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MICHAEL LÖWY
Sociologue, CNRS
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O
romantismo revolucionário de Maio 68
por
Michael Löwy
[Tradução: Celuy Roberta Hundzinski]
O
espírito de 68 é uma bebida potente, uma mistura apimentada e
desejável, um coquetel explosivo composto por diversos ingredientes.
Um de seus componentes – e não o menor – é o romantismo
revolucionário, ou seja, um protesto cultural contra os
fundamentos da civilização industrial/capitalista moderna, seu
produtivismo e seu consumismo, e uma associação singular única e
sem gênero, entre subjetividade, desejo e utopia – o “triângulo
conceitual” que define, segundo Luisa Passerine, 1968.
O romantismo não é, somente, uma escola literária do
início do século XIX – como se pode, ainda, ler em vários manuais –
mas uma das principais formas da cultura moderna. Enquanto estrutura
sensível e visão de mundo, ele se manifesta em todas as esferas da
vida cultural – literatura, poesia, arte, música, religião,
filosofia, idéias políticas, antropologia, historiografia e as
outras ciências sociais. Seguiu na metade do século XVIII – pode-se
considerar Jean-Jacques Rousseau como “o primeiro dos românticos” -,
corre através da Frühromantik alemã, Hölderlin,
Chateaubriand, Hugo, os pré-rafaelistas ingleses, William Morris, o
simbolismo, o surrealismo e o situacionismo, e está, ainda, conosco,
no início do século XXI. Pode ser definido como uma revolta contra a
sociedade capitalista moderna, em nome de valores sociais e
culturais do passado, pré-modernos, e um protesto contra o
desencantamento moderno do mundo, a dissolução
individualista/competitiva das comunidades humanas, e o triunfo da
mecanização, mercantilização, reificação e quantificação. Rasgado
entre sua nostalgia do passado e seus sonhos de futuro, pode tomar
formas regressivas e reacionárias, propondo um retorno às formas de
vida pré-capitalistas, ou uma forma revolucionária/utópica, que não
preconiza uma volta, mas um desvio pelo passado em direção ao
futuro; neste caso, a nostalgia do paraíso perdido é investida na
esperança de uma nova sociedade.
Entre os autores mais admirados da geração rebelde
dos anos 60, podem-se encontrar quatro pensadores que pertencem, sem
dúvida alguma, à tradição romântica revolucionária e que tentaram,
como os surrealistas uma geração anterior, combinar – cada um à sua
maneira, individual e singular – a crítica marxista e a crítica
romântica da civilização: Henri Lefebvre, Guy Debord, Herbert
Marcuse e Ernst Bloch. Enquanto os dois primeiros tinham a simpatia
dos rebeldes franceses, o terceiro era mais conhecido nos EUA, e o
último, sobretudo, na Alemanha. Sabendo-se que, a maior parte dos
jovens que saíram às ruas de Berkeley, Berlim, Milão, Paris ou
México, nunca leu esses filósofos, mas suas idéias eram difundidas,
de mil e uma maneiras, nos panfletos e nas palavras de ordem do
movimento. Isso vale, destacadamente, na França, para Debord e seus
amigos situacionistas, aos quais o imaginário de maio de 68 deve
alguns de seus sonhos mais audaciosos, e algumas de suas fórmulas
mais tocantes (“Imaginação ao poder”). Entretanto, não é a
“influência” desses pensadores que explica o espírito de 68, mas,
preferencialmente, o contrário: a juventude rebelde procurava
autores que poderiam fornecer idéias e argumentos para seus
protestos e desejos. Entre eles e o movimento aconteceu, no decorrer
dos anos 60 e 70, uma espécie de “afinidade eletiva” cultural: eles
se descobriram e se influenciaram mutuamente, num processo de
reconhecimento recíproco.
