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PAULO ROBERTO DE ALMEIDA
Doutor em Ciências Sociais, diplomata, autor de vários trabalhos
sobre relações internacionais e política externa do Brasil


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O
fetiche do Capital
por Paulo Roberto de Almeida
Alerto,
desde o inicio, que o Capital a que me refiro no título (em
itálico, por favor) é mesmo a obra preferida de marxistas e
marxianos, o magnum opus de Karl Marx, tão cultuado quanto
pouco lido desde sua edição original (em 1863). A pergunta se
coloca: por que voltar agora a essa obra vetusta, quase gótica,
stricto et lato sensi, objeto de controvérsias desde sua
primeira versão, que coroa e anuncia as teorias da mais-valia, sobre
as quais Marx trabalhou durante anos seguidos, sem jamais dar forma
final à obra que ele estimava – como seus seguidores e admiradores –
como o desvendamento definitivo do funcionamento do modo de produção
capitalista?
Existiriam muitas razões, nenhuma delas voltada para
a explicação própria dessa obra, o que já foi feito e que continua
a ser feito pelos já referidos apreciadores do seu autor. Pretendo,
de meu lado, dirigir-me a uns poucos leitores, provavelmente
estudantes universitários em sua maior parte, alguns professores
idem, e talvez um ou outro dos curiosos que circulam em sites e
revistas digitais. Minha razão de voltar a escrever sobre esse tema
recorrente tem a ver com o que poderia ser chamado de “economia
política” da formação intelectual, ou, mais prosaicamente, com a
simples economia do estudo acadêmico. Gostaria de livrar uns e
outros de um fetiche que se tornou regular e inseparável de certa
cultura universitária, que normalmente se pretende séria e
respeitável.
Tenho reparado, pela minha freqüentação de listas de
discussões e pela leitura de sites acadêmicos que professores
universitários brasileiros continuam a insistir com seus alunos na
leitura do Capital, leitura que é feita sempre parcial e
truncadamente, pois que não concebo um estudante “normal” de nossas
instituições de ensino superior mergulhando na leitura sistemática
dos três livros do Capital (e mais quatro sobre a Teoria
da Mais-Valia), sem correr seriamente o risco de ser reprovado
nas demais matérias por falta de estudo, o que seria a suprema
ironia.
Alerto, também desde o início, que não tenho nada
contra a leitura do Capital, sempre bem-vinda e interessante
quando se dispõe de tempo e do lazer necessários a um mergulho na
história das idéias econômicas do século XIX. A questão é que
raramente esse estudo é feito nas disciplinas de história do
pensamento econômico ou de história das idéias, como deveria
ocorrer. Ele é mais freqüentemente conduzido nas aulas de sociologia
ou de teoria social, quando não nas de história contemporânea. Mais
usualmente ainda, esse estudo é empreendido como atividade paralela
aos programas oficiais e à margem das disciplinas nas quais se
encontram engajados seus promotores e coordenadores. Tudo, ao que
parece, com o objetivo de unir filosofia e praxis (apud
Feuerbach).
Seria excelente se esse exercício fosse feito com o
espírito crítico que se espera de todo e qualquer professor
universitário, comparando teorias de autores diversos, confrontando
explicações sobre o mesmo objeto e avançando o conhecimento até o
estado recente da literatura em torno da problemática em questão,
qual seja, a história do surgimento e do desenvolvimento do modo de
produção capitalista e seus efeitos sociais de mais amplo escopo. É
menos louvável quando esse estudo tende a se aproximar de
equivalentes universitários de cultos esotéricos, nos quais o
respeito pela palavra do profeta acompanha uma admiração beata pelas
suas revelações geniais e a virtual impossibilidade, daí decorrente,
de contestar o conteúdo e a forma do “livro sagrado”.
