Debris e hubris, ou: quanto custa e quanto
custará a “vitória”
por Eva
Paulino Bueno
Na última semana de abril, na rede pública
nacional de radio (NPR) teve várias entrevistas com
especialistas, parentes, e até com soldados retornados das
guerras no Iraque e no Afeganistão. O assunto, desta vez, é
a precária situação dos que retornam com doenças
psicológicas, e não conseguem receber ajuda adequada do
sistema de apoio aos veteranos. A situação é extremamente
complicada, por várias razões.
Uma delas, tem que ver com a falta de
“glamour visual” de uma doença mental ou psicológica. Se
um/a soldado volta da guerra com braços ou pernas faltando,
ele/a pode se transformar numa espécie de garoto/a de
propaganda do poderio tecnológico do país, ao mostrar os
membros eletrônicos, produzidos em laboratório, que
substituem os que foram perdidos. Já os que voltam com a
desordem pós-traumática, ou com ataques de ansiedade, ou
crises de depressão, não são fáceis de mostrar para ilustrar
o que se pode fazer para ajudá-los, porque sua doença não é
visível da mesma forma que um membro faltando é visível. Mas
as doenças mentais e a psicológicas são tão reais como as
doenças físicas. A página do grupo Antiwar (Contra a
Guerra), dá o número de 320.000 soldados com ferimentos
cerebrais, e de 20.000 o número de soldados que não informam
jamais sobre seus problemas e que preferem tentar resolver
isso por conta própria.
Outra razão da falta de atendimento está
relacionada com a novidade destas doenças para as forças
armadas. Esta é praticamente a primeira vez em que tantos
retornam do campo de batalha com tais problemas. Antes, os
soldados morriam em grande número. Agora, com a melhora dos
veículos e dos equipamentos de proteção pessoal, e a
possibilidade de tratamento de primeiros socorros
praticamente ao lado dos campos de batalha, muitos não
morrem, apesar dos ferimentos. E voltam muitas vezes
aparentemente sãos, mas feridos por dentro, doentes da alma.
A estatística mais recente sobre o número de
suicídios entre os soldados retornados do Iraque e do
Afeganistão mostra que o retorno à vida normal, mesmo para
os que não têm ferimentos físicos, é muito difícil. Em um
programa de televisão recentemente (CBS News), foi dito que
há 18 suicídios por dia entre os veteranos. Este é um número
altíssimo. Mas, alguém poderia perguntar, se existe
tratamento para a depressão e outras enfermidades
psicológicas, por que estas pessoas não pedem ajuda antes de
cometer o ato final?
Quem poderia dizer exatamente por que estas
pessoas estão resolvendo se matar ao retornar à segurança de
suas casas, suas famílias? Considerando que o lugar de onde
voltam pode ser visto como um verdadeiro inferno, é de se
imaginar que voltar para a família seria a melhor coisa do
mundo. Mas não é assim. Após a euforia inicial de estarem em
suas casas, com seus parentes e amigos, entram em uma agonia
interna. Seria remorso pelo que fizeram no Iraque ou
Afeganistão? Seria o horror às imagens do que presenciaram
por lá? Seria o desespero por terem ido, feito o que tinham
sido ordenados a fazer, e visto que não tinham conseguido
nada, além de terem cometido atos criminosos? Imagino que um
painel de psicólogos e psiquiatras poderia dar muitas outras
idéias para estes quadros, e insistir que cada caso é
especial e separado.
Mas a verdade é que não existe um painel de
psicólogos e psiquiatras para cuidar destes veteranos. O que
existe, desde 2005, é uma falta de profissionais capacitados
para cuidar dos que voltam mentalmente e emocionalmente
estraçalhados. Também existem formulários para emprego civil
e para avanço na carreira militar que contêm uma pergunta se
a pessoa já recebeu tratamento por problemas mentais ou
psicológicos. Fazer tais tratamentos, então, reduziria a
empregabilidade da pessoa. É compreensível que muitos
preferem resolver os problemas por si mesmos, e não procurar
ajuda de profissionais.
Depois tem uma outra razão importante para
esta situação: falta de dinheiro. Embora muitos dos que se
alistam o fazem devido às promessas de bolsas de estudo e
outras ajudas financeiras, o que eles não esperavam era que
este dinheiro não ia vir, e que teriam que deixar suas
famílias praticamente à míngua, enquanto vão ao exterior
lutar por uma guerra impopular. Outros noticiários na rede
NPR deram a informação de que muitos soldados retornam às
suas famílias e encontram suas casas tomadas pelos bancos
credores. Nestes últimos dias, começaram a falar de criar
uma assessoria financeira dentro das forças armadas para
ajudar os soldados e suas famílias a resolverem estes
problemas para que eles não percam suas casas.
