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ALEXANDRE REINALDO
PROTÁSIO
Graduado em História,
especialista em Educação Brasileira e mestre em Educação
Ambiental (Fundação Universidade Federal do Rio Grande – RS).
Atualmente dirigente do 6º Núcleo do Centro de Professores do
Estado do RS, em Rio Grande. O presente artigo originalmente
compõe a dissertação de mestrado “O conceito de natureza em
Gramsci”, pelo PPG em Educação Ambiental – FURG |
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O marxismo gramsciano: política e liberdade
por Alexandre
Reinaldo Protásio
1.
Aspectos do marxismo gramsciano
Para Gramsci, o marxismo foi além do pensamento
idealista hegeliano, “é o coroamento de todo este movimento de
reforma intelectual e moral, dialetizado no contraste entre cultura
popular e alta cultura” (Acanda, 2006: 106). O marxismo seria a
filosofia que historiciza a sua própria existência e que não concebe
a história humana como realização de uma predestinação divina,
concepção típica do fatalismo.
Fiel ao historicismo marxiano, Gramsci aponta a
filosofia da práxis como o “resultado de toda a história precedente.
Da crítica ao hegelianismo, nascem o idealismo moderno e a filosofia
da práxis. O imanentismo hegeliano torna-se historicismo; mas só é
historicismo absoluto com a filosofia da práxis” (Idem: 127). Dessa
forma não é possível imaginar que Gramsci não compreenderia o
significado de apropriar-se do hegelianismo puro, como defende
Norberto Bobbio.
Gramsci questionou a apropriação monolítica e
antidialética dos conceitos e análises marxianas pelos pensadores
mecanicistas, principalmente aqueles envolvidos na crítica à
Revolução Russa. É o que nos comprova Macciocchi ao destacar a
polêmica gerada ao redor do artigo de Gramsci, “Revolução contra O
Capital” (24 de dezembro de 1917, jornal “Avanti!”): “é sua
maneira própria, qualificada pelos burocratas ortodoxos como não
marxista, de ler O Capital levando em conta o fato de que a
revolução explodiu num mundo semi-industrializado como a Rússia, e
não num país capitalista desenvolvido” (Macciocchi, 1980: 52). No
referido artigo de juventude (por isso, exige critério em sua
utilização), Gramsci, em linguagem polêmica, assevera:
Ela [Revolução Russa] é a revolução contra “O
Capital” de Karl Marx. O Capital de Marx era, na Rússia, o livro
dos burgueses, mais do que dos proletários. Era a demonstração
crítica da fatal necessidade de que na Rússia se formasse uma
burguesia, se iniciasse uma era capitalista, se instaurasse uma
civilização de tipo ocidental, antes que o proletariado pudesse
sequer pensar em sua desforra, em suas reivindicações de classe,
em sua revolução. Os fatos superaram as ideologias. Os fatos
fizeram explodir os esquemas críticos dentro dos quais a
história da Rússia deveria se desenvolver segundo os cânones do
materialismo histórico (Gramsci, 2004: 126).
Contudo, o autor sardo não se importava com as
críticas que o acusavam de idealista, pois acreditava que o marxismo
seria o instrumento para a construção de uma nova filosofia (nova
hegemonia), o que exigiria, portanto, “liberá-lo de suas escórias
positivistas, de todos os seus elementos herdados das diferentes
tradições culturais nas quais ele se desenvolveu, sob uma forma
nacional ou mesmo internacional” (Buci-Glucksmann, 1980: 417).
Para Leandro Konder, Gramsci “desenvolveu uma
interpretação bastante original da filosofia de Marx. Para ele, a
perspectiva do pensador alemão era a de um ‘historicismo absoluto’”
(Konder, 2002: 102). Konder afirma também que a perspectiva
revolucionária de Gramsci:
o incitava a
tentar contribuir para a criação de organizações capazes de
atuar num sentido político-pedagógico, capazes de ajudar a
população a tornar mais críticas suas maiores atividades já
existentes. Sua intenção era a de mobilizar o maior número
possível de pessoas para a realização de um programa que
resultasse em aumento da liberdade e em diminuição da coerção na
sociedade (Idem: 110).
