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ANA LUIZA DE
OLIVEIRA DUARTE FERREIRA
Mestre em História (UFJF)
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O perfil vanguardista de Ramos e as raízes modernistas de Holanda
por Ana Luiza de
Oliveira Duarte Ferreira
O presente trabalho se dedica à abordagem de dois
célebres clássicos ibero-americanos, escritos e publicados na década
de 1930 – El perfil del hombre y la cultura en México (1934),
do mexicano Samuel Ramos, e Raízes do Brasil (1936), do
brasileiro Sérgio Buarque de Holanda. Partindo de reflexões
apresentadas pelo historiador que é hoje um dos maiores interessados
na dita “História Intelectual”, o norte-americano Dominick LaCapra,
toma, pois, esses textos como “obras” e não, tal como se tem feito
correntemente, como “fontes”; e se dedica à busca de uma maior
compreensão acerca das maneiras com que as noções propostas em ambas
as obras selecionadas podem ter sido construídas, e das maneiras com
que podem ter dialogado com pressupostos conceituais aos quais se
tinha acesso na época, apresentando uma releitura acerca da forma
com que El perfil... e Raízes... vêm sendo
compreendidos até a atualidade.
Antes de mais, faz-se mister destacar que, em
análises dedicadas a estes célebres livros de Ramos e Buarque de
Holanda, o comum tem sido destacar-se tanto o fato de que o
raciocínio de um como de outro se estabelece através da elaboração
de “tipologias”, como a opção de ambos autores pela estrutura
ensaística. Remetendo a essas duas possibilidades de abordagem,
então, pode-se dizer:
1. que
El perfil... e Raízes... recorrem a propostas de
reflexão desenvolvidas, na transição do século XIX ao XX, em
território germânico - no caso de Ramos, estou falando da
psicanálise (especialmente dos trabalhos de Jung e Adler), e, no
caso de Buarque de Holanda, estou falando de seu interesse
declarado pela obra de Max Weber. Em um como no outro, os
“tipos” construído a partir destes autores estrangeiros, parecem
garantir ao texto um tom de maior rigor acadêmico.
2. mas que, para além, sem revelar uma
preocupação sistemática com a definição de “verdades”
filosóficas/históricas/sociológicas incontestáveis,
apresentam seus argumentos de maneira a garantir ênfase à
complexidade e multiplicidade dos elementos abordados, muitas
vezes chegando a soar contraditórios – características típicas
de toda e qualquer obra denominada “ensaio”.
Tanto uma como outra possibilidade de reflexão
exposta acima é rica em pressupostos e, consequentemente, pode
permitir que se vislumbrem, a partir delas, também ricas conclusões.
Contudo, inspirada também no historiador francês Jean Pierre Rioux e
atenta às redes de sociabilidade tecidas tanto pelo referido
pensador mexicano como pelo referido pensador brasileiro, neste
trabalho restrinjo-me a buscar perceber a relevância, para os textos
de El perfil... e Raízes..., de questões esboçadas por
elementos da intelectualidade ibero-americana de inícios dos
novecentos, com os quais Ramos e Buarque de Holanda estabeleceram
contato, ao menos indiretamente.
É sabido que as primeiras décadas do século XX foram
marcadas em todo o mundo pelos chamados movimentos de vanguarda. No
México e no Brasil não foi diferente, daí que se destacassem, nesta
primeira nação, os ditos estridentistas e, mais tarde, os
contemporáneos, e, na segunda, os modernistas.
Aqui seria bom pontuar, logo, que no caso mexicano os
expoentes vanguardistas iniciaram sua luta
estético-conceitual em grande parte com base nas reflexões
propostas, em célebre manifesto, por Manuel Maples Arce. Apenas
alguns anos após o lançamento do projeto de rompimento assinado
individualmente por Arce é que diversos escritores, poetas e
romancistas vieram associar-se ao mesmo desejo iconoclasta, de
rompimento com os padrões literários, de atualização do estilo
(agora mais fragmentário, dinâmico, solto), de valorização da
temática urbana e tecnológica, de releitura dos temas nacionais, de
militância esquerdista. Configurava-se, pois, o movimento
estridentista, que chegou a conquistar postos administrativos,
em meados da década de 1920, no governo rebelde socialista de
Heriberto Jara, no estado de Veracruz (BUSTOS, s/d & SOSA, s/d).
