JOÃO
DOS SANTOS FILHO
Professor
da Universidade Estadual de Maringá. Autor do
livro “Ontologia do turismo: estudo de suas causas
primeiras”, EDUSC, Universidade de Caxias do Sul
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Ditadura militar utilizou a EMBRATUR para tentar ocultar a
repressão, a tortura e o assassinato
por João dos
Santos Filho
Esclarecimentos
preliminares
Ensaio sobre o
discurso fascista do turismo.
f) finalmente, hipótese indispensável a ser
fixada, a divulgação e promoção do Brasil no exterior. A tarefa
é de toda a máquina governamental tantos (sic) nas áreas
estaduais como federal. Cumpre ser organizado um verdadeiro
pool, capaz de lançar a imagem do Brasil como País a ser
visitado e conhecido (DA SILVEIRA, s.d., p.33).
[nota de rodapé] 11. Vale o registro de que o
Correio Braziliense surgido no México em 7 de agosto de
1964, já se propunha, no décimo, porém último número, de 27 de
outubro de 1964, a denunciar, no exílio, “o terror e a tortura
institucionalizados no Brasil”, com o golpe. Afirmava: “Não
sendo o único, esse é também um modo de Lutar” (p.1/capa) (CRUZ,
2002, p.455).
d) “Há uma frente brasileira de informação que
difama nosso país e mantém em nossa terra repórteres que mentem
lá fora, apresentando um quadro brasileiro inteiramente
falsificado, inteiramente pejorativo. Nada de importante
acontece no país sem a ação dos comunistas. Há uma poeira
vermelha nos olhos do povo e de grande parte das autoridades
brasileiras” (SOUZA, apud Marconi, 1980, p.23).
Dentro da historiografia sobre o turismo brasileiro,
existem relações que ainda necessitam ser objeto de investigação
pelos estudiosos deste fenômeno, há necessidade de cruzar inúmeras
variáveis com diferentes premissas para descobrir e delimitar novos
campos de pesquisa, e de imediato pode-se destacar o estudo de duas
relações: a primeira, a Ditadura Militar de 1930 e a criação do
Departamento de Imprensa e Propaganda – DIP, no governo de Getúlio
Vargas; a segunda, o Golpe Militar de 1964 e a criação da Empresa
Brasileira de Turismo – EMBRATUR, em 1966, bem como a relação entre
ambos os períodos históricos apresentam certa semelhança na forma de
como os Estados ditatoriais conduziram o turismo.
Pode parecer, num primeiro momento, algo artificial e
sem propósito, mas o aprofundamento de nossas pesquisas vem
sinalizando a existência de uma similitude entre esses períodos, e
alerta, ainda, para a carência iconográfica da história brasileira
que foi deixada e esquecida por interesses de classe. A existência
desse material referente à época é rara, pois há entidades e pessoas
interessadas em dificultar seu acesso.
Partimos do pressuposto de que o turismo é um
fenômeno social, cuja existência surge no interior das necessidades
básicas do ser humano
e, portanto, passível de estar presente em qualquer sistema
econômico e político no percurso do desenvolvimento da humanidade,
aparecendo, muitas vezes, com outra designação gramatical e
conceitual.
Com isso, estamos atribuindo a esse fenômeno um
movimento que vem apensado ao desenvolvimento das relações de
produção, natural na agregação de valor e acelerado pela difusão
universal do modo de produção, em que um dos seus lemes é a produção
para o consumo e serviços, próprio do capital, como bem
discute István Mészáros, quando afirma:
Naturalmente, esta visão da história do mundo,
concebida como a difusão universal do modo de produção mais
avançada no quadro de um mercado mundial plenamente desenvolvido
– ou seja, como um processo de real “vir-a-ser”, caracterizado
por atividades claramente identificáveis de produção e consumo,
dentro de seus parâmetros estruturais e institucionais muito bem
definidos - trouxe com ela a visão correspondente da saída dos
antagonismos destrutivos da ordem social prevalecente, pois, de
um lado, ela visava como pré-requisitos de sua realização, o
nível mais elevado possível de produtividade - o que, por sua
vez, implicava a necessária transcendência de determinadas
barreiras e contradições locais e nacionais, bem como uma total
integração benéfica e racionalização cooperativa da produção
material e intelectual numa escala global (MÉSZÁROS, 2002,
p.86).
