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ANA CRISTINA BATISTA DOS
SANTOS
Docente do Curso de Administração da Universidade
Federal Rural do Semi-árido (UFERSA). Líder do Grupo de Estudos
e Pesquisas em Administração (GEPAR – UFERSA/CNPQ), atualmente
coordenando a Linha Estudos Organizacionais
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por Ana Cristina Batista dos Santos
O mundo atual, especialmente em sua “fatia
ocidental”, pode ser caracterizado como um mundo organizacional por
excelência. As cenas da vida cotidiana do homem moderno se passam de
forma predominante no cenário das organizações, sendo estas de
variados tipos e classificações: empresariais, sociais, políticas,
religiosas, militares; distinguindo-se entre públicas e privadas,
etc. Entendendo as organizações como construções sociais e
históricas, cuja dinamicidade e complexidade se dão, entre outras
coisas, pelo fato de não serem elas independentes de quem as
constitui e, ao mesmo tempo, mediadoras dos diversos interesses
circulantes em seu interior (FARIA, 2004), este texto se ocupa com o
debate sobre dois tipos de organizações prevalentes no mundo
contemporâneo: a Empresa e a Escola; e as elege como objeto de
estudo por entender que a relação entre economia e educação, sob o
capitalismo em sua fase de acumulação flexível (Cf. ANTUNES, 2003;
FARIA; KREMER, 2004; GURGEL, 2003), representa um campo
interdisciplinar profícuo para compreensões sobre a sociedade
contemporânea. O texto parte ainda da compreensão que tais tipos
organizacionais se apresentam como “cenários” de construção,
reprodução e regulação da vida do homem moderno, o que, portanto,
demanda atentas reflexões.
Desde o ponto de vista do capital, as crises do
sistema fordista de produção e da política econômica keynesiana são
freqüentemente apontadas como as razões para as transformações na
economia mundial, ocorridas a partir das últimas décadas do século
20; porém, tais crises constituem apenas expressões fenomênicas de
um quadro de maior complexidade (ANTUNES, 2003). A crise do sistema
capital que sucedeu a sua fase de grande expansão, no quarto de
século após a Segunda Guerra Mundial (Cf. FUSFELD, 2001; HOBSBAWM,
1995), deriva para um novo ciclo de acumulação baseado
principalmente na especulação do capital financeiro (ANTUNES, 2003;
FRIGOTTO, 2003; GURGEL, 2003).
As mudanças avultadas a partir dos anos 70
vinculam-se ao processo de reestruturação do capital em suas novas
formas de acumulação, visando à recuperação do seu ciclo reprodutivo
(ANTUNES, 2003). Materializa-se o ideário neoliberal, que vê no
capital privado altamente concentrado um meio privilegiado para o
novo regime mundial de acumulação (CHESNAIS apud FRIGOTTO,
2003). Traz como pressuposto “a superacumulação como um dado
estratégico positivo, ao qual não se deve opor nenhum programa de
redistribuição de renda [...]. Aplica-se uma superdose de
liberalismo [...]” que Gurgel chama “choque de mercado” (GURGEL,
2003: 124). As relações de concorrência assumem novas
características, com relações maleáveis entre as empresas:
cooperação e competição simultâneas. Configura-se uma rede de
relações desiguais, na qual o poder invisível das grandes empresas
age sobre as mutantes empresas dependentes (SENNETT,
2002). As relações sociais são
reduzidas aos mecanismos do mercado (BERNARDO, 2004).
No âmbito intra-organizacional, a mudança passa a ser
propagada como exigência “natural” dos novos tempos, assumindo um
sentido de determinação evolutiva, com forte apelo ao ajustamento
das organizações produtivas como espécies sócio-econômicas em
adaptação. As mudanças são defendidas em pelo menos três níveis: (1)
organização da produção; (2) organização da estrutura interna das
empresas; (3) participação e integração dos recursos humanos no
processo produtivo e de administração (SOUZA, 1995).
Para Bernardo (2004), é inerente à intervenção
econômica das empresas a sua ação política na sociedade, residindo
na conjugação da intervenção econômica e da ação política a própria
razão de existência da empresa. Assim, argumenta Bernardo (2004), é
que ela, a empresa, exerce um poder como que soberano na sociedade.
A soberania das empresas não é fenômeno recente como
observado no chamado “quadro das harmonias naturais”, que remonta a
teóricos como Adam Smith, Jeremy Bentham e, especialmente,
Saint-Simon (BERNARDO, 2004). Tendo como pressuposto que toda a
sociedade é naturalmente beneficiada pelo resultado da busca dos
interesses individuais, a soberania das empresas se assenta no
modelo livre-concorrencial pelo qual defende-se o mercado como
modelo de todas as ciências sociais (BERNARDO, op. cit.).
