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1968 – Recordar,
criticar, discutir
O dossier sobre 1968 que o leitor tem sob os olhos
não se quer uma peça de celebração. Incentiva a recordação – direta
e indireta – para chegar à crítica, e discuti-la, e vê neste tipo de
abordagem a melhor forma de compreender a gesta dos tantos que
pretenderam mudar o mundo ou, pelo menos, virá-lo de ponta-cabeça.
Em alguns momentos e lugares, foi possível virar o
mundo de ponta-cabeça. E nesta posição ele até ficou mais
interessante, e mais divertido, sem dúvida. Mas não durou muito. As
forças reacionárias e cinzentas, sem contar os indiferentes, de
direita e de esquerda, chegaram com seu hálito frio e prudente e
puseram as coisas no lugar. Ou, pelo menos, tentaram fazê-lo.
Mas também não conseguiram.
De fato, o mundo não mais seria o mesmo.
Este foi o principal feito de 1968. As coisas não
mudaram tão rápido como os mais radicais queriam. Nem tão
profundamente. Mas também não continuaram as mesmas. Nunca mais o
seriam.
Estudar 1968 nas múltiplas propostas e cores que
assumiu. No legado que deixou. E também tentar compreender melhor a
força das tradições que venceram, ao menos no curto prazo. Um
programa que não pode se configurar apenas de dez em dez anos, mas
se tornar uma condição permanente da pesquisa e do debate.
Reunimos aqui quatro artigos.
Daniel Aarão Reis (1968 entre passado e futuro)
tenta mostrar, ao longo do ano agitado, a pluralidade das tendências
em luta e em choque: as direitas conservadoras e frias, afinal
vencedoras. As esquerdas moderadas e reformistas. As esquerdas
revolucionárias catastróficas. As esquerdas que despontam então com
os novos movimentos sociais. Um ano antes de tudo plural, infenso a
reducionismos e que precisa ser estudado, sem prejuízo da
caracterização dos aspectos comuns, em cada momento e em cada
lugar, nas especificidades, uma condição para que se torne
inteligível o processo histórico.
Michael Lowy (Le romantisme révolutionnaire de 68)
propõe uma chave de compreensão: o romantismo revolucionário, que
teria estado presente nos momentos mais marcantes das lutas sociais
então desencadeadas. A recuperação do passado – romântica – como um
atalho para construir o salto para o futuro.
Alain Roux narra e interpreta os acontecimentos na
China nos estertores da Revolução Cultural (1968 en Chine, l’année
de tous les dangers), contribuindo para o estudo de uma
revolução de todas as ousadias mas que foi derrotada por desrazões
ainda mal elucidadas. Finalmente, Max Elbaum nos apresenta o quadro
das agitações reformistas e revolucionárias nos EUA, outro grande
centro da contestação em 1968, infelizmente pouco visitado em nosso
país.
Que os artigos apresentados provoquem a reflexão
crítica e a discussão.
Melhor homenagem que podemos oferecer às lutas de
1968.
Daniel Aarão Reis
Maio de 2008
Ps. Registramos agradecimentos especiais à revista
francesa
Contretemps e a seu editor, Lílian Mathieu, que nos
permitiram a publicação dos artigos de M. Löwy e de M. Elbaum. Os de
Daniel Aarão Reis e de Alain Roux são apresentados pela primeira vez
em Espaço Acadêmico.
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