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ALAIN ROUX
Professor das universidades emérita
(INALCO. Paris).
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1968
na China: ano de todos os perigos
por Alain Roux
[Tradução: Gilberto Correia Silva]
1968 é uma data articuladora na história da
“revolução cultural”, quer escolhamos, para descrever este evento
traumatizante, o tempo longo: 1957-1976 (Macfarquhar); o tempo
médio: 1966-1976 (Bergère, Barnouin, Dömes, Yan, Résolution) ou o
tempo curto: 1966-1969 (Schoenhals, Choc). Com efeito, o motor da
fase dinâmica da “revolução cultural”, constituído pelo movimento
dos guardas vermelhos (hongweibing), desapareceu em julho-agosto de
1968 e é entre o outono de 1967 e o inverno de 1968, que Mao fez sua
primeira tentativa de por um término ao caos, que partira dos campus
universitários, em maio de 1966, ganhando as usinas em janeiro de
1967 e, finalmente, os campos no verão de 1968, poupando,
completamente, o exército. Uma ditadura militar sucedia à anomia
ameaçadora, em formação sob o aspecto de um PCC renascente, o que
fazia de 1968, o ano de todos os perigos.
Proponho-me a lembrar os principais elementos
ocorridos durante este ano de 1968, prolongado até o 9° Congresso do
PCC, em abril de 1969, tendo começado no outono de 1967, procurando
detectar as razões do novo insucesso do Presidente Mao, após a
catástrofe do Grande Salto avante.
1°) Balanço no outono de 1967
A “revolução cultural” tirou suas origens do
insucesso do Grande Salto avante lançado por Mao, em 1958 (Macfarquhar
1). Apresentado como uma alternativa ao modelo soviético de
socialismo, que inspirara os dirigentes chineses durante os
primeiros anos do novo regime (“A URSS atual, é a China de amanhã”),
o Grande Salto chegara a uma terrível fome que, “em três anos
negros” (1959 a 1961), fizera perecer mais ou menos trinta milhões
de camponeses. (Macfarquhar 2) Este desastre aconteceu devido,
essencialmente, ao voluntarismo econômico de Mao, à sua orientação
esquerdista e à sua permanência no erro: na assembléia de Lushan em
julho-agosto de 1959, o marechal Peng Dehuai criticara os danos
deste “vento comunista” manchado de igualitarismo e utopia. Mas é
este dirigente lúcido e corajoso que fora destituído por Mao como um
vulgar conspirador de direita. Ele fora substituído à frente do
Exército Popular de Liberação (APL) por Lin Biao. Este último ia
fazer da APL um dócil instrumento político criando o culto do
Presidente, compreendendo a compilação de citações, o famoso
“pequeno livro vermelho” fazia um novo Confúcio. Em setembro de
1962, (Macfarquhar3) Mao lançara um comunicado solene na ocasião do
10° plenário do Comitê Central (CC) do Partido Comunista Chinês (PCC):
“camaradas, nunca esqueçam a luta de classes!”. Ele condenava desta
maneira as medidas de reajustamento econômico tomadas por Liu Shaoqi,
Deng Xiaoping e Chen Yun, a fim de relançar uma produção agrícola
que declinara de 25% entre 1958 e 1961 (Yan). Tratava-se de
redistribuir aos lares camponeses o cultivado privado das terras
consideradas propriedade coletiva. Cada agricultor, que se tornava
fazendeiro de sua equipe de produção que correspondia ao antigo
vilarejo, comprometia-se, via contrato, a fornecer, a preço fixo,
uma parte de sua produção à coletividade. Em compensação, ele podia
vender os excedentes nos mercados por um preço melhor. Mao via neste
sistema, chamado “sistema de responsabilidade”, o engodo de um
retorno ao capitalismo. Ao mesmo tempo, em divergência com o Partido
Comunista da URSS, sobre questões da coexistência pacífica entre o
campo socialista e os países imperialistas, impressionado pela crise