Saint-Simon (apud BERNARDO, 2004) coloca as
empresas e os industriais em lugar de destaque, sendo considerado o
teórico do poder empresarial por ter proposto a “primeira teoria
política de caráter estritamente empresarial, que reduzia ao mínimo
as funções atribuídas ao governo e que investia os capitalistas de
um poder diretamente soberano.” (BERNARDO, op. cit.: 17). Em suas
palavras: “a política é a ciência da produção” (SAINT-SIMON apud
BERNARDO, op. cit: 27); “uma nação não é senão uma grande sociedade
de indústria.” (SAINT-SIMON apud BERNARDO, op. cit.: 27).
Saint-Simon (apud BERNARDO, op. cit.) concebe as empresas
como empreendimentos de utilidade geral, devendo, portanto, os
industriais obterem vantagens particulares ao favorecerem o bem
comum.
É no contexto da empresa que a lógica capitalista tem
o seu locus de agenciamento privilegiado. Nela, efetiva-se a
produção valorizada por Saint-Simon. Mercadorias são produzidas para
serem trocadas no mercado, porém tal produção não se torna bem comum
uma vez que, sob a lógica capitalista, o trabalho humano (a força de
trabalho) torna-se também mercadoria (FOLEY, 2001). Tornada
mercadoria pelo capital, a força de trabalho é submetida à lógica do
mercado na qual a acumulação capitalista só se efetiva por meio da
extração da mais-valia. Portanto, é pelas vias da reificação do
trabalhador, que parece ter como correspondente a deificação do
dirigente (AKTOUF, 1996), que o sistema de produção capitalista
funciona como tal:
O emprego de todos os meios físicos e
intelectuais de domínio da natureza é impedido pelo fato de
esses meios, nas relações dominantes, estarem subordinados a
interesses particulares e conflitivos. A produção não está
dirigida à vida da coletividade nem satisfaz as exigências dos
indivíduos mas está orientada à exigência de poder de indivíduos
e se encarrega também da penúria na vida da coletividade.
(HORKHEIMER, 1980: 134).
Tendo em vista que toda formação social só sobrevive
e se reproduz ao mesmo tempo em que produz as suas condições de
produção (MARX, 1980), entende-se que não é somente no âmbito da
empresa que se dá a reprodução das condições materiais da produção.
Nesse sentido, a escola (lato sensu) ou o sistema de ensino,
como dizem Bourdieu e Passeron (1975), constitui-se também como um
espaço de reprodução social, de difusão da ideologia dominante, e de
manutenção das relações de produção capitalista.
Desde as últimas décadas do século passado,
propaga-se o “messianismo educacional” a partir da crença no poder
da educação, na sacralização da via educacional para solução dos
problemas sociais (Rossi,
1978). A educação passa a ser encarada como um antídoto para
problemas individuais e sociais de qualquer natureza. Instala-se uma
crença generalizada no valor da educação como instrumento de
desenvolvimento econômico (FREITAG, 1980), subjazendo a idéia de que
as imperfeições da sociedade seriam decorrentes da ignorância de
seus membros, ou de seus baixos níveis culturais (ROSSI, 1978).
Porém, o senso comum que credita à educação a
possibilidade para a diminuição das desigualdades entre classes,
tende a velar que a maior possibilidade de acesso a esta não diminui
as diferenças sócio-econômicas (TRAGTENBERG, 1978). Tragtenberg (op.
cit.: 13) esclarece a questão: “colocar a educação como um fator de
redistribuição de renda, se não for má fé é desconhecer que a
distribuição é determinada pelo modo de produção.” Convergentemente,
Rossi (1978) argumenta que as mudanças se constituirão como
periféricas sempre que buscarem aperfeiçoar a sociedade sem,
contudo, modificarem as relações econômicas, nas quais se incluem as
relações de propriedade, de posse e de dominação.
No que concerne à educação, a questão central é que
ela, sob o capitalismo, é criadora de condições para melhor
aproveitamento da mão-de-obra pelo capital (TRAGTENBERG, 1978);
trata-se – quer na educação básica, quer na educação superior – de
contribuir para o aumento da produtividade e competitividade
empresariais (FREITAG, 1980; NEVES; FERNANDES, 2002). Em tempos de
reestruturação produtiva, como os do capitalismo na
contemporaneidade, cria-se um “novo nexo entre ciência e trabalho”
(NEVES; FERNANDES, 2002: 21). Por este novo vínculo, a ciência é
submetida, de forma mais aprofundada, ao emprego diretamente
produtivo. No tocante à educação superior, Neves e Fernandes (op.
cit.: 26) esclarecem:
A educação superior [...] passa a ter como
prioridades [...] capacitar a força de trabalho para adaptar a
tecnologia produzida no exterior e conformar este novo
trabalhador qualificado às novas exigências da cultura
empresarial, especialmente no que tange à aceitação, como
naturais, das desigualdades sociais, da competição acirrada
entre indivíduos, grupos e classes e da perda dos seus direitos,
conquistados ao longo da história.