O estridentismo teve como opositores os
antigos integrantes e pupilos de um grupo de intelectuais em relação
ao qual é provável que não seja demasiada ousadia considerar o mais
famoso de toda a história mexicana – o Ateneo de la juventud.
Dentre os pensadores que ali se destacaram estiveram os “velhos”
José Vasconcelos, Antonio Caso e Alfonso Reyes, cujas vidas
profissionais foram marcadas (1) por fortes vínculos com a
universidade, (2) por um interesse pela tradição que se dava muito
mais próximo ao campo da Filosofia do que da Literatura, e, por fim,
(3) por uma preocupação política também bem marcada, por vezes
diretamente associada ao governo revolucionário instituído, a partir
da Cidade do México (MYERS, 2005; PAZ,
1984 & PIZARRO, 1994).
A crítica principal dos “ex-ateneístas” no que
diz respeito aos “estridentes” primeiros vanguardistas mexicanos
voltava-se sobretudo à postura rebelde e, segundo seus pontos de
vista, infantil, fragilmente embasada. A partir dessa visão surgiu,
então, um segundo impulso vanguardista no México, intentado por
inúmeros alunos dos mestres do Ateneo, os já citados
Los contemporáneos, ligados à revista literária de mesmo
nome.
Estes apresentaram uma concepção de “vanguarda”
bastante distinta da estridentista: profissionais
universitários, não desejavam ser vistos como um grupo, não
conceberiam projetos estético-conceituais bem definidos (quanto mais
em manifestos!), não se interessaram por integrar a estrutura
burocrática estatal ou qualquer organismo de oposição ao regime
instituído. Destes, podemos citar os poetas Xavier Villaurrutia e
José Gorostiza, os quais, trabalhando os temas mais diversos,
interessaram-se por abordar problemáticas subjetivas, filosóficas; e
dialogaram mais sistematicamente do que o estridentismo com
as propostas de vanguarda estrangeiras (dentre as quais,
destacadamente o ultraísmo espanhol e o expressionismo
suíço) (PAZ, 1984 & SHERIDAN, s/d).
No caso brasileiro, o cenário é consideravelmente
distinto. Isto porque, ainda que dispondo, a princípio, de um
arsenal conceitual pouco articulado, aqui os interessados por um
projeto vanguardista de todo o pais apresentaram-se,
inicialmente, unidos num evento organizado na cidade de São Paulo: a
chamada Semana da Arte Moderna, concebida por escritores que
vieram a ser denominados modernistas. Dando relevo a
nomes tais como o de Mário de Andrade e o de Oswald de Andrade, e de
maneira semelhante aos estridentistas, neste primeiro momento
tais figurões de nossa intelectualidade desejaram um novo paradigma
de expressão literária nacional: livre, includente, mestiço,
polimorfo, dinâmico, autêntico (CHIAPPINI, 2002;
NUNES, 1995).
Com o passar do tempo, contudo, interesses
divergentes foram pipocando e, não que o movimento se tenha
dissolvido, mas de certo dispersou em inúmeros e heterogêneos
programas igualmente rotulados modernistas. Mário rompeu com
todos e ocupou um cargo no Ministério getulista da Cultura; surgiram
o grupos “primitivista”/socialista (oswaldiano) Antropófago,
integralista/paulistano Verde-amarelo, e
universalizante/carioca de A festa (CANDIDO, 1974 & MARTINS,
1978).
Neste último, através da organização de uma revista
homônima, ganharam expressão poetas, de todo o Brasil, do porte do
pernambucano Manuel Bandeira, e do mineiro Carlos Drummond de
Andrade. Já nos idos da quarta década dos novecentos veio a
apresentar, então, uma concepção de métier para o literato
brasileiro bastante distinta daquela compartilhada na Semana,
e um tanto próxima da compartilhada pelos mexicanos
contemporáneos. Eram escritores que se mantinham financeiramente
por seus cargos públicos, burocráticos, e mesmo assim intentavam, no
que diz respeito aos seus trabalhos literários, produzir bastante e
regularmente, sem a obrigação de lidar com o tema do “nacionalismo”.