Em seu memorável livro sobre Maio de 68, Daniel
Singer capturou perfeitamente o significado de “acontecimentos”:
“Foi uma rebelião total, colocando em questão, não tal ou tal
aspecto da sociedade existente, mas seus objetivos e meios.
Tratava-se de uma revolta mental contra o estado industrial
existente, tanto contra a estrutura capitalista como contra o tipo
de sociedade de consumo que ele criou. Isso se emparelhava com uma
repugnância tocante a tudo o que vinha do alto, contra o
centralismo, a autoridade, a ordem hierárquica”.
A Grande Recusa – expressão que Marcuse emprestou a Maurice
Blanchot – da modernização capitalista e do autoritarismo – define
bem o ethos político e cultural de maio de 68 bem como,
provavelmente, de seus equivalentes nos EUA, México, Itália,
Alemanha, Brasil, e outros.
É preciso assinalar que esses movimentos não
foram motivados por uma crise qualquer da economia capitalista: ao
contrário, era a época dita das “trinta gloriosas” (1945-75), dos
anos de crescimento e prosperidade capitalista. Isso é importante
para evitar uma armadilha de se esperar revoltas anti-capitalistas,
somente – ou, sobretudo – como resultado de uma recessão ou de uma
crise mais ou menos catastrófica da economia: não há correlação
direta entre os altos e baixos da Bolsa e a ascensão ou declínio das
lutas – ou das revoluções – anti-capitalistas! Acreditar no
contrário seria um regresso em direção ao tipo de “marxismo”
economicista que predominava nas Segunda e Terceira Internacionais.
Limitarei meus comentários ao caso francês, que
conheço melhor. Se pegarem, por exemplo, o célebre panfleto
distribuído, em Março de 68, por Daniel Cohn-Bendit e seus amigos,
“Por que sociólogos?”, encontra-se a rejeição mais explícita de tudo
o que se apresenta sob o signo de “modernização”; esta é
identificada como não sendo outra coisa além da planificação,
racionalização e produção de bens de consumo segundo as necessidades
do capitalismo organizado. Diatribes análogas contra a
tecnoburocracia industrial, a ideologia do progresso e a
rentabilidade, os imperativos econômicos e as “leis da ciência”
estão presentes em muitos documentos da época. O sociólogo Alain
Touraine, um observador distanciado do movimento, justifica este
aspecto de Maio de 68, utilizando conceitos de Marcuse: “A revolta
contra a ‘unidimensionalidade’ da sociedade industrial gerada pelos
aparelhos econômicos e políticos não pode explodir sem comportar
aspectos ‘negativos’, ou seja, sem opor a expressão imediata de
desejos às coerções, que se davam por naturais, do crescimento, da
modernização”.
A isso se deve acrescentar o protesto contra as guerras
imperialistas e/ou coloniais, e uma poderosa onda de simpatia – não
sem ilusões “românticas” – em direção aos movimentos de libertação
dos países oprimidos do Terceiro Mundo. Enfim, last but not least,
em muitos desses jovens militantes, uma profunda desconfiança para
com o modelo soviético, considerado como um sistema
autoritário/burocrático, e, para alguns, como uma variante do mesmo
paradigma de produção e consumo do Ocidente capitalista.
O espírito romântico de Maio de 68 não é composto,
somente, de “negatividade”, de revolta contra um sistema econômico,
social e político, considerado como desumano, intolerável, opressor
e filistino, ou atos de protesto tais como o incêndio dos carros,
esses símbolos desprezados da mercantilização capitalista e do
individualismo possessivo.
Ele está, também, carregado de esperanças utópicas, sonhos
libertários e surrealistas, “explosões de subjetividade” (Luisa
Passerini), em resumo, do que Ernst Bloch chamava Wunschbilder,
“imagens-de-desejo”, que são não somente projetadas num futuro
possível, uma sociedade emancipada, sem alienação, reificação ou
opressão (social ou do gênero), mas também, imediatamente,
experimentadas em diferentes formas de prática social: o movimento
revolucionário como festa coletiva e como comunidades humanas livres
e igualitárias, a afirmação partilhada da sua subjetividade
(sobretudo entres os feministas); a descoberta de novos métodos de
criação artística, desde os pôsteres subversivos e irreverentes, até
as inscrições poéticas e irônicas nos muros.
