|
WALTER
PRAXEDES
Docente
na Universidade Estadual de Maringá, Departamento de Ciências
Sociais; Doutor em
Educação pela USP e co-autor de O Mercosul e a sociedade
global (São Paulo, Ática, 1998) e Dom Hélder Câmara:
Entre o poder e a profecia, publicada no Brasil pela Editora
Ática (1997) e na Itália pela Editrice Queriniana (1999)
|
|
Eurocentrismo e racismo nos clássicos da filosofia e das ciências
sociais
por Walter Praxedes
Realizar
uma pesquisa para encontrar aspectos eurocêntricos e racistas nas
obras dos mais reconhecidos pensadores considerados clássicos chega
a ser uma tarefa simples. O problema é que geralmente esta não é uma
preocupação dos estudiosos e dos professores universitários. Em
conseqüência, nos cursos de licenciatura e de bacharelado para a
formação de novos professores e pesquisadores, os acadêmicos passam
anos estudando os autores para aprender a contribuição original de
cada um para o conhecimento “universal”, atribuindo possíveis
deslizes etnocêntricos como próprios do contexto intelectual de
produção das obras.
Muitas vezes relevamos o fato de filósofos,
cientistas, sacerdotes, artistas, viajantes e colonizadores
classificarem os grupos humanos que abordavam em seus trabalhos como
pertencentes a raças e etnias misteriosas, donas de comportamentos
selvagens, idéias atrasadas, costumes e religiões primitivas e
bizarras, aparência horripilante e idéias irracionais. Como se o
nosso mundo não-europeu fosse habitado por seres aos quais era
negado o reconhecimento como humanos. O homo sapiens foi
dividido pela filosofia e pela ciência européias em “uma hierarquia
de raças que desumanizou e reduziu os subordinados tanto ao olhar
científico como ao desejo dos superiores” (SAID, 2004: pág. 52)
Em seu livro “Rediscutindo a mestiçagem no Brasil”,
o professor Kabengele Munanga demonstra como inúmeros autores
europeus considerados clássicos e inatacáveis em nossos currículos
advogam as mais ensandecidas teorias racistas. Segundo Kabengele,
“Na vasta reflexão dos filósofos das luzes sobre
a diferença racial e sobre o alheio, o mestiço é sempre tratado
como um ser ambivalente, visto ora como o “mesmo”, ora como o
“outro”. Além do mais, a mestiçagem vai servir de pretexto para
a discussão sobre a unidade da espécie humana. Para Voltaire, é
uma anomalia, fruto da união escandalosa entre duas raças de
homens totalmente distintas. A irredutibilidade das raças
humanas não está apenas na aparência exterior: “não podemos
duvidar que a estrutura interna de um negro não seja diferente
da de um branco, porque a rede mucosa é branca entre uns e preta
entre outros”. Os mulatos são uma raça bastarda oriunda de um
negro e uma branca ou de um branco e uma negra” (MUNANGA, 1999:
pág. 23).
O filósofo Emmanuel Kant, por exemplo, presença
obrigatória nos currículos dos cursos de filosofia em nosso país e
no mundo a fora, na sua obra Observações sobre o sentimento do
belo e do sublime, de 1764, trata do que denomina como
“diferenças entre os caracteres das nações”, segundo ele, na
tentativa “apenas de esboçar traços que neles exprimem os
sentimentos do sublime e do belo”, mas sem a intenção de “ofender a
ninguém”.
