Desafios de Maringá
por Rudá Ricci
Durante dois anos, eu e minha equipe do Instituto
Cultiva estivemos com freqüência em Maringá. Desenvolvemos três
projetos (elaboração da lei de responsabilidade social,
assessoria para implementação da Escola da Cidadania e do
Orçamento Participativo Criança). Um período em que pudemos
compreender a lógica do município, um dos mais arborizados e com
centro esteticamente moderno do país, com uma população muito
atenta ao vestuário e à moda em geral.
Conhecia Maringá de outros momentos. Mais
recentemente, mas antes de assumir as consultorias, a partir dos
convites da Receita Federal, Fundacim, UEM e CESUMAR, onde
desenvolvi o tema da educação fiscal, programa que assessoro
desde 2005. O que chamava a atenção era a profusão de lideranças
sociais voltadas para atividades de controle e solidariedade
social. O Observatório Social, o SER, as peças de teatro sobre
orçamento público desenvolvidos por Marcílio Hubner de Miranda
Neto (então pró-reitor da UEM) que ficaram conhecidas em todo o
país, as ações sociais da Fundacim, o trabalho de Walmir Motta (CESUMAR)
sobre a lei de responsabilidade fiscal, as pesquisas do
Observatório das Metrópoles. Eram muitos exemplos do que alguns
autores denominam de “capital social”, ou seja, o grau de
confiança e autonomia de um agrupamento social na sua capacidade
de superar problemas comuns.
Os dois anos em que ficamos em Maringá calibraram
nossa percepção. Maringá é a cidade mais partidarizada que já
conheci. Partidarizada no sentido que Moacir Palmeira,
antropólogo do Museu Nacional do Rio de Janeiro, definiu, ou
seja, de uma sociedade dividida em “adesões” a grupos com poder
partidário, e não necessariamente uma opção política. Maringá é
uma cidade dividida. Pela esquerda, uma espécie de mágoa ou
marxismo simplório, em que tudo se resume à classe dominante e
classe dominada. Marx nunca teria reduzido a tal ponto o
conceito de classe social. Em seu clássico 18 Brumário de Luís
Bonaparte, chegou a identificar mais de 12 classes sociais. Pela
direita, as forças políticas de Maringá destilam arrogância e
soberba, além de misturar religião com pregação partidária, algo
que já foi superado com a revolução francesa.
Nossa equipe imaginou como trabalhar com um
município tão dividido, tão marcado por adesões de todos os
lados, tão patrulhado e rotulado. Ainda buscamos a resposta.
O IBGE poderia ser uma boa fonte de dados
iniciais, para desvendarmos este enigma sócio-político. O dado
de 2007 revela um município com 326 mil habitantes, sendo 52%
mulheres e 53% da população com 10 anos ou mais (este último
dado, de 2001). Uma população muito jovem, portanto, o que pode
revelar este “teatro” político, marcado por disputas sem fim.
O nível educacional é alto: somente 6% da
população não têm instrução, quase a metade do índice nacional.
Dos dados populacionais, talvez um dê uma pista
de análise: se agruparmos a população por faixas de renda
percebemos que pouco menos de 8% da população recebem mais de 10
salários mínimos. Na outra ponta, 11% recebem até 1 salário
mínimo. Entre 1 e 3 salários mínimos estão 26% dos residentes do
município; entre 2 e 5 salários mínimos estão 20%; e entre 3 e
10 salários mínimos encontramos outros 20%. Se considerarmos a
classificação de classe média utilizada pela Pesquisa de
Orçamentos Familiares (POF) como sendo aquela cuja renda
familiar per capita variaria entre 1,7 salário mínimo e 19,4
salários mínimos, chegamos a aproximadamente 40% da população de
Maringá nesta condição (a média nacional é de 31%).
Poderíamos aventar uma cultura social com forte
traço de classe média, voltada ao consumo doméstico. Daí o papel
do vestuário, da moda dos cortes de cabelo, traços que
sobressaem aos olhos do forasteiro. Reforçando tal lógica,
Maringá vive dos serviços (em 2005, o PIB da área de serviços
foi 100 vezes maior que o PIB da agropecuária e 3,5 vezes o PIB
da indústria).
