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MÁRIO HENRIQUE CASTRO BENEVIDES
Bacharel em Ciências Sociais e
mestrando em Sociologia – Universidade Federal do Ceará
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Um
Conceito de Civilização –
Escritos de Euclides da Cunha
por Mário
Henrique Castro Benevides
Introdução
Dentre as descrições feitas da Guerra de Canudos
– conflito armado, que, em 1897, destruiu a cidade de mesmo nome
(também conhecida como Belo Monte), no sertão da Bahia – a
interpretação do escritor Euclides da Cunha (1866-1909), publicada
sob a forma do livro Os sertões: campanha de Canudos, de
1902, ainda é a mais presente, a mais discutida nos meios literários
e históricos (GALVÃO, 2002), a despeito das muitas críticas que
sofre – críticas ao teor cientificista de seus argumentos, à
linguagem erudita ou rebuscada de sua escrita, “à parcialidade de
seu depoimento, à falta de tratamento profissional das fontes que
usou e ao caráter datado ou contraditório de muitas de suas
avaliações” (ZlLLY, 2002: 3). Essa interpretação divulga a violência
do conflito e seus personagens centrais – os jagunços, os
guerreiros canudenses – tanto como uma narrativa esteticamente
organizada como na forma de uma observação com pretensões de
objetividade científica, classificada até como um dos primeiros
tratados de sociologia no Brasil (FERNANDES, 1977; SEVCENKO, 1983;
SODRÉ, 1995).
Nesse contexto, onde a classificação do trabalho de
Euclides da Cunha e mesmo de seu pensamento era e ainda é uma
questão debatida,
um termo merece destaque, por sua variabilidade no discurso deste
pensador: civilização. Nos primeiros textos deste escritor a
palavra “civilização” é citada como um conceito do qual não se
escapa, como uma força histórica e como uma lei natural: “A
civilização é o corolário mais próximo da atividade humana sobre o
mundo; (...) o seu curso, como está, é fatal, inexorável” (CUNHA,
1995 [1888]: 587). Posteriormente, no entanto, n’Os sertões,
em meio a sua visão analítica e literária, ela também se torna alvo
de crítica, um conceito relativizado, tratado como uma imposição
estrangeira, uma pressão exterior e estranha ao mundo nacional:
“Estamos condenados à civilização. Ou progredimos ou
desaparecemos.” (Idem, 1982 [1902]: 60; grifo meu). Até
chegar, mais tarde ainda, no momento de definitiva consagração do
escritor – sua posse na Academia Brasileira de Letras, em 1906 –
carregado de uma ambigüidade sutil:
O qüinqüênio de 1875-1880 é o da nossa
investidura um tanto temporã na filosofia contemporânea, com
seus vários matizes, do positivismo ortodoxo ao evolucionismo no
sentido mais amplo, e com as várias modalidades artísticas,
decorrentes, nascidas de idéias e sentimentos elaborados fora e
muito longe de nós.
A nossa gente, que bem ou mal ia seguindo com os
seus caracteres mais ou menos fixos, entrou, de golpe, num
suntuoso parasitismo. Começamos a aprender de cor a civilização:
cousas novas, bizarras, originais, chegando, cativando-nos,
desnorteando-nos, e enriquecendo-nos de graça.
(Discurso de posse na Academia Brasileira de
Letras, 18 de dezembro de 1906. Retirado de
www.academia.org.br em 13/12/2006).
O presente texto discute – sem se dedicar a grandes
compilações e sem a pretensão de reconstruir longamente a história
de um conceito – o “deslocamento” da palavra civilização nos
escritos de Euclides. Façamos um passeio pelo front e pelas
batalhas que sua linguagem recupera e observemos uma pequena parte
de sua elaboração.
Escritor e Civilização
Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha nasceu em 1866,
em uma fazenda do município de Cantagalo, província do Rio de
Janeiro. Neto de traficante de escravos, filho de guarda-livros,
pertencia a uma família então sem grandes patrimônios. Cursou
engenharia na Escola Militar da Praia Vermelha, uma opção necessária
já que não dispunha de recursos para custear os estudos na Escola
Politécnica, instituição de formação civil. A educação militar,
gratuita, que lhe direcionou para a carreira das armas, de onde se
afastaria em 1896, já tenente, tinha forte influência de idéias
positivistas e filosóficas, como lembra Carone (1980). Republicano
convicto ainda nos tempos do Império, o jovem Euclides já escrevia
artigos para o pequeno jornal O democrata e neles já mostrava
suas posições políticas de crítica ao regime imperial. Mas, foi a
Guerra de Canudos que tornara seu nome conhecido nos meios letrados
do país. O jornal O Estado de São Paulo envia Euclides da
Cunha como correspondente de Guerra para a frente de batalha, no
interior da Bahia. Formado engenheiro civil, participa como
testemunha e repórter dos eventos que viriam compor, nos cinco anos
seguintes, seu livro mais conhecido: Os sertões.