Não se revelavam tão claramente interessados pela delimitação de uma
associação militante, nem estavam da mesma maneira inclinados a um
exposto engajamento político – é provável que em face da situação do
Brasil da época, que experimentava a ditadura populista de Getúlio
Vargas (LAHUERTA, 1997).
Faz-se mister, então, pontuar que biógrafos de Ramos
como de Buarque de Holanda sempre apontam que o início da formação
intelectual de um como de outro foi marcado pelo diálogo com os
elementos acima referidos. Ramos foi um discípulo (ainda que, anos
depois, severamente crítico) do ateneísta Antonio Caso, que
esteve diretamente ligado à edição e aos editores de
Contemporáneos. Além disso, é sabido que antes de editar El
perfil..., Ramos chegou a publicar alguns de seus capítulos nas
páginas de Los contemporâneos. De sua parte, Buarque de
Holanda chegou a colaborar na edição de diversas revistas
brasileiras rotuladas modernistas, e, em 1926, como tantos
outros, rompeu oficialmente com o bloco-grupo identificado à
Semana.
Até que ponto, pois, pode-se dizer que os projetos de
“vanguarda” marcaram suas maneiras de entender seus objetos de
análise filosófica/histórica/sociológica, especificamente no que diz
respeito a El perfil... e em Raízes...?
Em primeiro lugar, creio
ser evidente que – assim como os ateneístas e os
modernistas brasileiros dos primeiros anos – voltaram-se, tanto
em um livro como no outro, a uma análise de revisão acerca da
história e das tradições respectivamente mexicanas, e brasileiras.
Porém – diferentemente daqueles – não se envolveram de maneira tão
visceral com os assuntos institucionais, senão indiretamente. Fazem
partem, pois, de uma geração de intelectuais que percebia sua função
social como quase estritamente relacionada à sua atuação como
intelectuais; o papel político que Ramos e Buarque de Holanda
parecem se preocupar em cumprir se expressaria através do reexame e
da crítica das concepções arraigadas e castradoras acerca do
“nacional”; quer dizer, se faria não através de (no caso primeiro,
“apenas”) uma militância política institucional, mas através dos
livros que escreviam.
É assim que apresentam versões sobre os homens do
México e do Brasil de então pouco condescendentes. O tipo “pelado”,
por Ramos apresentado em El perfil..., por sentir-se
inferiorizado e temer o novo, protege-se com uma imagem de valentia
e “pouco caso”, comprometendo o desenvolvimento da pátria, assim
como a constituição de uma comunidade com vínculos sociais mais
sólidos. Já o “homem cordial”, descrito em Raízes...,
passional e personalista, teria dificuldades de cumprir normas
impessoais, vindo a compor uma sociedade que, em última instância,
careceria de justiça, igualdade e até mesmo liberdade.
Porém, ao desenvolverem seus raciocínios
ensaisticamente, tanto a visão de “pelado” como da “cordialidade”
surgem, ora ou outra, com um resquício de esperança, apontando para
qualquer possibilidade de renovação, de mudança – Ramos e Buarque de
Holanda não devem ser encarados como céticos pessimistas, porque, em
última instância, vêem os mexicanos e brasileiros como dispondo de
uma “personalidade” em aberto; a qual, por meio do diálogo com
outras, pode vir sim a habilitar-se à construção de uma sociedade
mais justa, democrática, includente.