do socialismo leste-europeu, na Polônia e na Hungria, sobretudo, ele
propunha que a China fosse o novo coração vermelho do verdadeiro
socialismo, face ao “revisionismo” de Kruchev. Isolado, ameaçado de
uma extensão pelos USA em seu próprio território da guerra do
Vietnã, a China, que se tinha fornecido, em 1964, a bomba atômica,
procurava mobilizar sua juventude “estabelecendo uma política de
comando”. Entre 1962 a 1966, Mao vindo a considerar que a máquina do
PCC, em torno de Liu Shaoqi e de Deng Xiaoping, estava tentando pelo
revisionismo e devia ser derrotado pela geração ascendente que
faria, assim, sua experiência de uma revolução na revolução. Entre o
dia 16 de maio de 1966 e o 11° plenário do CC do mês de agosto deste
mesmo ano, o movimento dos guardas vermelhos, composto por uma
quinzena de milhão de estudantes, constituiu o braço forte de uma
“revolução cultural”, que atingia os cabeças universitários, seus
protetores políticos e, enfim, os mais importantes dirigentes do PCC,
entre os quais, Liu Shaoqi e Deng Xiaoping. A violência, que criara
um ambiente de terror quando os jovens desviados encabeçaram durante
o verão, aos “vestígios do passado feudal”, invadindo as casas das
pessoas das “más categorias negras”, que eram brutalizadas,
humilhadas, mesmo assassinadas, ganhou durante o inverno de 1966-67
as usines. “Rebeldes operários”, especialmente, em Xangai, atacaram
os sindicatos e os dirigentes, durante “a tempestade de janeiro de
1967”, (Macfarquahar 4., Perry). Esses conflitos sempre opuseram os
operários qualificados, que formavam a coluna vertebral dos
sindicatos e do partido comunista, à empresa, aos operários
temporários, simples mãos-de-obra vindos do campo e tratados como
imigrantes do interior, privados de todas as vantagens das quais
gozava “a aristocracia operária” (Perry). A APL recebera de Mao, no
dia 23 de janeiro de 1967, a ordem de portar seu apoio à “esquerda”
(Wengao). A ameaça do caos fizera reagir uma parte dos dirigentes
superiores da APL, em conseqüência daquilo que foi chamado a
“contra-corrente de fevereiro de 1967”: em vão. Durante o verão de
1967, afrontamentos armados sanguinolentos em Wuhan (Wang) entre
rebeldes, milícias sindicais, unidades territoriais do exército e
unidades de elite vindas das fronteiras, haviam amedrontado a
generalização de uma guerra civil (Wengao). A anarquia ganhou todos
os ministérios: no dia 23 de agosto de 1967, os locais da
representação diplomática da Grã-Bretanha à Pequim foram dominados
pelos guardas vermelhos que se apossaram, no dia 3 de agosto, do
ministério dos Serviços Estrangeiros. Isso se tornava perigoso para
a segurança do país. Grupos de rebeldes queriam incriminar Zhou
Enlai, o único capaz de evitar o caos geral e, ainda mais, tão
apreciado por Mao que ele adotara um comportamento servil para com
ele. No começo de setembro, Mao denunciou, então, uma misteriosa
“conspiração do dia 16 de maio de 1967”, dirigida por diversos
ideologistas radicais. Seguiu-se uma vaga de encarceramentos nos
meios esquerdistas entre outubro de 1967 e março de 1968, atingindo
três milhões de pessoas. Dezenas de milhares de suspeitos,
denunciados como contra-revolucionários, foram executados ou se
suicidaram. Mao convidou, em outubro de 1967 (Wengao), “todas as
organizações revolucionárias a formar grandes alianças”, criando
comitês revolucionários, e a preparar o 9° Congresso do Partido. A
imprensa denunciava a anarquia e o desenvolvimento das facções.
Visivelmente, não era mais tempo de Mao resumir o marxismo em uma
fórmula: “toda rebelião é justa”. Era urgente sair do impasse em que
o ativismo irresponsável dos guardas vermelhos conduzira a revolução
chinesa.
2°) O fim dos guardas vermelhos.
