MAX ELBAUM

Autor de Revolution in the Air: Sixties Radicals Turn to Lenin, Mao and Che (Verso, 2002).

 

 

1968: explosão e transformação da corrente radical nos Estados Unidos

Max Elbaum*

[Tradução: Joana El-Jaick Andrade]

 

O ano de 1968 conheceu uma explosão de protestos e de radicalização nos Estados Unidos, como em muitos outros países ao redor do mundo. Duas questões centrais – o racismo e a guerra do Vietnã – são o âmago deste ano de mobilização popular. Os eventos de 1968 expandiram os movimentos sociais radicais e mudaram o modelo ideológico da esquerda norte-americana. O assassinato de Martin Luther King e a nomeação de dois candidatos pró-guerra pelos dois grandes partidos convenceram milhões de pessoas de que o sistema não poderia ser reformado. No seio das fileiras radicais houve uma reviravolta: passara-se de uma « Nova esquerda », radicalmente anti-ideológica, ao marxismo, em particular a variedades antiimperialistas e anti-racistas do marxismo que procuravam uma fonte de inspiração nos partidos comunistas do Terceiro Mundo.

 

Prejudicado pela ofensiva do Têt no Vietnã, perseguido pelos manifestantes anti-guerra e confrontado por uma rebelião no seio de seu próprio partido, foi um acuado Presidente Lyndon Johnson que se endereçou ao país em 31 de março de 1968. Ele causou um choque ao anunciar que, por um lado renunciara à campanha para sua reeleição e, por outro, que as conversações de paz com as forças de liberação vietnamitas estavam a ponto de serem abertas. Em alguns minutos, disseminou-se um clima de festa em todos os campi do país. Para milhares de pessoas, foi com real entusiasmo que se poderia dizer que um Presidente dos Estados Unidos foi desestabilizado sob o coro de “Hey, Hey, LBJ, quantas crianças você matou hoje?”.

Quatro dias mais tarde, Martin Luther King, Jr., principal representante do movimento de libertação afro-americana, foi assassinado. King foi abatido em Memphis, no Tennesse, onde havia levado seu apoio aos empregados negros dos serviços de sanitários em greve. Nos dias que se seguiram, as rebeliões negras eclodiram em mais de uma centena de cidades. As chamas não estavam a mais de seis quarteirões da Casa Branca. Foram necessários 70 000 homens fardados das tropas federais para restabelecerem a ordem pública.

Os levantes negros de abril de 1968 representaram apenas um terço das 300 rebeliões urbanas que aconteceram desde o verão de 1964. De acordo com a própria Comissão do Conselho Nacional sobre as Desordens Civis, cerca de um em cada cinco residentes nas regiões afetadas (mais de um milhão de pessoas) tomaram parte. Para uma maioria de afro-americanos, estas rebeliões deveriam ter um efeito positivo sobre a situação econômica e social da população negra.

Estes dois choques políticos (a despeito do caráter singular de suas características e de seu impacto) foram bem mais do que simples acontecimentos isolados, a partir do momento em que refletiram amplas forças sociais cuja conflitualidade alcançou um patamar crítico em 1968. Eles representavam a emergência de uma dupla polarização – sobre as questões do racismo e do Vietnã – que abalara profundamente a sociedade estadunidense nos fins dos anos sessenta.

A luta social em – e em torno de – 68 atravessou e transformou todas as instituições e as organizações populares estadunidenses. As batalhas pela igualdade dos negros e contra a guerra do Vietnã reavivaram as lutas de emancipação em todas as minorias de cor estadunidenses e impuseram uma nova dinâmica ao movimento pela liberação das mulheres. Em sua ligação com este ano de insurgência global, estas batalhas foram a caldeira de todo um novo espírito e de uma nova prática de internacionalismo.

