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1968:
explosão e transformação da corrente radical nos Estados Unidos
Max Elbaum
[Tradução: Joana El-Jaick Andrade]
O
ano de 1968 conheceu uma explosão de protestos e de radicalização
nos Estados Unidos, como em muitos outros países ao redor do mundo.
Duas questões centrais – o racismo e a guerra do Vietnã – são o
âmago deste ano de mobilização popular. Os eventos de 1968
expandiram os movimentos sociais radicais e mudaram o modelo
ideológico da esquerda norte-americana. O assassinato de Martin
Luther King e a nomeação de dois candidatos pró-guerra pelos dois
grandes partidos convenceram milhões de pessoas de que o sistema não
poderia ser reformado. No seio das fileiras radicais houve uma
reviravolta: passara-se de uma « Nova esquerda », radicalmente
anti-ideológica, ao marxismo, em particular a variedades
antiimperialistas e anti-racistas do marxismo que procuravam uma
fonte de inspiração nos partidos comunistas do Terceiro Mundo.
Prejudicado pela
ofensiva do Têt no Vietnã, perseguido pelos manifestantes
anti-guerra e confrontado por uma rebelião no seio de seu próprio
partido, foi um acuado Presidente Lyndon Johnson que se endereçou ao
país em 31 de março de 1968. Ele causou um choque ao anunciar que,
por um lado renunciara à campanha para sua reeleição e, por outro,
que as conversações de paz com as forças de liberação vietnamitas
estavam a ponto de serem abertas. Em alguns minutos, disseminou-se
um clima de festa em todos os campi do país. Para milhares de
pessoas, foi com real entusiasmo que se poderia dizer que um
Presidente dos Estados Unidos foi desestabilizado sob o coro de
“Hey, Hey, LBJ, quantas crianças você matou hoje?”.
Quatro dias mais
tarde, Martin Luther King, Jr., principal representante do movimento
de libertação afro-americana, foi assassinado. King foi abatido em
Memphis, no Tennesse, onde havia levado seu apoio aos empregados
negros dos serviços de sanitários em greve. Nos dias que se
seguiram, as rebeliões negras eclodiram em mais de uma centena de
cidades. As chamas não estavam a mais de seis quarteirões da Casa
Branca. Foram necessários 70 000 homens fardados das tropas federais
para restabelecerem a ordem pública.
Os levantes negros
de abril de 1968 representaram apenas um terço das 300 rebeliões
urbanas que aconteceram desde o verão de 1964. De acordo com a
própria Comissão do Conselho Nacional sobre as Desordens Civis,
cerca de um em cada cinco residentes nas regiões afetadas (mais de
um milhão de pessoas) tomaram parte. Para uma maioria de
afro-americanos, estas rebeliões deveriam ter um efeito positivo
sobre a situação econômica e social da população negra.
Estes dois choques
políticos (a despeito do caráter singular de suas características e
de seu impacto) foram bem mais do que simples acontecimentos
isolados, a partir do momento em que refletiram amplas forças
sociais cuja conflitualidade alcançou um patamar crítico em 1968.
Eles representavam a emergência de uma dupla polarização – sobre as
questões do racismo e do Vietnã – que abalara profundamente a
sociedade estadunidense nos fins dos anos sessenta.
A luta social em –
e em torno de – 68 atravessou e transformou todas as instituições e
as organizações populares estadunidenses. As batalhas pela igualdade
dos negros e contra a guerra do Vietnã reavivaram as lutas de
emancipação em todas as minorias de cor estadunidenses e impuseram
uma nova dinâmica ao movimento pela liberação das mulheres. Em sua
ligação com este ano de insurgência global, estas batalhas foram a
caldeira de todo um novo espírito e de uma nova prática de
internacionalismo.
Dos levantes de 68
surgiu uma nova configuração da esquerda estadunidense. A guinada
mais marcante resultou do espetacular aumento de seus efetivos.
Dezenas de milhares de jovens foram atraídos para as idéias
radicais. Os Estudantes para uma Sociedade Democrática (Students for
a Democratic Society, SDS), por exemplo, ao fim do ano, haviam
triplicado seus efetivos chegando a 100 000 membros.
