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SERGIO
SKLAR
Psicólogo, mestre em Filosofia pela Universidade
Federal do Rio de Janeiro (1985) e doutor em Filosofia pela
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da
Universidade de São Paulo (2004). Docente do Magistério Superior
há 23 anos, sendo, desde 1988, Professor Titular da Universidade
Estácio de Sá. Autor de diversos livros e artigos sobre
Filosofia e Psicanálise, tornou-se, recentemente,
psicanalista-membro da Sociedade Internacional de História da
Psiquiatria e da Psicanálise (Paris)
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A Darstellung freudiana:
considerações sobre uma presentificação psíquica
por Sergio Sklar
A
atividade psíquica: um aparelho em questão para Freud
Em 1938, um ano antes de falecer, Sigmund Freud
(1856-1939) foi forçado a abandonar Viena, pois a Áustria caía em
mãos dos nazistas, fixando nova residência em Londres. Da espera que
a mudança acontecesse, entre Julho e Setembro desse ano, projetou a
realização de um texto, Esboço de Psicanálise, que pudesse
apresentar os grandes conceitos da ciência psicanalítica. Mesmo
inacabado, o trabalho reedita projetos anteriores seus de criar
referências introdutórias, que apresentassem o modo de pensar
analítico. Constituído por ensaios diversos, ele é aberto sob o
enfoque à questão da natureza do psíquico, cuja generalidade nos
remete diretamente ao que é investigado pela Filosofia. Admite,
assim, que suas descobertas dependam de seus próprios resultados: o
conhecimento de nossa vida mental ocorreria pela existência do
encéfalo, órgão do sistema nervoso, e por atos conscientes,
afirmando, na seqüência, que o mecanismo de um aparelho sirva de
localização para a atividade psíquica. Adotando a primeira parte
desta introdução como meio de entrada na psicanálise, concluímos que
ela analisa uma idéia filosófica – compreender como a vida orgânica
(o corpo) relaciona-se diretamente com pensamentos, idéias,
abstrações (criadas pela psique, alma, ou mente) – sob uma
organização interna relacionada ao funcionamento psíquico.
E é essa conclusão que nos leva, na obra, ao ano de
1895. O Projeto de uma Psicologia (FREUD, 1991a) é
finalizado, então, sob a idéia de um aparelho psíquico. Sua
atividade nos levaria a compreender a memória, centro da
investigação psicológica – a capacidade que tem a mente de recordar,
ou imaginar no tempo presente, o que é vivenciado em fases passadas;
à primeira vista, assim, processos puramente mentais estariam na
base de um aparelho, quando este é confrontado com circunstâncias
reais vividas pelo homem no meio em que vive, ou, o que pode-se
nomear a realidade externa ao psicológico. Sem ser totalmente
equivocada, essa consideração inclui uma evidência que reorienta, no
entanto, seu sentido geral; de fato, o aparelho capaz de organizar o
que a mente imagina só funcionaria quando retém níveis físicos de
excitações oriundos do meio externo ao psiquismo. Traduzindo este
enunciado por conceitos da psicologia, Freud demonstra como a
memória está relacionada com a percepção – esta desencadeada pela
ação de estímulos (impressões) pertencentes à realidade vivida pelo
homem – moldando toda reflexão consciente do ser humano.
Condicionada, assim, ao que se passa no mundo físico, o que é
mental, pertencente à imaginação, teria suas raízes no que é
vivenciado concretamente pelo homem.
Longe de ser esquecida, se realizamos uma leitura
mais minuciosa da obra, essa discussão desenvolve-se paulatinamente
de 1895 a 1900 por quatro textos significativos.