“Na minha opinião, escreve Kant, entre os povos
do nosso continente, os italianos e os franceses são aqueles que
se distinguem pelo sentimento do belo; já os alemães, os
ingleses e espanhóis, pelo sentimento de sublime [...] O
espanhol é sério, reservado e sincero [...] O francês possui um
sentimento dominante para o belo moral. É cortês, atencioso e
amável [...] No início de qualquer relação o inglês é frio,
mantendo-se indiferente a todo estranho. Possui pouca inclinação
a pequenas delicadezas; todavia, tão logo é um amigo, se dispõe
a grandes favores [...] O alemão no amor, tanto quanto nas
outras espécies de gosto, é assaz metódico, e, unindo o belo e o
nobre, é suficientemente frio no sentimento de ambos para ocupar
a mente com considerações acerca do decoro, do luxo ou daquilo
que chama a atenção [...]” (KANT, 1993, pág. 65-70)
Depois de caracterizar os povos dos outros
continentes, desta vez realçando aqueles aspectos que considera
extravagantes, grosseiros e exagerados, Kant expõe as suas opiniões
sobre os negros, suas manifestações culturais e formas de
religiosidade, revelando toda a sua ignorância e arrogância. Para
Kant:
“Os negros da África não possuem, por natureza,
nenhum sentimento que se eleve acima do ridículo. O senhor Hume
desafia qualquer um a citar um único exemplo em que um Negro
tenha mostrado talentos, e afirma: dentre os milhões de pretos
que foram deportados de seus países, não obstante muitos deles
terem sido postos em liberdade, não se encontrou um único sequer
que apresentasse algo grandioso na arte ou na ciência, ou em
qualquer outra aptidão; já entre os brancos, constantemente
arrojam-se aqueles que, saídos da plebe mais baixa, adquirem no
mundo certo prestígio, por força de dons excelentes. Tão
essencial é a diferença entre essas duas raças humanas, que
parece ser tão grande em relação às capacidades mentais quanto à
diferença de cores. A religião do fetiche, tão difundida entre
eles, talvez seja uma espécie de idolatria, que se aprofunda
tanto no ridículo quanto parece possível à natureza humana. A
pluma de um pássaro, o chifre de uma vaca, uma concha, ou
qualquer outra coisa ordinária, tão logo seja consagrada por
algumas palavras, tornam-se objeto de adoração e invocação nos
esconjuros. Os negros são muito vaidosos, mas à sua própria
maneira, e tão matraqueadores, que se deve dispersá-los a
pauladas.” (KANT, 1993: pág. 75-76)
Um outro grande expoente do pensamento filosófico
ocidental, Hegel, via nos nativos americanos “mansidão e
indiferença, humildade e submissão perante um crioulo (branco
nascido na colônia), e ainda mais perante um europeu”. Segundo o
filósofo alemão “ainda custará muito até que europeus lá cheguem
para incutir-lhes uma dignidade própria. A inferioridade desses
indivíduos, sob todos os aspectos, até mesmo o da estatura, é fácil
de se reconhecer” (HEGEL, 1999: pág. 74-75). Sobre os negros, o
grande filósofo alemão escreve que
“a principal característica dos negros é que sua
consciência ainda não atingiu a intuição de qualquer
objetividade fixa, como Deus, como leis, pelas quais o homem se
encontraria com a própria vontade, e onde ele teria uma idéia
geral de sua essência [...] O negro representa, como já foi dito
o homem natural, selvagem e indomável. Devemos nos livrar de
toda reverência, de toda moralidade e de tudo o que chamamos
sentimento, para realmente compreendê-lo. Neles, nada evoca a
idéia do caráter humano[...] A carência de valor dos homens
chega a ser inacreditável. A tirania não é considerada uma
injustiça, e comer carne humana é considerado algo comum e
permitido [...] Entre os negros, os sentimentos morais são
totalmente fracos – ou, para ser mais exato inexistentes.
(HEGEL, 1999, pág. 83-86)
Depois de fazer tais considerações, o filósofo
conclui esta parte de sua obra argumentando que não irá mais tratar
da África, pois a mesma “não faz parte da história mundial; não tem
nenhum movimento ou desenvolvimento para mostrar” (HEGEL, 1999: pág.
88) e mesmo o Egito, embora situado no norte da África, Hegel o
interpreta “como transição do espírito humano do Oriente para o
Ocidente, mas ele não pertence ao espírito africano”. O continente
africano, é assim eliminado da “história universal”, enquanto é
retirada dos povos que lá habitam a condição de seres humanos. Esta
é uma das heranças eurocêntricas da filosofia de Hegel, o filósofo
que mais influenciou na elaboração do pensamento dialético de Karl
Marx.
Nos clássicos da sociologia as representações
depreciativas sobre o “outro” não-europeu também podem ser
facilmente encontradas. O fundador e criador do nome da disciplina,
Augusto Comte, no seu famoso Curso de Filosofia Positiva se
pergunta, na Lição 52, “Por que a raça branca possui, de modo tão
pronunciado, o privilégio efetivo do principal desenvolvimento
social e porque a Europa tem sido o lugar essencial dessa
civilização preponderante?” Ele mesmo responde: “Sem dúvida já se
percebe, quanto ao primeiro aspecto, na organização característica
da raça branca, e sobretudo quanto ao aparelho cerebral, alguns
germes positivos de sua superioridade” (COMTE, citado por ARON,
1982: pág. 121-122).