Ainda mais
significativas foram as mudanças nas orientações e na estratégia da
esquerda. Os acontecimentos de 1968 impeliram ainda mais os
militantes, de uma iniciativa oriunda da nova esquerda (New Left)
dos anos 60s, dinâmica mas anti-ideológica, à consideração de
perspectivas mais sistêmicas, tendo o marxismo ocupado um lugar
central deste ponto de vista. Particularmente, as variantes do
marxismo que privilegiavam o anti-imperialismo e o anti-racismo e
que se voltaram à experiência dos partidos comunistas do Terceiro
Mundo ganharam sensivelmente em adeptos. Os partidários destas
perspectivas começaram a formar as novas organizações
marxistas-leninistas ou a unir-se aos grupos socialistas existentes
ainda herdeiros da “velha esquerda”. E durante alguns anos após 68,
parecia que os esforços destes grupos para se implantarem nos meios
operários, entre as populações vitimadas pela opressão racial e para
construírem uma corrente radical perene na classe operária
estadunidense, traria frutos.
Mas não foi nada
disto. Como em outros países, a esquerda estadunidense emanada de 68
mostrou-se incapaz de compreender as dinâmicas econômicas e sociais
do fim dos anos 70 e dos anos 80. Suas forças se dissiparam mesmo
quando o bloco que chegou ao poder reunido sob a bandeira do
reaguismo (ou do neoliberalismo) orientava a política dos Estados
Unidos em uma direção totalmente diversa.
Os encadeamentos
de 1968 marcaram uma mudança qualitativa na esquerda estadunidense.
As tentativas de reavivar uma radicalidade hoje não chegarão a nada
se não partirem dos ensinamentos, se não prolongarem os sucessos e
não suplantarem as fraquezas da esquerda que surgiu do caldeirão dos
levantes de massa de quarenta anos atrás.
A progressão de
toda uma década.
As explosões e transformações de 68 não tiveram nada
de súbito. Elas foram o resultado de uma década de manifestações de
massa durante a qual dezenas de milhares de pessoas tiveram uma
experiência definitivamente nova em relação à política, ao
militarismo e ao capitalismo.
O elemento motor foi o movimento das populações
negras pelos direitos civis, que tiveram sua primeira aparição
marcante com o boicote dos ônibus de Montgomery
(Alabama, 1955-56). A Conferência de Direção dos Cristãos dos
Estados do Sul, implantada no clérigo sob a autoridade de Martin
Luther King, e o Comitê Não-violento de Coordenação dos Estudantes (SNCC),
baseado na juventude e nos meios populares, estavam à frente das
lutas. O combate travado pelo movimento pelo fim da segregação e do
monopólio branco sobre o poder político foi longo e árduo. Seu
sucesso, cuja expressão legislativa foi a lei sobre os direitos
civis de 1964 e a lei sobre o direito de voto 1965, foi de uma
importância capital. O movimento dos direitos civis teve um papel
decisivo na reabertura de um espaço de contestação após a histeria
anticomunista de caça às bruxas no fim dos anos quarenta e início
dos anos cinqüenta.
A vitória contra as leis denominadas Jim Crow
abriu caminho para novas conquistas ao conjunto dos movimentos
democráticos. Ao colocar um fim à segregação legal, milhões de
pessoas persistiram reconhecendo que a desigualdade racial não era
somente a conseqüência de legislações injustas e de preconceitos
individuais, mas que estava ligada à própria estrutura
sócio-econômica do país.
Em outra frente, a vitória da revolução cubana, em
primeiro de janeiro de 1959, atraiu a atenção da juventude
contestadora sobre os movimentos de liberação nacional que varreram
a Ásia, a África e a América Latina.