No Projeto (FREUD, 1991a), inicialmente. O
funcionamento interno do aparelho ocorreria através de células
nervosas, ou neurônios, que, sob o efeito de estímulos, absorvem
excitações da realidade externa ao psicológico. Freud distingue,
assim, neurônios que não oferecem resistência à passagem de
excitações – permeáveis, ou j – e outros que utilizam a estimulação
recebida do exterior para desencadear processos psíquicos –
impermeáveis, ou ψ. Os primeiros estariam na base da percepção,
enquanto os últimos explicariam a memória. Esta proximidade do
psíquico ao real concreto reaparece, um ano após, na carta 52 ou 112
a Wilhelm Fliess (FREUD, 1962, apud, MASSON, 1986),
otorrinolaringologista de Berlim, com o qual Freud manteve uma
extensa correspondência entre 1887 e 1902: segundo ele, estímulos
externos chegam à percepção, suscitando uma forma de ler ou
retranscrever psiquicamente o que é apreendido no mundo real. Ainda
nessa mesma correspondência, em 1887, na carta 60 ou 125 (FREUD,
1962, apud, MASSON, 1986), Freud conclui que uma mensagem
telegráfica contendo em sonho o nome da cidade italiana de Secerno,
estaria relacionada a três acontecimentos recentes, tendo, também, a
forma de uma imagem vinculada a ocorrências concretas. Em 1900,
finalmente, ampliando ainda mais esta idéia, ele demonstra, numa
grande parte do sexto capítulo da Interpretação de Sonhos (FREUD,
1991b), que o mundo onírico só é colocado em atividade quando produz
imagens que sinalizam o que ocorre num certo momento na realidade.
O rico acervo da língua alemã, sobre o qual a obra
foi construída, torna mais acabada esta aproximação do psíquico ao
concreto. O recurso a um termo, ganhando um sentido conceitual que
aparece em certas passagens dos textos mencionados, indica como a
atividade interna está condicionada também ao que ocorre
externamente: a Darstellung. Sua etimologia é um dos pontos
chaves dessa discussão.
A Darstellung
O substantivo feminino die Darstellung resulta
da contração do prefixo dar- com o verbo stellen;
etimologicamente,
“[o] verbo germânico-ocidental stellen (médio-alto-alemão,
antigo-alto-alemão), no neerlandês stellen, no inglês
stiellan, deriva-se (...) do substantivo Stall do
antigo germânico e significa exatamente “trazer algo para uma
(ou, colocar numa) posição”. Foi empregado em geral, então, como
[correspondente] para o verbo stehen, especialmente nos
sentidos de “colocar em pé, posicionar; colocado, inerte,
rígido; posição, suporte, poste, armação [cavalete ou estante]”,
sendo provavelmente uma ampliação de stellen”. (DROSDOWSKI,
1989: 707)
Sobre Stall, descobrimos que “significa
exatamente “posição, lugar” (até à primeira fase do
moderno-alto-alemão). Viehstall (“estábulo”) é, de fato, a
posição dos animais domésticos”. (DROSDOWSKI, 1989: 699)
Dar-, por sua vez, nos
leva a compreender como se forma a contração dar-stellen:
“Além do mhd. [médio-alto-alemão], ahd.
[antigo-alto-alemão] där, [encontrado] em daraus
(“disto”), darin (“naquilo”), darunter
(“debaixo”), os quais respondem à pergunta onde?, existia
um breve prefixo no médio-alto-alemão dar(e) (dara
no antigo-alto-alemão, como em dahin), tomando parte [na
construção de] verbos como dar-bieten (“apresentar”),
dar-legen (“mostrar”, “expor”), dar-stellen, nos
advérbios daran (“nisso”), darein (“ali”)
(pergunta aonde?) e naqueles que perderam o r, dagegen
(“em oposição”), dazu (“para isso”), etc. Pertence,
igualmente, à raiz do artigo [definido] der” (“o”). (DROSDOWSKI,
1989: 115)
Darbieten é utilizado
com freqüência para atores que desempenham ou mostram seus papéis,
significando, no caso, “apresentar”, “mostrar” (zeigen) (DROSDOWSKI,
1989: 81); em acréscimo, as traduções que se encontram no dicionário
Langenscheidt (1984: 799) reforçam a idéia de atuação,
“oferecer, presentar”, salientando-se o sentido de “performance”
para sua forma substantivada Dar-bietung. Darlegen,
ainda segundo esta mesma fonte, equivale a dar um esclarecimento,
abrangendo os sentidos de “expor, explanar, relatar, mostrar,
demonstrar”. Encontramos em ambos a menção ao uso de conteúdos, ora
para um ator que mostra seus atributos (conteúdos) artísticos, ora
para alguém que esclarece algo sobre um conteúdo determinado:
correspondência, assim, com dar-stellen. Aproximação que só
se completa, no entanto, se lembrarmos que este último significa,
entre sentidos marcantes, “colocar diante dos olhos” (vor Augen
stellen), “mostrar” (zeigen), “caracterizar/descrever” (schildern),
indicando, como significado geral, o ato de “tornar algo visível” (sichtbar
machen) (DROSDOWSKI, 1989: 707). Deste último sentido, chegamos
a uma tradução possível de darstellen: “presentificar”.