Durante este tempo, com efeito, nos campus, os
guardas vermelhos tinham-se divididos em grupos rivais, todos
reivindicavam Mao Zedong e seu pensamento. A maioria destas
organizações “rebeldes” encontrava-se sob a autoridade do Grupo
Central da Revolução Cultural (GCRC), que recebia o apoio direto de
Mao e onde de Jiang Qing, esposa do Presidente, os Xangaienses Zhang
Chunqiao e Yao Wenyuan, diversos rebeldes, como Wang Hongwen, o
chefe da polícia política Kang Sheng e alguns ideologistas como Chen
Boda, penavam para consolidar suas tomadas do poder da mídia,
diversos ministérios e varias grandes cidades, como Pequim, Xangai e
Tianjin. Com efeito, eles se opunham, freqüentemente, fisicamente a
outros grupos dos guardas vermelhos, às vezes, chamados “guardas
escarlates”, que eram qualificados por seus adversários de
“legalistas” ou de “conservadores”, mas eles próprios se
consideravam mais puros do que estes rebeldes devido às suas origens
de classe: de fato, as crianças dos altos dirigentes e das famílias
de mártires revolucionários, ali estavam, sempre, presentes. Eles
mantinham, naturalmente, relações com os responsáveis locais ou
centrais do partido. Eles representavam, mais ou menos, esta nova
nobreza formada pelo regime a partir das “categorias vermelhas”
(operários, camponeses pobres e de classe média baixa,
revolucionários históricos, mártires da revolução), enquanto que os
rebeldes mais radicais, freqüentemente, admitiram em seus rangues os
filhos e filhas saídos das “categorias negras” (proprietários
latifundiários, camponeses ricos, dirigentes do Guomindang,
capitalistas burocráticos e membros das sociedades secretas).
Também, durante as “tomadas de poder” nas capitais provinciais, um
dos objetivos dos rebeldes era pegar os dossiês pessoais que
excluíam alguns deles para destruí-los ou corrigi-los.
Cansado desses conflitos (Hinton) e inquieto pelo
risco da guerra civil (Wengao), Mao fez retomar, à força, no dia 27
de julho de 1968, o controle dos campus universitários de Pequim por
“equipes de propaganda do pensamento – maozedong”, formadas de
operários e apoiadas por soldados da unidade 8341 da APL que
dependia diretamente de sua autoridade. Ele convocou, no dia 28 de
julho, os “subs-generais” das guardas vermelhas, repreendeu-os de
seus conflitos repetidos e ordenou que se submetessem ao processo
“luta, crítica, dispersão”. A APL instalou patrulhas autorizadas a
fazer uso de suas armas nos campus, enquanto que os guardas
vermelhos foram enviados para os campos longínquos, a fim de serem
“reeducados pelos camponeses pobres e de classe média baixa”:
5.400.000 deles partiram, nos meses seguintes, ao encontro de outros
milhões de “jovens instruídos”, enviados ao campo após terminarem
seus estudos secundários, para, ali, reforçar os efetivos já
abundantes do grupo de camponeses. Esta “geração perdida” de jovens
urbanos reenviados em dez anos à Idade Média e condenados a perder
em seus exílios rurais, seus melhores anos em uma meia-ociosidade,
contou ao todo 17.000.000 indivíduos (Bonnin). Assim, a força mais
dinâmica da “revolução cultural”, desacreditada pelos seus excessos
e falta de maturidade política, deixara o camarim e o reservatório,
onde ela poderia ter se renovado antes de ser drenada.
3°) A violência e o caos nos campos chinesas.
Mas, contrariamente ao que pensara, há muito tempo,
os cientistas políticos, o desaparecimento dos guardas vermelhos,
não pôs fim ao caos. Sabemos agora que, ao contrário, foi durante o
verão de 1968, que a violência atingiu os cumes, com episódios
monstruosos (Walder, Song, Zheng, Escherick), logo, imediatamente
após a dispersão dos guardas vermelhos. Estes últimos, em
transferência para os campos, ou totalmente isolados dos camponeses,
uma vez instalados nos “pontos de juventude”, não representavam mais
nenhum papel nesta onda de desordens nos campos chineses.