É neste contexto que os Estudantes por uma Sociedade
Democrática (SDS) apareceram como a principal expressão de
radicalidade entre os estudantes brancos. Em 1964, o SNCC e o SDS
estavam afirmados como as duas primeiras organizações de uma nova
esquerda em expansão. Nenhum destes grupos era explicitamente
anticapitalista e a maioria de seus membros não via na classe
operária um agente fundamental de transformação revolucionária. Mas
tanto um quanto o outro se caracterizavam pela adesão ao princípio
da ação direta, por sua sensibilidade radical e sua resoluta
confrontação a todas as relações de poder desiguais e opressivas.
Quando a grande escalada da guerra do Vietnã começou
em 1964-5, o SNCC foi uma das primeiras organizações a adotar uma
posição anti-guerra. O SDS exerceu um papel decisivo na promoção da
contestação entre os estudantes brancos que constituíam o grupo mais
numeroso nas manifestações anti-guerra da década seguinte.
Entre 1964 e 1967, os movimentos contra o racismo e a
guerra ganharam terreno. Os militantes fizeram a vinculação entre
militarismo, racismo, pobreza e, enfim, capitalismo. As trajetórias
políticas de Malcolm X e de Martin Luther King, figuras centrais na
evolução do radicalismo dos anos 60, foram simultaneamente elementos
motores e reflexos das transformações ideológicas em curso.
Em 1965, Malcolm decidiu romper com a Nação do Islã e
lançou a Organização da Unidade Afro-americana (Organization of
Afro-American Unity) a fim de fornecer uma expressão organizacional
à perspectiva internacionalista revolucionária que caracterizara o
último ano de sua vida. Após o assassinato de Malcolm (em 21 de
fevereiro de 1965) e o aparecimento de sua Autobiography,
suas análises sobre o internacionalismo, a autodeterminação e
Black Power tiveram uma influência profunda sobre
milhares de jovens militantes.
Dois anos mais tarde, Martin Luther King desafiou as
intensas pressões emanadas tanto do governo quanto dos setores mais
institucionais do movimento dos direitos civis e condenou
publicamente a guerra do Vietnã. Em seu discurso de ruptura, “Romper
o silêncio”, do mês de abril do mesmo ano, não somente descrevia o
governo dos Estados Unidos como “o maior fornecedor de violência no
mundo hoje”, mas também defendia uma recusa geral da guerra, do
racismo e da pobreza. Ele escreveu que os Estados-Unidos precisariam
de uma “revolução de valores” tendo em vista o objetivo de garantir
a justiça e a liberdade para todos e a necessária evolução do país
em direção a um socialismo democrático. No ultimo ano de sua vida,
King investiu plenamente na organização vigorosa da Poor People’s
Campaign, esforçando-se para materializar sua análise cada vez mais
radical em uma poderosa iniciativa da massa.
Muitos jovens militantes influenciados por Malcolm X
e pelo Dr. King trataram de ir mais longe. Eles tomaram consciência
do fato de que, apesar dos estudantes serem mais numerosos nas
manifestações anti-guerra, em pesquisas de opinião realizadas
aparecia um sentimento anti-guerra particularmente forte entre os
operários, os pobres e as pessoas de cor. A implicação dos
movimentos de liberação na África e na América Latina criou as
condições de um crescente interesse pelo marxismo. À medida que se
aproximava o ano de 68, os movimentos contestatórios estadunidenses
não apenas distinguiam-se por seu rápido crescimento, mas também
pelo fato de seus militantes buscarem mais ativamente novas
perspectivas.
1968: a
revira-volta.
O primeiro grande
choque do ano, a ofensiva do Têt, foi tamanho que era quase
totalmente inesperado. Em 30 de janeiro, a Frente de Liberação
Nacional lançou um ataque coordenado a nível nacional, ataque este
que constituiu a principal revira-volta da guerra. A ofensiva
revelou a falha da estratégia de Washington e quebrou o consenso que
havia até então prevalecido no seio da elite estadunidense. A
rebelião anti-guerra se manifestou primeiramente no cerne do próprio
partido de Johnson, notadamente por via da tentativa de Eugene
McCarthy de confrontar o Presidente no momento das prévias
democratas da primavera do mesmo ano.