1895-1900: a Darstellung freudiana como
presentificação psíquica
Em torno do funcionamento do aparelho, abrangendo
passagens significativas dos textos mencionados de 1895 a 1900, o
sentido de uma Darstellung como presentificação psíquica se
amplia. Nas nove primeiras partes do Projeto, Freud (1991a)
demonstra que as cargas de excitação, avançando dos neurônios
permeáveis j aos neurônios impermeáveis ψ e abrindo – ou
presentificando – vias de condução nervosa nestes últimos, permite a
conservação de lembranças no psiquismo. Na carta 52 ou 112 (FREUD,
1962, apud, MASSON, 1986), ele supõe que o material
retranscrito internamente no psiquismo resulta do que foi
vivenciado, ou presentificado, em épocas de vida que se sucedem,
afirmando, ainda, que só ocorreriam retranscrições psíquicas na
medida em que elas “presentificam, uma depois da outra, a atividade
de épocas de vida sucessivas” (“...die aufeinander folgenden
Niederschriftem die psychische Leistung von sukzessiven Lensepochen
darstellen”). Já na Interpretação de Sonhos (FREUD, 1991b), ao
ponderar sobre as leis oníricas, considera as leis que regem a
elaboração onírica em quatro partes do capítulo VI, concluindo que o
mecanismo dos sonhos só é acionado através de estímulos externos que
chegam à mente. Ele aí evidencia, (1) certas relações que ocorrem
entre os pensamentos oníricos que são produzidas por conteúdos
realmente vivenciados pelo sonhante (parte c, Darstellungsmittel
des Traums (“meios oníricos de presentificação”), (2) a formação
de símbolos por estados designados em ações (parte d, Rücksicht
auf Darstellbarkeit (“consideração ao presentificado”) e
circunstâncias reais relacionadas tanto aos sonhos (parte e) quanto
a cálculos e falas (parte f) (FREUD, 1991b). Avançando um pouco mais
nesse último texto, e ampliando esta discussão no período
mencionado, descobrimos que a atividade psíquica durante o sonho
resulta de um movimento contrário seguido pelas excitações da
percepção até o sistema motor – denominado, pelo seu retrocesso, de
regressão psíquica. Às imagens oníricas, constituidoras do sonho,
acrescentar-se-iam intensidades de excitação, tornando-as
alucinatórias, o que esclareceria a ilogicidade freqüente dos
sonhos. E uma outra referência, extraída também do capítulo VI de a
Interpretação de sonhos (FREUD, 1991b), torna-se aí essencial: a
idéia de que a elaboração onírica não pode, realmente, criar
discursos e que as palavras aparecem num sonho por terem sido vistas
em uma inscrição encontrada no monumento ao Imperador Joseph, no
Palácio Imperial de Viena. Destacando-se nessa passagem, a expressão
do conteúdo ideacional onírico por símbolos condiciona-se à
transformação em imagens sensoriais. Isto força à conclusão de que
entre 1895 e 1900, nas primeiras investigações de Freud sobre o
aparelho, a Psicanálise volta suas atenções para a existência de
correspondências entre o mundo externo e o psiquismo, considerando a
importância do concreto para a atividade interna. Os processos
mentais não seriam elaborações vazias, abstratas, distantes dos
acontecimentos que marcam o que vive realmente o ser humano: a
Darstellung, sob o sentido de tornar algo visível da realidade
para o psiquismo (presentificar psiquicamente) ganha um lugar na
teoria freudiana.
