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DANIEL AARÃO REIS
Doutor em História Social pela
Universidade de São Paulo. É professor titular de História
Contemporânea da Universidade Federal Fluminense
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Entre passado e futuro: os 40 anos de 1968
por
Daniel Aarão Reis
As comemorações dos quarenta anos de 1968, em termos
históricos, ainda se referem a acontecimentos e a processos
relativamente recentes. Para os que participaram de algum modo da
aventura de 1968, no entanto, já decorreu um tempo considerável. Em
qualquer caso, há uma certa distância, o que, em princípio, não
garante coisa alguma, salvo poder meditar e discutir sobre versões
diferenciadas e controversas que não deixaram de se acumular ao
longo das décadas.
De alguns anos para cá, menos ou mais, segundo as
sociedades, as datas redondas têm quase obrigado a um esforço de
reflexão sobre certos marcos, considerados importantes, ou
decisivos, na história. Alguns têm mesmo feito uma crítica
contundente à febre das comemorações. Elas estariam se
banalizando a tal ponto, e invadindo de tal forma os debates, que, a
continuar assim, as margens para novas ações e acontecimentos se
veriam reduzidas já que os atores sociais capazes de empreendê-las
estariam sempre ocupados em... comemorar alguma coisa já acontecida!
Entretanto, a opção de evitar, ou fugir dos debates
associados às comemorações pode não ser boa conselheira, eis que as
batalhas de memória, não raro, são tão, ou mais, importantes
que os objetos a que se referem, porque têm a capacidade de
reconstruí-los ou remodelá-los, confirmando-se o velho aforismo de
que a versão vale mais do que o fato, sobretudo quando
não se tem consenso sobre o fato/os fatos em questão. Alguns
inclusive pretendem, na vertigem dos relativismos cada vez mais
dominantes, que a versão é o próprio fato, na medida em que a
ele se sobrepõe, modificando os contornos e conferindo sentido às
ações empreendidas no passado. Segundo esta orientação, os fatos
dependeriam das versões e não travar os debates sobre elas seria
abandonar os fatos à própria sorte ou ao controle dos que imaginam
deles se apropriar como bem entendam.
Trata-se portanto de considerar e assumir os riscos
inerentes ao exercício das comemorações, sobretudo quando se tem em
vista a tendência a comemorar no sentido mais usual que,
infelizmente, é pior sentido da palavra, ou seja, no sentido de
celebrar acriticamente uma data, ou um processo, ou um conjunto
de acontecimentos. Nas celebrações, como se sabe, tendem a
desaparecer as contradições e as disputas, e a história é
recuperada, ou narrada, segundo as conveniências das circunstâncias,
e/ou dos celebrantes, ou dos valores dominantes, ou que passaram a
dominar. Pode acontecer com os chamados veteranos que, com o
passar do tempo, queiram ou não, vão se convertendo em
ex-combatentes, obrigados a conviver com os avatares inevitáveis
deste tipo de situação. Mas pode acontecer também, em chave
negativa, aos que desejam se livrar deles, ou dos acontecimentos a
eles associados. Estes dedicam-se a celebrar, exaltados, não a
vigência de algo, mas o seu desaparecimento ou enterro. E isto se
aplica a processos mais recentes ou mais remotos.
Sustento a possibilidade de comemorar (relembrar
juntos) sem celebrar, o que, de modo algum, significa, como se verá,
que pretenda entrar no debate sem premissas ou pontos de vista
determinados.
O que impressiona no ano de 1968, e muitos já o têm
sublinhado, é a disseminação, a amplitude e a intensidade dos
movimentos sociais e políticos. Um pouco por toda a parte, e com
diferentes motivações, houve embates e lutas sociais e políticas, de
diferentes naturezas. Por que tudo aquilo aconteceu naquele ano
preciso ainda permanece um tanto ou quanto obscuro. Para mim, no
entanto, embora interessante, esta não é uma questão tão relevante.
Mais importante é meditar sobre as correntes, as propostas e as
tradições políticas em disputa. Todas, sem dúvida, das mais
conservadoras às mais revolucionárias, apresentavam laços de
continuidade com o passado (a história não conhece marco zero), e
exprimiam fundamentos sociais e históricos determinados. Entretanto,
na conjuntura crítica do ano de 1968, algumas tenderam a ancorar-se
no passado, enquanto outras foram capazes de abrir horizontes e
perspectivas de futuro. A diferença demarcou campos, e sobre esta
diferença é que é preciso refletir.