O também francês Alexis de Tocqueville, que viveu na
mesma época de Comte, e é considerado um dos grandes clássicos da
ciência política, realizou uma viagem para os Estados Unidos, nos
anos de 1831 e 1832, da qual resultou o seu livro mais conhecido,
A democracia na América. Na segunda parte da obra o autor
discute sobre “o futuro provável das três raças que habitam o
território dos Estados Unidos”. Segundo Tocqueville, ente os homens
que compõem a jovem nação “o primeiro que atrai os olhares, o
primeiro em saber, em força, em felicidade, é o homem branco, o
europeu, o homem por excelência; abaixo dele surgem o negro e o
índio. Essas duas raças infelizes não têm em comum nem o nascimento,
nem a fisionomia, nem a língua, nem os costumes. Ocupam ambas uma
posição igualmente inferior no país onde vivem...” (TOCQUEVILLE,
1977: pág. 243-244). Tocqueville reconhece a opressão exercida pelos
colonizadores europeus sobre os negros e índios, mas também não
deixa de considerar os mesmos como selvagens e inferiores. Sobre os
negros, o nobre francês não economiza adjetivos depreciativos em sua
obra:
“O escravo moderno não difere do senhor apenas
pela liberdade. Mas ainda pela origem. Pode-se tornar livre o
negro, mas não seria possível fazer com que não ficasse em
posição de estrangeiro perante o europeu. E isso ainda não é
tudo: naquele homem que nasceu na degradação, naquele
estrangeiro introduzido entre nós pela servidão, apenas
reconhecemos os traços gerais da condição humana. O seu rosto
parece-nos horrível, a sua inteligência parece-nos limitada, os
seus gostos são vis, pouco nos falta para que o tomemos por um
ser intermediário entre o animal e o homem” (TOCQUEVILLE, 1977:
pág. 262).
Nem mesmo na obra de um dos autores mais influentes
sobre a sociologia contemporânea como Max Weber, deixamos de
encontrar expressões grosseiras e racistas em referência aos negros.
Weber, é o autor do livro A Ética Protestante e o Espírito do
Capitalismo, que foi considerado por alguns estudiosos
brasileiros o melhor livro de não-ficção do século XX (Folha de São
Paulo 11/04/1999). Na segunda parte da obra em que Weber mais
trabalhou em sua vida, Economia e sociedade: fundamentos da
sociologia compreensiva, o autor discute de passagem a idéia de
“pertinência à raça”, e comenta que, “nos Estados Unidos, uma mínima
gota de sangue negro desqualifica uma pessoa de modo absoluto,
enquanto que isso não ocorre com pessoas com quantidade considerável
de sangue índio” (WEBER, 1991: pág. 268). Até este ponto o texto
parece descritivo e é apresentado como uma constatação da situação
existente naquele país. Mas, logo a seguir, o Weber sempre tão
cuidadoso em tentar controlar os juízos de valor emitidos em sua
obra afirma:
Além da aparência dos negros puros, que do ponto
de vista estético, é muito mais estranha do que a dos índios e
certamente constitui um fator de aversão, sem dúvida contribui
para esse fenômeno a lembrança de os negros, em oposição aos
índios, terem sido um povo de escravos, isto é, um grupo
estamentalmente desqualificado” (WEBER, 1991: pág. 268).
Como podemos ler acima, além da “aparência dos negros
puros”..., que “certamente constitui um fator de aversão” para o
grande sociólogo alemão, ele também considera que entre as “maiores
diferenças raciais...”, “como eu pude observar”, argumenta Weber,
também deve constar o que ele denomina como “o propalado cheiro de
negro” (WEBER, 1991: pág. 272).
O pensamento clássico europeu não difunde
representações depreciativas apenas sobre negros e índios. Èmile
Durkheim, por exemplo, outro autor considerado um dos fundadores da
sociologia na França, em seu livro Da Divisão do Trabalho Social,
ao tratar das diferenças entre os gêneros masculino e feminino, se
baseou nas pesquisas do cientista Lebon, para quem
“...o volume do crânio do homem e da mulher,
mesmo quando se comparam pessoas de igual idade, estatura e peso
iguais, apresenta diferenças consideráveis em favor do homem e
esta desigualdade vai igualmente crescendo com a civilização, de
maneira que, do ponto de vista da massa do cérebro e, por
conseguinte, da inteligência, a mulher tende a diferenciar-se
cada vez mais do homem. A diferença que existe, por exemplo,
entre a média dos crânios dos parisienses é quase o dobro
daquela observada entre os crânios masculinos e femininos do
antigo Egito” (Lebon, citado por Durkheim, 1978: pág. 28).