O freudismo e a discussão sobre o valor da
realidade para o psiquismo
A idéia de uma Darstellung freudiana
manteve-se até hoje afastada das maiores correntes psicanalíticas do
século XX. E a recusa desta interpretação nos leva, na história do
freudismo, ao retorno sobre o legado freudiano inaugurado na França,
desde 1936, por Jacques Lacan (1901-1981). As escolas atuais,
seguindo a teoria lacaniana, concluíram que a atividade mental
independeria, em parâmetros freudianos, de qualquer influência
biológica exercida pela ação de estímulos externos, vendo a
Darstellung apenas como um recurso teórico inicial, mas logo
esquecido por Freud, para se pensar a natureza e a dinâmica do
psiquismo.
Dois esquemas para se pensar o aparelho psíquico
caracterizariam, a passagem do Projeto à Interpretação de
sonhos (LACAN, 2000a: 157-240), acentuando-se:
(a) a agregação de informações no
psiquismo, ao ser discutida a relação sujeito / imagem no que
diz respeito a um “estádio do espelho” – período de constituição
das identificações eu-outro na infância, quando a criança
reconhece, entre os primeiros seis e dezoito meses, a imagem da
unidade de seu corpo em um espelho (LACAN, 1999: 144-152);
(b) a existência de uma simbologia própria do
inconsciente (LACAN, 2000a: 157-240);
(c) o valor da linguagem para o entendimento da
inconsciência (LACAN, 2000c: 177-184).
Logo, sob formas abstratas que marcam os símbolos e a
linguagem, a atividade psicológica seria marcadamente imaterial.
Nesse sentido, proximidades interno-concretas teriam sido esquecidas
ao longo dos escritos freudianos, resumindo-se à valorização, por um
breve momento, apenas, de uma “atenção mediada pela encenação”,
“papel da possibilidade de figuração”, ou, simplesmente, “figuração”
– Rücksicht auf Darstellbarkeit, conforme tradução de Lacan
(1966: 511) – imagens formadas pelo desencadeamento de excitações.
Justo sob este princípio, as retranscrições encontradas na carta 52
ou 112, entendidas como sinais produzidos mentalmente (LACAN, 2000b:
250-260), reforçariam a indicação de que a composição das imagens
psíquicas não obedece a qualquer vínculo com a realidade concreta ou
material.
É indiscutível a força e o rigor do trajeto que levam
Lacan a esta conclusão; é inegável, também, a permanência desta
mesma idéia sobre grande parte da reflexão psicanalítica do século
XX. Mas, ao voltarmos aos escritos freudianos sobre a questão,
descobrimos que a realidade deve ser também levada em consideração
para se compreender o que ocorre na mente, levando-nos a rever na
psicanálise o lugar que deve ocupar uma presentificação no
psiquismo.
Considerações finais sobre uma presentificação
psíquica
As indicações sobre o aparelho pensado por Freud nos
levaram a opor duas perspectivas:
1. Entre 1895 e 1900 revelava-se a existência de
uma Darstellung que dirige a atividade mental tanto em
torno da percepção, da consciência e do aparelho, quanto das
imagens oníricas inconscientes;
2. Sob a influência da teoria lacaniana, a
importância da realidade para o psiquismo era colocada à margem
pelo freudismo atual.
Impasse que abriu caminho para uma discussão:
aprofundando a questão do funcionamento psíquico na Psicanálise
delimitamos o objeto de tese defendido em 2004, no Doutorado de
Filosofia, da Universidade de São Paulo, sob o título, A Darstellung
Freudiana: considerações sobre uma presentificação psíquica (SKLAR,
2004).