Trata-se de uma questão chave, não trabalhada com o
devido aprofundamento ou qualificação. Os movimentos que se
desencadearam em 1968 foram extremamente diversos. Ocorridos ao
mesmo tempo, às vezes nos mesmos espaços, apresentaram distintas
propostas, feições e dinâmicas internas, distintos alcances.
Comecemos com uma proposta de força considerável, mas
quase sempre coadjuvante ao longo daquele ano terribilis: as
esquerdas tradicionais, ou seja, o movimento comunista
internacional, em suas diferentes tendências e, também em suas
diferentes tendências, a social-democracia internacional.
O termo tradicionais aqui não está empregado
com conotação negativa. Apenas refere o fato de que eram as
esquerdas de maior força e prestígio no cenário político. Tinham
mais tradição, e este fato parece indiscutível.
Imaginando-se direções/vanguardas políticas, foram
surpreendidas pela irrupção e pela dinâmica dos movimentos.
Catando cavaco, correram atrás, tentando segurar o ímpeto ou/e
canalizá-lo, ou/e controlá-lo. Segundo as circunstâncias, chegaram a
desempenhar algum papel, quase sempre moderador em relação às
propostas e às paixões, caracterizadas como esquerdistas, sectárias,
porra-loucas. Não sem razão (para elas), respiraram aliviadas
quando a ondas de choque tenderam a refluir.
Desde então, estas esquerdas gostam de apresentar os
movimentos de 1968 como uma febre inconseqüente, um
despautério, um acidente de percurso, algo a ser riscado do mapa e
do calendário.
Há uma segunda proposta, de força muito mais
considerável do que a das esquerdas tradicionais, em termos de seu
peso e desempenho históricos, mas com atitudes, em grande medida,
análogas. Quero me referir às direitas e considerar suas duas
grandes vertentes: as passadistas e as modernizantes.
As direitas passadistas são as reacionárias no
sentido próprio da palavra. Exasperaram-se frente aos movimentos de
1968, sobretudo em relação às propostas de revolução dos costumes.
Aquilo estava além da imaginação, não podia ser tolerado. Já as
direitas modernizantes eram mais flexíveis. No futuro, como se verá,
se mostrariam mais abertas a certas, e importantes, mudanças no
plano dos costumes e dos comportamentos. No entanto, contra as
turbulências imediatas, fizeram frente comum com as direitas
passadistas. Tratava-se de erguer um dique à maré montante dos
questionamentos à Ordem e vencer os perigos perigosos que se
acumulavam.
Pode-se dizer, sem querer formular amálgamas
injustificados, ao contrário, marcando as diferenças de motivações e
de propósitos, que as direitas (passadistas e modernizantes) e as
esquerdas tradicionais deram-se as mãos na contenção dos movimentos
de 1968.
Era um inimigo comum a ser derrotado. Depois que
fosse abatido, e o foi, retomariam seus lugares respectivos no jogo
político a que estavam acostumadas a jogar.
Daí porque estas forças detestam até hoje o ano de
1968. Nas comemorações do ano, estas gentes não comparecem, querem
mais é esquecer.
No entanto, provavelmente por terem sido forças
frias, no contexto de um ano quente, e vencedoras,
não atraindo a simpatia que os vencidos costumam suscitar,
sobretudo quando estão definitivamente vencidos, tais propostas não
têm sido estudadas com a importância merecida.
Enquanto os fundamentos sociais e históricos de suas
forças respectivas não forem suficientemente evidenciados, o ano
continuará relativamente incompreendido, porque foi de sua força que
derivaram as derrotas dos que pretendiam mudar o mundo.
Passemos agora à análise das propostas
revolucionárias de 1968.
Para qualquer observador, mesmo para o mais
desatento, seria impossível negar a centralidade às lutas
revolucionárias de libertação nacional, em primeiro e principal
lugar, a guerra do povo do Vietnã.