Buci-Glucksmann assevera que o autor sardo pensava o
“materialismo histórico como ciência da política, porque ciência de
um Estado integral” (Buci-Glucksmann, 1980: 428). A posição de
Gramsci elimina qualquer possibilidade de “sociologismo” e a
“redução do marxismo a uma simples teoria crítica” (Ibidem). A
intenção era revolucionar a filosofia e não somente apresentar mais
uma tendência no espectro político-teórico. É preciso lembrar a 11ª
Tese sobre Feuerbach, importante para Gramsci: “os filósofos só
interpretaram o mundo de diferentes maneiras; do que se trata é de
transformá-lo” (Marx, s/d: 210).
Jorge Luís Acanda escreve no prefácio do livro
“Sociedade civil e Hegemonia”, que o “caráter dialético da concepção
de Gramsci sobre os processos que ocorrem na sociedade faz a herança
deste autor ser tão mal interpretada. (...) Gramsci não concebia os
fenômenos sociais como coisas, e sim como sistemas de relações” (Acanda,
2006: 11-2). Acanda caracteriza como os conceitos de Gramsci
(hegemonia e sociedade civil) circularam pelos diversos movimentos
sociais e países, inclusive Cuba, e aponta as várias interpretações
“sofridas” por esse autor.
Gramsci soube relacionar com maestria as histórias da
Europa e do povo italiano. Analisou os processos históricos
nacionais não apenas como fatos isolados, mas como releituras e
interpretações italianas da conjuntura européia. Localizou no tempo,
no espaço e no plano das idéias, os períodos da história italiana: o
Império Romano, o fortalecimento do Papado, o Renascimento cultural,
a Reforma Protestante (e a Contra-Reforma) e o longo processo do
Risorgimento (unificação italiana).
É, por exemplo, “no contexto da história italiana, da
formação tardia do Estado, do processo de concentração capitalista
em meio à guerra" (Schlesener, 2002: 43) que Gramsci vai construir
os conceitos de hegemonia e de cultura. Nos Cadernos, dedica várias
notas para analisar os principais literatos italianos e europeus,
assim como o contexto histórico em que viviam.
Articulava cultura, política, literatura, religião e
ideologia na construção do seu método de análise histórica. E nesse
sentido, também o conceito de história se torna fundamental para
compreendermos as relações que Gramsci estabeleceu entre as
conjunturas nacional e internacional.
A história não é apenas a atuação dos líderes “mas
também a ineliminável possibilidade de intervenção ativa e
consciente dos de baixo. Fortalecer essa intervenção era a meta, o
ideal do pensador italiano” (Konder, 2002: 110). Ou seja: "Toda
problemática gramsciana, está centrada na história como intervenção
da vontade, como criação humana" (Dias, 2000: 111).
A relação de interdependência, analisada do ponto de
vista histórico e processual, entre o contexto nacional e o
internacional é, portanto, um dos elementos fundantes do marxismo de
Gramsci. O teórico percebe que refletir dialeticamente sobre os
processos históricos europeus ajuda a compreender a própria história
nacional.
A relação
“nacional” é o resultado de uma combinação “original” (em certo
sentido), que deve ser compreendida e concebida nesta
originalidade e unicidade se se quer dominá-la e dirigi-la. Por
certo, o desenvolvimento é no sentido do internacionalismo, mas
o ponto de partida é “nacional”, e é deste ponto de partida que
se deve partir. Mas a perspectiva é internacional e não pode
deixar de ser. É preciso, portanto, estudar exatamente a
combinação de forças nacionais que a classe internacional deverá
dirigir e desenvolver segundo a perspectiva e as diretrizes
internacionais (Gramsci, 2002a: 314).
A necessidade de relacionar contextos nacional e
internacional se intensifica pelas pressões políticas das primeiras
décadas do século XX. Para problematizar a situação italiana,
Gramsci precisa refletir sobre o fascismo na Europa e o
fortalecimento dos Estados Unidos como nova potência econômica
(Americanismo) - suplantando a antiga metrópole, Inglaterra; e
também sobre o surgimento da União Soviética.