Dos levantes de 68 surgiu uma nova configuração da esquerda estadunidense. A guinada mais marcante resultou do espetacular aumento de seus efetivos. Dezenas de milhares de jovens foram atraídos para as idéias radicais. Os Estudantes para uma Sociedade Democrática (Students for a Democratic Society, SDS), por exemplo, ao fim do ano, haviam triplicado seus efetivos chegando a 100 000 membros.

Ainda mais significativas foram as mudanças nas orientações e na estratégia da esquerda. Os acontecimentos de 1968 impeliram ainda mais os militantes, de uma iniciativa oriunda da nova esquerda (New Left) dos anos 60s, dinâmica mas anti-ideológica, à consideração de perspectivas mais sistêmicas, tendo o marxismo ocupado um lugar central deste ponto de vista. Particularmente, as variantes do marxismo que privilegiavam o anti-imperialismo e o anti-racismo e que se voltaram à experiência dos partidos comunistas do Terceiro Mundo ganharam sensivelmente em adeptos. Os partidários destas perspectivas começaram a formar as novas organizações marxistas-leninistas ou a unir-se aos grupos socialistas existentes ainda herdeiros da “velha esquerda”. E durante alguns anos após 68, parecia que os esforços destes grupos para se implantarem nos meios operários, entre as populações vitimadas pela opressão racial e para construírem uma corrente radical perene na classe operária estadunidense, traria frutos.

Mas não foi nada disto. Como em outros países, a esquerda estadunidense emanada de 68 mostrou-se incapaz de compreender as dinâmicas econômicas e sociais do fim dos anos 70 e dos anos 80. Suas forças se dissiparam mesmo quando o bloco que chegou ao poder reunido sob a bandeira do reaguismo (ou do neoliberalismo) orientava a política dos Estados Unidos em uma direção totalmente diversa.

Os encadeamentos de 1968 marcaram uma mudança qualitativa na esquerda estadunidense. As tentativas de reavivar uma radicalidade hoje não chegarão a nada se não partirem dos ensinamentos, se não prolongarem os sucessos e não suplantarem as fraquezas da esquerda que surgiu do caldeirão dos levantes de massa de quarenta anos atrás.

A progressão de toda uma década.

As explosões e transformações de 68 não tiveram nada de súbito. Elas foram o resultado de uma década de manifestações de massa durante a qual dezenas de milhares de pessoas tiveram uma experiência definitivamente nova em relação à política, ao militarismo e ao capitalismo.

O elemento motor foi o movimento das populações negras pelos direitos civis, que tiveram sua primeira aparição marcante com o boicote dos ônibus de Montgomery[1] (Alabama, 1955-56). A Conferência de Direção dos Cristãos dos Estados do Sul, implantada no clérigo sob a autoridade de Martin Luther King, e o Comitê Não-violento de Coordenação dos Estudantes (SNCC), baseado na juventude e nos meios populares, estavam à frente das lutas. O combate travado pelo movimento pelo fim da segregação e do monopólio branco sobre o poder político foi longo e árduo. Seu sucesso, cuja expressão legislativa foi a lei sobre os direitos civis de 1964 e a lei sobre o direito de voto 1965, foi de uma importância capital. O movimento dos direitos civis teve um papel decisivo na reabertura de um espaço de contestação após a histeria anticomunista de caça às bruxas no fim dos anos quarenta e início dos anos cinqüenta.

A vitória contra as leis denominadas Jim Crow[2] abriu caminho para novas conquistas ao conjunto dos movimentos democráticos. Ao colocar um fim à segregação legal, milhões de pessoas persistiram reconhecendo que a desigualdade racial não era somente a conseqüência de legislações injustas e de preconceitos individuais, mas que estava ligada à própria estrutura sócio-econômica do país.

Em outra frente, a vitória da revolução cubana, em primeiro de janeiro de 1959, atraiu a atenção da juventude contestadora sobre os movimentos de liberação nacional que varreram a Ásia, a África e a América Latina.