Encontra-se na origem desta nova tragédia da
Revolução Chinesa, o papel central atribuído por Mao à luta de
classes no processo de edificação do socialismo. Isso se registrava
em sua concepção geral do mundo formado pela hibridação da dialética
hegeliana sobre o velho fundo taoísta do conflito entre o yin e o
yang (Schram 1965). Tudo, aqui, era contradição, um se dividindo em
dois, sem cessar. A revolução era, então, ininterrupta (buduan),
salvo se ela se burocratizasse como no modelo soviético e se
tornasse contra-revolução. Fases periódicas de revolução na
revolução eram necessárias para impedir esta degeneração. Com
efeito, a luta das classes subsistia no socialismo, contrariamente à
afirmação da vulgata staliniana. Este foi um dos pontos essenciais
das divergências que Mao discerniu após o XX° Congresso do Partido
comunista da União soviética (PCUS) entre seu modelo de socialismo e
o de Nikita Kruchev (Hu). Segundo Mao, esta luta das classes opunha
o proletariado e seus aliados, ou seja, a imensa maioria do povo,
aos vestígios, freqüentemente, perigosos das antigas classes
derrotadas pela Revolução. A restauração do capitalismo era possível
por causa dos “direitos burgueses” que subsistiam sob o socialismo:
certa propriedade privada, a hierarquia dos salários, a herança
cultural, a preeminência das atividades intelectuais sobre as
atividades manuais... A revolução devia, então, apoiar-se no
proletariado das “quatro categorias vermelhas” para enfrentar este
risco contra-revolucionário representado pelas “categorias negras”
em uma luta de massa exercida no quadro da ditadura do proletariado.
O aparecimento reiterado de um desvio de direita no campo
revolucionário dava origem a uma “quinta categoria negra”. Ela se
explicava pela má origem de classe de pessoas ligadas à revolução
pelo oportunismo ou por estratagema, mas sempre prontos a
reencontrar sua classe de origem. No contexto difícil, atravessado
pela revolução chinesa, era preciso sem cessar “purificar os rangues
de classe”, (qingli jieji duiwu) para extirpar os maus elementos
infiltrados. É a palavra de ordem lançada por Jiang Qing, no dia 21
de novembro de 1967, durante uma assembléia dos guardas vermelhos da
capital. Repercutida em Xangai, desembocou 169.000 pesquisas nesta
cidade que visaram 80 a 90% dos dirigentes e 5 a 10% dos operários e
empregados (Perry). Assim, todos os militantes operários
clandestinos do Partido desta metrópole (3.675) foram o objeto
destas pesquisas. 5.000 pessoas, assim, submetidas a esta prova
sofreram maus tratos ou se suicidaram. Em seguida, esta nova
tempestade, muito menos inferior em violência à de 1967,
apaziguou-se.
No campo, este movimento “para purificação dos
rangues de classe” foi o contrário da origem de um período de terror
que durou longos meses. Diversas pesquisas realizadas a partir dos
Anais dos 2.250 distritos (xianzhi) que a China, então, possuía,
algumas rápidas, contando 1.550 entre eles, as outras, mais
aprofundadas, que estudavam a “revolução cultural” nos 187 dos 235
destas circunscrições nas três províncias do Guangxi, do Guangdong e
do Hubei, permitem chegar à constatações sólidas. Entre o fim do ano
de 1967 e o começo de 1969, observam-se nas cidades os massacres de
massa, cujas famílias inteiras são eliminadas de modo,
freqüentemente, cruel, homens, mulheres, crianças e, até mesmo,
bebês confundidos. Essas chacinas coletivas são de três tipos: os
mais numerosos concernem às famílias das “quatro más categorias”
cuja lista fora estabelecida na ocasião da reforma agrária de
1950-51. Vêm, em seguida, verdadeiras caças às bruxas, onde foi
acrescentada aos excluídos iniciais a quinta má categoria, a dos
“destros”, cuja lista fora fixada em 1957, estendendo-se em seguida
a 1959. No mais, encheram-se os rangues dos supostos inimigos do
povo entre 1967 e 1969 por estes campos para “purificar os rangues
de classe”. A estas duas categorias cujos membros foram massacrados
em uma espécie de genocídio acompanhados, às vezes, de cenas de
canibalismo, como em Binyang, no Guangxi (Zheng), acrescentou-se uma
terceira, a dos prisioneiros, cativos nas batalhas entre rebeldes de
orientações diferentes ou entre os rebeldes e as forças armadas
regulares, como no decorrer dos combates de ruas de julho-agosto de
1968 à Nanning, Guiilin ou Liuzhou, em que o general Wei Guoqing fez
uso da artilharia. Neste último caso, não se tratava mais de
massacres de camponeses. Estas vítimas das lutas entre facções ou
com a APL, conhecidas dos historiadores, desde ha muito tempo,
foram, de fato, as menos numerosas deste sanguinolento ano de 1968.
