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SUZANE DA ROCHA VIEIRA
Mestre em Educação pela Universidade Federal de
Santa Catarina – UFSC e aluna especial do Programa de
Pós-graduação em Educação Ambiental da Fundação Universidade
Federal do Rio Grande – FURG
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A educação ambiental e o currículo escolar
por Suzane da Rocha Vieira
“Estrangeiro eu não vou ser
Cidadão do mundo eu sou”
Milton Nascimento
Nos últimos anos, as questões ambientais têm
adquirido uma grande importância em nossa sociedade. Com as mudanças
que o mundo vem sofrendo, a partir da crise da modernidade,
acentuaram-se os números de estudos na busca de soluções para os
problemas sociais, ambientais, políticos e econômicos que se está
passando. Assim começam a surgir novos paradigmas que visam uma
direção mais sistêmica e complexa de sociedade.
Foi a partir da Conferência de Estocolmo, em 1972 que
se ampliou o conceito de Educação Ambiental e na Conferência de
Tibilisi em 1977 que internacionalmente reconheceu-se que:
A Educação Ambiental é um processo de
reconhecimento de valores e clarificação de conceitos,
objetivando o desenvolvimento das habilidades e modificando as
atitudes em relação ao meio, para entender e apreciar as
inter-relações entre os seres humanos, suas culturas e seus
meios biofísicos. A Educação Ambiental também está relacionada
com a prática das tomadas de decisões e a ética que conduzem
para a melhoria da qualidade de vida. (SATO, 2002: 23-24)
Assim, a partir da década de setenta emergiram em
todo o mundo discussões acerca da Educação Ambiental, e tais
discussões vêm ganhando espaço com o passar dos anos. E, como não
poderia deixar de ser, um desses espaços é a escola. Dessa maneira,
urge uma reformulação no sistema educativo, a partir de novas
práticas pedagógicas que sejam promotoras de sujeitos de ação e não
de adaptação, de cidadãos responsáveis e conscientes de seu papel no
mundo.
Dessa forma, criou-se, no mundo inteiro, um consenso
mundial de que o nosso futuro, enquanto homens e mulheres
organizados em sociedade, depende das relações estabelecidas entre
os homens e os recursos naturais. Inicialmente, a Educação Ambiental
apresentava um caráter preservacionista, com ações voltadas apenas
para o cuidado com a natureza mas hoje sabemos que ela não se limita
simplesmente às modificações ambientais, ela possui um caráter
social e político que não podem ser negados, uma vez que o ambiente
é um todo complexo.
Nesse processo, a Educação Ambiental vem adquirindo
uma grande importância no mundo, sendo hoje pertinente que os
currículos escolares busquem desenvolver práticas pedagógicas
ambientalizadas. Assuntos como ética, estética, respeito e cidadania
planetária devem estar presentes diariamente na rotina da sala de
aula.
Como perspectiva educativa, a Educação Ambiental deve
estar presente no currículo de todas as disciplinas, uma vez que
permite a análise de temas que enfocam as relações entre a
humanidade, o meio natural e as relações sociais, sem deixar de lado
suas especificidades.
É necessário ter claro que a Educação Ambiental não
deve estar presente no currículo escolar como uma disciplina, porque
ela não se destina a isso, mas sim como um tema que permeia todas as
relações e atividades escolares, buscando desenvolver-se de maneira
interdisciplinar, conforme preconiza o Plano Nacional de Educação
Ambiental - Lei 9795/99.
A
interdisciplinaridade é explicada por Norgaard (1998) através de uma
metáfora muito interessante, nela ele simboliza a orquestra para
explicar a importância da interdisciplinaridade. Se todos os
pesquisadores envolvidos numa pesquisa possuíssem os mesmos
entendimentos sobre um determinado conhecimento, estaríamos tocando
um só instrumento e alcançando as mesmas notas musicais. Mas possuir
conhecimentos complementares ou divergentes seria comparável a uma
orquestra, onde tocar juntos requer uma partitura mais elaborada e
uma competência mais considerável. Ainda que numa orquestra os
músicos não possam escolher as partituras que tocam juntos ou eleger
o regente, o som da improvisação orquestral pode representar uma
revolução, onde a dissonância pode ser compreendida como parte da
transição da modernidade, e onde os conhecimentos se complementam
para a interpretação conjunta de uma realidade.