Esse processo de racionalização do capital,
para a extração da mais-valia na busca de maior produtividade,
atinge a atividade turística, considerada capaz e propensa a ampliar
a reprodução do capital de forma rápida, pois seu “produto”
exige um leque de serviços que requer, na maioria dos casos, uma
ampla e diversa empregabilidade. Por isso, a atividade turística
surge como salvação para os governos capitalistas e
pós-capitalistas, como elemento capaz de tirar as economias da crise
econômica que ronda esses sistemas.
O turismo possui, então, uma abrangência em quase
todas as atividades societárias, e sua mundialização atinge desde o
povoado ribeirinho até os grandes centros urbanos: culturas
mesclam-se, culturas destroem-se num processo dialético em que o
novo pode ser o descobrimento do valor histórico do velho ou ao
inverso, o novo ser a destruição do velho.
O fenômeno do turismo é resultado do incremento
logístico da natureza e da recuperação e resgate da história de um
povo, combinado com a necessidade do capital em poder
explorar uma mão-de-obra barata, com baixo nível educacional e
cultural. Essa é a lógica de sua dialética histórica para manter a
super-reprodução e ganhar espaços nas pranchetas dos magos do
desenvolvimento econômico.
Aliado à necessidade de reprodução do capital, a
tendência dos Estados nacionais é se preocupar com o turismo
receptivo, pois as grandes corporações multinacionais se interessam
por investimentos para o turista estrangeiro.
Na verdade, as grandes corporações no campo do
turismo desenvolveram seus megaempreendimentos para atingir o
turismo de luxo, entendendo que esse turista é o estrangeiro que
está de visita ao país. O objetivo das grandes redes hoteleiras
estrangeiras, quando se instalam nos países hospedeiros, é compor
sua clientela com estrangeiros como a classe de alto poder
aquisitivo.
O turismo é uma das poucas atividades econômicas em
que o capital está preocupado em manter uma mística de glamour para
preservar e estimular a idéia de fetiche e que o turismo é
atividade reservada às classes ricas. Em contrapartida, para manter
os altíssimos níveis de reprodução e exploração do capital,
necessita pagar baixos salários em toda a cadeia produtiva do
turismo, por isso, afirmo que o turismo possui, em relação às outras
atividades econômicas, um excelente mercado de trabalho, porém com
medíocres e miseráveis salários.
Uma descrição detalhada do processo econômico, que
ocorre no fenômeno turístico segundo a lógica do neoliberalismo,
está descrito no livro do economista François Chesnais que, de forma
didática, escreve:
No caso do turismo, as vantagens de localização
são representadas pela dotação em riquezas naturais (sol, mar,
montanha etc.), bem como pelo valor de patrimônio cultural e
histórico de um país (arquitetura, museus etc.). São esses
fatores, e também as multinacionais especializadas, que
determinam a capacidade de o país atrair turistas.
Boa parte das atividades ligadas à indústria do
turismo (hotéis e restaurantes, clubes de férias) é intensiva em
mão-de-obra; é por isso que a multinacional do setor obtém
consideráveis vantagens por sua localização em países que
combinem atrações naturais com a mão-de-obra barata (CHESNAIS,
1996, p.202-203).
Para que o capital continuasse sua trajetória de
ampliação da mais-valia e acelerasse o processo de acumulação do
mesmo, apela para o apoio das classes dominantes e, com a ajuda dos
militares, formatam as ditaduras no Brasil e países da América
Latina.
O impacto do Estado ditatorial na sociedade em geral
foi brutal, perseguições à população estudantil, aos trabalhadores
de todas as áreas, intelectuais, professores, funcionários públicos,
membros da igreja, aos artistas e às próprias Forças Armadas os
quais sofreram atos de barbárie física e simbólica. Torturas,
seqüestros, aposentadorias compulsórias, cassações, prisões e
assassinatos tornaram-se rotina nos quartéis:
Tomando posse, o ditador marechal Castelo Branco
estabeleceu um regime de completa arbitrariedade. Só nos dois
primeiros meses, usando o poder que lhe conferia o Art. 10 do
malfadado Ato Institucional n. 1, cassou os direitos políticos
de 37 pessoas, entre as quais três ex-presidentes, seis
governadores estaduais e 55 membros do Congresso Nacional. Dez
mil funcionários públicos foram demitidos e cerca de cinco mil
inquéritos sumários envolvendo 40 mil pessoas foram abertos
(AÇÃO POPULAR MARXISTA-LENINISTA, s.d.).
