ERIC J. HOBSBAWM

 

 

Os anos 60

(Da autobiografia Tempos Interessantes: uma Vida no Século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p.274-282)

 

Eric J. Hobsbawm

 

Num dia do início de maio de 1968 eu estava em Paris, onde um dos órgãos subsidiários da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) havia organizado uma gigantesca conferência sobre “Marx e o pensamento científico contemporâneo”, para comemorar o sesquicentenário do nascimento do pensador. Como acontece com a maioria desses eventos, sua função evidente era proporcionar a acadêmicos uma viagem gratuita a um lugar turístico agradável, e como é o caso na maioria das conferências sobre Marx, especialmente aquelas para as quais um pelotão de burocratas ideológicos da União Soviética contribuía com monografias extremamente tediosas sem qualquer interesse, os participantes se sentiam estimulados a deixar o salão de conferências e ir passear nas ruas. Mas nos dias 8, 9 e 10 de maio as ruas de Paris – pelo menos as do 5º e 6º arrondissements – estavam cheias de estudantes que faziam manifestações. Por puro acaso a comemoração do aniversário de Marx coincidiu com o auge da grande rebelião estudantil parisiense. Em um ou dois dias ela se transformou, mais do que uma revolta de estudantes, em uma greve nacional de operários, causando profunda crise no regime do general De Gaule[1]. Dentro de poucos meses os “acontecimentos de maio” foram entendidos como epicentro de uma explosão bicontinental de rebelião estudantil, atravessando as fronteiras políticas e ideológicas de Berkeley e da Cidade do México, no Ocidente, a Varsóvia, Praga e Belgrado no Leste.

Enquanto escrevo essas linhas, olho as fotos daqueles dias de 1968 em Paris, publicadas em um volume trinta anos mais tarde[2]. Diversas entre as mais impressionantes foram feitas no último dia da conferência sobre Marx – ainda recordo a ardência do gás lacrimogêneo depois do incêndio do Quartier Latin – porém minha lembrança mais duradoura está fixada na fotografia sem data, feita por Henri Cartier-Bresson, de uma enorme marcha estudantil de protesto: uma vasta massa de jovens, predominantemente do sexo masculino, sem gravata e com os punhos fechados, quase sem exceção ainda com os cabelos cortados curtos à moda burguesa da época de antes dos hippies, quase ocultando a presença de um ou outro rosto adulto. Mas essas caras adultas são as que recordo mais claramente, porque representam ao mesmo tempo a unidade e a incompatibilidade da velha geração da esquerda – a minha própria – com a nova geração. Recordo meu velho amigo e camarada Albert (“Marius”) Soboul, de aspecto solene, vestido com o terno escuro e a gravata dos acadêmicos gritando palavras de ordem das quais ele, como membro legal do Partido Comunista francês, discordava profundamente. Mas como poderia alguém da tradição da Revolução e da República não “descendre dans la rue” em uma ocasião como aquela? Recordo Jean Pronteau, na época ainda mais membro importante do Partido, que comandara a insurreição de Paris em 1944 contra os alemães no Quartier Latin, dizendo-me o quanto se emocionara ao ver as barricadas sendo erguidas, espontaneamente, exatamente na mesma esquina da rue Gay-Lussac em que tinham sido levantadas em 1944, e sem dúvida onde haviam estado durante as revoluções de 1830, 1848 e na Comuna de Paris de 1871. Se noblesse oblige, com certeza isso se aplica à tradição revolucionária.

            Certamente nada me chocou mais na época do que a reunião à qual eu e diversos outros visitantes marxistas do convescote da UNESCO fomos convidados – não sei bem se pelo Instituto Maurice Thorez ou se por outro agregado acadêmico ao Partido Comunista francês -, na qual seriam debatidos temas de interpretação marxista enquanto os estudantes marchavam. Ninguém parecia tomar conhecimento do que ocorria lá fora. Causei alguns momentos de embaraço ao dizer isso. Perguntei se nada tínhamos a dizer sobre o que estava acontecendo nas mesmas ruas em que havíamos passado a caminho da reunião. Não podíamos pelo menos declarar nosso apoio geral? E agora, 34 anos mais tarde, infelizmente não recordo se aqueles que sentiam o mesmo e eu conseguimos envergonhar suficientemente os participantes da reunião para fazê-los emitir tal declaração. Parece-me improvável.