Observemos que no raciocínio de Lebon, no qual
Durkheim se baseia para elaborar a sua teoria sobre a divisão do
trabalho nas sociedades modernas, conforme um povo vai crescendo em
civilização maior o crânio e a quantidade de massa encefálica dos
seus membros e, também, maior a diferença de inteligência entre o
homem e a mulher, sempre em favor do homem.
Durkheim é também autor de As formas elementares
da vida religiosa, que é uma obra ainda hoje muito respeitada
pelos estudiosos das disciplinas de sociologia e antropologia. O que
chama a atenção no texto são os adjetivos que o autor utiliza para
se referir às religiões não-européias. Para Durkheim, do seu ponto
de vista, era importante estudar “a religião mais primitiva e mais
simples que atualmente seja conhecida, fazer sua análise e tentar
explicá-la”. O autor considera importante estudar “as formas caducas
de civilização”, mas não “pelo prazer de relatar coisas bizarras e
singularidades”, e sim para que seja revelado um “aspecto essencial
e permanente da humanidade”, que é o que ele chama de “natureza
religiosa do homem”. Embora Durkheim considere importante estudar o
fenômeno religioso, ele não deixa de considerar que existe uma
hierarquia entre as religiões, “umas podem ser ditas superiores às
outras no sentido em que elas põem em jogo funções mentais mais
elevadas, são mais ricas em idéias e sentimentos, nelas figuram mais
conceitos, menos sensações e imagens, sua sistematização é mais
engenhosa” (DURKHEIM, 1978: pág. 205-206). No final da introdução de
sua obra, Durkheim parece se desculpar por estudar as religiões que
considera “primitivas”, afirmando que não pretendida “atribuir
virtudes particulares às religiões inferiores [... ]. Ao contrário,
elas são rudimentares e grosseiras. [...] Mas a sua própria
grosseria as torna instrutiva; pois elas constituem assim
experiências cômodas, onde os fatos e suas relações são mais fáceis
de perceber” (DURKHEIM, 1978: pág. 210).
Preocupado em demonstrar como as relações sociais de
produção e o desenvolvimento das forças produtivas são os fatores
primordiais para entendermos os processos de estruturação e mudança
nas sociedades, Karl Marx abordou muito pouco o problema das
diferenças entre as supostas raças humanas em sua obra. O
eurocentrismo do pensamento de Marx pode ser constatado de outra
maneira, como já demonstrou Edward Said (1990: pág. 161-190). Em um
texto de 1853, ou seja, de um Marx já maduro, aparece uma reflexão
sobre os “Resultados futuros da dominação britânica da Índia”, com a
qual é avaliada a atuação colonialista da Inglaterra na Índia e suas
conseqüências. Para Marx (1982: pág. 520) “a Inglaterra tem que
cumprir na Índia uma dupla missão: uma destrutiva, outra
regeneradora – a aniquilação da velha sociedade asiática e o
estabelecimento dos fundamentos da sociedade ocidental na Ásia”.
Marx está considerando a ocidentalização da Índia como uma missão
regeneradora, mas ele ainda expõe de forma mais evidente o seu
eurocentrismo ao comparar outras civilizações como a indiana e a
inglesa. Vejamos:
Árabes, Turcos, Tártaros, Mongóis, que
sucessivamente invadiram a Índia, cedo ficaram indianizados, uma
vez que, segundo uma lei eterna da história, os conquistadores
bárbaros são eles próprios conquistados pela superior
civilização dos seus súditos. Os Britânicos foram os primeiros
conquistadores superiores e, por conseguinte, inacessíveis à
civilização hindu. Destruíram-na, rebentando com as comunidades
nativas, arrancando pela raiz a indústria nativa e nivelando
tudo o que era grande e elevado na sociedade nativa. As páginas
históricas da sua dominação na Índia quase não relatam mais nada
para além essa destruição. A obra de regeneração mal transparece
através de um montão de ruínas. Apensar disso ela começou.
(MARX, 1982: pág. 520).