A reivindicação do direito à subjetividade estava,
inseparavelmente, ligada ao impulso anti-capitalista radical que
atravessava, de um lado ao outro, o espírito de Maio de 68. Esta
dimensão não deve ser subestimada: ela permitiu – a frágil aliança
entre os estudantes, os diversos grupúsculos marxistas ou
libertários e os sindicalistas que organizaram, apesar de suas
direções burocráticas, – a maior greve geral da história da França.
Em sua importante obra sobre “o novo espírito do
capitalismo”, Luc Boltanski e Eve Chiapello distinguem dois tipos –
no sentido weberiano do termo – de crítica anti-capitalista – cada
uma com sua combinatória complexa de emoções, de sentimentos
subjetivos, de indignações e de análises teóricas – que, de uma
maneira ou de outra, convergiram em Maio de 68: I) a crítica
social, desenvolvida pelo movimento operário tradicional, que
denuncia a exploração dos trabalhadores, a miséria das classes
dominadas, e o egoísmo da oligarquia burguesa que confisca os frutos
do progresso; II) a crítica artista, apoiada em valores e
opções de base do capitalismo, e que denuncia, em nome da liberdade,
um sistema que produz alienação e opressão.
Examinemos de mais perto o que Boltanski e Chiapello
compreendem sobre o conceito de crítica artista do
capitalismo: uma crítica do desencantamento, da inautenticidade e da
miséria da vida cotidiana, da desumanização do mundo pela
tecnocracia, da perda de autonomia, enfim, do autoritarismo opressor
dos poderes hierárquicos. Mais do que liberar as potencialidades
humanas para a autonomia, a auto-organização e a criatividade, o
capitalismo submete os indivíduos à “gaiola de aço” da racionalidade
instrumental, e da mercantilização do mundo. As formas de expressão
desta crítica são emprestadas ao repertório da festa, do jogo, da
poesia, da libertação da palavra, enquanto que sua linguagem é
inspirada por Marx, Freud, Nietzsche e o surrealismo. Ela é
anti-moderna em sua medida onde insiste no desencantamento, e
modernista quando dá ênfase à libertação. Podem-se encontrar suas
idéias já nos anos 1950 em pequenos “grupos de vanguarda” artística
e política – como “Socialismo ou Barbárie” (Cornélius Castoriadis,
Claude Lefort) ou o situacionismo (Guy Debord, Raoul Vaneigem) –
antes que elas explodissem no grande dia na revolta estudantil em
68.
De fato, o que Boltanski e Chiapello chamam “crítica
artista” é fundamentalmente o mesmo fenômeno que eu designo como
crítica romântica do capitalismo. A principal diferença é que
dois sociólogos tentam explicar por “um modo de vida boêmia”, pelos
sentimentos de artistas e de dândis, formuladas de maneira exemplar
nos escritos de Baudelaire.
Isso me parece uma ponderação muitíssimo estreita: o que eu chamo de
romantismo anti-capitalista não é, somente, mais antigo, mas tem uma
base social muito mais ampla. Ele é implantado não somente entre
artistas, mas intelectuais, estudantes, mulheres, e todos os tipos
de grupos sociais cujo estilo de vida e a cultura são,
negativamente, afetados pelo processo destrutor da modernização
capitalista.