Com o episódio do Têt, Johnson foi constrangido a
constituir um grupo ad hoc de conselheiros reunidos
dentre os grandes atores de Washington (“os sábios”). Eles
explicaram a Johnson que ele não possuía chance de vitória. Com o
aumento da força da contestação anti-guerra, teve origem a
surpreendente desistência de Johnson em relação à corrida
presidencial. Apenas quatro anos antes Johnson havia sido conduzido
ao poder por uma grande onda eleitoral, para ser agora obrigado a
renunciar a um novo mandato. Excitados durante alguns dias, os
movimentos de oposição saborearam este momento e se prepararam para
novas vitórias.
Aconteceu então o assassinato de King. Além da
centena de rebeliões que incendiaram em algumas horas, este
assassinato teve um profundo impacto ideológico. Dezenas de
milhares, aqueles que participaram ou apoiaram os movimentos de
contestação, foram convencidos de que ‘o sistema’ não poderia ser
reformado pela via eleitoral ou pela contestação não-violenta:
restava derrubá-lo pela força.
Estes sentimentos foram reforçados dois meses mais
tarde com o assassinato de Robert Kennedy, candidato à eleição
presidencial. O irmão do Presidente assassinado, John Kennedy, se
apoderou tardiamente da bandeira contra a guerra e pela defesa dos
mais pobres e das minorias oprimidas. Após o assassinato de King,
muitos viram em Kennedy “a última esperança” de mudança pelas vias
tradicionais. O processo de radicalização se acelerou novamente dois
meses mais tarde quando Hubert Humphrey, artífice da guerra e leal
vice-presidente de Johnson, foi designado candidato do Partido
Democrata à eleição presidencial enquanto as forças policiais
desencadearam a agressão contra os manifestantes nas ruas de
Chicago.
Para os jovens militantes, cujos efetivos não paravam
de crescer, a radicalização não era apenas atribuída à raiva contra
um sistema inflexível e assassino. Ela correspondia ao sentimento
cada vez mais claro de que haveria uma possibilidade de mudança
revolucionária. O Têt havia aniquilado a idéia de um Império
estadunidense invencível. Depois, em maio, um levante de um milhão
de pessoas na França parecia colocar a revolução na ordem do dia nos
próprios bastiões do capitalismo avançado. A embriagante mensagem
vinda de Paris assumiu todo seu significado com o relato de
militantes franceses ou estadunidenses que iam de um campus a outro
após terem participado dos acontecimentos e testemunhado as alianças
entre estudantes e assalariados e a rápida expansão das organizações
revolucionárias.
(Em um plano mais pessoal, eu me lembro de ficar
fascinado quando um membro de minha seção do SDS que havia passado a
primavera de 1968 em Paris narrava a célebre “noite das barricadas”.
Este foi um fator importante em minha decisão de fazer da militância
radical o fio condutor de minha existência. Agradeço aos estudantes
e aos trabalhadores franceses!)
O despertar de toda uma sociedade.
O ano de 1968 traçou uma linha divisória para outras
mobilizações e movimentos.
Até 68, nos Estados Unidos, as organizações de
residentes chineses, japoneses, coreanos e, de maneira geral, de
origem asiática, eram constituídas sobre uma base simplesmente
nacional. Nesta primavera, uma nova dinâmica foi colocada em
movimento quando grupos que se definiam como asiático-americanos
foram formados em vários campi da costa oeste. O verão de 68
testemunhou a primeira Conferência Nacional de Estudantes
Asiático-americanos e antes do fim do ano um novo movimento radical
asiático-americano ganhou todo o país.
Em 3 de março de 1968, mais de mil estudantes
mexicano-americanos do Colégio Lincoln de Los Angeles entraram em
greve, inaugurando assim toda uma série de greves de colégios. Esta
foi a origem de um renascimento em grande escala da história de
resistência militante da comunidade mexicano-americana, notadamente
com a formação do grupo militante dos Brown Berets e de
CASA-Hermandad General de Trabajadores, uma organização socialista
implantada nos meios operários mexicanos.