Preocupados com a imagem do Brasil no exterior,
comprometida com as denúncias sobre a tortura, repressão, seqüestro
e assassinatos junto à população civil, o governo brasileiro
necessitava urgentemente criar outra imagem, cujo apelativo recaiu
sobre a mulher brasileira; aproveitando da natureza, do sol, do mar
e do fetiche de mulheres sedutoras dançando no carnaval do
Rio de Janeiro.
Com apoio da EMBRATUR, fez-se a divulgação da imagem
do Brasil para o exterior, criando um material iconográfico de alto
padrão gráfico, acompanhado de uma folheteria especifica para a
exportação
do imaginário brasileiro, lastreada no conjunto de um discurso
ufanista que levou o Estado fascista a naturalizar o absurdo.
O Estado fascista contra-ataca, estimulando, em seus
quadros, o processo de deduragem com alcagüetes treinados pelos
órgãos de repressão brasileiros e estrangeiros, que passam a fazer a
limpeza ideológica contra o perigo do comunismo, em todos os setores
da vida nacional.
Não é por acaso que o Ministério das Relações
Exteriores no comando do Embaixador Vasco Leitão da Cunha, homem de
confiança dos militares, desenvolveu um processo de caça aos
diplomatas considerados de esquerda e criando, em 1966, o Centro
de informações no exterior – CIEX, que tinha a incumbência de
vigiar a atuação dos exilados políticos brasileiros.
Nesse processo de “combate ideológico” a EMBRATUR, de
1966 até 1996, tornou-se instrumento da qual a ditadura se serviu
para tentar ir de encontro à imagem que a imprensa progressista
estrangeira divulgava, denunciando a tortura, a prisão e o
assassinato de brasileiros pelos militares golpistas:
A imprensa no exílio foi editada em diferentes
países: Argélia, Chile, França, Suécia, Itália, Suíça,
Dinamarca, Noruega, Holanda, Alemanha ocidental, Alemanha
oriental, Portugal, Inglaterra, México, Costa Rica, Argentina.
Mas foi, sem dúvida, em Santiago e Paris que a imprensa
concentrou-se. Nas duas capitais do exílio brasileiro, aparecem
não só o maior número de periódicos, mas também os mais
expressivos.
A maior parte da imprensa, porém, combinou
documentos de organizações, artigos temáticos, informações e
estudos sobre a situação social e econômica brasileira,
denúncias da ditadura, de tortura e de prisão política, notícias
do Brasil (CRUZ, 2002, p.453-255).
Essas informações levam-nos a entender melhor o
porquê de a EMBRATUR ter sido utilizada para marcar, no exterior, a
imagem de país tropical, com democracia racial, país do futuro.
Nesse caso, não poderíamos deixar de comentar que, até alguns anos
atrás, as informações contidas no site da EMBRATUR eram, ainda,
retratos desse ufanismo golpista dos militares, como podemos
perceber:
Poucos lugares do mundo possuem o grau de
abertura para o novo como o Brasil. A base dela é justamente a
democracia racial que se construiu ao longo dos séculos. Oculto
pelo preconceito racial de parte da elite, que vigora de maneira
muito mitigada (se comparado, por exemplo, aos Estados Unidos ou
à Europa), este costume permitiu a construção de uma democracia
política efetiva num País que tinha tudo para não possuí-la
(GOVERNO FEDERAL).
Mais adiante, comete e intensifica a visão ufanista e
desta vez com um agravante, minimiza o Golpe Militar de 1964 e dá
uma valorização indevida aos militares, afirmando que:
O Congresso Nacional, diga-se o que disser dele,
funciona com a regularidade de um relógio há 175 anos. [...] A
força do Congresso é tamanha que nem mesmo a ditadura militar
dos anos 60 pôde prescindir dele. Até os ditadores sabem que o
Brasil é ingovernável sem representantes eleitos (Id., p.4).
Esses fatos reafirmam nossas suspeitas de que a
EMBRATUR foi usada pelos militares com a anuência de seus
presidentes, visto que no site dirigido para divulgar o Brasil,
somos atropelados com um discurso em que os atores principais do
golpe de Estado são convertidos, pela história oficialesca, em
fascistas tolerantes: “Até os ditadores sabem que o Brasil é
ingovernável sem representantes eleitos”.
Nascimento da Embratur
O primeiro governo da Revolução de 31 de março,
preocupado com a estagnação reinante, enfrentou realisticamente,
como em tudo o mais, o problema do turismo e sobre ele legislou,
dando-lhe o enfoque indispensável de organização e abordando-o
dentro de sua moderna concepção de fenômeno essencial ao
progresso do país (PADILHA, 1972, p.5).