Uma avaliação exata permanece difícil: concorda-se,
no geral, um total de um milhão de mortos (CHOC) durante a
“revolução cultural”, cuja metade, aproximadamente, perecera na
ocasião destes massacres de massa de 1968. Certos autores (Song,
Escherick) propõem um número, claramente, mais elevado de vítimas,
indo de 1.500.000 a 3 milhões de pessoas, ou seja 0,5% da população
total. Neste caso, entre 750.000 e 1.500.000 pessoas pereceram
durante estes homicídios de vilarejo. As províncias mais afetadas
foram aquelas de Canton, o Guangxi, a região autônoma da Mongólia
interior e o Yunnan, mas houve, também, casos dramáticos no Hubei e
no Hunan. Um vilarejo estava mais exposto ao risco de sofrer um
massacre de massa, devido ao seu isolamento e pobreza.
4°) O estabelecimento dos comitês revolucionários.
O que mais toca nestes estudos é a concomitância
entre o estabelecimento dos comitês revolucionários, que se
propuseram restabelecer o quadro administrativo e político
desarticulados por dois anos de uma guerra civil em ascensão e as
flamas de violência de julho-agosto de 1968 (Escherick, gráfico da
página 105). Após a fase de destruição, Mao desejara, desde o outono
de 1966, uma fase de reconstrução no quadro de uma tripla aliança
entre os rebeldes, os antigos dirigentes reeducados e as autoridades
militares locais. Assim que foi fundado o primeiro comitê
revolucionário, em 31 de janeiro de 1967, em Heilongjiang:
encontrava-se, ali, em primeiro lugar o antigo secretário provincial
do Partido. Em Xangai os diferentes grupos rebeldes queriam
substituir a “grande democracia”, da qual eles reivindicavam em
princípio, com, evidentemente, o direito de greve e a liberdade de
expressão e de reunião, à “pequena”, que funcionava desde a fundação
da República Popular da China (RPC), que de democracia, tinha
somente o nome, pois ela mascarava a realidade da ditadura de um
partido único.
Sem dúvida, esta fugitiva exigência democrática da
parte de grupos que, nos fatos, exerciam o terror com a ajuda da
guarnição, estava destinada a justificar a sua insurreição contra as
autoridades e superar a forte resistência em sua tomada do poder da
parte dos sindicatos e das engrenagens locais do partido. Em 5 de
fevereiro de 1967, as organizações “rebeldes” dirigidas por Zhang
Chunqiao, Yao Wenyuan e Wang Hongwen, proclamaram a “comunidade de
Xangai” no modelo, geralmente, evocado na imprensa dos anos 1960-66
da Comunidade de Paris (Perry, Bergère). Então, de fato, o efêmero
precedente parisiense repousava sobre um sistema de eleição direta
às mãos erguidas, por assembléias populares de delegados,
constantemente, revogáveis, o projeto dos “rebeldes” xangaienses
permanecia vago sobre estas “eleições gerais” que, ali, estavam
inscritas.
Se ele propunha destruir as estruturas existentes
para substituí-las por uma consulta de delegados das organizações
rebeldes, o número e a identidade destes variavam segundo o dia e o
tipo de problema evocado e seu mandato parecia muito impreciso.
Pode-se duvidar da ligação a uma democracia eletiva que supunha o
risco aceito da alternância de Zhang Chunqiao e dos outros teóricos
da perseguição da luta de classes sob o socialismo!
Mao afastou, imediatamente, este modelo que lhe
parecia inconsistente, até mesmo, manchado de liberalismo burguês:
em 24 de fevereiro, Xangai implantou um comitê revolucionário (CR)
que repousava, como em Heilongjiang, sobre o princípio da tripla
aliança e cujos dirigentes eram nomeados e não eleitos. Em 18 de
março, o CR do Shanxi foi fundado. Em 20 de abril, o de Pequim. Em
outubro de 1967, já existiam 7 CR, 18 em março de 1968, 29 em
setembro de 1968, sendo o último o de Xinjiang.
A maior parte dos massacres de massa no campo
aconteceu em julho-agosto de 1968, diz-se, na época, em que a
maioria dos CR tinha sido fundados ou se encontravam em andamento.
