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RICARDO OLIVEIRA DA
SILVA
Graduado em História pela UFSM; Mestrando em
História pela UFRGS com bolsa do CNPq.
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Intelectuais, política e cultura:
uma
breve análise sobre Caio Prado Júnior e Alberto Passos
Guimarães no PCB
por Ricardo Oliveira da Silva
Introdução
O Brasil presenciou significativas mudanças
socioeconômicas e políticas entre as décadas de 1930 a 1960. Nesse
período, a economia do país, caracterizada pela exportação de
produtos primários, em especial o café, gradualmente cedeu espaço ao
processo de industrialização que ficou conhecido como substituição
de importações. A sociedade começou a assumir uma feição
marcadamente urbana e o Estado passou a investir em políticas que
tinham por objetivo superar o que era identificado como atraso, ou
seja, o passado colonial compreendido enquanto uma sociedade rural,
subdesenvolvida e primário-exportadora.
O conjunto de mudanças que o país vivenciou nessas
décadas também foi acompanhado por um avanço no conhecimento das
ciências sociais. Segundo Carlos Guilherme Mota, esse foi um momento
marcado pelo “redescobrimento do Brasil”, ou seja, a história e a
sociedade brasileira passaram a ser vistas sob um olhar que procurou
conhecer e destacar as potencialidades da realidade social,
rejeitando interpretações pessimistas, como, por exemplo, as
análises que condenavam o país ao atraso devido à mistura de raças
(MOTA, 1978). Para Romualdo Campos Filho, o avanço nos estudos sobre
o Brasil acentuou, principalmente a partir da década de 1950, a
indagação sobre as possibilidades de desenvolvimento econômico e de
mudanças nas instituições políticas e sociais do país (CAMPOS FILHO,
1994).
Diante desse contexto, consideramos oportuno
apresentar, ainda que brevemente, a atuação de dois intelectuais na
esfera política e intelectual da década de 1950 e início dos anos de
1960, ou seja, a trajetória de Caio Prado Júnior e Alberto Passos
Guimarães. Por um lado, enquanto intelectuais, ambos os autores
apresentaram um conhecimento histórico imbuído da perspectiva de
conhecer a realidade brasileira e as possibilidades de sua
transformação. Desse modo, ganhou destaque na produção desses
autores o tema da questão agrária, um dos principais aspectos
abordados nas discussões por ser compreendido o campo, através de
sua estrutura fundiária concentrada, excludente e pouco mecanizada,
um entrave ao desenvolvimento econômico e social. Por outro lado,
politicamente esses dois intelectuais participaram das discussões
enquanto membros do Partido Comunista do Brasil (PCB), fundado em
1922. Esse partido, com um programa político centrado na construção
de uma sociedade igualitária e socialista, era uma das principais
referências para os setores progressistas brasileiros que lutavam
por transformações sociais.
A realidade brasileira em discussão: o debate
agrário de Caio Prado e Alberto Passos no PCB
A presença do PCB no debate político e intelectual
brasileiro durante a década de 1950 ocorreu em um momento delicado
de sua história. As denúncias sobre os crimes de Stálin, ocorridas
no XX Congresso do PCUS, realizado em 1956, acentuaram a crítica
interna existente no partido, em especial aos membros que defendiam
o chamado passado dogmático, sendo considerados responsáveis pela
subserviência do PCB ao pensamento soviético e ao isolamento perante
a sociedade brasileira após a cassação do registro legal, no ano de
1947. Nessa circunstância, muitos membros reivindicaram uma
renovação no partido, defendendo um olhar mais atento para a
realidade nacional, a qual estaria sendo ignorada em nome da
fidelidade ao marxismo-leninismo ditado pela União Soviética.