A coleção de fotos de 1968 do Magnum contém outra imagem que resume pelo menos parte de meus sentimentos na época. (Quase não preciso acrescentar que também é de Henri Cartier-Bresson, esse gênio da preservação do momento histórico.) Um homem idoso de classe média, de pé, com os braços cruzados para trás, olha com ar pensativo um muro parisiense coberto de cartazes e uma porta rude de madeira, presumivelmente de algum quintal ou terreno. A camada superior dos cartazes foi parcialmente arrancada, deixando entrever tijolos de massa e velhos pôsteres cinematográficos. Na porta estão acumulados cartazes políticos – um do Partido Comunista por cima de um texto sobre poder estudantil, uma folha meio rasgada conclamando à luta por uma sociedade democrática que abra o caminho para o socialismo, e por cima de tudo um grande grafite escrito com o armamento básico dos revolucionários de 1968: a lata de spray. A inscrição diz “Jouissez sans entraves”, que os editores timidamente traduziram por “Vamos mostrar tudo”. (Na verdade significa “Que nada impeça o orgasmo”.) Não sabemos o que o velho de Cartier-Bresson pensava sobre os muros de Paris, que foram as principais vítimas e testemunhas públicas da revolta estudantil. Minha própria reação foi o de ceticismo. Como todos os historiadores sabem, pode-se reconhecer as revoluções pela vasta torrente de palavras que elas geram: palavras faladas, mas nas sociedades alfabetizadas também palavras escritas em enormes quantidades por homens e mulheres que normalmente não se expressam por escrito. Por esse critério, maio de 1968 foi algo como uma revolução estudantil, mas suas palavras registram um tipo estranho de revolução, como se podia ver ao observar os muros de Paris na época.

A verdade é que os grafites e os pôsteres característicos de 1968 não eram realmente políticos no sentido tradicional da palavra, a não ser pelas repetidas denúncias do Partido Comunista, presumivelmente por militantes de vários grupos e facções de esquerda, quase sempre oriundas de algum cisma leninista. No entanto, como eram raras as referências aos grandes nomes dessa ideologia – Marx, Lênin, Mao, até mesmo Che Guevara – nos muros de Paris![3] Mais tarde eles apareceriam em broches, como ícones que simbolizavam a derrubada de sistemas. Os estudantes rebeldes recordaram aos teóricos um anarquismo bakuniniano há muito esquecido, mas talvez estivessem mais próximos dos “situacionistas” que haviam previsto uma “revolução da vida cotidiana” mediante a transformação das relações pessoais. Essa (e o brilhantismo gaulês na invenção de slogans memoráveis) é a razão pela qual eles se transformaram em porta-vozes de um movimento que de outro modo estaria incubado, embora seja quase certo que até então quase ninguém ouvira falar deles, a não ser um pequeno círculo de pintores de esquerda. (Eu certamente jamais ouvira falar.) Por outro lado, os slogans de 1968 não eram simplesmente a expressão de uma contra-cultura de alheamento, apesar de um evidente interesse em chocar a burguesia (“LSD tout de suíte!”) Queriam derrubar a sociedade e não simplesmente escapar dela.

Para os esquerdistas de meia idade como eu, maio de 1968, e na verdade toda a década de 1960 foram tempos extraordinariamente bem-vindos e extraordinariamente desconcertantes. Parecíamos usar o mesmo vocabulário, mas não parecíamos falar a mesma língua. Mais do que isso, ainda que participássemos dos mesmos acontecimentos, aqueles dentre nós com idade suficiente para ser pais dos jovens militantes não sentíamos o mesmo que eles. Vinte anos de pós-guerra haviam ensinado aos que viviam nos países de democracia capitalista que a revolução social nesses países não estava na agenda política. De qualquer maneira, depois dos cinqüenta anos já não se espera a revolução por trás de qualquer demonstração de massa, por mais impressionante e estimulante que ela seja. (Por isso, incidentalmente, nossa surpresa – e a de todos – pela eficácia política desproporcional dos movimentos estudantis de 1968, os quais, afinal de contas, derrubaram os presidentes dos Estados Unidos e da França, este último após um intervalo decoroso para salvar as aparências.) Além disso, para os que crescemos com a história de 1776, 1789 e 1917, e suficientemente idosos para haver atravessado as transformações a partir de 1933, a revolução deveria ter um objetivo político, por mais intensa que fosse como experiência emocional. Os revolucionários desejavam destronar antigos regimes políticos, domésticos ou estrangeiros, com a finalidade de substituí-los por novos regimes políticos que então instituiriam as bases de uma sociedade nova e melhor. No entanto, seja o que for que levou aqueles jovens às ruas, não era esse seu objetivo. Os observadores não simpatizantes, como Raymond Aron (vendo-se no papel de De Tocqueville ao comentar a Paris de 1848), concluíram que eles não tinham objetivo algum: 1968 deveria ser entendido como um teatro de rua coletivo, um “psicodrama” ou “delírio verbal”, porque era simplesmente “uma colossal libertação de sentimentos reprimidos”.[4] Os simpatizantes, como o sociólogo Alain Touraine, autor de um dos primeiros livros sobre essas semanas extraordinárias, ainda um dos mais esclarecedores, achou que o objetivo implícito era uma reversão às ideologias utópicas pré-1848.[5] Mas não seria realmente possível ver utopia na antinomia geral de slogans como “É proibido proibir”, que provavelmente se aproximava do que sentiam os jovens rebeldes – tanto em relação ao governo, como em relação aos professores, aos pais ou ao universo. Na verdade, não pareciam estar muito interessados num ideal social, comunista ou de outro tipo, distinto do ideal individualista de livrar-se de tudo o que se arrogasse o direito e o poder de impedir-nos de fazer o que nosso ego ou id desejasse fazer. E, ainda assim, os poucos distintivos públicos que encontraram para as lapelas particulares eram os da esquerda revolucionária, certamente porque eram por tradição ligados à oposição.