Tenho observado, em meus contatos, que alguns
professores, que certamente recomendam a leitura do Capital
aos seus alunos, continuam a manter uma deferência quase religiosa
em relação à obra considerada máxima de Marx, atribuindo-lhe poderes
extraordinários de não apenas explicar o modo de funcionamento do
capitalismo do século XIX, mas praticamente o dos nossos dias, numa
admiração acrítica que beira a ingenuidade. Raros, no entanto, são
aqueles que ultrapassam as primeiras cem páginas do Capital,
dedicada à análise da mercadoria, considerada o símbolo do dito modo
de produção. A razão me parece ser simplesmente esta: o Capital
é uma obra pesada, gótica, rebuscada, dotada de enorme dispersão
analítica e inúmeras regressões históricas, em meio a seus objetivos
pretendidamente sistemáticos.
Essa constatação já tinha sido feita mais de um
século atrás por um estudioso dos sistemas socialistas: “A falta de
unidade [do Capital] é evidente: o autor vê claramente o
objetivo que ele quer atingir, mas não consegue ver tão claramente o
caminho que o conduz a esse objetivo; ele tenta vários e quando vê
que um desses o conduz a resultados fora da realidade, ele toma
outros, muitas vezes oposto ao primeiro, sem ao menos se preocupar
com as contradições que dai resultam. Como os fiéis de Marx não
admitem que o autor possa carecer de lógica ou de conhecimentos
científicos, essas contradições não os chocam absolutamente; ao
contrário, eles admiram os mistérios profundos e sublimes que o
sistema certamente contém” (Vilfredo Pareto, Les Systèmes
Socialistes; 2a. ed.; Paris: Marcel Giard, 1926, tomo
II, p. 342). Pareto confirma que Marx inovou a antiga economia
política bem mais quanto à forma, do que em relação ao conteúdo: “É
claro que não pretendemos acusar Marx de ter voluntariamente
alterado a realidade; mas, como outros autores que defendem
passionalmente uma tese, ele foi levado, provavelmente sem ter
consciência disso, a escolher seus argumentos não em virtude,
exclusivamente, da dose de verdade intrínseca que eles poderiam
conter, mas em virtude das vantagens que deles poderia extrair para
a sua tese” (idem, p. 351).
Esta pode ser uma razão simplesmente formal, ou
estilística, mas que deve contribuir para o alto grau de
“desistência” na continuidade de sua leitura. (Parênteses: gostaria
de conhecer, por favor, o grupo ou um simples aluno que conduziu
esse exercício até o fim, isto é, a leitura completa, do primeiro
volume ao menos, do Capital.) As razões mais importantes da
descontinuidade e da pouca relevância desse tipo de empreendimento
se situam, porém, na estrutura interna da obra e sua organização
quase “literária”, quando pretende ser uma obra de economia
política, ou melhor, de crítica à economia política de seu tempo. Ao
empreender a confecção dessa obra, que consumiu, conforme ele mesmo,
quarenta anos de uma vida de estudos, Marx pretendia elevar a
economia política do seu tempo à categoria de análise “científica”,
armado metodologicamente de seu instrumental dialético que ele
pretendia pós-hegeliano, ou seja, não idealista. Todos aqueles que
já penetraram nos arcanos do Capital – e do capital – sabem
que muito de sua argumentação se desenvolve em torno das
“contradições” da produção capitalista, da oposição das “relações de
produção”, do caráter inconciliável entre o caráter social da
produção e o caráter privado da apropriação do produto. O capital,
em Marx, é o deus ex machina da sociedade burguesa moderna.
Mais importante ainda, Marx pretende explicar o
“segredo” do modo de produção capitalista pelo processo de extração
de mais-valia, que para ele resume o essencial das contradições que
presidem à realização histórica do capital. Todos aqueles que já
leram o Capital sabem que, para Marx, o trabalhador –
sinônimo de operário de fábrica, o que já é um reducionismo
inaceitável levando-se em contra a complexidade e a diversidade das
formas concretas de organização social da produção – produz o valor
de sua força de trabalho em uma parte, apenas, de sua jornada de
trabalho, sendo o trabalho restante apropriado pelo capitalista, em
proporções variáveis segundo a composição do capital (fixo, ou
constante, e variável, sendo este o determinante da taxa de extração
da mais-valia). Trabalho necessário e trabalho excedente (ou
sobre-trabalho) representam, para Marx, a explicação-chave e a
expressão exata do grau de exploração da força de trabalho pelo
capital (ou do trabalhador pelo capitalista). Os já convencidos
exultam com essa “explicação”.