Após a cassação do registro legal, em 1947, por
exemplo, o Comitê Central do partido adotou uma postura política
priorizando a necessidade imediata de lutar por uma revolução
agrária a antiimperialista, base para a realização do seu projeto
democrático-burguês, não descartando, para alcançar esse objetivo, a
luta armada. Nesse sentido, o PCB se envolveu em lutas rurais
ocorridas em Porecatu, no norte do Paraná, na Revolta de Trombas e
Formosa, em Goiás, e no apoio inicial as Ligas Camponesas. Além
disso, o partido passou a defender um sindicalismo urbano paralelo
ao oficial, o que resultou no enfraquecimento de sua presença nas
lutas dos trabalhadores urbanos na primeira metade dos anos de 1950
e no seu afastamento das lutas político-partidárias, no caso, em
aliança com outros partidos, uma vez que seu registro estava cassado
(ALMEIDA, 2003).
Em face da postura do Comitê Central, a luta interna
no PCB em meados da década de 1950 pressionou por mudanças tendo em
vista, por um lado, maior inserção do partido na sociedade
brasileira, sendo passo importante nesse sentido a participação do
partido nas eleições presidenciais de 1955 apoiando Juscelino
Kubitschek e, por outro lado, um diálogo mais próximo com a
intelectualidade progressista do país (SEGATTO, 2003). Mediante
esses objetivos, o partido se empenhou em algumas publicações, como
Novos Tempos, Estudos Sociais e Novos Rumos, nas quais eram
debatidos problemas referentes ao Brasil. Na revista Estudos
Sociais, por exemplo, existia um ponto que costurava a preocupação
dos comunistas: descobrir a causa do subdesenvolvimento nacional.
Segundo Santiane Arias, essa preocupação contribuiu para a reflexão
em torno do tema da questão agrária:
[...] dentre as áreas mais abordadas na revista –
economia e política, e, em certa medida, história – a
preocupação não é outra. Os mais diversos temas perpassam o
atraso brasileiro, a necessidade de desenvolvimento e
emancipação do país. Internamente o que alimentava tamanho
atraso era o monopólio da terra, sendo a questão agrária
fundamental para se entender o problema nacional (ARIAS, 2003:
74).
O intelectual e comunista Alberto Passos Guimarães,
voltado à área de história e economia, desempenhou importante papel
nas reflexões do partido nesse momento, principalmente através do
tema da questão agrária, mediante obras como Inflação e Monopólio
no Brasil (1962) e Quatro Séculos de Latifúndio (1963).
Nesses trabalhos, esse intelectual procurou destacar as raízes
feudais da colonização portuguesa no Brasil e a necessidade de
acabar com os resquícios do passado colonial mediante os
pressupostos do projeto democrático-burguês, ou seja, consolidação
do capitalismo no campo para sua posterior transformação socialista
(PAULA, SOARES, 2006).
Segundo Santiane Arias, Alberto Passos Guimarães e
Nelson Werneck Sodré foram as principais referências teóricas do
PCB. Nelson Werneck Sodré concentrou seu trabalho sobre o processo
revolucionário brasileiro e, nesse processo, as possibilidades de
viabilidade do projeto democrático-burguês. Alberto Passos Guimarães
concentrou-se em um aspecto desse projeto: a questão agrária. Esse
fato esteve presente na revista Estudos Sociais:
[...] embora a Estudos Sociais, até certo
ponto, abrigue as diferentes nuanças sobre a tese central da
questão agrária, isto é, sobre os restos feudais, deve-se
destacar a predominância das idéias de Alberto Passos Guimarães.
[...] Guimarães possui quatro artigos ao longo de sua
circulação, inclusive no número dezenove (1964), seu último
exemplar (ARIAS, 2003: 120).