É neste contexto que os Estudantes por uma Sociedade Democrática (SDS) apareceram como a principal expressão de radicalidade entre os estudantes brancos. Em 1964, o SNCC e o SDS estavam afirmados como as duas primeiras organizações de uma nova esquerda em expansão. Nenhum destes grupos era explicitamente anticapitalista e a maioria de seus membros não via na classe operária um agente fundamental de transformação revolucionária. Mas tanto um quanto o outro se caracterizavam pela adesão ao princípio da ação direta, por sua sensibilidade radical e sua resoluta confrontação a todas as relações de poder desiguais e opressivas.

Quando a grande escalada da guerra do Vietnã começou em 1964-5, o SNCC foi uma das primeiras organizações a adotar uma posição anti-guerra. O SDS exerceu um papel decisivo na promoção da contestação entre os estudantes brancos que constituíam o grupo mais numeroso nas manifestações anti-guerra da década seguinte.

Entre 1964 e 1967, os movimentos contra o racismo e a guerra ganharam terreno. Os militantes fizeram a vinculação entre militarismo, racismo, pobreza e, enfim, capitalismo. As trajetórias políticas de Malcolm X e de Martin Luther King, figuras centrais na evolução do radicalismo dos anos 60, foram simultaneamente elementos motores e reflexos das transformações ideológicas em curso.

Em 1965, Malcolm decidiu romper com a Nação do Islã e lançou a Organização da Unidade Afro-americana (Organization of Afro-American Unity) a fim de fornecer uma expressão organizacional à perspectiva internacionalista revolucionária que caracterizara o último ano de sua vida. Após o assassinato de Malcolm (em 21 de fevereiro de 1965) e o aparecimento de sua Autobiography, suas análises sobre o internacionalismo, a autodeterminação e Black Power tiveram uma influência profunda sobre milhares de jovens militantes.

Dois anos mais tarde, Martin Luther King desafiou as intensas pressões emanadas tanto do governo quanto dos setores mais institucionais do movimento dos direitos civis e condenou publicamente a guerra do Vietnã. Em seu discurso de ruptura, “Romper o silêncio”, do mês de abril do mesmo ano, não somente descrevia o governo dos Estados Unidos como “o maior fornecedor de violência no mundo hoje”, mas também defendia uma recusa geral da guerra, do racismo e da pobreza. Ele escreveu que os Estados-Unidos precisariam de uma “revolução de valores” tendo em vista o objetivo de garantir a justiça e a liberdade para todos e a necessária evolução do país em direção a um socialismo democrático. No ultimo ano de sua vida, King investiu plenamente na organização vigorosa da Poor People’s Campaign, esforçando-se para materializar sua análise cada vez mais radical em uma poderosa iniciativa da massa.

Muitos jovens militantes influenciados por Malcolm X e pelo Dr. King trataram de ir mais longe. Eles tomaram consciência do fato de que, apesar dos estudantes serem mais numerosos nas manifestações anti-guerra, em pesquisas de opinião realizadas aparecia um sentimento anti-guerra particularmente forte entre os operários, os pobres e as pessoas de cor. A implicação dos movimentos de liberação na África e na América Latina criou as condições de um crescente interesse pelo marxismo. À medida que se aproximava o ano de 68, os movimentos contestatórios estadunidenses não apenas distinguiam-se por seu rápido crescimento, mas também pelo fato de seus militantes buscarem mais ativamente novas perspectivas.

1968: a revira-volta.

O primeiro grande choque do ano, a ofensiva do Têt, foi tamanho que era quase totalmente inesperado. Em 30 de janeiro, a Frente de Liberação Nacional lançou um ataque coordenado a nível nacional, ataque este que constituiu a principal revira-volta da guerra. A ofensiva revelou a falha da estratégia de Washington e quebrou o consenso que havia até então prevalecido no seio da elite estadunidense. A rebelião anti-guerra se manifestou primeiramente no cerne do próprio partido de Johnson, notadamente por via da tentativa de Eugene McCarthy de confrontar o Presidente no momento das prévias democratas da primavera do mesmo ano.