            A reação natural dos velhos esquerdinhas ao novo movimento foi a seguinte: “Esse pessoal ainda não aprendeu a atingir seus objetivos políticos”. Presumivelmente por essa razão Alain Touraine, que simpatizava muito com os rebeldes de 1968, referindo-se ao título em francês para o meu Rebeldes primitivos, recentemente publicado em Paris[6], escreveu na orelha do meu exemplar do seu livro: “Estes são os Primitivos de uma nova Rebelião”. O objetivo de meu livro havia sido precisamente fazer justiça às lutas sociais – banditismo, seitas milenaristas, amotinados urbanos pré-industriais – que haviam sido esquecidas ou até mesmo consideradas pouco importantes simplesmente por haver tentado tratar dos problemas dos pobres numa sociedade capitalista utilizando equipamento inadequado ou historicamente obsoleto. Mas e se os “novos primitivos” não estivessem de forma alguma perseguindo os nossos objetivos, e sim outros muito diferentes? Por estar tão clara e entusiasticamente do lado dos eternos perdedores sobre os quais escrevi, meu livro, disponível em inglês desde 1959, tinha me proporcionado mais credibilidade das ruas, entre os membros das “novas esquerdas” anglófonas, do que a geralmente concedida aos membros do Partido. No entanto, fiquei espantado e um tanto perplexo quando um colega da Universidade da Califórnia em Berkeley, epicentro da erupção estudantil nos Estados Unidos, me disse que os jovens rebeldes mais intelectualizados dali haviam lido o livro com grande entusiasmo porque se identificavam a si mesmos e a seu movimento com os meus rebeldes.

Havendo dado aulas nos Estados Unidos no auge do movimento anti-Vietnã em 1967, e também observado os acontecimentos de Paris em 1968, escrevi em 1969 um artigo igualmente pouco perceptivo sobre “Revolução e sexo”. Se havia alguma correlação entre as duas coisas, assinalei, seria negativa: os governantes mantinham calmos os escravos e os pobres estimulando a liberdade sexual entre eles, e poderia ter acrescentado também por meio das drogas, recordando o Admirável mundo novo, de Aldous Huxley. Como historiador, sabia que todas as revoluções possuem um aspecto libertário em que tudo é permitido, porém “tomadas em si mesmas, a revolta cultural e a dissidência cultural são sintomas, e não forças revolucionárias”. “Quanto mais isso for visível” – como obviamente era o caso nos Estados Unidos – “mais podemos estar certos de que as grandes coisas não estão acontecendo”.[7] Mas e se as “grandes coisas” não fossem a derrubada do capitalismo, ou mesmo de alguns regimes opressores ou corruptos, porém precisamente a destruição dos padrões tradicionais de relacionamento entre pessoas e comportamento pessoal dentro da sociedade existente? E se simplesmente estivéssemos equivocados ao considerar os rebeldes da década de 60 como nada mais do que outra fase, ou variante, da esquerda? Nesse caso, não teria sido uma tentativa malograda de fazer um tipo de revolução, mas a efetiva ratificação de outro: o que aboliria a política tradicional e, no fim das contas, a política da esquerda tradicional, por meio do slogan: “O que é pessoal é político”. Olhando para trás depois de pouco mais de trinta anos, é fácil ver que interpretei mal o significado histórico da década de 1960.