Os dados de morbidade hospitalar, disponíveis no
site do IBGE, indicam que Maringá possui perfil idêntico a
municípios de mesmo porte, mesmo com renda per capita e
orçamento público menor, caso de Montes Claros, no norte de
Minas Gerais. Contudo, as doenças infecciosas e contatos com
serviços de saúde causam mais óbitos em Maringá, embora as
doenças do aparelho circulatório apresentem menor índice de
óbitos que a média de municípios de mesmo porte, na região
centro-sul do país. No restante, possui o mesmo perfil, o que
não deixa de ser estranho para um município poderoso (política e
economicamente). Os dados de morbidez hospitalar deveriam ser
mais baixos que a média.
Enfim, aparentemente trata-se de um município com
forte cultura de classe média, consumista, com bom nível de
instrução, jovem e ainda consolidando sua identidade social.
A necessária construção da maturidade política
de uma cidade
Com a emancipação de Mandaguari, em 1951, Maringá
elegeu um prefeito do PTB, um partido com fortes vínculos com
sindicatos potentes e, nos anos 50, com movimentos de camponeses
na luta pela terra. Contudo, nos anos seguintes foram eleitos
prefeitos do PSP, PSD (seguidos, sempre, pela UDN). Estudos da
UEM
indicam o uso de jagunços para proteger os mandatos.
Na década seguinte emergiu em Maringá o
sindicalismo rural contaguiano, a maior confederação de
trabalhadores (rurais) do país, disputada até o golpe militar
pelo PCB, pela Ação Popular e pelos Círculos Operários (o
segmento conservador da organização sindical católica). Em 1961
foi registrado um conflito de rua entre as duas forças rurais de
esquerda e setores conservadores apoiados pela igreja católica.
Com o golpe militar, a militância de esquerda
ficou circunscrita ao meio acadêmico-estudantil. Em 1969 foi
criado o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), em
Maringá, por onde se organizaram parte das lideranças
estudantis. Outra organização de esquerda criada neste município
foi a Ação Popular (AP). A AP foi uma organização católica
formada por jovens, tendo como um dos seus líderes Herbert de
Souza, mas que já no regime militar assumiu o ideário maoísta. A
greve da Companhia Norpa Industrial, em outubro de 1968, contou
com a participação da AP. Daí o envolvimento do bispo local no
apoio aos grevistas.
No outro lado do espectro partidário, a coligação
PDC-PSD-PTB havia derrotado o candidato da UDN até o Ato
Institucional que limitou a vida partidária a Arena e MDB.
Lideranças da UDN de Maringá (que eram derrotadas frequentemente
por lideranças do PSD) migraram para a Arena. Por este motivo, a
partir daí, o MDB venceu as eleições locais em 1968, 1972 e
retornou a ganhar, como PMDB, em 1982. O PSD, enfim, continuou
hegemônico em Maringá. Em 1988, com o pluripartidarismo
instituído novamente, o PFL venceria as eleições com a
candidatura de Ricardo Barros. Uma nova reviravolta ocorreria em
2000, com a vitória do PT, após um escândalo incrustado na
Secretaria de Fazenda e o afastamento do prefeito. Um interregno
na vida política de Maringá (então pendendo para o PSD-MDB),
governada pela primeira vez por um partido de esquerda.
Ocorre que, logo em seguida, a família Barros
retoma o governo local, em 2004, agora sustentado pelo PP.
Segundo análise de Reginaldo Dias, a resistência de esquerda
permanecia na UEM, universidade pública, e num incipiente
movimento sindical. Lembremos que desde os anos de chumbo, a
esquerda tinha acolhida no meio estudantil e universitário.
O que este breve relato sugere?
Em primeiro lugar, que Maringá possui uma cultura
política dominante mais conservadora, ao menos no que diz
respeito às opções partidárias. O progressismo do município é
estético e vincula-se a certo ideário de classe média, segmento
de destaque nesta localidade. Os partidos mais à esquerda
tiveram apenas um bom momento eleitoral local, logo superado na
eleição seguinte. Contudo, mantém-se sólido no meio
universitário (em especial) e divide-se na condução dos
sindicatos de trabalhadores (PT e PSTU, em especial).