Com o episódio do Têt, Johnson foi constrangido a constituir um grupo ad hoc de conselheiros reunidos dentre os grandes atores de Washington (“os sábios”). Eles explicaram a Johnson que ele não possuía chance de vitória. Com o aumento da força da contestação anti-guerra, teve origem a surpreendente desistência de Johnson em relação à corrida presidencial. Apenas quatro anos antes Johnson havia sido conduzido ao poder por uma grande onda eleitoral, para ser agora obrigado a renunciar a um novo mandato. Excitados durante alguns dias, os movimentos de oposição saborearam este momento e se prepararam para novas vitórias.

Aconteceu então o assassinato de King. Além da centena de rebeliões que incendiaram em algumas horas, este assassinato teve um profundo impacto ideológico. Dezenas de milhares, aqueles que participaram ou apoiaram os movimentos de contestação, foram convencidos de que ‘o sistema’ não poderia ser reformado pela via eleitoral ou pela contestação não-violenta: restava derrubá-lo pela força.

Estes sentimentos foram reforçados dois meses mais tarde com o assassinato de Robert Kennedy, candidato à eleição presidencial. O irmão do Presidente assassinado, John Kennedy, se apoderou tardiamente da bandeira contra a guerra e pela defesa dos mais pobres e das minorias oprimidas. Após o assassinato de King, muitos viram em Kennedy “a última esperança” de mudança pelas vias tradicionais. O processo de radicalização se acelerou novamente dois meses mais tarde quando Hubert Humphrey, artífice da guerra e leal vice-presidente de Johnson, foi designado candidato do Partido Democrata à eleição presidencial enquanto as forças policiais desencadearam a agressão contra os manifestantes nas ruas de Chicago.

Para os jovens militantes, cujos efetivos não paravam de crescer, a radicalização não era apenas atribuída à raiva contra um sistema inflexível e assassino. Ela correspondia ao sentimento cada vez mais claro de que haveria uma possibilidade de mudança revolucionária. O Têt havia aniquilado a idéia de um Império estadunidense invencível. Depois, em maio, um levante de um milhão de pessoas na França parecia colocar a revolução na ordem do dia nos próprios bastiões do capitalismo avançado. A embriagante mensagem vinda de Paris assumiu todo seu significado com o relato de militantes franceses ou estadunidenses que iam de um campus a outro após terem participado dos acontecimentos e testemunhado as alianças entre estudantes e assalariados e a rápida expansão das organizações revolucionárias.

(Em um plano mais pessoal, eu me lembro de ficar fascinado quando um membro de minha seção do SDS que havia passado a primavera de 1968 em Paris narrava a célebre “noite das barricadas”. Este foi um fator importante em minha decisão de fazer da militância radical o fio condutor de minha existência. Agradeço aos estudantes e aos trabalhadores franceses!)

O despertar de toda uma sociedade.

O ano de 1968 traçou uma linha divisória para outras mobilizações e movimentos.

Até 68, nos Estados Unidos, as organizações de residentes chineses, japoneses, coreanos e, de maneira geral, de origem asiática, eram constituídas sobre uma base simplesmente nacional. Nesta primavera, uma nova dinâmica foi colocada em movimento quando grupos que se definiam como asiático-americanos foram formados em vários campi da costa oeste. O verão de 68 testemunhou a primeira Conferência Nacional de Estudantes Asiático-americanos e antes do fim do ano um novo movimento radical asiático-americano ganhou todo o país.

Em 3 de março de 1968, mais de mil estudantes mexicano-americanos do Colégio Lincoln de Los Angeles entraram em greve, inaugurando assim toda uma série de greves de colégios. Esta foi a origem de um renascimento em grande escala da história de resistência militante da comunidade mexicano-americana, notadamente com a formação do grupo militante dos Brown Berets e de CASA-Hermandad General de Trabajadores, uma organização socialista implantada nos meios operários mexicanos.