Estava em todos os noticiários e mídias, em todos os
cartazes, em cada uma e em todas as passeatas. A guerra entrava
literalmente no cotidiano de todos e de cada um. Assim, era muito
difícil se dizer indiferente. Ou se era favorável à intervenção
armada dos EUA, ou se era a favor da luta de libertação nacional dos
vietnamitas. Uma formidável polarização.
Nos EUA, em especial, a questão do Vietnã foi
decisiva na articulação e no desencadeamento dos movimentos sociais
contra a guerra. Jovens, e particularmente os jovens negros, porque
estavam tendo suas vidas ceifadas em grande número, começaram a
fazer valer suas vozes de protesto. Depois da ofensiva do Tet, em
janeiro/fevereiro de 1968, evidenciando a impossibilidade de uma
vitória militar estadunidense, as manifestações contra a guerra se
multiplicaram de modo avassalador. O então presidente dos EUA
(Lindon Johnson) foi então obrigado a desistir da reeleição,
abrindo-se quase imediatamente negociações de paz, em Paris (maio de
1968). Os revolucionários ainda não haviam ganho a guerra, o
que só aconteceria em 1975, mas os EUA já a haviam perdido.
A guerra do Vietnã não merece destaque apenas pelos
combates intensos que se travavam naquela região do mundo e pela
polarização que suscitava, ou pelos efeitos que produziu, sobretudo,
como já foi referido, nos EUA.
Ela era típica também do ponto de vista do conjunto
dos movimentos nacionalistas que se desdobravam no mundo desde o fim
da II Guerra Mundial. Na Ásia e na África, em particular, mas também
em terras de Nuestra América, múltiplos movimentos questionavam a
preponderância das potências européias e dos EUA que, em muitos
momentos e lugares, tentavam se substituir àquelas, embora
exercitando outras formas de dominação. Desmoronavam-se os velhos
impérios coloniais, considerados até muito recentemente como
inexpugnáveis. Desafiavam-se as políticas neo-coloniais e a
dependência em todas as suas formas.
Neste enfoque, a luta dos vietnamitas era também
emblemática, porque inserida na corrente nacionalista mais radical,
comprometida com a construção de projetos de modernidades
alternativas aos padrões das modernidades liberais. Não queriam
apenas a liberdade, queriam a libertação, ganhando
este último termo uma conotação revolucionária no sentido da
associação proposta entre independência nacional e construção do
socialismo.
O Vietnã na Ásia, Cuba nas Américas e a Argélia na
África. Três revoluções vitoriosas. Pequenos povos que haviam
lutado contras as grandes potências do mundo de então. E haviam
vencido. Não havia ali um caminho a indicar que valia a pena ser
ousado? Mesmo que já aparecessem as sombras de derrotas (o golpe que
derrubou Ben Bella, em 1965; a morte de Che Guevara, em 1967), nem
sempre, aliás, devidamente avaliadas?
Estas lutas pareciam então abrir amplos horizontes de
futuro. Mas não foi o caso. E a situação atual destas três
sociedades o evidencia. Muito se poderá dizer que o fato se deveu ao
isolamento em que ficaram, entravadas por circunstâncias hostis. Mas
será preciso também considerar as implicações dos processos de
guerra, de onde emergiram estas revoluções vitoriosas e a qualidade
de suas propostas. Sem falar das ditaduras revolucionárias, comuns
às três, com seus Estados hipertrofiados, partidos únicos,
predominância das lideranças militares, perseguição implacável a
todo tipo de oposição política. Os limites do artigo não me permitem
ir mais longe. Em larga medida, o inventário dos projetos
revolucionários de modernidades alternativas está ainda por ser
feito. Um desafio, sem dúvida, aos que não se curvam à hegemonia das
modernidades liberais.
Mas é inegável que o nacionalismo revolucionário dos
anos 60 e 70, que então parecia tão promissor, perdeu muito
rapidamente sua capacidade de sedução política e de mobilização
social. Parecendo na época inovador, tinha mais âncoras no passado
do que se poderia imaginar. E foi no passado que estas revoluções
de libertação nacional se aninharam, sem abrir perspectivas de
futuro.
Outras propostas revolucionárias, entretanto,
emergiram no ano quente de 1968.
Destacaram-se, em muitos momentos e lugares,
alternativas radicais de construção democrática.