O vínculo entre educação e economia pode ser
considerado sob dois aspectos: o concreto e o ideológico (ROSSI,
1978). A concretude refere-se à educação voltada para a qualificação
da força de trabalho, que possibilita a ampliação de sua capacidade
produtiva (NEVES; FERNANDES, 2002; ROSSI, 1978). Quanto à esfera
ideológica, a educação pode ser vista como pertencente ao domínio
dos mecanismos sociais de inculcação: dos valores da classe
dominante junto às classes dominadas (GURGEL, 2003; ROSSI, 1978).
Neste contexto, ressalta-se a relação
universidade-sociedade que, segundo Covre (1982) pode ser abordada a
partir de três teses: a da universidade autônoma; a da universidade
ligada aos interesses da classe dominante; a da universidade aberta
e representativa de todas as classes. Para Covre (op. cit.), a
segunda situação é predominante e se constitui não de forma direta,
mas como resultado de um processo complexo que pode ser compreendido
considerando-se o papel ideológico das universidades.
O papel ideológico da universidade,
como de outras organizações educacionais, se dá não tanto pela
imposição de modelos abstratos, mas pela imposição dissimulada de
modelos concretos de comportamento e de ação, que são fomentados
nesse espaço social (MOTTA, 1986). Assim, sua “materialidade” deve
ser estudada: “trata-se de estudar as ideologias como conjunto de
práticas materiais necessárias à reprodução das relações de
produção.” (ALBUQUERQUE, 1985: 8). Isto leva a pensar ser discutível
a crença quanto à existência de uma pluralidade ideológica no âmbito
da universidade (MOTTA, op. cit.). Trata-se, na verdade, de modelos
de pensamento unificadores, hegemônicos, que visam intervir no
âmbito das práticas. Motta (op. cit.: 86) argumenta ainda que a
universidade moderna distingue-se não apenas pelo seu papel
ideológico, mas também por estar
“caracterizada pela existência de setores onde a prática científica
produz conhecimentos dotados de um valor no mercado de bens
econômicos.”
Sendo a escola um espaço de produção, reprodução e
socialização, tem-se na ação pedagógica um trabalho de inculcação
“que deve durar o bastante para produzir uma formação [...] capaz de
perpetuar-se após a cessação da ação pedagógica, e por isso de
perpetuar nas práticas os princípios do arbitrário interiorizado.”
(BOURDIEU; PASSERON, 1975: 44). Pelas vias da educação,
significações são impostas, constituindo-se a escola como um espaço
de violência simbólica:
Todo poder de violência simbólica, isto é, todo
poder que chega a impor significações e a impô-las como
legítimas, dissimulando as relações de força, acrescenta sua
própria força, isto é, propriamente simbólica, a essas relações
de força. (BOURDIEU; PASSERON, 1975: 19).
Entretanto, na contemporaneidade, tanto o espaço da
empresa quanto o da escola têm sido tomados por uma visão monolítica
do mundo e da vida social, sendo tal visão invertidamente
apresentada como não-ideológica (GURGEL, 2003). Assim, tal visão
representa em si mesma uma falsificação. Desta forma, as relações de
poder existentes nesses espaços (entre mestres e alunos; entre
proprietários, gerentes e trabalhadores) hoje, mais do que no
passado, favorece o dogmatismo e a subserviência intelectual às
prioridades do capital, o qual tem entre suas características
marcantes a capacidade de reinventar-se em aparência, preservando
princípios e finalidades. Assim, o capitalismo em sua fase flexível
parece impor novas significações e funções a diversos tipos
organizacionais, dentre os quais a empresa (seu agente maior) e a
escola (instituição de reprodução material e ideológica por
excelência) figuram como essenciais aos seus propósitos.
Este texto se encerra propondo uma reflexão sobre as
questões aqui levantadas, oferecendo um pequeno trecho de Bertold
Brecht como inspiração: “Eu estava sobre uma colina e vi o Velho se
aproximando, mas ele vinha como se fosse o Novo. Ele se arrastava em
novas muletas, que ninguém antes havia visto...”.
Referências
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