Em 23 de setembro de 1968, dezenas de milhares desfilaram em Porto Rico para festejar o 100º aniversário do El Grito de Lares, a insurreição de 1868 que proclamou pela primeira vez a República Independente de Porto Rico. Esta Renovação (El Nuevo Despertar) não tardou a ganhar as comunidades porto-riquenhas dos Estados Unidos, com os militantes à sua frente.

O movimento indígena americano (AIM) também veio à tona em 1968 e reavivou as antigas lutas pela soberania dos indígenas americanos.

No outono de 68 teve lugar a primeira conferência nacional de um novo movimento pela liberação das mulheres. No curso da década seguinte, o “feminismo da segunda onda” iria reagrupar milhares de pessoas e derrubar inúmeras velhas barreiras sexistas, marcando assim profundamente a paisagem cultural e política.

A contestação eclodiu nos campi durante todo o ano de 1968; contestação esta freqüentemente conduzida pelos estudantes de cor. A primeira ocupação de locais em um campus estadunidense aconteceu em março de 1968 na Universidade de Howard (Washington) onde os estudantes militantes negros obtiveram ganho de causa sobre quase todas as suas reivindicações. Em maio, em Columbia (New York), 1000 estudantes ocuparam cinco prédios em sinal de protesto contra o projeto da universidade que visava deslocar os residentes da comunidade negra vizinha e contra as ligações da universidade com o Instituto de Análise Militar (Institute for Defense Analysis), associado à guerra do Vietnã. Na Universidade do Estado de San Francisco, a Frente de Liberação do Terceiro Mundo empreendeu uma greve de quatro meses e meio que obrigou a administração a criar um dos primeiros programas de estudos étnicos do país.

A luta afro-americana continuou a ocupar um lugar central. Desde 1968, em todas as grandes cidades dos Estados Unidos, os militantes dos Black Panthers (partido criado em 1966) defendiam seu programa de autodeterminação negra, anticapitalista e internacionalista. Os efetivos dos Black Panthers chegaram a cerca de 5000 integrantes. Em setembro de 68, o chefe do FBI, J.Edgar Hoover, denunciou publicamente os Black Panthers como sendo “a maior ameaça para a segurança interna do país”, dando ordens de intensificar os esforços com vistas ao aniquilamento do partido através do Programa de Contra-espionagem (COINTELPRO), de sinistra memória.

Um movimento unido sobre uma base de classe?

Até o fim dos anos 60, era preciso lastimar o silêncio do movimento operário. As direções contentavam-se principalmente em levar um apoio formal às iniciativas acerca dos direitos civis, mas (com algumas honráveis exceções) continuaram a recorrer regularmente às práticas discriminatórias nas próprias fileiras das organizações operárias. Da mesma maneira, as direções permaneciam, em grande parte, prisioneiras do anticomunismo da guerra fria e apoiavam a guerra do Vietnã. Somente alguns sindicatos como o West Coast Longshoremen (Dockers) ou o New York’s Hospital Workers registraram seu desacordo, e encontravam-se, igualmente, certos grupos de trabalhadores (freqüentemente de trabalhadores negros) para dirigir a energia das lutas anti-racistas e anti-guerra dos anos 60 contra este consenso.

Em Detroit, capital da indústria automobilística dos Estados-Unidos. Em 2 de maio de 1968, um grupo de militantes negros organizados no Dodge Revolutionary Union Movement (DRUM) deu início à primeira greve violenta em 14 anos, visando bloquear a gigantesca sede de Dodge Main. Em algumas semanas, centenas de operários se dispuseram a desafiar a direção do United Auto Workers juntando-se ao Revolutionary Union Movement (RUM), recentemente formado em outras regiões. A onda de choque foi sentida até o âmago da “América do capital”, como aparece nesta análise do Wall Street Journal, segundo a qual “a revolução negra dos anos 60 tinha agora alcançado um dos pontos mais vulneráveis do sistema econômico americano; o mecanismo da produção em massa, ou dito de outra forma, a cadeia de montagem”.