Em 23 de setembro de 1968, dezenas de milhares
desfilaram em Porto Rico para festejar o 100º aniversário do El
Grito de Lares, a insurreição de 1868 que proclamou pela primeira
vez a República Independente de Porto Rico. Esta Renovação (El Nuevo
Despertar) não tardou a ganhar as comunidades porto-riquenhas dos
Estados Unidos, com os militantes à sua frente.
O movimento indígena americano (AIM) também veio à
tona em 1968 e reavivou as antigas lutas pela soberania dos
indígenas americanos.
No outono de 68 teve lugar a primeira conferência
nacional de um novo movimento pela liberação das mulheres. No curso
da década seguinte, o “feminismo da segunda onda” iria reagrupar
milhares de pessoas e derrubar inúmeras velhas barreiras sexistas,
marcando assim profundamente a paisagem cultural e política.
A contestação eclodiu nos campi durante todo o ano de
1968; contestação esta freqüentemente conduzida pelos estudantes de
cor. A primeira ocupação de locais em um campus estadunidense
aconteceu em março de 1968 na Universidade de Howard (Washington)
onde os estudantes militantes negros obtiveram ganho de causa sobre
quase todas as suas reivindicações. Em maio, em Columbia (New York),
1000 estudantes ocuparam cinco prédios em sinal de protesto contra o
projeto da universidade que visava deslocar os residentes da
comunidade negra vizinha e contra as ligações da universidade com o
Instituto de Análise Militar (Institute for Defense Analysis),
associado à guerra do Vietnã. Na Universidade do Estado de San
Francisco, a Frente de Liberação do Terceiro Mundo empreendeu uma
greve de quatro meses e meio que obrigou a administração a criar um
dos primeiros programas de estudos étnicos do país.
A luta afro-americana continuou a ocupar um lugar
central. Desde 1968, em todas as grandes cidades dos Estados Unidos,
os militantes dos Black Panthers (partido criado em 1966) defendiam
seu programa de autodeterminação negra, anticapitalista e
internacionalista. Os efetivos dos Black Panthers chegaram a cerca
de 5000 integrantes. Em setembro de 68, o chefe do FBI, J.Edgar
Hoover, denunciou publicamente os Black Panthers como sendo “a maior
ameaça para a segurança interna do país”, dando ordens de
intensificar os esforços com vistas ao aniquilamento do partido
através do Programa de Contra-espionagem (COINTELPRO), de sinistra
memória.
Um movimento unido sobre uma base de classe?
Até o fim dos anos 60, era preciso lastimar o
silêncio do movimento operário. As direções contentavam-se
principalmente em levar um apoio formal às iniciativas acerca dos
direitos civis, mas (com algumas honráveis exceções) continuaram a
recorrer regularmente às práticas discriminatórias nas próprias
fileiras das organizações operárias. Da mesma maneira, as direções
permaneciam, em grande parte, prisioneiras do anticomunismo da
guerra fria e apoiavam a guerra do Vietnã. Somente alguns sindicatos
como o West Coast Longshoremen (Dockers) ou o New York’s Hospital
Workers registraram seu desacordo, e encontravam-se, igualmente,
certos grupos de trabalhadores (freqüentemente de trabalhadores
negros) para dirigir a energia das lutas anti-racistas e anti-guerra
dos anos 60 contra este consenso.
Em Detroit, capital da indústria automobilística dos
Estados-Unidos. Em 2 de maio de 1968, um grupo de militantes negros
organizados no Dodge Revolutionary Union Movement (DRUM) deu início
à primeira greve violenta em 14 anos, visando bloquear a gigantesca
sede de Dodge Main. Em algumas semanas, centenas de operários se
dispuseram a desafiar a direção do United Auto Workers juntando-se
ao Revolutionary Union Movement (RUM), recentemente formado em
outras regiões. A onda de choque foi sentida até o âmago da “América
do capital”, como aparece nesta análise do Wall Street Journal,
segundo a qual “a revolução negra dos anos 60 tinha agora alcançado
um dos pontos mais vulneráveis do sistema econômico americano; o
mecanismo da produção em massa, ou dito de outra forma, a cadeia de
montagem”.