Discorrer sobre o nascimento da EMBRATUR não é tarefa
nada fácil, pois o material iconográfico deste período está sendo
recuperado parcimoniosamente, graças ao esforço de pesquisadores
que lutam individualmente para resgatar a história do turismo
brasileiro. Diante desse fato, escolhemos como base central, o
caminho da reconstituição histórica dos principais fatos que direta
ou indiretamente estão envolvidos para despertar o poder público
para essa temática, sem, contudo, esquecer os dados novos que serão
incorporados.
Antecedentes
Iniciamos com o Golpe Militar de 1930, movimento que
foi deflagrado pela emergência da classe média já expressiva, do
tenentismo como símbolo de oposição ao rigor da hierarquia militar,
de uma nascente burguesia e de um movimento operário politizado
pelos imigrantes europeus, todos insatisfeitos com a forma de ser da
chamada República Velha. Na verdade, a “revolução” de trinta foi um
basta à hegemonia política econômica de São Paulo e Minas Gerais,
gerada pelo café para com os demais produtos em beneficio da
indústria nascente e progressista.
O Brasil ganha certa dimensão de nação em que a
indústria aparece no cenário econômico e o Rio de Janeiro, cidade
que sempre foi preparada para preservar sua beleza natural e abrigar
sua identidade cosmopolita para o estrangeiro, foi a primeira
unidade do território nacional a preocupar-se com o turismo, a qual
sempre esteve nos comentários dos estrangeiros, como escreve o
cientista alemão Hermann Burmeister, em 1853, em livro publicado
sobre o Brasil:
Nunca empreendi excursões maiores nos arredores
do Rio, pois exigem alguns dias e só podem ser feitas a cavalo,
circunstância que, devido ao meu estado de saúde, se tornavam
impossíveis para mim. Há, porém, muitos outros pontos
interessantes, a maior ou menor tempo da cidade, os quais se
recomendam especialmente aos turistas que, demorando-se pouco no
Rio, desejam conhecer de perto a paisagem (sic) e a vida
campestre do povo (BUMEISTER, 1980, p.81).
O
Rio de Janeiro sempre despertou ao estrangeiro o gosto pelo belo,
pela natureza, pelo místico, pelo mágico, pelo lúdico, pela praia e
pelo sol. As descrições vão da declaração de amor a essa terra e
seus habitantes, até o deboche crítico para se questionar a política
do imperador:
Sabemos que nenhum país da terra foi mais
ricamente abençoado pela natureza do que este Brasil, que se
acha em cultura e desenvolvimento intelectual tão atrasado em
relação aos países europeus; é deveras um paraíso, que a
superstição vigia qual querubim com sua espada chamejante, de
onde a árvore da ciência da história natural e universal, com
seus dourados frutos de hespéridas, é enredada e quase sufocada
pelas parasitas do fanatismo, do escravagismo e da ignorância (SEIDLER,
1980, p.61).
Esse clima de amor à natureza e de apego a uma
religiosidade amparada a saudades dos estrangeiros explica, para
nós, como essa religião se amparou na nostalgia existencial dos
indivíduos, representando o apego efetivo e direto da Igreja
Católica aos negócios de Estado. Obviamente, o governo de Getúlio
necessitava do apoio da Igreja para manter o processo político
“revolucionário” e se firmar perante a massa de trabalhadores que
seria a base da existência de seu governo, portanto, impõe uma
organização da classe trabalhadora dentro dos limites da vida
sindical, segundo interesses do Estado.
Em 12 de outubro de 1931, Getúlio Vargas, que
necessitava do apoio da Igreja, oferece dois grandes momentos a essa
instituição; a inauguração da estátua do Cristo Redentor, no
Corcovado, e a permissão do ensino de religião nas escolas
públicas. Escreve em um de seus diários:
Realizam-se, na capital, grandes festas
comemorativas da inauguração do Cristo no Corcovado.
Compareço a esta e recebo a bênção apostólica do papa (sic).
Recebo os peregrinos que vieram assistir à
inauguração do Cristo no Corcovado (VARGAS, 1995, p.75).