DRUM esteve na vanguarda do novo ativismo dos jovens trabalhadores negros em escala nacional. A resistência negra começou a encontrar, de modo certamente parcial, os sentimentos de revolta presentes entre os jovens trabalhadores brancos, dentre os quais era possível encontrar inúmeros veteranos do Vietnã. Este foi igualmente o momento em que o movimento dos operários agrícolas da Califórnia, conduzido por Cesar Chavez, reuniu os trabalhadores mexicanos dos Estados Unidos em uma nova e poderosa força.

Esta agitação vinda de baixo contribuiu largamente para que os sindicatos se lançassem em greves mais duras em 69-70, que não haviam experimentado desde 1946. Além disto, no próprio seio do movimento operário, os grupos militantes que emergiram com as batalhas dos anos 68-72 prosseguiram o combate contra as discriminações no curso da década seguinte e logo chegaram a colocar a termo toda uma série de práticas racistas.

Transformações no seio da esquerda.

No seio da esquerda, este novo ativismo operário no nível da produção teve um impacto considerável. Malcolm X, Martin Luther King, a luta vietnamita e as experiências próprias desta esquerda colocaram no programa da juventude militante as questões do internacionalismo, do anti-imperialismo e as vinculações entre guerra, pobreza, racismo e capitalismo. O sucesso dos Black Panthers, grupo de quadros disciplinados, levou vários a reconsiderarem a aversão da nova esquerda pela organização solidamente estruturada. O ativismo operário visível na França em 1968 (ou em 69, durante o “outono quente”, na Itália) causou forte impressão sobre os jovens radicais nos Estados Unidos: a classe operária dos bastiões do imperialismo talvez não fosse então tão aburguesada quanto esta. E agora os trabalhadores despertavam aqui mesmo, nos Estados Unidos ! Esta tomada de consciência veio acompanhada de uma acelerada virada em direção ao marxismo e nos habituamos logo a ver importantes representantes da nova esquerda – para quem, em 1966, o marxismo não era mais que “o dogma arcaico da esquerda” – declararem-se “comunistas revolucionários”.

Determinados, mas relativamente pouco numerosos, aqueles e aquelas que se voltaram ao marxismo gravitaram em direção ao Partido Comunista dos Estados Unidos. Em 1968, a intervenção militar soviética na Tchecoslováquia desacreditou o comunismo pró-soviético em relação a toda uma geração cuja radicalização estava diretamente ligada à questão da autodeterminação nacional.

Diversas tendências trotskistas, com suas finas análises críticas da sociedade soviética (e sua participação muito ativa no movimento anti-guerra), atraíram um grande número de jovens militantes. Mas o setor mais dinâmico foi aquele das correntes voltadas aos partidos revolucionários do Terceiro Mundo. A Revolução Cultural chinesa (apresentada como prática do socialismo pela base) e o internacionalismo de Che, que clamava pela criação de “dois, três, vários Vietnãs”, tiveram um ressonante eco. Daí surgiu a corrente caracterizada de “marxista terceiro-mundista” (mas também por vezes conhecida sob a designação de “novo movimento comunista”), que apareceu no início do ano de 1968. Desde o início dos anos 1970, esta foi a tendência mais dinâmica e mais multirracial da esquerda socialista estadunidense. Não por acaso a Liga dos Trabalhadores Revolucionários Negros de Detroit (League of Revolutionary Black Workers), que emanou do DRUM, era geralmente identificada a esta corrente. Para todos os tipos de radicais vindos de todos os meios, em 1968, estava claro que a Liga tinha, além do mais, experiência em terreno mais sólido quanto à intersecção das questões da exploração de classe e da opressão racial. Por conseguinte, e para muitos, sua vitória representava a própria possibilidade de liberar o potencial revolucionário da classe operária estadunidense inteira.