DRUM esteve na vanguarda do novo ativismo dos jovens
trabalhadores negros em escala nacional. A resistência negra começou
a encontrar, de modo certamente parcial, os sentimentos de revolta
presentes entre os jovens trabalhadores brancos, dentre os quais era
possível encontrar inúmeros veteranos do Vietnã. Este foi igualmente
o momento em que o movimento dos operários agrícolas da Califórnia,
conduzido por Cesar Chavez, reuniu os trabalhadores mexicanos dos
Estados Unidos em uma nova e poderosa força.
Esta agitação vinda de baixo contribuiu largamente
para que os sindicatos se lançassem em greves mais duras em 69-70,
que não haviam experimentado desde 1946. Além disto, no próprio seio
do movimento operário, os grupos militantes que emergiram com as
batalhas dos anos 68-72 prosseguiram o combate contra as
discriminações no curso da década seguinte e logo chegaram a colocar
a termo toda uma série de práticas racistas.
Transformações no seio da esquerda.
No seio da esquerda, este novo ativismo operário no
nível da produção teve um impacto considerável. Malcolm X, Martin
Luther King, a luta vietnamita e as experiências próprias desta
esquerda colocaram no programa da juventude militante as questões do
internacionalismo, do anti-imperialismo e as vinculações entre
guerra, pobreza, racismo e capitalismo. O sucesso dos Black Panthers,
grupo de quadros disciplinados, levou vários a reconsiderarem a
aversão da nova esquerda pela organização solidamente estruturada. O
ativismo operário visível na França em 1968 (ou em 69, durante o
“outono quente”, na Itália) causou forte impressão sobre os jovens
radicais nos Estados Unidos: a classe operária dos bastiões do
imperialismo talvez não fosse então tão aburguesada quanto esta. E
agora os trabalhadores despertavam aqui mesmo, nos Estados Unidos !
Esta tomada de consciência veio acompanhada de uma acelerada virada
em direção ao marxismo e nos habituamos logo a ver importantes
representantes da nova esquerda – para quem, em 1966, o marxismo não
era mais que “o dogma arcaico da esquerda” – declararem-se
“comunistas revolucionários”.
Determinados, mas relativamente pouco numerosos,
aqueles e aquelas que se voltaram ao marxismo gravitaram em direção
ao Partido Comunista dos Estados Unidos. Em 1968, a intervenção
militar soviética na Tchecoslováquia desacreditou o comunismo
pró-soviético em relação a toda uma geração cuja radicalização
estava diretamente ligada à questão da autodeterminação nacional.
Diversas tendências trotskistas, com suas finas
análises críticas da sociedade soviética (e sua participação muito
ativa no movimento anti-guerra), atraíram um grande número de jovens
militantes. Mas o setor mais dinâmico foi aquele das correntes
voltadas aos partidos revolucionários do Terceiro Mundo. A Revolução
Cultural chinesa (apresentada como prática do socialismo pela base)
e o internacionalismo de Che, que clamava pela criação de “dois,
três, vários Vietnãs”, tiveram um ressonante eco. Daí surgiu a
corrente caracterizada de “marxista terceiro-mundista” (mas também
por vezes conhecida sob a designação de “novo movimento comunista”),
que apareceu no início do ano de 1968. Desde o início dos anos 1970,
esta foi a tendência mais dinâmica e mais multirracial da esquerda
socialista estadunidense. Não por acaso a Liga dos Trabalhadores
Revolucionários Negros de Detroit (League of Revolutionary Black
Workers), que emanou do DRUM, era geralmente identificada a esta
corrente. Para todos os tipos de radicais vindos de todos os meios,
em 1968, estava claro que a Liga tinha, além do mais, experiência em
terreno mais sólido quanto à intersecção das questões da exploração
de classe e da opressão racial. Por conseguinte, e para muitos, sua
vitória representava a própria possibilidade de liberar o potencial
revolucionário da classe operária estadunidense inteira.