Um motivo para isso foi o fato de que eu me encontrava imerso, desde 1955, no universo reduzido e principalmente noturno dos músicos de jazz. O mundo em que eu vivia nas horas tardias, na segunda metade da década de 50, já parecia prenunciar muito do espírito dos anos 60. Isso foi um engano, pois era muito diferente. Se há alguma coisa que simboliza os anos 60 é o rock, que começou a conquistar o mundo na segunda metade dos anos 50 e imediatamente abriu um profundo fosso entre as gerações pré e pós-1955.

Era impossível não perceber esse hiato, como na ocasião em que minha mulher e eu, passando alguns dias em Berkeley e São Francisco no auge do “flower-power” no ano de 1967, fomos visitar uma jovem que anteriormente se hospedara com meus filhos Andy e Julia em Haight-Ashbury, onde ela estava se descobrindo a si mesma. Era evidentemente maravilhoso para a moça, holandesa tão equilibrada quanto se poderia esperar, e era divertido observá-la, mas nada tinha a ver com o nosso cenário. Fomos levados ao Fillmore, o gigantesco salão de danças, palpitante de refletores de luz negra e amplificação excessiva do som. Nem consigo recordar os grupos da área da baía de São Francisco que se apresentaram – o único que me pareceu fazer algum sentido foi uma das bandas femininas da Motown – não sei se as Marvelettes ou as Supremes – cujo ritmo se assemelhava ao conhecido rhythm and blues negro. Talvez isso não seja surpreendente. Para aproveitar aquele ano em São Francisco era preciso estar permanentemente usando alguma droga, de preferência LSD, o que não era nosso caso. Na verdade, devido a nossa idade, éramos um perfeito exemplo da expressão “Se você se lembra de alguma coisa da década de 1960 é porque não participou dela”.

Da mesma maneira, o mundo do jazz, com raríssimas exceções, não poderia entender o rock. Reagia ao rock com o mesmo tipo de desprezo com que tradicionalmente reagia à música Mickey Mouse das antigas bandas comerciais que tocavam em teatros. Talvez até com maior desprezo, pois os músicos que tocavam os mais aborrecidos temas dos bar mitzva pelo menos eram profissionais. Reciprocamente, em poucos anos o rock quase matou o jazz. Era virtualmente impossível vencer o hiato entre gerações daqueles para quem os Rolling Stones eram deuses e a daqueles para quem não passavam de uma boa imitação dos cantores negros de blues, ainda que ambas de vez em quando concordassem quanto ao talento de alguns. (Acontece que eu tinha admiração pelos Beatles e reconhecia fragmentos de gênio em Bob Dylan, um grande poeta em potencial demasiadamente indolente ou absorvido por si mesmo para conseguir manter a atenção da musa por mais de dois ou três versos de cada vez.) A despeito das aparências, minha geração continuaria deslocada na década de 1960.

E isso apesar do fato de que durante alguns anos da década de 1960 a linguagem, a cultura e o estilo de vida das novas gerações do rock ficaram politizadas. Falavam dialetos reconhecíveis como derivados da antiga linguagem da esquerda revolucionária, embora naturalmente não do comunismo de Moscou, desacreditado tanto pelos acontecimentos da era Stálin quanto pela moderação política dos partidos comunistas. Qualquer pessoa que leia o melhor livro escrito na Grã-Bretanha sobre a década de 1960, Promessa de um sonho, de minha amiga e antiga aluna Sheila Rowbotham, compreenderá que durante alguns anos era realmente impossível a alguém de sua geração (ela nasceu em 1943) distinguir entre o que era pessoal e o que era político. Foi o “Alexis Korner de esquerda” – lembro-me dele, moreno e tranqüilo, em Bayswater – quem inspirou “a nítida sexualidade latejante das bandas de blues”[8] como a dos Rolling Stones, de onde vinha Mick Jagger, que compôs “Street Fighting Man” após uma dramática demonstração de solidariedade ao Vietnã em 1968 e a publicou no jornal radical do extravagante trotsquista paquistanês Tariq Ali, The Black Dwarf  (“PARIS, LONDRES, ROMA, BERLIM. NÓS LUTAREMOS. NÓS VENCEREMOS”). Pink Floyd, “A Dialética da Libertação”, Che Guevara, A Terra Média e o LSD eram companheiros. Não que as fronteiras estivessem totalmente apagadas. Um catedrático de economia em Cambridge mais tarde propôs que os socialistas do sexo masculino que tinham princípios deveriam protestar publicamente contra a proliferação de casas de strip-tease no Soho, por exemplo tirando a roupa do lado de fora delas. (Os homens da New Left Review lhe haviam dito que estavam sendo “puritano e ultrapassado em sua visão do socialismo”.) Os que vestiam “a sombria ´roupa de guerra´ cada vez mais usada [...] pela esquerda” sacudiram negativamente as cabeças contra um militante igualmente dedicado que veio a uma ocupação da London School of Economics “com um terno de calça boca-de-sino verde-oliva comprado durante minhas extravagâncias de setembro”.[9] A maior parte disso era independente da esquerda mais velha, ainda que os jovens radicais britânicos – talvez graças a minha geração de historiadores comunistas – estivessem mais impregnados de história, especialmente a história da classe trabalhadora, do que quaisquer outros. Conhecíamos muitos dos principais ativistas como colegas de protesto, alunos ou amigos. Não me preocupei em ler o Black Dwarf, embora me tivessem pedido que escrevesse um artigo para ele, o que naturalmente fiz. As pessoas como eu eram mobilizadas pelos jovens para coisas como os teach-ins  sobre o Vietnã – fui companheiro do espetacularmente mal escolhido Henry Cabot Lodge, antigo Big Brother americano em Saigon, no teach-in do Sindicato de Oxford em 1965, organizado por Tariq Ali. Felizmente, em minha própria faculdade não enfrentei a dolorosa experiência da ocupação estudantil, geradora de considerável conflito entre gerações, embora tivesse sido convidado por um dos líderes, filho de velhos amigos, a falar para uma multidão de forças ocupantes na Old Schools de Cambridge. Creio que se decepcionaram quando sugeri que até mesmo a história de eras perdidas na névoa da Antigüidade, como o século XIX, poderia ser “relevante” – palavra da moda na época.