Todas estas tendências marxistas alimentavam grandes esperanças. As enquetes de opinião realizadas no outono de 68 indicaram que os estudantes identificavam-se mais com Che (20%), do que com qualquer um dos candidatos à presidência dos Estados Unidos. Mais de um milhão de estudantes consideravam-se como fazendo parte da esquerda. Entre os afro-americanos, os sentimentos revolucionários não se elevaram tanto quanto a simples influência da hegemonia, em todos os casos entre os menores de trinta anos. Todas as outras comunidades de cor estavam atravessadas por correntes radicais. E pela primeira vez desde as perseguições anticomunistas do fim dos anos 40, a radicalidade ia de vento em popa no movimento sindical.

Uma dinâmica que prosseguiu nos anos 1970.

Durante vários anos após 1968, a militância de massa permaneceu vivaz e a esquerda continuou seu crescimento.

As mobilizações anti-guerra dos anos 69-70 foram de maior amplitude do que aquelas dos ano de 1968. Atingiu-se um paroxismo com a invasão do Camboja em maio de 1970 que revelou o fracasso da política de Nixon de “vietnamização”. Os confrontos com a polícia e a guarda nacional aconteceram de um lado a outro do país. Quatro estudantes brancos foram mortos na Universidade do Estado de Kent (Ohio) e dois estudantes negros na Universidade do Estado de Jackson (Mississipi). As greves e mobilizações nos 440 campi do país, com a participação de quatro milhões de estudantes e de 350 000 funcionários, aparentavam uma greve geral das universidades.

Pela primeira vez, uma linha divisória atravessou as direções sindicais sobre a questão da guerra. Um apelo contra a guerra recebeu a assinatura de 250 empregados do Departamento de Estado e relatava-se que segundo o secretário de Estado da época, Henry Kissinger, “é o próprio sistema de governo que entra em colapso”.

Nixon foi forçado a voltar atrás e teve que prometer a retirada das tropas do Camboja em trinta dias. Este foi o sinal antecipado da demissão e da desgraça final de Nixon com a crise do Watergate.

No Vietnã, a agitação ganhou inclusive as fileiras do Exército. A recusa de certo número de soldados a combater exprimia o movimento de contestação operária e negra contra o racismo e a guerra. Os registros militares revelaram milhares de casos de desobediência e 551 agressões armadas deflagradas contra os superiores em 1969 e julho de 1972. A amplitude da crise no seio do Exército foi explicitada por um coronel no Armed Forces Journal de junho de 1971: “No sul do Vietnã, a desorganização das forças militares estadunidenses está a ponto de tornar-se total por causa de indivíduos e unidades que evitam ou se recusam a lutar, assassinam seus oficiais, se drogam regularmente e mergulham na plena desmoralização... o entusiasmo, a disciplina e o valor das forças armadas estão... abaixo de tudo que se pôde conhecer durante este século e provavelmente em toda a história dos Estados Unidos.”  

Nesta etapa, o grupo de veteranos do Vietnã contra a guerra contava com 11000 membros, 26 coordenadores regionais sobre o terreno, e comportava uma ala esquerda que clamava pela vitória da Frente de Liberação Nacional.

O movimento radical no pós-68 se desenvolveu entre os detentos. Foram registradas não menos do que 16 rebeliões de prisões em 1970, e em 1971, aconteceu o “terrível confronto da prisão de Áttica” (Estado de New York) : 1200 detentos tomaram o controle da metade da prisão, fazendo reféns. Ao realizar a invasão, os policiais fizeram 29 mortos entre os prisioneiros e 10 reféns pereceram sob suas balas. Segundo uma comissão oficial, “à exceção dos massacres de índios do fim do século 19, o assalto da polícia do Estado foi, em um único dia, o enfrentamento mais fatal desde a guerra civil”.

O movimento de liberação das mulheres, ganhando em amplitude, aproximou-se da dinâmica geral. A rebelião de Stonewall na cidade de New York em junho de 1969, durante o qual milhares de gays enfrentaram a polícia (em razão de, há muito tempo, as agressões contra homossexuais serem casos rotineiros) foi o ato fundador do movimento de liberação de gays e lésbicas.