Todas estas tendências marxistas alimentavam grandes
esperanças. As enquetes de opinião realizadas no outono de 68
indicaram que os estudantes identificavam-se mais com Che (20%), do
que com qualquer um dos candidatos à presidência dos Estados Unidos.
Mais de um milhão de estudantes consideravam-se como fazendo parte
da esquerda. Entre os afro-americanos, os sentimentos
revolucionários não se elevaram tanto quanto a simples influência da
hegemonia, em todos os casos entre os menores de trinta anos. Todas
as outras comunidades de cor estavam atravessadas por correntes
radicais. E pela primeira vez desde as perseguições anticomunistas
do fim dos anos 40, a radicalidade ia de vento em popa no movimento
sindical.
Uma dinâmica que prosseguiu nos anos 1970.
Durante vários anos após 1968, a militância de massa
permaneceu vivaz e a esquerda continuou seu crescimento.
As mobilizações anti-guerra dos anos 69-70 foram de
maior amplitude do que aquelas dos ano de 1968. Atingiu-se um
paroxismo com a invasão do Camboja em maio de 1970 que revelou o
fracasso da política de Nixon de “vietnamização”. Os confrontos com
a polícia e a guarda nacional aconteceram de um lado a outro do
país. Quatro estudantes brancos foram mortos na Universidade do
Estado de Kent (Ohio) e dois estudantes negros na Universidade do
Estado de Jackson (Mississipi). As greves e mobilizações nos 440
campi do país, com a participação de quatro milhões de estudantes e
de 350 000 funcionários, aparentavam uma greve geral das
universidades.
Pela primeira vez, uma linha divisória atravessou as
direções sindicais sobre a questão da guerra. Um apelo contra a
guerra recebeu a assinatura de 250 empregados do Departamento de
Estado e relatava-se que segundo o secretário de Estado da época,
Henry Kissinger, “é o próprio sistema de governo que entra em
colapso”.
Nixon foi forçado a voltar atrás e teve que prometer
a retirada das tropas do Camboja em trinta dias. Este foi o sinal
antecipado da demissão e da desgraça final de Nixon com a crise do
Watergate.
No Vietnã, a agitação ganhou inclusive as fileiras do
Exército. A recusa de certo número de soldados a combater exprimia o
movimento de contestação operária e negra contra o racismo e a
guerra. Os registros militares revelaram milhares de casos de
desobediência e 551 agressões armadas deflagradas contra os
superiores em 1969 e julho de 1972. A amplitude da crise no seio do
Exército foi explicitada por um coronel no Armed Forces Journal
de junho de 1971: “No sul do Vietnã, a desorganização das forças
militares estadunidenses está a ponto de tornar-se total por causa
de indivíduos e unidades que evitam ou se recusam a lutar,
assassinam seus oficiais, se drogam regularmente e mergulham na
plena desmoralização... o entusiasmo, a disciplina e o valor das
forças armadas estão... abaixo de tudo que se pôde conhecer durante
este século e provavelmente em toda a história dos Estados
Unidos.”
Nesta etapa, o grupo de veteranos do Vietnã contra a
guerra contava com 11000 membros, 26 coordenadores regionais sobre o
terreno, e comportava uma ala esquerda que clamava pela vitória da
Frente de Liberação Nacional.
O movimento radical no pós-68 se desenvolveu entre os
detentos. Foram registradas não menos do que 16 rebeliões de prisões
em 1970, e em 1971, aconteceu o “terrível confronto da prisão de
Áttica” (Estado de New York) : 1200 detentos tomaram o controle da
metade da prisão, fazendo reféns. Ao realizar a invasão, os
policiais fizeram 29 mortos entre os prisioneiros e 10 reféns
pereceram sob suas balas. Segundo uma comissão oficial, “à exceção
dos massacres de índios do fim do século 19, o assalto da polícia do
Estado foi, em um único dia, o enfrentamento mais fatal desde a
guerra civil”.