Dois textos, encontrados no final da obra freudiana
(1938), tornaram-se peças-chave para o esclarecimento do valor ou
não da realidade para a atividade mental: o Esboço de Psicanálise e
Algumas lições elementares em psico-análise. No primeiro,
descobrimos que Freud (1991e: 67) concebe o aparelho psíquico em
torno de uma “extensão espacial”, assemelhando-o a um “telescópio,
microscópio, ou algo semelhante”, estabelecendo, assim,
correspondências entre a mente e o corpo. Esta proximidade aumenta
quando aí assinala que a hipótese de um “aparelho psíquico
espacialmente extenso” coloca num mesmo patamar processos
psicológicos e naturais (nivelamento retomado no segundo texto
(1991g: 143), afirmando:
“Nossa hipótese do desenvolvimento de um aparelho
psíquico espacialmente extenso, composto apropriadamente por
necessidades [próprias] da vida, cuja proveniência se reconhece,
apenas, em um lugar determinado e sob certas condições do
fenômeno da consciência, levou-nos a colocar a Psicologia em
torno de fundamentos semelhantes aos de qualquer outra ciência
natural, como a Física, por exemplo”. (FREUD, 1991e: 126)
A referência a uma “psique extensa” permanece em
Achados, Idéias e Problemas, texto também de 1938:
“A espacialidade pode ser a projeção da extensão
do aparelho psíquico. Nenhuma outra derivação, provavelmente. Ao
invés do a priori kantiano, as condições de nosso
aparelho psíquico. A psique é extensa, ela nada sabe sobre
isto”. (FREUD, 1991f: 152)
Elemento introdutório à Psicanálise, o conceito de
extensão em termos do aparelho tornava-se essencial no modo de
pensar analítico por surgir no final da obra; vinculando, ainda, o
dinamismo mental ao concreto, sugeria que a relação entre o
aparelho, o encéfalo e atos conscientes, sob a discussão do Esboço
em torno da natureza do psíquico, conduzia Freud a admitir um
paralelismo entre a ordem biológica e a atividade mental,
descartando a idéia de uma biologização do psicológico. E foi
exatamente em torno deste aspecto que abrimos os seguintes passos no
quadro da tese (SKLAR, 2004):
(1) apresentação de uma Darstellung
freudiana (presentificação psíquica), na versão de 1895 sobre o
aparelho – uma estrutura que funciona psiquicamente em torno de
correspondências que posicionam o mundo externo em relação ao
interno, isto é, quando quantidades de excitação são percebidas
e, por isso, presentificadas;
(2) esclarecimento do sentido atribuído às
retranscrições da carta 52 ou 112 a Fliess, relacionando-as à
carta 60 ou 125, demonstrando, após, como na primeira leitura
mencionada por Freud da tragédia grega de Sófocles, Édipo-Rei
(sobre o vaticínio do parricídio e incesto lançado pelo Destino
ao rei tebano Édipo), na carta 71 ou 143 a Fliess e na parte
sobre sonhos típicos da Interpretação de sonhos, elos aparecem
entre forças externas ao homem (Destino) e circunstâncias
internas. Ainda em torno da correspondência a Fliess, elucidação
da proximidade entre o físico e o mental na carta 78 ou 151, sob
a discussão de mitos endopsíquicos (ilusões projetadas para o
mundo exterior e, peculiarmente, para o futuro e o além);
(3) revendo uma pintura do pintor alemão Moritz
Schwind (1804-1871) intitulada, O sonho de um prisioneiro,
entendimento do que Freud pensa sobre a elaboração dos sonhos,
no penúltimo trecho da oitava conferência das Conferências
Introdutórias à Psicanálise, indicando o surgimento da
Darstellung nas partes c, d, e do capítulo VI de a
Interpretação de sonhos. Demonstração, na seqüência, da omissão
de Lacan a esta referência teórica ao realçar a predominância de
esquemas freudianos em relação ao aparelho, finalizando a
releitura, após, da parte f do texto de 1900, para compreender
aí, finalmente, como a presentificação explica integralmente o
sentido de um segundo modelo do aparelho psíquico, enunciado na
parte b do capítulo VII;
(4) conclusão deste percurso, então, explicando o
sentido da Darstellung freudiana sob modalidades de
presentificação, ou seja, modos de acontecer psíquicos que
abrangem imagens que captam, sinalizam, ou designam o que ocorre
na realidade externa ao psicológico e símbolos que atribuem
significados às circunstâncias reais.