Alternativas ao rame-rame tradicional do
liberalismo democrático, quase que exclusivamente centrado em
calendários e jogos político-institucionais onde acaba primando,
apesar das boas intenções, o cretinismo parlamentar. Arenas
fechadas, debates previsíveis, moderação extrema de propósitos,
sentido corporativista da mal chamada classe política,
distância insuperável entre representantes e representados,
distanciando-se os primeiros em relação aos segundos, os quais são
apenas consultados em momentos eleitorais.
Alternativas igualmente ao padrão do que viria a ser
chamado, anos mais tarde, de socialismo realmente existente.
Intitulados de ditaduras do proletariado, estes regimes,
embora revolucionários, de proletários não tinham nada. Eram, no
melhor dos casos, ditaduras do partido único, no pior, o que
desgraçadamente não era tão raro, ditaduras de líderes carismáticos
e suas nuvens de aderentes. Apoiados pelos povos em virtude das
reformas sociais e econômicas que haviam sido capazes de empreender,
modelavam instituições liberticidas, transformando oposicionistas em
dissidentes, para os quais eram reservadas as cadeias e os
asilos psiquiátricos.
Assim, as propostas democráticas radicais pretenderam
construir, simultaneamente, alternativas ao liberalismo democrático
e às ditaduras revolucionárias. Já vamos vendo porque, como se disse
acima, deram-se as mãos contra os movimentos de 1968, as
direitas reunidas e as esquerdas tradicionais. Sentiram-se, com
razão, ameaçadas. E reagiram conseqüentemente contra movimentos que
punham em questão suas bases de legitimação e suas perspectivas de
organizar as relações humanas.
Desafios históricos, difíceis, a exigir tempo de
maturação.
Na Tchecoslováquia, cuja primavera teve início
no frio mês de janeiro de 1968, o processo democratizante mal foi
desencadeado e já, em agosto, as tropas do pacto de Varsóvia,
lideradas pela União Soviética, invadiam o pequeno país e punham fim
a uma experiência que, apesar de começada pelo alto, estendia-se
pela sociedade, mobilizando as gentes, fazendo-as propor e construir
formas autônomas de organização política e social. Uma chance
histórica perdida, com profundas conseqüências a longo prazo.
Assinale-se que a invasão soviética mereceu elogios de Fidel Castro
e também o apoio, ou o silêncio omisso, dos demais Estados
socialistas. Apoio e omissão compartilhados pelos partidos
comunistas em todo o mundo, com a notável exceção do Partido
Comunista Italiano.
Social-democratas e liberal-democratas protestaram,
sem dúvida. Mais para constar do que para alterar os acontecimentos.
Afinal, no quadro da guerra fria, a Tchecoslováquia era considerada
área de influência da URSS. O que seria reafirmado pela infame
doutrina da soberania limitada atribuída à triste figura de
L. Brejnev, então secretário-geral do Partido Comunista da União
Soviética.
Na China, no âmbito da revolução cultural desfechada
desde 1965, também pelo alto, movimentos sociais haviam fugido do
controle do Partido Comunista e construído, sobretudo em Xangai, em
fins de 1966 e inícios de 1967, formas de organização extremamente
inovadoras, fundamentadas em princípios de democracia
participativa e que recuperaram, em distintos momentos,
referências avançadas por pensadores e movimentos anarquistas. Sem
falar na crítica contundente às tradições de mando vertical e
descontrolado, presentes na China antiga e mantidas pelo Partido
Comunista, com outras feições, mas características semelhantes,
depois do triunfo da revolução de 1949.
Ainda não suficientemente estudados, estes
movimentos, depois de anular em muitas cidades a preponderância do
Partido Comunista, não foram, porém, capazes de construir sólidas
alternativas. Ao contrário, perderam-se em processos
(auto)destruidores que acabaram proporcionando condições à
restauração da Ordem revolucionária ditatorial.
Propostas democráticas radicais apareceriam também na
Europa, nos EUA, e mesmo aqui no Brasil, sobretudo nos meios
estudantis, mas também, dependendo das circunstâncias, formuladas
por operários em luta, como ocorreu, às vezes, na França e na
Itália. O que aproximava estes experimentos democráticos realizados
em latitudes tão distintas?
