”. Esse trecho se
encontra num dos ensaios do livro A educação pela noite
(lançado em 1987 pela Editora Ática).
A análise da literatura se entrosa com a observação
crítica das transformações da sociedade. O crítico “sente a pulsação
da obra” (como diz um verso do poema que Drummond dedicou a Antonio
Candido) e, ao mesmo tempo, escrutina o contexto, se desdobra num
historiador para melhor compreender a situação da qual a obra
emerge.
O crítico se insurge contras as condições sociais
humanas. Ele não é neutro, nem pretende sê-lo: tem um compromisso
natural contra os exploradores e com os explorados. Outro verso de
Carlos Drummond de Andrade descreve a opção de Antonio Candido,
“fugindo ao séqüito dos poderosos do mundo, / acusa a transfiguração
do homem em servil objeto do homem”.
A própria atividade da crítica literária, assim,
remete à política. Antonio Candido declara, com sua habitual
franqueza, com sua estupenda sinceridade: “Não tenho vocação
política. Para mim, a participação foi sempre um dever moral”
(entrevista concedida a Eder Sader e Eugênio Bucci, publicada na
revista Teoria e Debate, nº 2).
Um dever moral que, assumido com desassombro, levou o
crítico a ingressar no Partido dos Trabalhadores desde a sua
fundação. Numa entrevista concedida à Folha de S. Paulo, ele
justificou, com perfeita coerência, sua opção: “Acho que o PT
corresponde a uma tentativa de socialismo democrático, desta vez
partindo dos próprios operários, o que é uma coisa totalmente nova
no Brasil. Acho que no PT existe a possibilidade de um socialismo
democrático combativo, não de um mero reformismo, por causa da sua
base operária e da sua alta consciência sindical” (10-8-1980).
O engajamento político e a militância no PT
correspondem às exigências de “dever moral” e “completam” o sentido
das posições assumidas no plano da crítica literária. Mas não
dispensam o crítico de nenhum das suas obrigações nascidas da
dedicação à literatura. A literatura continua cobrando dele um
constante respeito por seus matizes, por suas fascinantes
complicações. O amor à literatura, transformado em destino, exclui
simplificações utilitárias e imediatismos pragmáticos (mesmo em nome
de uma boa causa).
Há dez anos, numa homenagem feita a Antonio Candido,
o historiador mineiro Francisco Iglesias lembrava uma idéia que se
acha no romance L’espoir, de André Malraux, segundo a qual
existiria uma incompatibilidade entre o intelectual (homem dos
matizes, da complexidade e do antimaniqueísmo) e o político,
especialmente o político revolucionário (inevitavelmente
maniqueísta, em função das premências da ação). Pois eu gostaria de
concluir estas linhas com a expressão da minha convicção de que
Antonio Candido é um desmentido à tese de Malraux.
Na medida em que se sentia eticamente obrigado a
fazer política porém ao mesmo tempo permanecia fiel à sua vocação de
crítico literário (“não tenho vocação política”), Antonio Candido
foi capaz de mergulhar na ação sem ser levado pelo rio da
militância. Foi capaz de participar da luta sem ceder à pressão dos
esquematismos maniqueístas e sem abrir mão da sua preocupação
pessoal com os matizes e a complexidade. E essas características
fazem dele, realmente, um caso muito raro, não só na vida cultural
brasileira, mas na história da cultura do século XX, em geral.
Em Antonio Candido se combinam, de um lado, a
coerência do engajamento, a firmeza da posição assumida pelo
combatente, e, de outro, a prudência da reflexão, a abertura
espiritual do crítico literário, acostumado a conviver com as
infinitas possibilidades de expressão dos seres humanos (diante das
quais a verdadeira sabedoria se torna necessariamente humilde e
assume a forma – preconizada por Nicolau de Cusa – da “douta
ignorância”).
10-3-1990
In: KONDER, Leandro. Intelectuais Brasileiros e
Marxismo. Belo Horizonte: Oficina de Livros, 1991,
p.79-85. Publicado também em O Estado de S. Paulo,
29-12-90.
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