O predomínio das idéias de Alberto Passos Guimarães
sobre a questão agrária no PCB esteve relacionado, por um lado, ao
seu trabalho intelectual. Por outro lado, esse autor, ao lado de
Jacob Gorender, Armênio Guedes, Giocondo Dias e Mário Alves, foi um
dos responsáveis pela redação da Declaração de Março de 1958,
documento que definiu mudanças na conduta política do partido após a
conjuntura do XX Congresso do PCUS, quando passou a ser defendido
pelo PCB a transformação democrático-burguesa para o país com a
consolidação do capitalismo, extinção do feudalismo e luta contra o
imperialismo, pela via pacífica. Levando em consideração que
o partido presenciou, nesse período, significativas disputas
internas, a participação de Alberto Passos Guimarães no documento
ligado à corrente que se impôs no processo de renovação política,
revela outro aspecto que facilitou a circulação de suas idéias no
partido (ARIAS, 2003).
A trajetória de Caio Prado Júnior no PCB, apresentou
sensível diferença em relação a trajetória de Alberto Passos
Guimarães. Enquanto Alberto Passos participou das atividades
políticas do PCB ocupando importantes postos na hierarquia do
partido, Caio Prado não ocupou posições de destaque na organização
partidária. A vice-presidência na Aliança Nacional Libertadora em
São Paulo, no ano de 1935, e o cargo no legislativo paulista pelo
PCB em 1947, foram suas posições de maior relevo. Para Francisco
Iglesias, contribuiu para essa situação o complexo antiintelectual
do partido e a meta de proletarização que durante muito tempo
afastou os intelectuais como suspeitos. A hipertrofia desse rumo
levou ao obreirismo, fato comum que episodicamente também ocorreu em
partidos comunistas de outros países (IGLESIAS, 1982).
Além da questão do obreirismo, outro dado que
contribuiu para a marginalização de Caio Prado na hierarquia do PCB
foi o fato de ter sido um pensador marxista desvinculado do modelo
interpretativo e político democrático-burguês. Enquanto o PCB seguia
uma orientação leninista e vinculada a III Internacional, baseada em
uma revolução por etapas para se chegar ao socialismo, Caio Prado
rejeitou a análise do passado brasileiro fruto da reflexão da III
Internacional a qual destacava, por exemplo, a existência de
feudalismo no campo e a necessidade de consolidação do capitalismo
através de sua extinção, estando esse autor próximo, inclusive, das
orientações da IV Internacional. Para José Carlos Reis, diante dessa
particularidade, Prado Júnior não falou em sua obra de feudalismo e
não defendeu uma revolução democrático-burguesa, mas falou em
subcapitalismo e em uma revolução permanente que desembocaria em
longo prazo no socialismo, sem a etapa intermediária de transição ao
capitalismo defendida pelo projeto democrático-burguês do PCB (REIS,
2002).
Caio Prado, diante das críticas a existência de
feudalismo e necessidade de consolidação do capitalismo no campo, já
perceptíveis no seu livro Evolução Política do Brasil,
publicado em 1933, expondo, desse modo, as divisões internas do PCB,
acabou marginalizado na hierarquia do partido no processo de luta
interna (SANTOS, 2001). Afastado das posições de comando no partido,
Caio Prado Júnior se envolveu em um projeto que se aproximou dos
objetivos da revista Estudos Sociais, idealizada por membros
vinculados ao projeto democrático-burguês e que contou com a
participação de Alberto Passos, ou seja, a preocupação em estudar a
realidade social brasileira. Esse projeto foi a Revista Brasiliense.
Entre 1955 a 1964, a Revista Brasiliense figurou entre as principais
fontes para o entendimento do debate político brasileiro. O
lançamento do primeiro número da revista ocorreu nos momentos finais
da campanha presidencial de 1955, tendo sido o manifesto de sua
fundação uma decidida e clara defesa de princípios nacionalistas.
Nesse sentido, também contribuiu o clima político criado com o
suicídio de Getúlio Vargas.