A formosa idéia da autonomia dos movimentos
sociais em relação ao Estado e aos partidos. Críticas radicais às
distâncias que se cavavam, mesmo no interior dos movimentos
revolucionários, entre dirigentes e dirigidos, entre representantes
e representados. Formas participativas de democracia.
Instituições de controle sobre os representantes e sobre as elites
dirigentes. Uma profunda desconfiança quanto à delegação de poderes.
A vontade, que parecia imensa, em tomar os freios dos próprios
destinos nas mãos. Diretamente. Sem intermediários.
Ensaios, não mais do que ensaios, carecendo ainda de
inventários rigorosos. Experiências derrotadas, mas não vencidas. Se
também elas tinham referências no passado, o que as distingue são as
promessas de futuro, e por isso têm (re)despontado sempre que se
acirram as contradições sociais e as gentes voltam a se interessar
pela Res Pública e pelo destino da Cidade.
Outro processo que tomou corpo em 1968 foram os
chamados novos movimentos sociais. Como tudo o que surge na
História, tinham raízes também no passado, mas se apresentaram com
força inusitada e não mais sairiam de cena nas décadas seguintes.
Nos EUA principalmente, mas também na Europa Ocidental, e um pouco
por toda a parte, tais movimentos articulavam-se em torno de
programas específicos, referidos a suas inserções particulares na
sociedade, devidas a aspectos próprios, que os diferenciavam de
conjuntos maiores.
Assim, entre outros, as mulheres e os movimentos
feministas. Os negros e os povos originários nos EUA. Os
homossexuais e o chamado movimento gay. De início chamados de
“minorias”, uma incongruência logo superada, questionavam antigos
programas e formas de fazer política e permaneceram algum tempo (ou
muito tempo, segundo as condições de tempo e lugar) incompreendidos
ou/e hostilizados por organizações políticas de direita e de
esquerda.
As direitas passadistas os detestavam pelo caráter
ousado de suas reivindicações. Simplesmente não admitiam
considerá-las. Entretanto, as direitas modernizantes dispuseram-se,
em não pequena medida, a incorporar aspectos importantes dos
programas avançados por mulheres, negros e gays, entre outros. O
fenômeno só acirrou as prevenções e resistências das esquerdas
tradicionais que os acusavam de divisionistas, eis que tais
movimentos privilegiavam programas que lhes pareciam demasiadamente
particularistas.
Apesar das contradições, os novos movimentos
firmaram-se como perspectivas de futuro. Extraíam sua força de
reivindicações muito concretas, que diziam respeito ao cotidiano das
pessoas. Por isso se disseminaram pelo mundo, conquistando força e
amplitude, realizando parte considerável de seus programas e
remodelando substancialmente a sociedade contemporânea. Ganharam um
lugar ao sol e não mais o perderiam, arrastando a reboque direitas e
esquerdas e se tornando atores de primeira grandeza do jogo político
atual.
Finalmente, mas não menos importante, seria preciso
também mencionar as propostas de revoluções dos costumes e dos
comportamentos cotidianos. Intimamente associadas aos novos
movimentos sociais, mas com autonomia própria, tais referências
também contribuíram bastante para modificar tendências e
características das sociedades contemporâneas.
O questionamento das rígidas hierarquias que marcavam
as relações sociais em todos os níveis; a ambição de conferir um
mínimo de coerência na relação entre o público e o privado; entre a
teoria e a prática; entre o discurso e a ação. A crítica às noções
consagradas de representação. O questionamento da importância
decisiva do poder político central em proveito de novas ênfases em
mudanças aparentemente pequenas, moleculares, mas sem as quais, como
se constatava na análise do socialismo realmente existente,
de nada valiam as utopias grandiloquentes, eis que perdiam
substância na medida mesma em que eram incapazes de transformar a
vida imediata das pessoas. Como se o aqui e o agora
merecessem prevalecer em relação a um futuro anunciado como
glorioso, mas tão distante, que se tornava intocável pelas pessoas
comuns em suas vidas correntes.
As propostas revolucionárias de mudança dos costumes
não se realizaram plenamente. Longe disso. Mas registraram avanços
bastante consideráveis. E mais importante: a força bruta da reação
(de direita e de esquerda) não conseguiu eliminá-las da cena
política. Com efeito, é perceptível como se instalaram na agenda dos
debates políticos das sociedades contemporâneas.