Portanto, a dimensão ambiental traz a necessidade de
uma rica orquestra musical, uma vez que a educação ambiental,
deve ser entendida como educação política, no sentido de que ela
reivindica e prepara os cidadãos para exigir justiça social,
cidadania nacional e planetária, autogestão e ética nas relações
sociais e com a natureza
Para Moreira “nas escolas não se aprendem apenas
conteúdos sobre o mundo natural e social; adquirem-se também
consciência, disposições e sensibilidades que comandam relações e
comportamentos sociais do sujeito e estrutura sua personalidade”
(1995: 50). Assim, a interdisciplinaridade envolve muito mais do
que integração entre as disciplinas, ela precisa envolver
conhecimentos do cotidiano dos alunos e que lhes traga significado.
Por isso, a Educação Ambiental precisa fazer parte do cotidiano
escolar, para refletir sobre questões atuais e pensar em que mundo
se deseja viver, e, então, por em prática a máxima do pensamento
ecologista mundial de poder agir local e pensar global.
A maneira como o currículo é oferecido na maioria das
escolas não permite um arranjo flexível para que os professores
possam incluir a dimensão ambiental em suas aulas. É necessário que
o currículo seja entendido como “algo que se constitui nas relações
intersubjetivas na comunidade escolar, relações essas inerentemente
políticas, e, portanto, mesmo que implicitamente sempre
intencionais. Currículo é um processo inacabado” (GALIAZZI, GARCIA,
et al. 2002: 100). É concordando com Sacristán (1998) que
compreende o currículo como algo construído no cruzamento de
influências e campos de atividades diferenciadas e
inter-relacionadas, permitindo analisar o curso de objetivação e
concretização do currículo em vários níveis e assinalando suas
múltiplas transformações,que se viabiliza a educação ambiental na
escola.
De acordo com Sato,
Há diferentes
formas de incluir a temática ambiental nos currículos escolares,
como atividades artísticas, experiências práticas, atividades
fora da sala de aula, produção de materiais locais, projetos ou
qualquer outra atividade que conduza os alunos a serem
reconhecidos como agentes ativos no processo que norteia a
política ambientalista. Cabe aos professores, por intermédio de
prática interdisciplinar, proporem novas metodologias que
favoreçam a implementação da Educação Ambiental, sempre
considerando o ambiente imediato, relacionado a exemplos de
problemas atualizados (2003: 25).
Atualmente, o currículo escolar vem transformando-se
e atendendo as exigências do paradigma da pós-modernidade, que
entende a sociedade como uma totalidade. Segundo Santos (2000), a
modernidade está assentada sobre dois pilares de construção do
conhecimento, onde o primeiro é o conhecimento-regulação e o segundo
o conhecimento-emancipação. Sendo que o conhecimento que se
consagrou foi o conhecimento regulação, dominando e anulando as
possibilidades de implementação do conhecimento emancipação.
Conforme Barcelos (2002), a retomada do conhecimento
emancipação permitirá o surgimento de uma nova relação entre
conhecimento e cidadania, em que o ato de conhecer é também ato de
reconhecer que o outro não mais é visto tomado apenas como objeto,
mas como sujeito do conhecimento. E é para esse tipo de conhecimento
que a Educação Ambiental está voltada, um conhecimento construído,
desenvolvimento da cidadania, da autonomia e da ética.
Entretanto, Barcelos (2002) apontará que para se
atingir o conhecimento emancipação é necessário uma construção
paradigmática, que “permite distinguir as disciplinas sem, no
entanto, separá-las, isolá-las, associar sem, com isso, reduzir ou
anular qualquer uma das partes ou disciplinas envolvidas”. O que não
será uma tarefa muito fácil, tendo em vista que tudo no mundo está
fragmentado, mas para se construir uma conscientização
ambiental/planetária é necessário desconstruir a
compartimentalização do conhecimento.