A idéia de civilização, associada a termos como
“desenvolvimento” e “liberdade”, era bastante presente em parte do
discurso intelectual da época, fruto de influências do pensamento
europeu, (SEVCENKO, 1983). Era, ao mesmo tempo, criticada, no
sentido de seu caráter estrangeiro, uma vez que este momento
histórico era palco da luta intelectual pela construção de uma
identidade nacional, empresa que se queria livre de fórmulas
invasoras (idem, ibidem). O contexto do século XIX entendia como
civilização a estrutura cultural e social do Velho Mundo, em
particular a França, onde o termo fora cunhado (ELIAS, 1994b). No
espectro do pensamento positivista e evolucionista, produzidos
naquele universo, a civilização era o modelo de desenvolvimento para
a humanidade. Quando as pressões por competição econômica e avanço
das técnicas de produção chegaram com força ao Brasil Império, a
civilização estava lá, na boca e nas mentes dos defensores do
“progresso” (CARVALHO, 1998).
Para Norbert Elias (1994) civilização é um processo,
um encadeamento de eventos, mudanças sociais e interiorizações, que
se dirige, ao longo da história ocidental, para um maior controle
social, um maior controle técnico do homem sobre a natureza e uma
maior disseminação de autocontrole entre os indivíduos (ELIAS,
1994c). Esse processo estaria intimamente ligado a outros, como a
ampliação da noção de “eu” provocada pela divisão social do trabalho
(idem, ibidem) e uma integração política que ganhara novo ritmo com
a formação dos Estados nacionais, nos fins da Era Medieval. (idem,
ibidem). O processo civilizador como chama Elias, relacionado
a essa série de outros processos sociais e históricos, nem sempre
caminharia “para frente”, passando às vezes por recuos que se
traduzem em seus contrários (crises políticas, desintegrações
sociais, perda de controle social, aumento da violência no
cotidiano).
O termo “civilização” teria origem na sociedade
francesa dos fins da Idade Média (ELIAS, 1994b).
Divulgada, ao longo dos séculos, como um sinônimo de nobreza,
de superioridade cultural, de humanidade, tal palavra ganhou força e
lugar em todo o mundo ocidental. Seu aspecto mais profundo era o de
um conjunto de normas voltadas para a lógica de “domesticação” e
controle dos hábitos humanos – formas “corretas” de vestir-se, de
porta-se à mesa, de falar em público, etc. Ser “civilizado”,
significava, no contexto europeu do período, obedecer a tais normas.
Assim, ainda de acordo com Elias, a civilização se firmou como
instrumento de distinção social
tornando-se um dos processos mais ativos no correr da
história. A despeito de seus “retrocessos” (Elias aponta a sociedade
alemã da Segunda Guerra Mundial como um deles [1998]) a civilização
(ou o “processo civilizador”, no jargão do autor)
teria se relacionado com as transformações conjunturais do
Ocidente e seria agora centro de sua História (ELIAS, 1994c).
No caso de Euclides da Cunha, as variações de seu
pensamento, seu visível interesse no mundo sertanejo, juntamente com
sua tentativa de abarcar conceitos aparentemente diferentes como
filosofia, ciência e literatura, orquestraram uma construção
conceitual importante: o autor se apropriava da idéia de
civilização, tão alardeada nos círculos republicanos do período,
como um termo e uma noção móvel, central no que toca seu lugar de
observador de uma realidade associada comumente às suas antíteses: a
“barbárie”, o desconhecido, o selvagem (POMPA, 2003). Os
“singularíssimos civilizados” (como ele chama os soldados
republicanos que atacaram Canudos [CUNHA, 1982: 437]) seriam
“mercenários inconscientes” da civilização que avançava sobre os
sertões. Mas, nos termos de Euclides, essa campanha, impulsionada
por leis naturais nas quais ele acreditava, era também um crime pela
destruição e morte causada (idem, ibidem). A mesma civilização como
modelo de organização, como ordem social por excelência, era, para o
autor, também produtora de violências.
O termo está presente na definição de Os sertões,
na apresentação de seus objetivos:
Intentamos esboçar, palidamente embora, ante o
olhar de futuros historiadores, os traços atuais mais
expressivos das sub-raças sertanejas do Brasil. E fazêmo-lo
porque a sua instabilidade de complexos de fatores múltiplos e
diversamente combinados, aliada às vicissitudes históricas e
deplorável situação mental em que jazem, as tomam talvez
efêmeras, destinadas a próximo desaparecimento ante as
exigências crescentes da civilização e a concorrência
material intensiva das correntes migratórias que começam a
invadir profundamente a nossa terra. (CUNHA, 1982: 16, grifo
meu).