Mais, precisamente, estes genocídios aconteceram, sobretudo, nas
províncias, onde os CR, instalados na primavera de 1968, com a ajuda
das guarnições locais, encontravam uma forte resistência da parte
dos grupos rebeldes não integrados aí: a chama de violência
inscrevia-se, assim, na ação que estes CR tiveram que empenhar para
consolidar sua frágil autoridade. A justificativa dada pelas
autoridades, destes massacres injustificáveis, era fornecida pelo
movimento “para a purificação dos rangues de classe”. Sua prática
destacava os dirigentes rurais e a milícia que dependiam deles. Mas,
como a revolução cultural combatera ou enfraquecera a corrente do
mandamento que chegava aos vilarejos, estes subs-dirigentes locais
agiam sem controle. Seus dispositivos no local eram as “associações
de camponeses pobres e de classe média baixa”, instalados a pedido
de Mao, durante a “campanha de educação social”, entre 1962 e 1965.
A destruição do enquadramento tradicional na ocasião da reforma
agrária e a desmoralização geral consecutiva aos três anos de fome
do Grande Salto juntavam-se a esta falta de organização social. A
miséria completava o todo: para os camponeses ameaçados de fome
massacrar outros camponeses, seria eliminar os concorrentes na
partilha de uma colheita deficitária. De certa forma, a pressão
demográfica (Attané) teve, assim, seu papel nesse desencadeamento de
horrores. Pode-se pensar, também, que as rivalidades tradicionais
entre vilarejos, aglomerações, clãs, particularmente, no sul, faziam
desta violência uma nova forma de vingança, de xiedou (Bianco).
5°) O aparente renascimento do PCC.
É a APL que reestabeleceu, freqüentemente, com
brutalidade, um semblante de ordem no outono de 1968. O resultado
disso foi que todos os CR provinciais eram presididos por generais
ou por comissários políticos de alto rangue. Mao podia, então,
pensar em reestabelecer o Partido. Não teria, ele, precisado à Zhang
Chunqiao, quando recusou o projeto de Comuna de Xangai, que “era
preciso um partido, qualquer que fosse sua forma; era preciso um
núcleo duro, qualquer que fosse seu nome”? Mas era preciso
livrar-se, antes, dos “maus elementos”. Este foi o papel
representado, entre 13 e 31 de outubro de 1968, pela 12° sessão do
CC do PCC: não sobrava mais que 40 dos 87 titulares, por causa das
cortes sombrios operados pelos guardas vermelhos, pela doença e pela
velhice e foi preciso nomear 10 dos 74 suplentes para dar quorum.
Esta sessão foi a ocasião de uma deposição de acusação como “contra
o revolucionário, apostata e agente do Guo Min Dang” de Liu Shaoqi
que foi excluído do partido. Ele tinha tido a coragem, antes de cair
no marasmo, de denunciar Mao como um tirano e de refutar todas as
acusações depostas contra ele em uma carta de 11 de fevereiro de
1968. Maltratado, sofrendo de diabete e pneumonia, morreu na prisão
no anonimato em 12 de novembro de 1969.
O 9° Congresso do PCC aconteceu em Pequim de 1° a 24
de abril de 1969. A estranheza desse “Congresso de vencedores”
sublinha o insucesso da “revolução cultural” que supusera devolver
ao povo o poder que lhe tinha sido confiscado por “burocratas
revisionistas engajados no processo da restauração do capitalismo”.