Não compreendemos quão profundamente até inquestionavelmente política ultra-esquerda, isto é, os revolucionários e neoterroristas armados que emergiam da década de 1960, havia sido influenciada pela “contracultura”, da qual na verdade fazia parte. O nome dos Weathermen dos Estados Unidos derivava de uma canção de Bob Dylan. A Facção do Exército Vermelho, mais conhecida como a Gangue de Beader-Meinhof, vivia, por sua própria escolha e comportamento, em uma versão alemã da contracultura de gente que vinha de fora.  

Minha faixa etária não entendeu que as gerações ocidentais de estudantes na década de 1960 acreditavam, como antes havíamos acreditado, embora de maneira muito menos fácil de especificar como “política”, que viviam em uma era em que tudo iria mudar por meio da revolução, porque à sua volta tudo já estava mudando. Nós, ou pelo menos os comunistas de meia-idade congenitamente pessimistas como eu, que já trazíamos as cicatrizes das decepções de metade da vida, não poderíamos compartilhar o otimismo quase cósmico dos jovens, que sentiam “tragados pelo furacão da rebelião internacional”. [10] (Um de seus subprodutos foi a moda do turismo revolucionário internacional, que faria com que intelectuais de esquerda italianos, franceses e britânicos convergissem simultaneamente para a Bolívia em 1967, por ocasião da morte de Che Guevara, e para o julgamento de Regis Debray.)

 

[1] Para a minha opinião sobre os acontecimentos de maio, ver  “Maio de 1968”, escrito mais tarde naquele mesmo ano, em E. J. Hobsbawm, Revolutionares, Londres, 1999, e edições anteriores, cap. 24.

[2] MANUM PHOTOS: 1968 Magnum Throughout the World, textos de Eric Hobsbawm e Marc Weitzmann. Paris, 1968.

[3] Não reparei isso conscientemente na época, mas esse ponto é bem referido por Yves Págès, que editou o registro completo dos grafites da Sorbonne, coligido e preservado por cinco funcionários da universidade na época. Ver no Copyright. Sorbonne 1968: Grafitti, Éditions Verticales, 1998, p.11.

[4] Citado em H. Stuart Hughes, Sophisticated Rebels, Cambridge, MA, e Londres, 1988, p.6.

[5] Alain Touraine, Le Mouvement de Mai ou le Communisme Utopique, Paris, 1968.

[6] [6] Eric J. Hobsbawm, Les Primitifs de la Révolte dans l´Europe Moderne, Paris, 1966.

[7] Este artigo é o cap. 22 de meu Revolutionaries; Contemporany Essays, Londres, 1937, e várias edições posteriores.

[8] Sheila Rowbotham, Promise of a Dream, Londres, 2000, pp 118, 203-4 e 208.

[9]  Ibid., p.203.

[10] Ibid., p.196.

 

 

 

 

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