Voltando talvez àqueles que foram os primeiros a estar na origem do último episódio notável daquilo que chamamos “os sessenta”. No início do mês de fevereiro de 1973, os Combatentes Indo-americanos pela Liberdade ocuparam a sede de Wounded Knee, na reserva de Pine Ridge, na Dakota do Sul. Durante 71 dias, uma aliança entre chefes indígenas tradicionais e jovens militantes desafiara o cerco oposto pelo FBI, os pesados esquadrões locais e as tropas federais.

Neste estágio, as organizações marxistas que foram formadas ou se desenvolveram desde 1968 estavam plenamente investidas em trabalhar a massa operária. O Partido Comunista dos Estados Unidos atraiu para si uma onda de novos recrutas durante sua campanha (vitoriosa) para a liberação de uma de suas figuras emblemáticas, Angela Davis, que havia sido acusada de ter dado assistência a uma fuga de detentos. Os efetivos do Socialist Worker Party trotskista alcançaram seu máximo número desde a guerra graças ao seu papel em uma das duas principais coalizões nacionais contra a guerra do Vietnã. O meio, mais restrito, dos internacionalistas do “terceiro campo”[3], fez avançar seu trabalho de implantação de militantes na indústria pesada. As dezenas de organizações e de coletivos “neo-comunistas” inspiradas em diversos marxismos oriundos do Terceiro Mundo, e notadamente do maoísmo, pareciam a um tempo convergir para formar o pólo principal na esquerda anticapitalista.

Estas formações tiveram suas forças e suas fraquezas, mas no conjunto, a envergadura e a qualidade de seu trabalho de organização na classe operária ultrapassaram largamente tudo que existiu desde os anos da purgação e repressão anticomunistas, entre 1947-1953, que deixaram a esquerda em um estado de insignificância. Estes grupos se situaram na intersecção das questões de classe e de raça em um plano simultaneamente teórico e prático e sua coesão permitiu conduzir as campanhas, coordenadas e operadas sobre a base de uma divisão do trabalho sofisticada. Em todos estes campos, representou um progresso notório sobre aquilo que havia proposto a nova esquerda. Mas um verdadeiro balanço deve também levar em conta o fato de que estas novas tendências marxistas negligenciaram certas importantes contribuições da nova esquerda sem, no entanto, liberarem-se dos problemas lancinantes: a adaptabilidade, a criatividade e a preocupação democrática foram muito freqüentemente rejeitadas em proveito do dogmatismo, do sectarismo e de estruturas herdadas deixando pouco espaço às iniciativas da base.

Estes problemas pareciam ser de ordem secundária no momento em que a geração de 68, cheia de entusiasmo, encarava a nova década. Ela era otimista quanto às possibilidades de estender sua implantação na classe operária multirracial e se sentiu levada pelo clima geral de radicalidade. Uma enquete de opinião de 1971 mostrou que mais de três milhões de pessoas julgavam que uma revolução era necessária nos Estados Unidos.

Uma década mais tarde, a geração radical do fim dos anos 60 deve enfrentar uma situação mais de fracasso (inesperado) do que de crescimento (como era previsto). Mas sua experiência no curso dos anos 70s ulteriormente é rica em lições para a nova geração. Nada disto seria possível sem as metamorfoses do ano de 1968.


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* Autor de Revolution in the Air: Sixties Radicals Turn to Lenin, Mao and Che (Verso, 2002)

[1] Desencadeado após a prisão de uma costureira (Rosa Parks) por ter se recusado a ceder seu lugar a um branco (ndt).

[2] O nome de um personagem de canção popular (ndt).

[3] Os dois primeiros sendo então aqueles do imperialismo e da burocracia stalinista (ndt).

 

 

 

 

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* Revue Contretemps 22, mai 2008. Mai 68: un monde en révoltes. Dossier coordonné par Antoine Artous, Jean Ducange, Lilian Mathieu.

 

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