O Congresso aconteceu em segredo e se desenrolou na ausência de todo
observador estranho. O relatório que Lin Biao leu, designado
oficialmente como sucessor de Mao Zedong, tinha sido escrito por Mao
depois que ele recusara uma primeira versão escrita por Chen Boda,
em seguida, sido corrigido, uma segunda versão, com a ajuda de Zhang
Chunquiao e de Yao Wenyuan. O texto falava de uma “vitória da grande
revolução cultural proletariana”, mas de uma vitoria que não podia
ser total, pois teria necessidade, no futuro, de outras revoluções
culturais. Da mesma forma: nada tinha sido dito sobre os verdadeiros
problemas do país. Uma inquietação difusa plainava, alias, no
Congresso: em 3 de março de 1969 uma emboscada mortífera aplicada
pelos guardas fronteiriços cineses aos seus homólogos soviéticos na
ilha contestada entre os dois países chamada Chen Bao por uns e
Damanski por outros, nas bordas do Oussouri, na Mandchourie,
provocara uma duríssima réplica soviética. Ora, desde a intervenção
das forças do pacto de Varsóvia e do Exército Vermelho em 20 de
outubro de 1968, em Praga, para por termo a uma tentativa de
democratização do regime pelos dirigentes comunistas tchecos e os
propósitos de Leonid Brejnev sobre a “soberania limitada” dos países
socialistas, sabendo-se que os soviéticos eram capazes de intervir
militarmente na China. Temia-se um ataque aéreo sobre Pequim ou a
destruição das instalações nucleares chinesa do lago Lob Nor. De
maneira significativa, os 2/3 dos 1512 delegados do 9° Congresso
tinham uniforme verde-oliva da APL, mesmo se, somente, 28% dentre
eles eram militares em exercício. 45% dos membros do CC eleito pelo
Congresso eram militares. Mesmo se Mao tivera que conservar nessa
instância 19% dos veteranos, dos quais uma boa parte sustentara a
contra-corrente de fevereiro, isso era, apenas, uma concessão
aparente. De fato, a realidade do poder se encontrava ente as mãos
do comitê permanente do Escritório Político formado por Mao, Lin
Biao, Zhou Enlai e Kang Sheng. O culto da personalidade de Mao
pertencia à sua plenitude. O relatório precisava que “o Centro é o
sol e, bem como os nove planetas, toda nossa atividade gira em torno
do sol. O Presidente Mao é o sol. O pensamento Mao é o sol”. Em
1964, ao receber o jornalista americano Edgar Snow, Mao não lhe
tinha explicado que ele próprio organizara metodicamente o culto de
sua própria personalidade? Desde a primavera de 1968, cultivara-se o
habito, nas empresas e no pátio dos grandes conjuntos residenciais,
de reunir as pessoas ao nascer do sol para que elas honrassem um
imenso retrato de Mao e se voltassem para ele para fazerem votos ou
confessassem os erros cometidos, salmodiando com versetes do Pequeno
Livro Vermelho. O APL abrira “escolas do 7 de maio” onde milhares de
homens de negócios faziam estágios ideológicos sob a direção de
instrutores militares entregando-se aos trabalhos nos campos que,
supostamente, permitiriam de se alimentar. Felizmente para eles,
continuavam a receber seus salários e compravam para os camponeses o
que eles não tinham produzidos! De fato, o Partido teria que se
reconstruir do cume para a base e seria preciso dispor de dirigentes
reeducados. Esperando isso, era a APL a única força organizada no
país e encarregada desta reconstrução. Em 1968, passara-se, em
alguns meses, do risco da anarquia ao de um bonapartismo vermelho.
Conclusão
Mao, confrontado, a partir de 1956, à crise evidente
do sistema socialista soviético, percebera com lucidez que o modelo
soviético de socialismo chegara a dar o poder não à classe operaria,
mas a maquina de um partido todo poderoso que exercia sua ditadura
sobre o povo em seu nome e cujos membros gozavam de privilégios
injustificáveis. Mas, ele havia acreditado, erradamente, em evitar a
burocratização e a esclerose do regime socialista chinês por uma
sobrepolitização e a mobilização permanente das forças
revolucionarias. Ele considerara os intelectuais como “uma categoria
que fede”, enquanto a China sofria cruelmente da falta de dirigentes
qualificados. Ele subestimara totalmente o papel das forças
produtivas. Pior, ele acreditara que a pobreza era um fator
favorável à revolução, à mobilização popular, sem ver que era
preciso certa abundância para dispor de meios de base de um
verdadeiro socialismo, o que bem haviam compreendido Liu Shaoqi,
Deng Xiaoping, Chen Yun e os responsáveis pela economia. Não teria,
ele, escrito desde abril de 1958 que “a China é pobre e branca: mas
sobre uma página branca, escrevem-se os mais belos poemas”? A
manipulação da luta de classes, da qual se tornara mestre, tinha um
papel decisivo nessa mobilização: viu-se o prêmio! De fato, Mao
conseguira, somente, acrescentar à confiscação do poder pela alta
burocracia comunista um terror desenfreado, mascarado por um culto
cada vez mais delirante, do qual ele era objeto consentente,
enquanto que a economia conhecia um crescimento negativo. Sua
vitória na ocasião do 9° Congresso era, apenas, uma vitória à
Pyrrhus. O ano de 1968 era, mesmo, o ano de todos os perigos.
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