Com Decreto n. 19.941, de 30 de abril de 1931,
Getúlio dispõem sobre a instrução religiosa nos cursos primário,
secundário e normal e atende a uma antiga reivindicação da Igreja
Católica, que retribui, dando apoio aberto e direto ao governo:
A Igreja levou a massa da população católica a
apoiar o novo governo. Este, em troca, tomou medidas importantes
em seu favor, destacando-se um decreto, (sic) de abril de 1931,
que permitiu o ensino da religião nas escolas públicas (FAUSTO,
2003, p.333).
Esse nosso esforço em tentar demonstrar a influência
da Igreja no governo ocorre em razão de, que tal aspecto vai
diretamente solidificar a cidade do Rio de Janeiro no
desenvolvimento do turismo, visto que o Brasil cria a primeira marca
turístico-religiosa, do maior portão de entrada de estrangeiros em
território brasileiro. Nesse sentido, o Cristo Redentor do Corcovado
transforma-se no cartão postal do turismo brasileiro e o Rio de
Janeiro, em ícone da hospitalidade brasileira.
Não é por acaso que Getúlio, ao firmar a imagem de
protetor dos trabalhadores, recorreu ao fato de ter que construir um
aparato que lhe permitisse controlar a opinião pública, e, assim,
aplicou a censura aos meios de comunicação. Em 1931 surgiu o
Departamento Oficial de Publicidade, primeiro passo para o Estado
organizar e direcionar a opinião pública em torno do personagem de
Getúlio Vargas, posteriormente, em 1934, com a Constituição, a
máquina burocrática reorganiza-se, criando o Departamento de
Propaganda e Difusão Cultural (DPDC).
A questão
social, baseada no assistencialismo fincado na imagem do presidente,
passou a ser o grande destaque no país: direitos democráticos foram
conquistados, a participação popular no processo político aumentou e
foi estimulada pelo próprio Estado em troca do apoio ao presidente.
A centralização econômica e política
fortaleceu-se quando, em 1939, o governo criou um dos órgãos mais
importantes para dar suporte ideológico ao seu discurso populista, a
criação do DIP – Departamento de Imprensa e Propaganda, que em um de
seus decretos menciona a atividade turística como de sua
responsabilidade:
“Cria o Departamento de Imprensa e Propaganda e
dá outras providências (27-12-1939)
Art. 1.0 Fica criado
o Departamento de Imprensa e Propaganda (D. I. P.), diretamente
subordinado ao Presidente da República.
Art. 2.0 O D.I.P.
tem por fim:
a) centralizar,
coordenar, orientar e superintender a propaganda nacional,
interna ou externa, e servir, permanentemente, como elemento
auxiliar de informação dos ministérios e entidades públicas e
privadas, na parte que interessa à propaganda nacional;
b) superintender,
organizar e fiscalizar os serviços de turismo interno e externo;
c) fazer a censura
do Teatro, do Cinema, de funções recreativas e esportivas de
qualquer natureza, da rádio-difusão, da literatura social e
política, e da imprensa, quando a esta forem cominadas as
penalidades previstas por lei;
d) estimular a
produção de filmes nacionais;
e) classificar os
filmes educativos e os nacionais para concessão de prêmios e
favores;
f) sugerir ao
Governo a isenção ou redução de impostos e taxas federais para
os filmes educativos e de propaganda, bem como a concessão de
idênticos favores para transporte dos mesmos filmes;
g) conceder, para os
referidos filmes, outras vantagens que estiverem em sua alçada;
h) coordenar e
incentivar as relações da imprensa com os Poderes Públicos no
sentido de maior aproximação da mesma com fatos que se ligam aos
interesses nacionais;
i) colaborar com a
imprensa estrangeira no sentido de evitar que se divulguem
informações nocivas ao crédito e à cultura do país;
j) promover
intercâmbio com escritores, jornalistas e artistas nacionais e
estrangeiros;
l) estimular as
atividades espirituais, colaborando com artistas e intelectuais
brasileiros, no sentido de incentivar uma arte e uma literatura
genuinamente brasileiras, podendo, para isso, estabelecer e
conceder prêmios;
m) incentivar a
tradução de livros de autores brasileiros;
n) proibir a entrada
no Brasil de publicações estrangeiras nocivas aos interesses
brasileiros, e interditar, dentro do território nacional, a
edição de quaisquer publicações que ofendam ou prejudiquem o
crédito do país e suas instituições ou a moral;
o) promover, organizar, patrocinar ou auxiliar
manifestações cívicas e festas populares com intuito patriótico,
educativo ou de propaganda turística, concertos, conferências,
exposições demonstrativas das atividades do Governo, bem como
mostras de arte de individualidades nacionais e estrangeiras;
p) organizar e
dirigir o programa de rádio-difusão oficial do Governo;
q) autorizar
mensalmente a devolução dos depósitos efetuados pelas empresas
jornalísticas para a importação de papel para imprensa, uma vez
demonstrada, a seu juízo, a eficiência e a utilidade pública dos
jornais ou periódicos por elas administrados ou dirigidos.