O manifesto de fundação procurou caracterizar a
Revista Brasiliense independente de qualquer tipo de ordem política
ou partidária, sendo orientada pelos seus próprios redatores e
colaboradores. Mas em relação aos colaboradores, Fernando P. Limongi
ressaltou:
[...] no entanto, a consulta a lista de
colaboradores revela uma nítida predominância de pessoas
vinculadas ao PCB. [...] A pretensão de ser apartidária não se
choca com este dado, isto é, com a nítida predominância de
militantes do PCB nas páginas da R.B. Estamos diante de uma
publicação dirigida por membros do PCB sem ser seu órgão
oficial. É preciso, desde já, afastar hipóteses equivocadas
sobre a natureza das relações PCB-R.B. A revista não é órgão
oficial e tampouco é veículo de uma facção interna com
pretensões de conquistar o poder (LIMONGI, 1987: 28).
Os membros do PCB que participaram da Revista
Brasiliense tinham em comum um histórico de insucesso no interior do
partido. Um exemplo foi a criação do jornal diário do PCB em São
Paulo. O jornal funcionava no prédio da Editora Brasiliense e seu
título, Hoje, fora doado por Caio Prado Júnior. No entanto, a
despeito dessa colaboração, Caio Prado foi rapidamente marginalizado
no interior do jornal, se incompatibilizando com seu diretor, Milton
Caíres Brito, dirigente do PCB em São Paulo. O mesmo ocorreu com
Elias Chaves Neto, membro da Revista Brasiliense que, mesmo a
despeito de ser um profissional na área do jornalismo, não foi
levado em grande consideração pelos responsáveis do jornal Hoje, o
mesmo acontecendo com Álvaro de Faria. Assim, poucos foram os
comunistas da Revista Brasiliense que chegaram a ter peso nas
disputas partidárias do PCB, e aqueles que participaram dessas
disputas, encontravam-se alijados dos centros de poder do partido
quando se iniciou a Revista Brasiliense (LIMONGI, 1987).
Caio Prado Júnior colaborou intensamente na Revista
Brasiliense. Seus trabalhos totalizaram a soma de 31 artigos. Entre
os artigos publicados por Caio Prado, figuraram seus principais
trabalhos sobre a questão agrária. Os textos Contribuição para a
Análise da Questão Agrária no Brasil, publicada em 1960 no
número 28 da revista, e Nova Contribuição para a Análise da
Questão Agrária no Brasil, publicada no número 43, no ano de
1962, foram as principais referencias de Caio Prado Júnior no debate
político/intelectual com o PCB. Nesses textos, esse autor destacou o
caráter mercantil das atividades agrárias, em oposição ao caráter
feudal das atividades rurais defendidas pelo partido e por Alberto
Passos. Esse debate de Caio Prado com o PCB efetuado na Revista
Brasiliense prosseguiu após o fim abrupto da circulação da revista,
a partir de abril de 1964, assumindo uma feição contundente e mordaz
em 1966, com a publicação por Caio Prado do livro A Revolução
Brasileira, forte crítica as correntes internas que controlavam
o partido e defendiam a revolução democrático-burguesa.
Considerações finais
A ação política e intelectual de Alberto Passos e
Caio Prado, exposto nesse artigo, refletiu um momento da história do
país onde muitos setores da sociedade se engajaram no processo de
conhecimento da realidade social brasileira. Esse conhecimento
esteve marcado por um desejo de mudança que permitisse a construção
de uma sociedade mais igualitária e democrática. Alberto Passos e
Caio Prado figuraram entre os intelectuais que participaram desse
momento histórico, mediante inserção política no PCB. Na década de
1930, ambos ingressaram no partido em um momento em que seu projeto
político se apresentava como uma possibilidade de realizar as
mudanças desejadas no país. Na década de 1950 e no começo dos anos
de 1960, uma série de situações, como a crise do stalinismo e o
fomento do nacionalismo no Brasil, acentuaram divergências em torno
da análise que o partido realizava sobre o país e as medidas que
defendia para sua transformação social. Alberto Passos e Caio Prado
participaram desse período de discussões, se posicionando no debate
político e, desse modo, expondo as cisões que ocorriam no PCB.
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