Outro aspecto problemático da experimentação, aliás,
destacável pela riqueza de suas propostas, de Boltanski e Chiapello,
é sua tentativa de demonstrar que, no decorrer dos últimos decênios,
a crítica artista, separando-se da crítica social, integrou e
recuperou pelo novo espírito do capitalismo, pelo seu novo estilo de
direção, fundado sobre os princípios de flexibilidade e liberdade,
que propõe uma maior autonomia no trabalho, mais criatividade, menos
disciplina, e menos autoritarismo. Uma nova elite social,
freqüentemente ativa no decorrer dos anos 60 e atraída pela
crítica artista, rompeu com a crítica social do capitalismo –
considerada como “arcaica” e associada à velha esquerda comunista –
e aderiu ao sistema, ocupando lugares dirigentes.
Evidentemente, há muita verdade nesse quadro, porém,
mais que uma continuidade unida e sem choques entre os rebeldes de
68 e os novos dirigentes, ou entre os desejos e as utopias de Maio e
a última ideologia capitalista, vejo uma profunda ruptura ética e
política – às vezes na vida do mesmo indivíduo. O que foi perdido
nesse processo, nessa metamorfose, não é um detalhe, mas o
essencial: o anti-capitalismo... Uma vez despojada de seu
próprio conteúdo anti-capitalista – diferente do da crítica social
–, a crítica artista ou romântica deixa de existir enquanto
tal, perde toda significação e torna-se um simples ornamento.
Sabendo-se que, a ideologia capitalista pode integrar elementos
“artistas” ou “românticos” em seu discurso, mas foram previamente
esvaziados de todo conteúdo social significativo para tornarem-se
uma forma de publicidade. Há pouco em comum entre a nova
“flexibilidade” industrial e os sonhos utópicos libertários de 68.
Falar, como o fazem Boltanski e Chiapello, de um “capitalismo
esquerdista”,
parece-me um puro contra-senso, uma
contradictio in adject.
Qual é, então, a herança de 68 hoje? Pode-se
concordar com Perry Anderson que o movimento foi duravelmente
vencido, que vários de seus participantes e dirigentes tornaram-se
conformistas, e que o capitalismo – em sua forma neoliberal –
tornou-se, no decorrer dos anos 1980 e 1990, não somente triunfante,
mas como o único horizonte possível.
Mas, parece-me que assistimos, no transcorrer dos últimos anos, à
ascensão, à escala planetária, de um novo e vasto movimento social,
com um forte componente anti-capitalista. Evidentemente, a história
nunca se repete, e seria, também, em vão o absurdo de atingir um
“novo Maio de 68” em Paris ou em outro lugar: cada nova geração
rebelde inventa sua própria e singular combinatória de desejos,
utopias e subjetividades.
A mobilização internacional contra a globalização
neoliberal, inspirada pelo princípio que “o mundo não é uma
mercadoria”, que tomou as ruas de Seattle, Praga, Porto Alegre,
Genes é – inevitavelmente – muito diferente dos movimentos dos anos
60. Ela está longe de ser homogênea: enquanto que os participantes
mais moderados ou pragmáticos acreditam, ainda, na possibilidade de
regular o sistema, uma larga secção do “movimento dos movimentos” é,
abertamente, anti-capitalista, e em seus protestos pode-se
encontrar, como em 68, uma fusão única entre as críticas romântica e
marxista de ordem capitalista, de suas injustiças sociais e de sua
avidez mercantil. Pode-se, indiscutivelmente, perceber certas
analogias com os anos 60 – a poderosa tendência anti-autoritária, ou
libertária – mas, também, diferenças importantes: a ecologia e o
feminismo, que estavam, ainda, nascendo em Maio de 68, são, agora,
componentes centrais da nova cultura radical, enquanto que as
ilusões sobre o “socialismo realmente existente” – quer seja
Soviético ou Chinês – praticamente desapareceram.
Este movimento está, somente, começando, e é
impossível prever como se desenvolverá, mas já mudou o clima
intelectual e político em certos países. Ele é realista, o que quer
dizer que ele pede o impossível...
(Artigo anteriormente editado em inglês no Thesis
Eleven, n° sobre 68, fevereiro de 2002)
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