Este é, em resumo, o ciclo do capital, todo o resto
da economia política marxista sendo uma derivação – histórica ou
funcional – dessa relação fundamental. Pela adesão incondicional à
teoria do valor trabalho, Marx filia-se à corrente clássica da
economia política, mais especificamente a David Ricardo, de quem é o
herdeiro direto, ainda que renegando o caráter “não científico” de
suas idéias. Marx apoiava sua análise numa rica exposição de fatos –
muitos deles tirados de relatórios oficiais do governo britânico –
mas os generalizava, para deles extrair conclusões esquemáticas,
pré-determinadas, segundo as quais o capitalismo, pelas contradições
internas, inevitáveis, seria inapelavelmente suplantado e
substituído pelo socialismo, um modo de produção superior, capaz de
reconciliar o caráter social da produção e extração de mais-valia
com sua distribuição “eqüitativa”. Como ele diria mais tarde, na
crítica ao programa de Gotha da social-democracia alemã, “de cada um
segundo a sua capacidade, a cada um segundo as suas necessidades”,
uma frase tão tautológica do ponto de vista das premissas
socialistas sobre as quais se apóia, quanto praticamente inaplicável
no plano da economia real. (Novo parênteses: antes de alguém
pretender criticar a minha crítica, desafio qualquer um a definir o
que são necessidades humanas e como quantificar sua exata
necessidade na esfera individual.)
Não é preciso, neste momento, desmontar os equívocos
do profetismo marxiano sobre a crise e auto-destruição final do
capitalismo, uma visão messiânica que transforma seu socialismo
pretendidamente científico em algo semelhante a uma teleologia
social, isto é, uma história com um curso pré-determinado
(conduzindo inevitavelmente à derrocada do capitalismo e sua
substituição pelo socialismo). Quando da publicação da Origem das
Espécies, de Darwin, no final dos anos 1860, Marx chegou a
acreditar, durante um momento, que a teoria darwiniana da seleção
natural poderia oferecer um suporte biológico para sua visão
determinista sobre o curso da história como o desenvolvimento da
luta de classes, mas, em vista da natureza aberta da teoria de
Darwin – com os impulsos aleatórios do ambiente externo, como
mudança climática ou migração de espécies – ele se decepcionou com o
“parentesco” e veio a apoiar outras teorias (equivocadas) que viam
no itinerário da raça humana a marca inelutável do progresso linear
em direção ao futuro.
No que se refere especificamente ao método de Marx,
basta indicar as contradições do seu próprio raciocínio “econômico”,
incapaz de conciliar os dados da realidade com sua fórmula sobre a
origem do valor e a extração de mais-valia. A teoria do
valor-trabalho é um verdadeiro axioma no pensamento econômico
marxista, que no entanto não consegue fundamentar o valor do
trabalho na velha lei da oferta e da procura, como sempre feito na
teoria econômica. Todo o desenvolvimento ulterior da economia
dispensou facilmente as esquemáticas construções marxistas, em prol
da realidade da “lei do valor burguesa”, ou seja, o equilíbrio entre
oferta e demanda. Pareto ironizou: “Assim, abandonando a lei da
oferta e da demanda, nós [isto é, Marx] tínhamos começado por
afirmar que o valor era apenas trabalho cristalizado; mas, depois de
muitos zigzags nós voltamos a essa lei, e nossa [de Marx] teoria se
resume a dizer que o valor é medido pelo trabalho, à condição
que as condições colocadas pela lei da oferta e da procura sejam
satisfeitas” (idem, p. 358).