Considerado nestas múltiplas dimensões e propostas,
percebe-se que o ano de 1968, apesar dos 40 anos dele decorridos,
ainda interpela os contemporâneos, demandando inventários críticos,
suscitando questões.
É necessário estudar a força dos que venceram.
As direitas passadistas, reacionárias no sentido
literal do termo, recusam-se a passar e ainda aparecem no cenário
político com seus ressentimentos atávicos, tentando segurar e
impedir o que muda, o que renova. Basta ver o governo Bush e seus
inimigos íntimos do Al-Qaeda para constatar a força dos que ainda só
sentem náuseas em relação aos fenômenos próprios da modernidade.
Infelizmente atraem pouco a pesquisa acadêmica, o que é lamentável,
porque são forças ainda presentes e extremamente perigosas.
As direitas modernas também mereceriam maior atenção.
Ganharam a parada em 1968 e evidenciaram uma notável capacidade de
adaptação, inclusive do ponto de vista da incorporação de aspectos
importantes das propostas dos novos movimentos sociais e daquelas
comprometidas com a revolução dos costumes e dos comportamentos.
Aglutinadas em torno de programas neo-liberais, partidárias da
globalização à outrance, desprezando os valores da igualdade
e da solidariedade, sua hegemonia e domínio constituem, sem dúvida,
a principal barreira oposta às eventuais propostas comprometidas com
a renovação do socialismo.
As esquerdas tradicionais também ainda marcam
presença no cenário internacional, particularmente através da
social-democracia na Europa Ocidental e Central, onde mais se
consolidaram ao longo do século XX. Mas não fazem mais do que
resistir, o que não é pouco na conjuntura atual, embora sendo
incapazes de apresentar alternativas futuras. O mesmo se pode dizer
dos remanescentes dos movimentos comunistas do século XX. Ainda
governam pequenos Estados e organizam partidos relativamente fortes
em alguns lugares, mas se alimentam mais das glórias do passado do
que da capacidade de formular propostas sedutoras para o futuro.
Restam as demais propostas revolucionárias que
adquiriram vigência em 1968. Em termos globais foram derrotadas, sem
dúvida, mas não eliminadas, ao contrário, permaneceram vivas,
ressurgindo, como a velha Toupeira de que falava Marx, sempre que se
reconstituem processos de questionamento da Ordem.
Basta conferir os avanços efetivos da revolução
molecular das mulheres, a (re) valorização e as conquistas inegáveis
dos movimentos étnicos-nacionais, a disseminação progressiva do
programa favorável às liberdades no plano comportamental, como, por
exemplo, a liberdade de opção sexual, já consagrada e protegida
juridicamente em certos Estados. Também é possível estabelecer laços
de continuidade entre os movimentos de 1968 e os que levaram à
desagregação da União Soviética, sem falar das manifestações na
Praça da Paz Celestial em Pequim, em 1989, as passeatas
anti-globalização iniciadas em 1999, os movimentos autônomos dos
povos originários da América andina, a guerrilha inovadora de
Chiapas, os enfrentamentos de Oaxaca, as propostas de certos
segmentos no interior da onda nacionalista revolucionária na América
andina.
Trata-se de considerar estas propostas. O que
propuseram e têm proposto. O que fizeram e têm feito. O que se
perdeu, o que se ganhou. O que ficou para trás, o que permanece. Até
que ponto foram recuperadas pelas tendências conservadoras. A que
ponto foram capazes de mudar as sociedades. A que sínteses é preciso
ainda chegar para resgatar, superando, experiências que tiveram sua
importância, mas que precisam ser reelaboradas para continuarem
abrindo perspectivas de futuro.
Assim, as comemorações de 1968, no sentido próprio do
termo – recordar juntos – não carecem de celebrações, mas de
debates, avaliações e inventários sobre estas questões, e que de
preferência sejam controvertidos. Se servirem para isto, terão
impedido, como querem alguns afoitos, o apagamento da memória. E
terão oferecido, em honra às lutas travadas há quarenta anos, uma
contribuição válida, à altura do que merecem.
Doutor em História Social pela
Universidade de São Paulo. É professor titular de História
Contemporânea da Universidade Federal Fluminense.
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