No plano nacional, identificou as principais forças
sociais que atuaram no Risorgimento e caracterizou suas ações
e o seu discurso. Nessa leitura dos processos nacionais reforçou a
construção das suas principais categorias:
Boa parte das categorias gerais que Gramsci vai
elaborando, e que constituem a trama de uma verdadeira teoria da
política, foi construída a partir dos casos e das vicissitudes
da história italiana. Quem quer que tenha alguma familiaridade
com os seus escritos sabe qual a importância que neles teve a
reflexão sobre a história do Renascimento para o estudo do
problema dos intelectuais, ou a reflexão sobre o Risorgimento
para a definição do conceito de bloco histórico e de hegemonia,
ou a reflexão sobre a história do movimento operário italiano
para a formulação da distinção entre o momento
econômico-corporativo e o momento ético-político, ou ainda a
reflexão sobre o advento do fascismo para a formulação da
distinção entre guerra de movimento e guerra de posição (Bobbio,
1999: 115).
A análise do Risorgimento possibilitou
criticar o fato de as lideranças desse movimento não terem
aproveitado as revoltas de 1848-49 para dar um caráter
nacional-popular para o movimento. Na opinião de Gramsci, as
lideranças teriam sido conservadoras ao não estimularem um papel
ativo por parte do povo: "para construir história duradoura, não
bastam os 'melhores', são necessárias as energias nacional-populares
mais amplas e numerosas" (Gramsci, 2002b: 52).
A crítica sobre a ausência do sujeito popular nas
grandes decisões nacionais é um dos exemplos claros da leitura
dialética e democrática que o teórico sardo faz da realidade.
Gramsci critica uma ausência produzida na relação não-orgânica entre
os intelectuais tradicionais e o povo e imposta por uma classe
dominante temerosa de perder o controle político-econômico da
sociedade. A lei dialética da quantidade que se transforma em
qualidade se aplica com eficiência ao exemplo do renascimento da
Itália como nação. Qualidade que, se não garante avanços imediatos
nas condições de vida, pelo menos possibilitaria que novos atores
sociais aparecessem na cena, principalmente os trabalhadores.
2. Política e Liberdade
O militante sardo reabilitou o papel político dos
homens, das classes sociais e dos partidos na construção da
história. Aparece, desde os escritos da juventude, a defesa da
vontade (potência) dos homens e da liberdade. Depurado do idealismo
gentiliano e croceano da juventude, o conceito de liberdade em
Gramsci buscou ser o contraponto ao determinismo da estrutura.
Para Semeraro, junto com a concepção histórica e
filosófica apresentada por Gramsci, merece que consideremos “o
destaque dado à liberdade e à vontade; a insistência sobre a
‘reforma moral e intelectual’ e a ação educativa das massas, a
importância da escola e dos elementos culturais” (Semeraro, 1999:
153). Ao discutir, por exemplo, o papel da escola, o autor sardo
propõe uma grande revolução na forma como são organizados os
currículos e o próprio sistema de ensino. O objetivo era unificar a
escola, pois esta estava dividida entre o humanismo clássico
ensinado para as classes dirigentes, e o ensino técnico para os
filhos das classes subalternas.
Quanto à questão cultural, Macciocchi insistiu em
aproximar Gramsci das experiências na China, pois nos diz que “a
obra gigantesca de elaboração de uma filosofia da práxis, foi não
somente capaz de transformar a mentalidade de milhões de homens
atrasados e submissos, mas também de fazer deles, a nova classe
dirigente” (Macciocchi, 1980: 169).
A autora italiana, que visitou a China durante a
Revolução Cultural maoísta, afirma que os pensamentos de Gramsci,
mesmo que não haja correspondência histórica, estavam em curso e
modificando a vida de milhões de chineses. Os intelectuais eram
obrigados a trabalharem em serviços braçais nas aldeias do interior
da China e, nessas regiões, os Comitês Revolucionários comandavam as
leituras e os debates das obras marxianas e marxistas.
Para Macciocchi, na China, os homens estavam
adquirindo a vontade-potência necessária para aprofundar a revolução
socialista, criando, portanto: “centenas de milhões de seus
‘próprios’ intelectuais, isto é, homens com uma visão do mundo
totalmente nova, homens que trabalham com a cabeça e com os braços”
(Idem: 170).
Outro elemento importante para discutirmos o papel da
vontade e da política na obra de Gramsci, é o conceito que este
fazia do materialismo mecanicista. Segundo Buci-Glucksmann, a
rejeição do militante italiano se dá porque o “materialismo
mecanicista é incapaz de compreender ‘a transformação do ideal em
real’ na história e em cada vida individual: ele não compreende que
a ‘reforma das consciências’ é um fato filosófico” (Buci-Glucksmann,
1980: 437). Ou seja:
O materialismo mecanicista é incapaz de
compreender a teoria do reflexo enquanto um processo, incapaz de
aplicar a dialética à bildertheorie. O reflexo permanece
“mecânico” porque o critério da prática não é colocado em uma
dupla acepção: enquanto critério de verdade e enquanto
“determinante prático da ligação do objeto com aquilo que é
necessário ao homem” (Ibidem).