O movimento de liberação das mulheres, ganhando em
amplitude, aproximou-se da dinâmica geral. A rebelião de Stonewall
na cidade de New York em junho de 1969, durante o qual milhares de
gays enfrentaram a polícia (em razão de, há muito tempo, as
agressões contra homossexuais serem casos rotineiros) foi o ato
fundador do movimento de liberação de gays e lésbicas.
Voltando talvez àqueles que foram os primeiros a
estar na origem do último episódio notável daquilo que chamamos “os
sessenta”. No início do mês de fevereiro de 1973, os Combatentes
Indo-americanos pela Liberdade ocuparam a sede de Wounded Knee, na
reserva de Pine Ridge, na Dakota do Sul. Durante 71 dias, uma
aliança entre chefes indígenas tradicionais e jovens militantes
desafiara o cerco oposto pelo FBI, os pesados esquadrões locais e as
tropas federais.
Neste estágio, as organizações marxistas que foram
formadas ou se desenvolveram desde 1968 estavam plenamente
investidas em trabalhar a massa operária. O Partido Comunista dos
Estados Unidos atraiu para si uma onda de novos recrutas durante sua
campanha (vitoriosa) para a liberação de uma de suas figuras
emblemáticas, Angela Davis, que havia sido acusada de ter dado
assistência a uma fuga de detentos. Os efetivos do Socialist Worker
Party trotskista alcançaram seu máximo número desde a guerra graças
ao seu papel em uma das duas principais coalizões nacionais contra a
guerra do Vietnã. O meio, mais restrito, dos internacionalistas do
“terceiro campo”,
fez avançar seu trabalho de implantação de militantes na indústria
pesada. As dezenas de organizações e de coletivos “neo-comunistas”
inspiradas em diversos marxismos oriundos do Terceiro Mundo, e
notadamente do maoísmo, pareciam a um tempo convergir para formar o
pólo principal na esquerda anticapitalista.
Estas formações tiveram suas forças e suas fraquezas,
mas no conjunto, a envergadura e a qualidade de seu trabalho de
organização na classe operária ultrapassaram largamente tudo que
existiu desde os anos da purgação e repressão anticomunistas, entre
1947-1953, que deixaram a esquerda em um estado de insignificância.
Estes grupos se situaram na intersecção das questões de classe e de
raça em um plano simultaneamente teórico e prático e sua coesão
permitiu conduzir as campanhas, coordenadas e operadas sobre a base
de uma divisão do trabalho sofisticada. Em todos estes campos,
representou um progresso notório sobre aquilo que havia proposto a
nova esquerda. Mas um verdadeiro balanço deve também levar em conta
o fato de que estas novas tendências marxistas negligenciaram certas
importantes contribuições da nova esquerda sem, no entanto,
liberarem-se dos problemas lancinantes: a adaptabilidade, a
criatividade e a preocupação democrática foram muito freqüentemente
rejeitadas em proveito do dogmatismo, do sectarismo e de estruturas
herdadas deixando pouco espaço às iniciativas da base.
Estes problemas pareciam ser de ordem secundária no
momento em que a geração de 68, cheia de entusiasmo, encarava a nova
década. Ela era otimista quanto às possibilidades de estender sua
implantação na classe operária multirracial e se sentiu levada pelo
clima geral de radicalidade. Uma enquete de opinião de 1971 mostrou
que mais de três milhões de pessoas julgavam que uma revolução era
necessária nos Estados Unidos.
Uma década mais tarde, a geração radical do fim dos
anos 60 deve enfrentar uma situação mais de fracasso (inesperado) do
que de crescimento (como era previsto). Mas sua experiência no curso
dos anos 70s ulteriormente é rica em lições para a nova geração.
Nada disto seria possível sem as metamorfoses do ano de 1968.
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Autor de Revolution in the Air: Sixties Radicals Turn to
Lenin, Mao and Che (Verso, 2002)
Desencadeado após a prisão de uma costureira (Rosa Parks)
por ter se recusado a ceder seu lugar a um branco (ndt).
O nome de um personagem de canção popular (ndt).
Os dois primeiros sendo então aqueles do imperialismo e da
burocracia stalinista (ndt).
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