Art. 3.0 O D.I.P.
será constituído de;
a) Divisão de
Divulgação;
b) Divisão de
Rádio-difusão;
c) Divisão de Cinema
e Teatro;
d) Divisão de Turismo;
e) Divisão de
Imprensa;
f) Serviços
Auxiliares, que são os de Comunicações, Contabilidade e
Tesouraria, Material, Filmoteca, Discoteca, Biblioteca.”
(Lex, Legislação Federal, 1939, pp. 666-667).
Citado in CARONE, 1976,
p.47-49 (grifo nosso).
O leitor pode indagar que importância há nesse fato
tão divulgado pela historiografia brasileira, a novidade está em que
o Departamento de Propaganda e Difusão Cultural (DPDC), fortificado,
em 1937, pelo Estado Novo, convidou o cartofilista Manuel Móra para
incorporar as fileiras dessa entidade. Português, naturalizado
brasileiro, trabalhava no Departamento de Turismo da Municipalidade
do Rio de Janeiro, onde havia realizado alguns desenhos primorosos
semelhantes a cartões-postais.
Manuel Mora, por sua genialidade, foi incorporado
pelo DIP - Departamento de Imprensa e Propaganda, criado em 1939, e
atuou na vanguarda dos desenhos usados para ilustrar o material de
propaganda de Getúlio Vargas.
Mas, para a nossa pesquisa, o que nos interessa de
fato são os cartões que retratam a preocupação em a cidade do Rio de
Janeiro se consolidar como pólo turístico para o mundo.
A propaganda sobre o Rio de Janeiro, nesses cartões,
transmite a idéia de brasilidade, nacionalismo, integração e uma
mensagem positiva sobre o Rio que, na verdade, queria sinalizar a
centralização política do governo Getulista. As ilustrações são
evidentes no campo da política de boa vizinhança, mescladas ao apelo
a um turismo com um discreto charme sedutor, estilo belle époque,
destacando o tipo das mulheres dos países aos quais estava dirigido.
O Rio reconhece que pode firmar-se como pólo
turístico internacional, e o Estado por meio do DIP prepara toda uma
legislação para coordenar as atividades que direta e indiretamente
envolvem atividades de turismo. Na verdade, a preocupação com a
imagem do Brasil, no exterior, faz com que o governo de Vargas deixe
essa função com:
A máquina de propaganda e doutrinação montada
pelo regime no período pós-30 extrapolou todas as formas de
propaganda estatal até então conhecidas ou sonhadas no país. Não
foi apenas a criação do DIP ou a utilização do rádio e do cinema
como meios de uniformização da massa e de sua visão de mundo que
faziam o cotidiano de cada pessoa mediada pela doutrinação
ideológica (.CANCELLI, 1993, p.35-36).
Nos dois perídios históricos, a Ditadura Militar de
1930 e 1964, o Estado tinha como inimigo comum, os comunistas.
Getúlio Vargas utilizou da Intentona Comunista de 1935, com muito
jogo político e habilidade, com o pretexto para programar seus
planos golpistas e criou a psicose sobre o anticomunismo, mesmo
sabendo que o Partido Comunista foi posto na ilegalidade e todos os
seus militantes estavam no interior das prisões.
O combate ao comunismo pelas forças políticas e
econômicas do capital acelerou-se desde a vitória dos bolcheviques,
em 1917, na Rússia, nesse momento, o mundo presencia o aparecimento
de outro sistema econômico chamado socialismo,
na qual as forças reacionárias mundiais se unem, numa “santa
aliança” contra a construção do socialismo.
Segundo o historiador Thomas Skidmore:
A “ameaça bolchevista” era, no entanto, uma
preocupação importante da liderança “burguesa”. A junta militar,
por exemplo, emitiu um manifesto a 27 de outubro, pedindo calma,
avisando a população para tomar cuidado porque os “elementos
perniciosos à ordem social procuram infiltrar no meio operário
idéias nocivas à paz pública”. Essa preocupação de interceptar
qualquer “agitação” proletária – uma fôrça (sic) de potencial
desprezível no Brasil da década de 30 – tornou-se mais marcante
nas cogitações de quase todos os setores da elite política
tradicional depois da instalação do Governo Vargas (.SKIDMORE,
1982, p.29).