Na concepção de Buci-Glucksmann, o erro do
mecanicismo tem “conseqüências políticas terríveis”, pois imobiliza
os homens diante da economia (estrutura). Se fosse possível um
reflexo fiel da estrutura na superestrutura, não teria sido possível
a vontade-potência dos franceses em 1789, dos operários russos em
1917, dos cubanos em 1954, entre outras demonstrações históricas do
gênero. O homem, para Gramsci, carrega as possibilidades cognitivas
e físicas para sua libertação.
Pensando de forma dialética e ao analisar o papel
político do homem diante da sociedade, Gramsci afirma:
Transformar o
mundo exterior, as relações gerais, significa fortalecer a si
mesmo, desenvolver a si mesmo. É uma ilusão, e um erro, supor
que o ‘melhoramento’ ético seja puramente individual: a síntese
dos elementos constitutivos da individualidade é “individual”,
mas ela não se realiza e desenvolve sem uma atividade para o
exterior, atividade transformadora das relações externas, desde
com a natureza e com os outros homens – em vários níveis, nos
diversos círculos em que se vive – até à relação máxima, que
abraça todo o gênero humano. Por isso, é possível dizer que o
homem é essencialmente “político”, já que a atividade para
transformar e dirigir conscientemente os homens realiza a sua
“humanidade”, a sua “natureza humana” (Gramsci, 1995: 47-8).
O exercício da liberdade possui dimensões
individuais, pois trata da participação de cada um na vida pública,
mas ela só é plena e transformadora quando coletiva. A liberdade
individual é a concepção típica do liberalismo, mote fundador do
Estado de direito. Gramsci alerta que estes são conceitos
ambientais, ou seja, que obrigatoriamente necessitam de interações
com a sociedade e a natureza para se concretizarem.
A política é apresentada por Gramsci de duas formas:
uma considerada como acepção ampla e outra restrita. Em sua acepção
ampla (catarse), a política “é identificada com liberdade, com
universalidade ou com todas as formas de práxis que superam a
simples recepção passiva ou a manipulação dos dados imediatos da
realidade" (Coutinho, 2003b: 70). A acepção restrita seria aquela
abordada pela ciência política e circunscrita pelas relações
institucionais, ou seja, aquela que “envolve o conjunto das práticas
e das objetivações diretamente ligadas às relações de poder entre
governantes e governados" (Idem: 72).
A política é instrumento de construção da liberdade,
de rompimento gradativo ou abrupto com um mundo dominado pela
necessidade, ou seja, pela economia e suas dinâmicas. A política
possibilita a construção de uma sociedade em que os homens podem
desenvolver suas potencialidades plenamente e não apenas a partir
das demandas do mercado de trabalho.
Parte da população brasileira e mundial vive em
“mundos de pura necessidade”, estando alijados das formas de
manifestação do poder político. A educação transformadora pode ser
um dos instrumentos da passagem do mundo da necessidade para o da
liberdade, rompendo com o individualismo, pondo fim na guerra
hobbesiana de “todos contra todos”.
Gramsci reinterpreta a famosa expressão marxiana de
que os homens tomam consciência da sua exploração e da estrutura
através das superestruturas. Essa constatação leva à liberdade? O
homem reconhecendo os grilhões que o prendem, pode, diante dessa
revolução cultural, decidir os destinos da sociedade. Como
redistribuir a propriedade privada, que tanta miséria já provocou?
Como socializar a riqueza produzida nos campos e cidades?
O momento catártico (a sociedade civil) está,
portanto, relacionado dialeticamente com a estrutura e a
superestrutura (Estado), não sendo "criação absoluta, não opera no
vazio, mas no interior das determinações econômico-objetivas que
limitam (mas sem de modo algum cancelar) as margens de realização da
liberdade" (Coutinho, 2003b: 78).
