A coalizão presidencialista
por Rudá Ricci
O governo Lula vem se auto-intitulando “coalizão
presidencialista”. Uma coalizão é uma aliança de governo (e não
apenas eleitoral), típica do parlamentarismo. Ocorre que esta
possibilidade foi aberta com a Constituição Federal de 1988 que
aumentou sobremaneira o poder do parlamento sobre o executivo.
Na época, acreditava-se que o parlamentarismo seria aprovado
pelo plebiscito nacional, o que de fato não ocorreu. Assim,
criamos uma ambivalência no sistema político que é centralizado
como todo presidencialismo, mas vinculado e dependente do
parlamento, como ocorre no parlamentarismo. A situação ficou
ainda mais complexa na medida em que as bancadas estaduais (nas
Assembléias Legislativas e Câmara Federal) ficaram, desde a
última eleição, mais vinculadas ao poder de mando dos
governadores. Levantamento realizado pelo Instituto Cultiva
revelou que 13 governadores atuais comandam diretamente entre
50% e 75% das bancadas de seus Estados.
O núcleo de gestão do governo Lula percebeu
claramente esta situação de “regionalização” do poder
parlamentar do país e avançou sobre a construção de uma
coalizão. Trata-se da maior coalizão de gestão federal realizada
em toda história republicana do Brasil. Ficam de fora, pela
esquerda, PSTU e PSOL, com baixa representação política, embora
as bancadas do PSOL tenham assumido o papel de fiscal ético da
política, papel exercido anteriormente pelo PT. Pela direita,
DEM e PSDB formam o bloco de oposição mais significativo à
coalizão de governo. O governo Lula atacou duramente a base do
DEM, estimulando transferência de parlamentares e prefeitos para
partidos da base aliada, obtendo muito sucesso e esvaziando a
força político-eleitoral do ex-PFL. No caso do PSDB, a ação
governamental foi distinta. Procurou dividir ou isolar o PSDB
paulista, apoiando abertamente a liderança de Aécio Neves. A
anunciada aliança eleitoral PT-PSDB para as eleições de outubro
na capital mineira é o lance final para consolidação deste
movimento maquiavélico de Lula. Na última sexta-feira, em
Alagoas, o Presidente Lula afirmou que o “DEM destila ódio, mas
o PSDB é amigo”.
Na relação direta com a base social do país, o
governo federal instalou fortes mecanismos de transferência de
renda. Os municípios com baixo IDH (Índice de Desenvolvimento
Humano) vivem, segundo dados do IBGE, com a movimentação de
aposentadorias e pensões recebidas pelos moradores das
localidades. PRONAF e crédito consignado (para aposentados e
pensionistas) fortaleceram esta modalidade de política pública.
Mas foi o Bolsa Família o maior e mais poderoso programa de
transferência de renda que consolidou o maior índice de
popularidade do Presidente Lula.
O último levantamento realizado pelo IBGE (divulgado pela grande
imprensa em 29 de março deste ano) indica que os programas
sociais chegam a 10 milhões de domicílios brasileiros (18,3% do
total). A renda subiu e o consumo de eletrodomésticos também. A
aquisição de telefones, para aqueles que recebem recursos dos
programas de transferência de renda federais, subiu de 34,9% (em
2004) para 50,9% (2006). Geladeira subiu de 72,1% para 76,6%, no
mesmo período (1,8 milhão a mais). Máquina de lavar roupa saltou
de 7,6% para 10,2%. Microcomputador de 1,4% para 3,1% (199 mil a
mais). É verdade que entre a população com renda per capita de ¼
de salário mínimo, considerada indigente, 1,8 milhão de famílias
ainda não recebe os recursos federais, demonstrando que estes
programas têm ainda chão para crescer. Há ainda grande déficit
de infraestrutura para as mesmas famílias que recebem recursos
federais: pouco menos de 30% que recebem recursos não possuem
abastecimento de água, 54% não são atendidos por esgotamento
sanitário adequado e 30% não são atendidos por coleta de lixo.