Acrescenta-se que o Estado Novo e seu braço armado -
as Forças Armadas – constroem a ideologia antiliberal, de base
nacionalista e centralizadora, que deve ser hegemônica e imposta à
sociedade nacional como proposta para que o capital governasse seus
interesses. A tônica que sinalizará esse governo será a perseguição
aos comunistas, considerados inimigos da pátria e da essência da
humanidade, como explicita Cancelli, quando afirma:
Dentre todos os inimigos construídos pelo Estado,
os comunistas foram os que mais impulsionaram a ação da polícia,
mais justificaram sua existência e mais fortemente serviram à
associação mítica de sua ideologia como obra do demônio (CANCELLI,
1993, p.79-80).
A polícia do Distrito Federal, em 1931, no comando do
médico Batista Luzardo, importou técnicos da polícia de New York,
para combater o comunismo, mas temos que lembrar que a intimidade
entre os órgãos de informação e a segurança é uma prática antiga
entre os países sul-americanos para monitoramento dos anarquistas
estrangeiros e dos comunistas.
No campo do turismo, a década de 1930 se preocupará
com essa temática, enquanto empreendimento puramente econômico, como
consta no depoimento de Alzira Vargas:
Pediram-me que sugerisse ao Patrão, com a máxima
urgência, a criação de um organismo que se dedicasse à
propaganda de nossas belezas naturais, e fomentasse a vinda de
turistas estrangeiros a nosso País. Diziam-me, com números e
cifras, quantos milhares de pessoas haviam visitado a França, a
Itália, a Suíça, o Canadá, etc., e o quanto isso havia
representado para a economia interna desses países (PEIXOTO,
1960. p.360-361).
Na verdade, o turismo surge aos governantes como
solução para tirar a economia da crise em que se encontra, por isso
pensa-se somente no turismo receptivo, como forma de ingresso de
recursos econômicos, consignado em moeda forte, o dólar. O
turismo interno é algo esquecido e até menosprezado pelo Estado que
taxia esse assunto, quando cria o SESC, SENAC, em 1946.
O golpe militar de 1964 foi efetivado, segundo os
seus precursores, para impedir o avanço dos comunistas e acabar com
a corrupção no Brasil, pelo menos essa era a fala dos generais e
velhos políticos. O grande inimigo do povo brasileiro eram as
ideologias estranhas aos princípios cristãos que o
capelão americano, padre Patrick Peyton, encarregava-se, junto ao
governador Adhemar de Barros, de organizar as
marchas da família com Deus pela Liberdade.
Os pronunciamentos de Adhemar, após o
golpe de 1964, são claros e apaixonantes na saga contra os
comunistas:
A grande conquista, obtida nessa
primeira fase da luta, é a da libertação nacional do jugo
bolchevista. Estatísticas que fizemos nos últimos tempos revelam
que o Partido Comunista cresceu exageradamente. Através dos
esforços de 2.400 a 2.500 agentes vindos da China continetal, da
Rússia, de Cuba e de tôda a América Latina, a massa comunizada
ampliou-se enormente. Mas a bandeira brasileira continuará a ser
auriverde e a cruz não será substituída pela foice e o martelo
(BARROS, 18.04.1964).
Com a censura dos meios de
comunicação e a campanha aberta e direta contra o comunismo, o
Estado militar de 1964 fez planos econômicos que favoreceriam as
multinacionais, elegeu prioridades no campo da educação por meio de
acordos com as agências de ensino norte-americanas. E entendeu o
turismo como prioridade nacional, colocando que “Coube a Joaquim
Xavier da Silveira o privilégio de colaborar com a Revolução na
tarefa de promover a integração nacional que é uma das resultantes
de um programa de desenvolvimento do turismo [...]” (DA SILVEIRA,
s.d., p.10).
Os militares criaram a EMBRATUR e usaram-na para
encobrir a repressão, a tortura, o seqüestro das Forças Armadas
junto à população civil. Desenvolveram um ufanismo cívico moralista
e fizeram desta a ideologia carro-chefe para salvar o Brasil do
comunismo e para adotarmos a vida pró-americana e “democrática”
cristã.