O pior é que, pelos menos para estes soldados
que voltam fisicamente feridos, faltando partes, com
problemas psicológicos, existe no mínimo um reconhecimento
de que eles merecem tratamento. E quanto aos que já morreram
na guerra? Margaret Griffis, da Antiwar.com, diz que de 19
de março de 2003, até maio de 2008, morreram 4.065
americanos no Iraque, e 29.911 ficaram feridos (não indica
se entre estes estão os feridos mental e psicologicamente).
No Afeganistão, morreram já 495 americanos.
Mas o pior de tudo é que estes números são uma gota d’água
quando comparado ao número de iraquianos mortos: 1.205.025
pessoas! Embora estes números tenham sido obtidos somente
através de cálculos feitos a partir de notícias, e possam
portanto não ser 100% corretos, de todas as formas, mais de
um milhão de mortos é um número impressionante.
*
No seu discurso
“Por que a guerra do Iraque
é desnecessária e insensata”, proferido em 12 de
fevereiro de 2003, na University of Pennsylvania,
Stephen
M. Walt divide sua apresentação em três partes: 1. uma
crítica para as razões dadas para que se fizesse a guerra,
2.a guerra não traria os benefícios apregoados pelos seus
defensores, e 3.os custos da guerra.
Na terceira parte, ele calcula que a guerra custaria 100
bilhões de dólares se tudo saísse bem, e que o custo final,
se as coisas não saíssem tão bem, seria de 1,9 trilhões de
dólares. Depois de cinco anos de crescentes custos
financeiros, já começam surgir cálculos baseados em
pesquisas mais empíricas.
Bill Sardi, em
seu artigo “How Much Does It
Cost Your Household for War?” (“Quanto a sua família
paga pela Guerra”),
admite que existe tanta desinformação, que se torna quase
impossível chegar-se a um número completamente crível. Mas
ele de todas as formas faz comparações e apresenta gráficos
com os números a que chegaram vários grupos que estudaram a
percentagem dos gastos com a defesa: Independent Institute:
27%; Los Alamos Study Group: 38,4%, Friends Committee on
National Legislation:42%, e The War Resisters League: 49%.
Sardi enfatiza que, realmente, os gastos com a guerra são
muito mais altos que 49%, porque esta percentagem é
calculada sobre os gastos federais, não na possível receita
que a guerra torna impossíveis.
Mas, logicamente, o governo de George W. Bush
não quer que o público saiba destas coisas, e também não
quer que o dinheiro para custear a guerra falte. O que faz
então? Começa uma campanha para privatizar o sistema de
seguro social, corta verbas para a educação, corta verbas
para a defesa do território nacional, corta verbas para
vários programas que beneficiariam os próprios soldados que
foram lutar a guerra inglória. O escândalo da semana foram
fotos de soldados recém-chegados da frente de guerra para
serem alojados no Forte Bragg, na Carolina do Norte, e terem
que desentupir os banheiros, dormir em alojamentos imundos,
cheios de mofo.
*
No
dia primeiro de maio de 2003, George W. Bush teatralmente se
apresentou num porta-aviões americano e disse que a missão
estava cumprida. Fez sinal de positivo, e aceitou os
aplausos dos militares presentes, enquanto que ao fundo uma
faixa dizia, “Missão cumprida.” Desde aquele dia, 3.926
soldados americanos, e um milhão de iraquianos foram mortos.
Qual seria a missão a que ele se referia, e que estava
cumprida?
Se retomamos por um momento o discurso feito
por Stephen M. Walt em 2003, a missão no Iraque não era
exatamente “liberar” o povo de Saddam Hussein (que havia
sido apoiado, treinado e mimado pelos Estados Unidos
enquanto ele atacava o Iran). Também não era encontrar as
famosas armas de destruição massiva, a não ser que Bush se
referisse às armas levadas até lá pelas forças armadas
americanas, que seguiram destruindo aldeias, bairros
inteiros, e seus próprios soldados. Também não era para
impedir a proliferação de terroristas de Al-Qaida, porque
como vemos, esta guerra do Iraque funciona como a maior arma
de propaganda para o aliciamento de pessoas para Al-Qaida.