Em um outro texto jornalístico de 1853, “A dominação
britânica na Índia”, Marx não deixava de denunciar a violência do
colonialismo inglês, mas considerava tal violência como necessária
para a modernização e ocidentalização da civilização indiana. A
filosofia da história de inspiração hegeliana é evidenciada quando
Marx afirma que “não podemos esquecer que estas idílicas comunidades
aldeãs, por muito inofensivas que possam parecer, foram sempre o
sólido alicerce do despotismo oriental, confinara o espírito humano
ao quadro mais estreito possível, fazendo dele o instrumento dócil
da superstição, escravizando-o sob o peso de regras tradicionais,
privando-o de toda a energia histórica” (MARX, 1982: pág. 517). Marx
denuncia a violência das civilizações da Índia, considerando a vida
das populações indianas como “indigna, estagnada e vegetativa”, uma
“espécie de existência passiva”, que “desencadeava forças de
destruição selvagens, sem objetivos e sem limites, e tornavam o
próprio assassínio um rito religioso no Indostão”. Sobre as
religiões da Índia, Marx também não economiza expressões
depreciativas, atribuindo-lhes “um culto da natureza brutalizador,
que exigia a sua degradação no fato de o homem, o senhor da
natureza, cair de joelhos em adoração de kanuman, o macaco, e
Sabbala, a vaca”. Por tudo isso, Marx, ao final do seu texto,
como se fosse um colonialista, absolve a violência do colonialismo
Inglês: “quaisquer que possam ter sido os crimes da Inglaterra, ela
foi o instrumento inconsciente da história ao provocar essa
revolução” (MARX, 1982, pág. 517-518).
Como vimos, não encontramos nos textos mencionados
acima, nenhuma distinção relevante entre o pensamento de Marx e os
dos filósofos Hegel e Kant, quando o assunto são as populações não
européias e suas formas de vida material e religiosidade. Apenas
para ilustrar mais uma vez a semelhança de abordagem, no texto
citado, em que demonstra toda a sua arrogância eurocêntrica com
relação aos negros, Kant também desqualifica os indianos, em termos
muito parecidos aos utilizados por Marx. Para Kant,
“Os indianos possuem um gosto dominante para o
caricaturesco, daquela espécie que atinge o extravagante. Sua
religião consiste em caricaturas. Ídolos de forma monstruosa, o
dente inestimável do poderoso macaco Hanuman, as
penitências desnaturadas do faquir (frades mendicantes pagãos)
etc, fazem parte desse gosto. O sacrifício voluntário da mulher
na mesma fogueira que consome o cadáver do marido é uma horrível
extravagância. (KANT, 1993: pág. 75)
A partir destes exemplos retirados aleatoriamente de
textos europeus considerados clássicos, podemos nos interrogar
porque muitos autores e professores das disciplinas de ciências
humanas estudam os seus pensadores favoritos colocando em último
plano ou simplesmente deixando de abordar os conteúdos políticos
colonialistas dos seus textos. Para usarmos as palavras de Edward
Said, “os filósofos podem conduzir suas discussões sobre Locke, Hume
e o empirismo sem jamais levar em consideração o fato de que há uma
conexão explícita, nesses escritores clássicos, entre suas doutrinas
“filosóficas” e a teoria racial, as justificações da escravidão e a
defesa da exploração colonial” (SAID, 1990: pág. 25). Ainda, segundo
o mesmo autor, “muitos humanistas de profissão são, em virtude
disso, incapazes de estabelecer a conexão entre, de um lado, a longa
e sórdida crueldade de práticas como a escravidão, a opressão racial
e colonialista, o domínio imperial e, de outro, a poesia, a ficção e
a filosofia da sociedade que adota tais práticas” (SAID, 1995: pág.
14).
Conclusão
Todas as expressões ignorantes e depreciativas sobre
os povos e culturas não-européias citadas acima, de autoria de
alguns dos maiores expoentes das ciências sociais e da filosofia
ocidentais, permitem concluirmos, acompanhando a reflexão de
Boaventura de Sousa Santos, que “a experiência social em todo o
mundo é muito mais ampla e variada do que o que a tradição
científica ou filosófico ocidental conhece e considera importante
[...], e que a compreensão do mundo excede em muito a compreensão
ocidental do mundo” (SOUSA SANTOS, 2004: pág. 778-779). Decorre
desta argumentação a necessidade de abrirmos os centros de produção
de conhecimento em todo o mundo, mas principalmente os situados nos
países que sofrem com a hegemonia política, econômica e cultural dos
centros dominantes do capitalismo, para a identificação e a
construção de saberes mais apropriados sobre as diferenças entre as
culturas e grupos humanos e sobre as suas diferentes necessidades
materiais e simbólicas.