Considerando que a Educação Ambiental tem por
objetivo a busca do conhecimento integrado de todas as áreas para a
solução dos problemas ambientais, a fragmentação do conhecimento
perde o sentido, uma vez que esta educação visa o conhecimento
emancipação. Portanto, a EA tem sido identificada como
transdisciplinar isto é, transpassa todas as disciplinas já que ela,
segundo Sato, “sustenta todas as atividades e impulsiona os aspectos
físicos, biológicos, sociais e culturais dos seres humanos” (2002:
24).
Porém, a construção
de um currículo deve levar em conta o indivíduo, a sua sociedade e a
sua história de forma a criar uma situação de um compromisso que
possa gerar a transformação. Sobre o desenvolvimento de um currículo
Giesta, assim se pronuncia:
o estudante
analise a coerência de seus próprios valores e comportamentos,
assim com da sociedade; aprenda a obter informações e
desenvolver competências para perceber o ambiente particular
como parte as sociedade global, entre outras aprendizagens que
lhe dêem suporte para melhor compreender o mundo, os fatos, as
pessoas. (1999:120).
Portanto, é evidente a necessidade de trazer para os
currículos escolares os conhecimentos, os valores e comportamentos
do estudante e da sociedade da qual ele é partícipe em uma relação
recíproca de influências que envolvem uma variedade de conceitos e
visões de mundo. As palavras de Giesta expressam essa realidade da
seguinte maneira: “a educação se dá na interação com as pessoas e
com o meio ambiente” (1994: 183).
Percebe-se, então, que o currículo é uma construção
social, no sentido que está diretamente ligado a um momento
histórico, a uma determinada sociedade e as relações que esta
estabelece com o conhecimento. Partindo disto, existe nas diversas
realidades uma pluralidade de objetivos com relação ao que ensinar,
no sentido de que os conteúdos propostos compõe um quadro bastante
diverso e ao mesmo tempo peculiar.
Deste modo, a
escola ao propor o desenvolvimento do currículo escolar voltado para
a questão ambiental, deve proporcionar a participação de todos no
processo de sua construção execução, tendo os alunos como sujeitos
do processo. Os conteúdos precisam ser revistos para que os mesmos
convirjam entre as disciplinas de forma interdisciplinar, além de
terem sua importância dentro da Educação Ambiental.
A Educação
Ambiental precisa ser entendida como uma importante aliada do
currículo escolar na busca de um conhecimento integrado que supere a
fragmentação tendo em vista o conhecimento emancipação. Uma vez que,
segundo Sato, a EA “sustenta todas as atividades e impulsiona os
aspectos físicos, biológicos, sociais e culturais dos seres humanos”
(SATO, 2002: 24). Sendo assim, apresenta-se como uma peça importante
no currículo escolar.
Referências
BARCELOS, T. M.
(2002). Subjetividade: inquietações contemporâneas. Educação e
filosofia 32, (16), 149-159.
GALIAZZI, M. C. et.
Al.. Construindo Caleidoscópios: organizando unidades de
aprendizagem. Revista eletrônica do Mestrado de Educação
Ambiental, Rio Grande, v. 09, p. 98 –111, jul. – dez. 2002.
GIESTA, N.C. Tomada
de decisões pedagógicas no cotidiano escolar. Porto
alegre:UFRGS, 1994.
MOREIRA, A . F.
Currículos e Programas no Brasil. Campinas: Papirus, 1995.
NORGAARD, Richard.
A improvisação do conhecimento discordante. In Ambiente &
Sociedade, Ano I, n. 2, p. 25-40, 1998.
SACRISTÁN, J. G. O
currículo: uma reflexão sob a prática. 3ed. Porto Alegre:
Artmed, 1998.
SANTOS, B. S. A
critica da razão indolente – contra o desperdício da
experiência. São Paulo: Cortez, 2000.
SATO, M. Educação
Ambiental. São Carlos: Rima, 2002.
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