Em segundo lugar,
podemos remeter às concepções identitárias relacionadas a esse
pronto interesse pela questão nacional. Como vimos, a tomada da
mexicanidade como da brasilidade passou a ser vista, com o correr
dos anos, por muitos elementos da vanguarda do México e do Brasil (Villaurrutia,
Goroztiza, Bandeira, Drummond), como uma “possibilidade” a ser
trabalhada, e não mais como um dever de todo intelectual,
respectivamente, mexicano e brasileiro. As percepções de Ramos e
Buarque de Holanda acerca desta problemática – me parece - revela-se
em seus referidos livros também significativamente desrecalcada. É
claro que se preocupam com a noção de “nacionalidade”, mas não estão
mais dispostos a apresentar modelos a serem cumpridos; a partir de
seus argumentos, visam nos convencer de que as construções de
identidade até então propostas devem ser descontruídas,
enfraquecidas em suas facetas mais perniciosas.
Em terceiro lugar,
podemos conceder foco à maneira como escreveram suas obras mais
célebres, e perceber que, num modo de escrever acadêmico
significativamente menos circunspeto que o atual, revelam o uso rico
de belas metáforas e palavras coloquiais; tal como propunham os
elementos vanguardistas interessados na elaboração de uma linguagem
escrita atualizada e “misturada”. Bom aqui lembrar que a própria
opção pela estrutura ensaística lhes autorizava tal empreitada. E,
também, que é possível que tais características das referidas obras
clássicas remetam ao desejo, então patente, de expansão dos mercados
editoriais e público leitor.
Entretanto, uma diferença deve ser destacada
entre uma e outra obra aqui tomada como objeto; uma diferença que,
creio eu, remete à maneira como esses dois pensadores se
relacionaram socialmente com as vanguardas, e à maneira como essas
se estabeleceram nos países em que nasceram, viveram e intentaram
trabalhar.
A análise de Ramos chega à conclusão da necessidade
de se investir na formação intelectual de homens e mulheres
mexicanos, de maneira a permitir o surgimento de uma nova geração de
líderes que superasse as deficiências características do “pelado”, e
se capacitasse tanto a sutis raciocínios lógicos, quanto à percepção
mais fiel e humanitária da realidade à volta. Diferentemente, os
argumentos de Sérgio levam à conclusão de que conferir à educação o
papel de principal ferramenta de transformação social constituiria
um grande equívoco, visto que os universos letrados brasileiros
estariam todos visceralmente comprometidos com interesses
arcaisantes, “cordiais”.
Lembremos, então, que o fato de os intelectuais aos
quais Ramos sentia-se mais próximo terem conquistado um considerável
nível de organização contrasta com a descrença em programas
conjuntos, característica daqueles aos quais Buarque de Holanda
chegou a identificar-se, em sua trajetória. Tanto que, ao passo que
os companheiros do primeiro creram na necessidade de quebra com os
paradigmas da associação (estou falando dos contemporâneos),
os colegas do brasileiro forçavam uma união mal sucedida. O que
sugiro, quanto a isso, enfim, é que suas experiências hão de ter
imprimido marcas em seus modos de entendimento acerca do real.
Aqui podemos também destacar o fato de que as
reflexões de Ramos revelam-se muito mais desconfiadas no que tange
às classes baixas (mestiços, índios, trabalhadores do campo,
proletários das cidades) do que as de Sérgio.
Destarte, creio, pode-se dizer que a análise
comparada de produções intelectuais mexicanas e brasileiras de
princípios dos novecentos, e aqui particularmente das obras El
perfil del hombre y la cultura en México e Raízes do Brasil
nos faz atentar para uma série de questões relevantes para os
intelectuais da atualidade. O tema da organização nacional e as
possibilidades de interpretação por
filósofos/historiadores/sociólogos é ainda patente em nosso meio.
Entretanto, sobretudo nos faz perceber que, a despeito do fato de as
relações diretas entre uma e outra conjuntura ocorrerem até os dias
de hoje de maneira quase imperceptível, apresentaram propostas
semelhantes, num curioso diálogo inconsciente, que deveria ser mais
prontamente investigado e efetivado.
Referências
HOLANDA, S. B. Raízes do Brasil.
São Paulo, Cia das Letras, 1999.
MARTINS, Wilson.
História da inteligência brasileira. São Paulo: Cultrix, 1978.
PAZ, Octávio. O
labirinto da solidão e post scriptum. Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 1984.
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