A missão cumprida à qual George W. se referia
talvez fosse algo assim muito simples: ele tinha
definitivamente comprometido o país em uma guerra cujo fim
se torna cada dia mais impossível, cujas perdas em vida,
propriedade, se tornam cada dia mais incalculáveis. Quais os
ganhos desta guerra? Para mim, para você que lê este texto,
para os estudantes que vêem as verbas para a educação
desaparecendo, para os velhinhos de baixa renda que não têm
mais dinheiro para comprar remédios,para a mãe que viu seu
filho ou sua filha partir, uniformizado, para viver em um
lugar com temperaturas de 48 graus centígrados, para os
esposos e esposas, para os namorados, que sabem que ao
deixar seu ente-querido no aeroporto podem nunca mais ver
estas pessoas, para aqueles soldados que perdem pernas e
braços, que ficam com seqüelas físicas e mentais para o
resto da vida, para o povo iraquiano que vê seu território
invadido, que é morto nas ruas como cães sem dono, para o
povo americano que assiste pela televisão imagens editadas,
para o mundo inteiro que tem que sofrer mais esta agonia
desta guerra de pode se transformar num conflito final em
que toda a raça humana pode perecer, nós não ganhamos nada.
Perdemos, e muito.
Mas alguém está ganhando. São os fabricantes
de armas. São os compadres de Bush que têm contratos
bilionários e que raramente prestam contas, e quando
prestam, as contas vêm tão alteradas que ninguém sabe ao
certo o que está lendo.
*
Quando houve a guerra do Vietnã, os protestos
nas ruas se transformaram em eventos memoráveis. Para os
americanos mais velhos, que viveram aquela época conturbada,
uma coisa surpreende com a guerra do Iraque: a quase
inexistência de protestos públicos. Há várias opiniões sobre
este fato, mas eu pessoalmente acho que esta inércia se deve
a que durante a guerra do Vietnã, servir como soldados era
obrigatório para os que eram sorteados. Hoje, os soldados se
alistam voluntariamente. As razões são em sua grande maioria
financeiras: eles querem ter bolsas de estudo para fazer a
faculdade. Então, a maioria deles vem da classe pobre e vêem
nesta troca uma oportunidade de subir na vida quando
voltarem para casa. O que acabam descobrindo, ao retornar, é
que não têm ajuda financeira, têm problemas físicos e
mentais que serão tratados mal, ou serão ignorados pelas
autoridades médicas militares.
Suas famílias se sentem amordaçadas pelo medo de fazer algo
que vai custar àquele soldado o pouco que obtêm. E daí o
silêncio, a falta de protestos gerais e marchas no país.
Na última semana de abril, os noticiários
começaram a mostrar imagens do desenvolvimento nuclear do
Iran. E, concomitantemente, imagens de aviões caça que podem
bombear aquelas instalações. É bem possível que George W.
Bush, antes de terminar seu malfadado governo, queira deixar
como herança a volta do “draft” — conscrição obrigatória — e
outra guerra de conseqüências incalculáveis. Nada seria
menos surpreendente, considerando-se o seu governo até
agora.
*
Durante o tempo que me levou para escrever
este artigo — dois dias lendo material, um dia pensando em
como escrevê-lo de forma sucinta, e duas horas para
digitá-lo — 54 veteranos da guerra do Iraque se suicidaram,
uns 7 soldados morreram no Iraque, e 658 iraquianos foram
mortos. Pode ser que estes cálculos (baseados em números
fornecidos nos artigos mencionados, e simples divisões de
dias por números de mortos até agora) não estejam
completamente corretos. Mas o que está correto é o fato do
enorme sofrimento que esta guerra causa ao povo americano e
ao povo iraquiano, e à própria nação, que sofre uma perda
diária de moral aos olhos do mundo.
*
Enquanto isto, a imprensa americana se dedica
a debater se o fato do candidato a candidato a presidente
Barak Obama não usar uma bandeirinha americana na lapela
significa que ele não é patriota.
Leia o discurso na íntegra em http://ccat.sas.upenn.edu/fsawi/walt.html
Leia este excelente artigo em
http://www.lewrockwell.com/sardi/sardi59.html e
veja as estatísticas completas, assim como as
projeções do que esta guerra está causando em termos
de estragos a todo o sistema financeiro do país.