No lugar destas formas preconceituosas e
discriminatórias de classificação dos seres humanos espalhados pelo
Globo, podemos construir uma política de reconhecimento da
heterogeneidade cultural da humanidade e da pluralidade das formas
de existência material e relação com o ambiente. Com isso, podemos
superar o pensamento eurocêntrico que acredita e difunde que há um
padrão único para a beleza e para a inteligência, o europeu, e que
nos leva a avaliarmos a nós mesmos e aos nossos alunos de acordo com
tal padrão, esquecendo que é apenas um padrão próprio de culturas
específicas de uma região do mundo. Quando utilizamos como critérios
de beleza ou de verdade as formas de arte e de pensamento europeus
estamos sendo cúmplices com as instituições dominantes e legitimando
a sua dominação. Como educadores, temos a dupla tarefa de aprender e
ensinar a nos vermos através de critérios próprios, livres dos
pontos de vista eurocêntricos.
Evidentemente, essa superação do eurocentrismo não
quer dizer que devemos ignorar os códigos culturais, experiências e
linguagens de origem européia, como as ciências, artes e religiões,
mas quer dizer que devermos ter a capacidade de critícá-las,
dimensionando-as como formas particulares de expressão cultural de
populações e grupos particulares, sem dúvida relevantes, mas que não
são superiores a nenhuma outra forma de expressão cultural dos
grupos humanos espalhados pelo mundo.
Referências
ARON, Raymond. As
etapas do pensamento sociológico. São Paulo, Martins Fontes /
Brasília, Editora da UnB, 1982.
BHABHA, Homi K. O
local da cultura. Belo Horizonte, Editora UFMG, 1998.
BONNICI, Thomas. O
pós-colonialismo e a literatura: estratégias de leitura.
Maringá, Eduem, 2000.
DURKHEIM, Émile. Da
divisão do trabalho social. / As formas elementares da vida
religiosa. In: Coleção Os pensadores. São Paulo, Abril Cultural,
1978.
GIROUX, Henry A.
Cruzando as fronteiras do discursos educacional – novas políticas em
educação. Porto Alegre, Artes
Médicas Sul, 1999.
HALL, Stuart. “Notas
sobre a desconstrução do “popular”. In: HALL, S. Da diáspora:
identidades e mediações culturais. Belo Horizonte, Editora UFMG;
Brasília, Representação da UNESCO no Brasil, 2003.
HEGEL, G.W. Friedrich.
Filosofia da História. Brasília, Editora da UnB, 1999.
KANT, Emmanuel.
Observações sobre o sentimento do belo e do sublime. Campinas,
Papirus, 1993.
MARX, Karl. “A
dominação britânica na Índia”. / “Resultados futuros da dominação
britânica na Índia”. In: MARX & ENGELS. Obras escolhidas.
Tomo I. Lisboa, Edições Avante! / Moscou, Edições Progresso, 1982.
MIGNOLO, Walter. “Os
esplendores e as misérias da “ciência”: colonialidade, geopolítica
do conhecimento e pluri-versalidade epistêmica”. In: SANTOS,
Boaventura de Sousa (org). Conhecimento prudente para uma vida
decente: um discurso sobre as ciências revisitado. São Paulo,
Cortez, 2004.
MUNANGA, Kabengele.
Rediscutindo a mestiçagem no Brasil. Petrópolis, Vozes, 1999.
RIBEIRO, Darcy. As
Américas e a civilização. Petrópolis, Vozes, 1979.
SAID, Edward W.
Cultura e imperialismo. São Paulo, Companhia das Letras, 1995.
__________. Freud e
os não-europeus. São Paulo, Boitempo, 2004.
__________.
Orientalismo: o oriente como invenção do ocidente. São Paulo,
Companhia das Letras, 1990.
SANTOS, Boaventura de
Sousa. “Para uma sociologia das ausências e uma sociologia das
emergências”. In: SANTOS, Boaventura de Sousa (org). Conhecimento
prudente para uma vida decente: um discurso sobre as ciências
revisitado. São Paulo, Cortez, 2004.
TAYLOR, Charles.
Argumentos filosóficos. São Paulo, Loyola, 2000.
TOCQUEVILLE, Alexis.
A democracia na América. Belo Horizonte, Editora Itatiaia /
São Paulo, Editora da USP, 1977.
WEBER, Max.
Economia e sociedade. Vol 1. Brasília, Editora da UnB, 1991.
|
|
versão para imprimir (arquivo em pdf)

|