Em segundo lugar, e diretamente vinculado à
hipótese anterior, os partidos de esquerda parecem não conseguir
impor uma agenda política muito nítida. Possivelmente acuada
pela cultura política conservadora de Maringá, as forças de
esquerda reagem às ações e agenda dos governos locais mais
conservadores. No seu único momento à frente da máquina
administrativa municipal, houve poucos programas e ações
inovadores que se efetivaram como práticas duradouras. Este é o
caso do orçamento participativo de Maringá, durante a gestão
petista que, infelizmente, não deixou raízes muito profundas na
cultura política e social local.
Em terceiro lugar, a oscilação UDN-PSD (com certa
vantagem à segunda agremiação) parece instalada numa espécie de
inconsciente coletivo de Maringá. Um traço histórico, cultural,
tênue, mas que divide o município em adesões (para retomar a
tese de Moacir Palmeira, citado no início deste artigo). Maringá
fixa-se em nomes e agrupamentos. Polariza-se não
ideologicamente, mas partidariamente (enquanto liderados por
ícones). Uma cidade partida, enfim. Não necessariamente em
classes ou frações de classe sociais, mas em agrupamentos que
giram ao redor de ícones. Esta oscilação, inclusive, é
francamente desfavorável às forças políticas à esquerda do
espectro partidário que, parece, caem constantemente nesta
armadilha cultural que as obriga a transitar por este campo
limitado da política local.
A tese muito em voga no município sustentando que
o governante de plantão nunca elege seu sucessor trata uma
coincidência como fenômeno político. Ocorre que se esta hipótese
fosse real, estaríamos lidando com um município cuja cultura
seria permanentemente oposicionista, o que não parece ser o
caso. Uma recente análise de Antonio Ozaí da Silva (UEM)
revelou o quanto o movimento carismático, eminentemente
conservador, criou tentáculos e influenciou uma série de
lideranças partidárias locais, de amplo espectro ideológico, o
que é ainda mais impressionante. Enfim, um movimento religioso
conservador consegue galvanizar lideranças partidárias de
esquerda e direita. A renovação de nomes não significa,
necessariamente, uma renovação política ou ideológica. Pelo
contrário: pode significar exatamente a dificuldade de
identificar uma linha ideológica e programática comum entre
governo e sucessor. O eleitorado, enfim, fixa-se em nomes, num
perfil mais vinculado à lógica conservadora, consumista,
vitoriosa, religiosa.
Ainda citando Antonio Ozaí da Silva, num artigo
em que este autor analisa a gestão petista (sob o título
“A admirável Maringá e o governo democrático e popular”)
já vaticinava:
Maringá é enaltecida pela qualidade de vida
que oferece. Os parques florestais são fontes de saúde e
lazer e até mesmo os seus pequenos habitantes extasiam
crianças e adultos admirados com o espetáculo da natureza.
As árvores embelezam a paisagem urbana e enlevam os
espíritos amantes da natureza, tornando o simples caminhar
um deleite. Maringá é acolhedora em sua essência e origens.
Migrantes e imigrantes construíram-na e fincaram raízes
nutridas pelo trabalho de gerações. Maringá tem vocação para
prosperar econômica e socialmente. Cidade universitária,
concentra uma população jovem, ávida de progredir e fator
irrigador do comércio pujante local. (...) Mas, há outra
Maringá que não convém apologizar. É a Maringá dos ausentes
dos bancos universitários; dos que não podem consumir os
serviços dos hospitais privados e especialistas da área da
saúde; dos que vivem em bairros sem acesso à saúde pública
de qualidade, às melhores escolas, sem oportunidades de
emprego. Há uma Maringá opulenta, bela e sedutora, que
oculta outra cidade onde campeia a desigualdade social, a
inexistência de infra-estrutura à altura das necessidades
sociais e cujos trabalhadores ganham salários tão baixos que
outras categorias profissionais mais aquinhoadas são vistas
como elite. Há uma Maringá rica e acessível à classe média
alta e remediada e inacessível para boa parcela da
população. Há uma Maringá harmoniosa que, à maneira de
Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, esconde uma
Maringá prenhe de contradições e selvagem. (...) Tudo
parece harmonioso. Porém, a longa lua-de-mel parece
findar-se e as exigências políticas e sociais se
intensificam. As expectativas eleitorais dos partidos e
forças políticas locais estão em consonância com as
exigências estaduais e nacionais Os interesses econômicos e
políticos tendem a se explicitar e a acirrar as
contradições. A administração tem mantido o apoio
majoritário e tomado iniciativas – em especial, o orçamento
participativo – que merece elogios. Está no caminho certo.