Semeraro, por sua vez, pensa o momento catártico como
o “ponto de partida de toda a filosofia da práxis” (Semeraro, 1999:
50). Semeraro, ao exemplo de Bobbio, acredita que a maior
contribuição de Gramsci foi no campo das superestruturas. Portelli
também credita importância ao termo “catarse”, pois confirma a tese
de Gramsci de que as superestruturas não são meros reflexos da
estrutura: “esfera da ideologia, da sociedade civil, é o momento
mediador entre estrutura e superestrutura” (Portelli, 2002: 63).
Na perspectiva de Gramsci, "quanto mais se amplia a
socialização da política, tanto mais se desenvolve a sociedade
civil, o que significa que os processos sociais serão cada vez mais
determinados pela teleologia (pela 'vontade coletiva')" (Coutinho,
2003b: 79). A liberdade humana, não entendida somente como
subjetividade humana, passaria a ser o fundamento da sociedade.
A vontade humana, a liberdade, torna-se um elemento
importante na análise do autor sardo: "Gramsci vê o movimento social
como um campo de alternativas, como uma luta de tendências, cujo
desenlace (...) depende do resultado da luta entre vontades
coletivas organizadas" (Coutinho, 2003a: 43). A economia pode
possibilitar, restringir ou dificultar algumas “vontades coletivas
organizadas”, mas não as determina como reflexo imediato.
A liberdade tem sido pensada no sistema capitalista a
partir do olhar econômico. O economicismo, mesmo marxista, colocou o
acento no processo produtivo ao mencionar a história da “libertação”
dos servos do sistema feudal como a história da capitalização das
economias européias. Mas na verdade, estavam fortalecendo uma
concepção necessitarista, onde a vontade humana fica submetida aos
dissabores da sobrevivência no mercado de trabalho, que o indivíduo
não pode controlar (a famosa “mão invisível”).
Para Loureiro, a liberdade “não é uma idéia
transcendental. Possui um caráter prático transformador que se
refere à superação pela práxis dos limites definidos na história”
(Loureiro, 2004: 129). A práxis funciona de forma plena no coletivo,
em relação com outros homens e mulheres, mas também depende da
vontade individual. E nesse sentido, Loureiro e Gramsci estão em
sintonia ao conceberem a liberdade como um dos temas preferenciais
dos revolucionários.
A práxis “se refere à ação intersubjetiva, entre
pessoas e dos cidadãos e não à produção material e de objetos, que
se relaciona ao trabalho, ambas estando, evidentemente,
interligadas”. (Idem: 130). A práxis, portanto, tem relação direta
com as “escolhas conscientes” nas atividades do cotidiano, seja
através do diálogo ou da intervenção no mundo material, da produção.
Para Loureiro, a construção de uma sociedade
coerente, do ponto de vista sócio-ambiental, implica considerar
“modelos societários”, que através da repartição dos meios de
produção, “garantam a liberdade e o desenvolvimento das
potencialidades humanas, pautados em uma nova ética na relação
sociedade-natureza” (Loureiro, 2003: 76). Essa perspectiva rompe com
a concepção individualista de liberdade no capitalismo, onde o homem
não possui as condições materiais adequadas para desempenhar suas
funções políticas.
3. Considerações Finais
Quais podem ser as lições tiradas das análises de
Gramsci sobre os conceitos de política e a liberdade? Primeiramente,
o conceito de política é um instrumento, que serve para a
transformação da sociedade. Por isso, Gramsci é considerado por
vários autores, de forma exagerada, como o teórico das
superestruturas.
Em segundo lugar, a política enfrenta o economicismo.
A forma monolítica de compreender as relações entre economia e
sociedade (materialismo mecanicista) reduz a política à condição de
mero reflexo. Como o economicismo é a representação entre as
ideologias do reino da necessidade, da estrutura, seu combate
fortalece a vontade-potência entre os trabalhadores.
Em terceiro lugar, a liberdade pode ser considerada
uma finalidade-instrumento, ou seja, é uma finalidade da política
que possibilita, por sua vez, outros avanços qualitativos. No caso
da teoria gramsciana, a liberdade representa a superação dos limites
sociais impostos pelos padrões de produção e consumo do capitalismo.
Por fim, a liberdade está associada à realização
humana. Não pode ser conquistada sem a recomposição do corpo
inorgânico do homem, ou seja, a natureza que lhe foi arrancada no
processo de alienação do trabalho. Nesse sentido, as análises
gramscianas sobre a política e a liberdade, enquanto instrumentos da
transformação social, constituem um corpo teórico materialista para
que pensemos um novo homem para um novo mundo.
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