Realidade que deve ser pensada sob a atividade
mental? Sem dúvida, como concluímos da leitura feita sobre as
principais referências freudianas do funcionamento psíquico,
aprofundando, inclusive, uma apresentação recente de Laurence Kahn
na Sociedade Psicanalítica de Paris, em Dezembro de 2000, intitulada
L’action de la forme (KAHN, 2000), sobre o tema da Darstellung
na Psicanálise. Poderíamos dizer que, para Freud, as abstrações que
estão na base do que as idéias pensam constituem, apenas, o momento
que precede uma ação. Compreenderíamos, deste modo, como o
pensamento deve reter “pequenas quantidades de energia” para ser
desencadeado, quando ele afirma (1991d: 95) nas Novas Conferências
para a Introdução à Psicanálise:
“(...) O pensamento é um meio de agir para provar
algo, com pequenas quantidades de energia, igualmente como os
deslocamentos de figuras diminutas sobre um mapa geográfico,
antes que o general coloque em deslocamento suas massas de
tropas (...)”.
O comandante distingue a imaginação do que pode
acontecer na realidade, para perceber num mapa quais os melhores
deslocamentos que seu exército deve adotar no campo de batalha, não
se perdendo em falsas expectativas de vitória iminente antes da
guerra. Suas preocupações não estariam limitadas ao desejo de ganhar
o combate; antes disto, ele descobre que seus soldados precisam
estar bem posicionados diante do inimigo, e, voltado para a
concretização desta possibilidade, usa o máximo de atenção apenas
para criar imagens que contenham ou presentifiquem as melhores
estratégias de movimento.
Referências
4.
__________. Vorlesungen zur Einführung in die Psychoanalyse. In:
Gesammelte Werke, Band XI. Frankfurt am Main: S. Fischer Verlag,
1991. 508 p.
5.
__________. Neue Folge der Vorlesungen zur Einführung in die
Psychoanalyse. In: Gesammelte Werke, Band XV. Frankfurt am
Main: S. Fischer Verlag, 1991. 214 p.
6.
__________. Abriss der Psychoanalyse. In: Gesammelte Werke, Band
XVII. Frankfurt am Main: S. Fischer Verlag, 1991. 174 p.
7.
__________. Ergebnisse, Ideen, Probleme. In: Gesammelte Werke,
Band XVII. Frankfurt am Main: S. Fischer Verlag, 1991. 174 p.
8.
__________. Some Elementary Lessons in Psycho-Analysis. In:
Gesammelte Werke, Band XVII. Frankfurt am Main: S. Fischer
Verlag, 1991. 174 p.
9.
__________. Aus den Anfängen der Psychoanalyse. Frankfurt am
Main: S. Fischer Verlag, 1962. 450 p.
10.
KAHN, Laurence. L’action de la forme. Revue Française de
Psychanalyse, La figurabilité, Paris, tome LXV, p.
983-1056, 2001.
11.
Langenscheidts Jubiläums-Wörterbuch (Englisch-Deutsch).
Berlin, München, Wien, Zürich, New York: Langenscheidt, 1984.
12. LACAN, J.
Séminaire 2, Le moi dans la théorie de Freud et dans la technique de
la Psychanalyse.
Paris: Éditions de l’Association Freudienne Internationale, 2000.
496 p.
13. _________.
Séminaire 3,
Les psychoses. Paris: Éditions de l’Association Freudienne
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14. _________.
Séminaire 16, D’un Autre à L’autre. Paris: Éditions de
l’Association Freudienne Internationale, 2000. 400 p.
15. _________. Séminaire 1, Les écrits techniques
de Freud. Paris:
Éditions de l’Asso-ciation Freudienne Internationale, 1999. 512 p.
16.
__________. Écrits. Paris: Seuil, 1966. 916 p.
17. MASSON, Jeffrey Moussaieff. Sigmund Freud –
Briefe an Wilhelm Fliess. Frankfurt
am Main: S. Fischer Verlag, 1986.
18.
SKLAR, Sergio. A Darstellung Freudiana: considerações sobre uma
presentifi-cação psíquica. Tese (Doutorado em Filosofia) –
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo:
Universidade de São Paulo, 2004. 198 p.
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