DANIEL AARÃO REIS

Doutor em História Social pela Universidade de São Paulo. É professor titular de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense

 

 

1968 – Recordar, criticar, discutir

 

O dossier sobre 1968 que o leitor tem sob os olhos não se quer uma peça de celebração. Incentiva a recordação – direta e indireta – para chegar à crítica, e discuti-la, e vê neste tipo de abordagem a melhor forma de compreender a gesta dos tantos que pretenderam mudar o mundo ou, pelo menos, virá-lo de ponta-cabeça.

Em alguns momentos e lugares, foi possível virar o mundo de ponta-cabeça. E nesta posição  ele até  ficou mais interessante, e mais divertido, sem dúvida. Mas não durou muito. As forças reacionárias e cinzentas, sem contar os indiferentes, de direita e de esquerda, chegaram com seu hálito frio e prudente e puseram as coisas no lugar. Ou, pelo menos, tentaram fazê-lo.

Mas também não conseguiram.

De fato, o mundo não mais seria o mesmo.

Este foi o principal feito de 1968. As coisas não mudaram tão rápido como os mais radicais queriam. Nem tão profundamente. Mas também não continuaram as mesmas. Nunca mais o seriam.

Estudar 1968 nas  múltiplas propostas e cores que assumiu. No legado que deixou. E também tentar compreender melhor a força das tradições que venceram, ao menos no curto prazo. Um programa que não pode se configurar apenas de dez em dez anos, mas se tornar uma condição permanente da pesquisa e do debate.

Reunimos aqui quatro artigos.

Daniel Aarão Reis (1968 entre passado e futuro) tenta mostrar, ao longo do ano agitado, a pluralidade das tendências em luta e em choque: as direitas conservadoras e frias, afinal vencedoras. As esquerdas moderadas e reformistas. As esquerdas revolucionárias catastróficas. As esquerdas que despontam então com os novos movimentos sociais. Um ano antes de tudo plural, infenso a reducionismos e que precisa ser estudado, sem prejuízo da caracterização dos aspectos comuns,  em cada momento e em cada lugar, nas especificidades, uma condição para que se torne inteligível o processo histórico.

Michael Lowy (Le romantisme révolutionnaire de 68) propõe uma chave de compreensão: o romantismo revolucionário, que teria estado presente nos momentos mais marcantes das lutas sociais então desencadeadas. A recuperação do passado – romântica – como um atalho para construir o salto para o futuro.

Alain Roux narra e interpreta os acontecimentos na China nos estertores da Revolução Cultural (1968 en Chine, l’année de tous les dangers), contribuindo para o estudo de uma revolução de todas as ousadias mas que foi derrotada por desrazões ainda mal elucidadas. Finalmente, Max Elbaum nos apresenta o quadro das agitações reformistas e revolucionárias nos EUA, outro grande centro da contestação em 1968, infelizmente pouco visitado em nosso país.

Que os artigos apresentados provoquem a reflexão crítica e a discussão.

Melhor homenagem que podemos oferecer às lutas de 1968.

 

Daniel Aarão Reis

Maio de 2008

 

Ps. Registramos agradecimentos especiais à revista francesa Contretemps e a seu editor, Lílian Mathieu, que nos permitiram a publicação dos artigos de M. Löwy e de M. Elbaum. Os de Daniel Aarão Reis e de Alain Roux são apresentados pela primeira vez em Espaço Acadêmico.

 

 

 

 

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