Há uma evidente letargia social e não um processo de emancipação
das famílias em relação ao bolsa-família. Em 2004, 52% dos que
eram atendidos pelo programa disseram ter ocupação funcional. Em
2006 o índice continuou o mesmo. Ocorre que para aquelas
famílias que não receberam benefícios de transferência de renda
federal, o índice de ocupação subiu de 57,7% para 58,6%. Muitos
especialistas em políticas públicas vêm destacando a acomodação
das famílias e o caráter clientelista do Bolsa-Família, já que
apenas 75 mil famílias conseguiram sair deste programa desde seu
início.
Como era de se esperar, os domicílios
beneficiados possuem mais jovens (população até 17 anos
representa 46% dos moradores, sendo que a população nacional
total nesta faixa etária é de 31%).
Consolidado no campo institucional e na base
social do país, o governo Lula conseguiu forjar uma poderosa
estrutura de poder (e não apenas governo, como chegou a afirmar
Frei Betto). Desmantelou qualquer estrutura de participação
direta no governo, eliminou as audiências públicas para discutir
o Plano Plurianual (PPA) da nova gestão, comunica-se
pontualmente com movimentos sociais, não encaminhou a lei de
fomento às ongs, nem abriu os dados de execução orçamentária (o
que foi feito pelo Senado através do Siga Brasil) para a
sociedade civil. Trata-se de um governo de centro,
social-liberal,
um mosaico ou condomínio ideológico-partidário. Daí encontrarmos
algumas instâncias governamentais mais ou menos próximas aos
movimentos sociais, às redes de defesa de direitos sociais, a
projetos históricos de organizações populares do país. Seu
vínculo e legitimidade com alguns movimentos sociais ocorrem
através de transferência de recursos orçamentários ou acordos
pontuais.
A coalizão presidencialista torna-se, assim, um
imenso projeto de poder. De manutenção do poder. Um poder
político que se articula desde os de baixo – pelas políticas de
transferência de renda -, e através de negociações com as outras
forças sociais, sempre, pelos escaninhos políticos
institucionalizados, envolvendo governadores, bancadas
parlamentares em negociações que envolvem cargos e orçamento
público. Esta é a marca deste projeto de poder: uma articulação
a partir da estrutura institucionalizada, até mesmo nas
negociações com segmentos empresariais. Algo muito distinto do
que ocorre neste momento em quase toda América Latina. Nem mesmo
o México, com forte convergência no estilo partidário e uma
forte política assistencial (o Oportunidad), forjou algo similar
a esta coalizão lulista. Uma coalizão que desmobilizou
politicamente a sociedade, fragmentou as pautas e negociações
com entidades da sociedade civil e especializou as negociações
por temas ou segmentos sociais. O comando, a agenda, o momento
de negociações nunca foram tão controladas e administradas a
partir do Palácio do Planalto desde o início da redemocratização
dos anos 80.
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva
registrou avaliação positiva de 58% em março deste ano,
segundo pesquisa CNI/Ibope divulgada nesta quinta-feira.
O índice é o mais alto desde março de 2003, primeiro ano
de Lula na Presidência da República. Somente 11% dos
entrevistados avaliaram o governo federal como ruim ou
péssimo, enquanto 30% consideraram a condução do governo
como "regular".
Este
conceito foi desenvolvido por Norberto Bobbio. Segundo
este autor, o liberalismo estaria concentrado,
equivocadamente, na defesa do mercado e defesa da
liberdade econômica, caminhando para a construção da
noção de Estado Mínimo. Para Bobbio tal inflexão em
relação à teoria liberal original teria como motivação
se contrapor ao projeto socialista soviético, se
distanciando de um projeto democrático, justamente
porque qualquer ação estatal nascida da demanda social
seria compreendida pelos neoliberais como “populista”.
Por outro lado, critica a limitação das teorias
marxistas clássicas que limitaram suas teses a mera
conquista do poder. Não haveria uma teoria de Estado
marxista. Sugere, assim, a defesa da liberdade
individual, a partir da adoção do método democrático,
forjando uma concepção de centro-esquerda, os
“igualitários libertários”.