A presença constante da palavra nos textos do autor
demarca as fronteiras do encontro cultural e político que Euclides
vivia e que a Guerra, a seu modo, representava. Ela surge também nas
descrições do canudense, do jagunço e atravessa a lógica do
conflito-enredo:
O caso, vimo-lo anteriormente, era mais complexo
e mais interessante. Envolvia dados entre os quais nada valiam
os sonâmbulos erradios e imersos no sonho da restauração
imperial. E esta insciência ocasionou desastres maiores que os
das expedições destroçadas. Revelou que pouco nos avantajávamos
aos rudes patrícios retardatários. Estes, ao menos, eram
lógicos. Insulado no espaço e no tempo, o jagunço, um
anacronismo étnico, só podia fazer o que fez - bater, bater
terrivelmente a nacionalidade que, depois de o enjeitar cerca de
três séculos, procurava levá-lo para os deslumbramentos da nossa
idade dentro de um quadrado de baionetas, mostrando-lhe o brilho
da civilização através do clarão de
descargas.
Reagiu. Era natural. (Idem, ibidem, p 262, grifo
meu).
A animalidade primitiva, lentamente expungida
pela civilização, ressurgiu, inteiriça. Desforrava-se
afinal. Encontrou nas mãos, ao invés do machado de diorito e do
arpão de osso, a espada e a carabina. (idem, ibidem, p 405,
grifo meu).
O tom aparentemente inconcluso do conceito, em
Euclides, não implicava, portanto, em uma indefinição casual: está,
como outras noções, coligado ao processo de elaboração intelectual
que o autor realiza ao longo de sua vida como escritor e pensador.
A civilização aqui é tanto a sociedade européia como os conjuntos
nela inspirados, que, de um modo ou de outro, reordenavam seu
espírito cultural. Aparece nos limiares de sua construção simbólica
– a obra completa Os sertões –, como um artefato
estético/literário gerador de reflexão: Euclides costurava a ciência
– e muitas dos preconceitos – de seu tempo ao amplo conjunto de
fatores singulares da realidade brasileira. No entanto, mais do que
produzir um misto de ensaio analítico amparado pela ciência
positivista ou uma peça de Literatura realista, o autor cruzou as
classificações para expor suas experiências e impressões como
testemunha da Guerra de Canudos, dando à idéia de civilização uma
marcação de processo histórico não necessariamente positiva, não
absolutamente pacificadora, hostil às existências das populações
sertanejas:
Insistamos sobre esta verdade: a guerra de
Canudos foi um refluxo em nossa história. Tivemos,
inopinadamente, ressurreta e em armas em nossa frente, uma
sociedade velha, uma sociedade morta, galvanizada por um doido.
Não a conhecemos. Não podíamos conhecê-la. (...) essas psicoses
epidêmicas despontam em todos os tempos e em todos os lugares
como anacronismos palmares, contrastes inevitáveis na evolução
desigual dos povos, patentes sobretudo quando um largo
movimento civilizador lhes impele vigorosamente as camadas
superiores. (idem, ibidem: 483, grifo meu).
O “movimento civilizador” de que nos fala o escritor
brasileiro é uma viagem de mudança drástica, que ele muitas vezes
interpreta como incontrolável, evolutiva, mas que não encara como
ingênua, livre de conflitos e danos sociais – uma
civilização-guerra, contada como uma história de guerra da
civilização contra o mundo do Diferente.
A relevância da história deste conceito está ligada à
importância de entendermos a civilização nos contextos atuais, onde
ela é freqüentemente evocada. Em tempos onde a violência estampa o
mundo do discurso no Brasil (representada e apresentada pela
imprensa ou pelo cinema, por exemplo) a civilização é retomada como
palavra de ordem, como noção que se quer recompor. Discuti-la no
universo da literatura, acredito, é alargar o campo de visão do
mundo social. Analisá-la nos textos de Euclides da Cunha não é
procurar uma origem ou um “discurso fundador”, mas desnudá-la dentro
de um símbolo construído pela história da crítica. Euclides da Cunha
pode não ter sido o primeiro a abordar esta noção na língua
portuguesa – a obra crítica de Eça de Queiroz, por exemplo, o
precedeu nisto –, mas a centralidade de sua obra no palco da escrita
– centralidade também social e historicamente construída pelos
campos intelectuais brasileiros e estrangeiros – é suficientemente
importante para o debate.
Euclides da Cunha encarna parte dos antecedentes
intelectuais dessa representação social. Ele mescla preconceitos e
eurocentrismos, mas esboça também uma crítica ao mundo
não-brasileiro quando fala de civilização no Brasil. Sua obra
oferece subsídios para repensarmos muitos conceitos, para que
possamos manter o poder de reflexão de nossa memória política. Que
civilização, material e simbólica, estamos construindo? De que
civilização estamos falando?
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www.scielo.org
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