Tanto na década de 30 como em 1964, o Estado usou do
turismo para encobrir atos de repressão à sociedade, tanto Getúlio e
os governos militares posteriores utilizaram do turismo como escudo
para que seus interesses de imagem fossem maquiados pelo “paraíso
tropical”. Se 1930 foi para firmar a imagem de Getúlio como pai dos
pobres e dos trabalhadores, em 1964 os militares usaram do turismo
para divulgar o exotismo do carnaval e da terra dos prazeres erótico
e exótico.
Com isso, podemos entender duas questões
separadamente, a primeira por que na maioria das feiras
internacionais de que o Brasil participou, o empresariado brasileiro
teve um avanço extraordinário em suas vendas e aceitação dos seus
produtos no exterior? Pela capacidade de setores que souberam
modernizar seus produtos para enfrentar o mercado internacional. A
segunda que deve ser percebida separadamente da primeira, a
publicidade sobre o Brasil, feita pela EMBRATUR, de 1966 a 1996;
nessas feiras, foi uma verdadeira tragédia; o estímulo acentuado a
mulheres nuas, com o tratamento de país erótico em que a pobreza
obriga mulheres a se prostituir como opção de empregabilidade.
Tudo isso se configura como tragédia que, hoje,
apesar da campanha contra o turismo sexual, pode ser percebida no
interior dos aeroportos brasileiros, quando da chegada de vôos
charters, procedentes do exterior para o nordeste brasileiro. É
só permanecermos alguns minutos no saguão dos aeroportos e, pronto,
pessoas inescrupulosas, verdadeiros bandidos, fazendo o papel de
contato com os estrangeiros para agenciar garotas.
Na história do turismo brasileiro, encontramos
inúmeros momentos caricatos, cheio de humor, embalado pela idéia do
sofisticado chiquê. Essa é a noção que alimenta o imaginário dos
políticos curiosos, que sempre estiveram à frente dos órgãos
públicos de turismo, uns mais dedicados a viajar, outros que faziam
questão de elitizar a atividade para sair na coluna social, outros,
ainda, servindo-se do cargo para galgar posições políticas maiores
na área pública ou privada.
O turismo marca a idéia do lúdico, da viagem, do
deslocamento, do divertimento e do descanso; tudo isso alimentado
pela ideologia neopositivista de que essa é uma atividade reservada
às classes abastadas e, portanto, a ênfase é para o turismo
receptivo e não para o turismo interno.
A presidência da EMBRATUR continua sendo, palco de
disputa de políticos que indicavam protegidos do partido, dos
militares e dos meios de comunicação. Essa é uma prática corriqueira
e comum no interior do Estado brasileiro que secundariza a
competência profissional a favor do apadrinhamento político.
Referências
BARROS, Adhemar
Pereira de. Revista Manchete.
Eu desembainhei a espada missionária. Rio de Janeiro, 18 de abril de
1964, ano II, n. 626.
BUMEISTER, Hermann. Viagem ao
Brasil através das províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais.
Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed. Da Universidade de São
Paulo, 1980.
CARONE, Edgar. A Terceira República (1937 –1945). São Paulo;
Rio de Janeiro: DIFEL, 1976.
PADILHA, Pedro de Magalhães. O
Turismo. Rio de Janeiro: Bloch Editores, N. 11, 1972 (COLEÇÃO
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DA SILVEIRA, Joaquim Xavier.
Turismo Prioridade Nacional. Rio de Janeiro: Record, s/d.
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SANTOS FILHO, João dos.
EMBRATUR, da euforia ao esquecimento: o retorno às raízes quando
serviu à Ditadura Militar. Não estamos em uma ditadura
militar, mas servimos a quem? Revista Espaço Acadêmico,
Maringá (PR), nº. 35, abril de 2004. Disponível em:
http://www.espacoacademico.com.br/035/35jsf.htm
Acesso em 1 de maio 2008.
__________. O espelho da
história: o fenômeno turístico no
desenvolvimento da história.
In Pasos Revista de Turismo y Patrimônio
Cultural. Volumen 5, número1 de Enero de 2007.
__________. O turismo
brasileiro: equívocos, retrocessos e perspectivas – o balanço que
nunca foi feito. Revista Espaço Acadêmico, Maringá (PR), nº.
25, junho de 2003. Disponível em:
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. Acesso em 1 de maio 2008.
SOUZA, General Milton Tavares de. O
Estado de São Paulo, 2/10/76. In: MARCONI, Paolo. A censura
política na imprensa brasileira (1968 – 1978). São Paulo:
Global, 1980.
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