Mas seu raio de ação é limitado pela inexistência de
recursos para investimentos. Porém, os problemas sociais
exigem soluções, criatividade e opções políticas. Chega a
hora de definições: qual das duas ‘Maringás’ deverá
ter a prioridade da ação governamental? É possível governar
para todos os interesses?
A pergunta final destaca-se, hoje, como uma senha
para interpretar a política em Maringá. É possível governar para
tantos interesses? Como garantir a igualdade ou promoção social
numa cidade com “cultura de classe média”, consumista e
conservadora politicamente?
A única chance da esquerda é se diferenciar pela
proposta alternativa e técnica de governar com um projeto ousado
e alternativo. Mas ao se prender ao pêndulo conservador, apenas
reage, buscando revelar-se pela negação e não pela capacidade de
governar melhor. Tentando se diferenciar pela negação (e não
pela afirmação de um projeto para Maringá), reforça o jogo de
adesões e agrupamentos. Perde tempo e não consegue se espraiar
pelos diversos segmentos sociais e territórios de Maringá. Ao
invés de um projeto societal, se recolhe num projeto
comunitário, um discurso para “iguais”, para militantes do mesmo
partido. Continua refém de uma lógica universitária, seu habitat
natural desde os anos de ditadura. Uma lógica fechada em si
mesma, com seu dialeto próprio, seus mecanismos de validação
pela meritocracia, seus escaninhos departamentalizados. A
legitimidade política é distinta da legitimidade acadêmica,
diga-se de passagem. A esquerda de Maringá ressente-se da
dificuldade de se popularizar num ambiente conservador.
Enfim, Maringá não possui uma política de massas.
Possui até então uma política elitizada. A política ainda não
chegou às ruas e locais de trabalho. É ainda um elemento das
elites organizadas em partidos. É fato que se trata da lógica
dominante da política brasileira. Mas em Maringá é ainda mais
acentuada. Daí porque existem ações solidárias e iniciativas de
controle social. Mas não são populares, não estão enraizadas nos
bairros mais carentes. Daí porque Maringá renegar Sarandi.
Tantas vezes ouvi que muitas empresas situadas em Sarandi cravam
seus endereços como sendo de Maringá, por puro preconceito. Se
esta situação for verdadeira é uma demonstração de discriminação
territorial e social por inteiro, cabal.
Enfim, o desafio de Maringá é se tornar um todo,
um município, um espaço público. Tornando-se espaço público é
possível dar mais um passo: construir um projeto para Maringá.
Um Projeto 2020 ou algo do gênero, que construa uma “utopia da
cidade”, como ocorreu em Barcelona, pouco antes de sediar as
Olimpíadas. O grande desafio é pensar um projeto utópico que
integre a população carente à cidade de classe média, que
consiga socializar os bens tecnológicos, que interligue os
bairros, que espraie os direitos sociais e políticos da cidade.
Uma cidade cujo símbolo vá além da matriz do centro elitizado de
Maringá. Um projeto cultural que supere os muros das
universidades. Um projeto estético que supere a mera homenagem
às comunidades e famílias fundadoras da cidade. Mas que integre,
fundamentalmente. E que dialogue com a cultura conservadora da
cidade.
Em jornalismo se diz que o pior profissional é
aquele que briga com os fatos. Em política pública, o pior dos
líderes é o que briga com a cultura política. Não é problema uma
cidade possuir uma cultura política conservadora. O problema é a
liderança não dialogar e polemizar com esta cultura. Sob pena de
nunca conseguir elaborar e disseminar um discurso ético, mas
meramente estético. Um líder preso à estética conservadora é uma
contradição em termos, porque estará preso ao passado, à
interpretação do passado e às possibilidades de futuro. Mas o
líder político é justamente aquele que desafia o presente e
constrói um futuro possível, sedimentado no desejo de seus
seguidores.
É isto que parece faltar à Maringá: ultrapassar o
espaço paroquial e ingressar no mundo público.
Doutor em Ciências Sociais, membro da Executiva Nacional
do Fórum Brasil do Orçamento e do Observatório
Internacional da Democracia Participativa.