Tampouco seria preciso tecer considerações muito
longas sobre suas “leis da concentração da produção”, que Marx
confundia com a expansão do patrimônio da burguesia, que para ele
estaria na origem da derrocada final de todo o sistema. Não é que a
história se desenvolveu de modo diverso ao previsto por Marx: é que
em sua própria época, o sistema não funcionava segundo o seu modo de
análise, indiferente que era à diversidade dos “modos de produção”
mercantis, e a toda uma série de atividade intermediárias que Marx
considerava simplesmente improdutivas. As falhas propriamente
econômicas da análise marxiana do capitalismo são ainda mais
significativas do que seus equívocos de previsão quanto ao
desenvolvimento futuro do sistema. Enfim, basta com dizer que a
validade de sua “economia política” para a economia atual – e mesmo
aquela de sua época – é propriamente marginal, senão próxima de
zero, tendo apenas validade relativa para uma descrição (em tons
apopléticos) da miséria humana sob as condições do capitalismo
manchesteriano de sua época (que ele conheceu, aliás, bem mais pela
obra de seu amigo Engels do que diretamente).
Em vista do que precede, tendo a considerar esses
convites feitos a alunos das humanidades para integrar grupos de
leitura do Capital como uma incitação à auto-flagelação, ou
como uma forma atenuada de tortura intelectual. Não que eles não
possam tirar benefícios intelectuais desse tipo de exercício, uma
vez que a leitura de Marx é sempre estimulante (embora, para alguns,
ela é mais bem “embriagadora”). O lado menos interessante da
história se deve ao fato de que a leitura não está propriamente
sendo feita para o enriquecimento do conhecimento histórico sobre as
idéias e teorias em curso no momento da transição entre a economia
política clássica e a neoclássica, mas em completo isolamento dessas
correntes de pensamento, numa espécie de “ilha marxista” que tenta
preservar a pureza dos argumentos originais, uma conservação em
formol de um conjunto de análises ultrapassadas – quando elas já não
eram defasadas em sua própria época – quando não completamente
equivocadas quanto à natureza do sistema capitalista e seu modo de
funcionamento.
O Capital, desse ponto
de vista, assemelha-se a outro ícone do socialismo redivivo, um
cadáver de Lênin em seu mausoléu kitsch, aguardando um julgamento
menos religioso por parte de seus cronistas e historiadores. O
fetiche da leitura do Capital aparece, assim, como um produto
típico da cultura universitária, que, tomada nesse tipo de dimensão
mística de seus desdobramentos modernos, se converte rapidamente em
mecanismo de alienação coletiva, aliás um conceito típico do
marxismo universitário derivado da Escola de Frankfurt, a partir da
leitura da Ideologia Alemã e dos Manuscritos
Econômico-Filosóficos.
Os professores que pretendem dar “aulas” – ou até
cursos inteiros – sobre esses textos sagrados do marxismo
fossilizado não estão de fato participando de um grande esforço
intelectual inserido num estudo de história das idéias, mas, sim,
isolando os demiurgos numa torre de marfim reconstruída para suas
necessidades políticas imediatas e, a partir de suas preleções
vitriólicas sobre o caráter iníquo do capitalismo, pretendendo
fundar uma ação política contemporânea na qual o que menos se
requisita é pensamento crítico, e sim a fé inquestionável nos
escritos fundadores. Desse ponto de vista, eles não são propriamente
professores, e sim sacerdotes de uma religião laica, que pode até
não ostentar diferenças notáveis, no plano conceitual, com suas
expressões correntes no mundo litúrgico. Como anuncia o panfleto de
um desses cursos de leitura das obras sagradas, “o pensamento dos
dois grandes filósofos, Marx e Engels, se mantém vivo e atual”. Ou
seja, não se trata de inseri-los nas correntes de sua época e
confrontar o que, de fato se mantém vivo, na obra de dois demiurgos
da catástrofe capitalista, mas sim de repetir, como num catecismo,
os trechos mais eloqüentes de uma verborréia barroca, que encanta
até hoje os inimigos do capital (e amigos do Capital, embora
a leitura desta obra não esteja contemplada no curso).
O patético nessa história toda não é exatamente a
leitura do Capital ou de qualquer outra obra do repertório
sagrado do marxismo clássico; o triste, ou lamentável, é fazê-lo
encerrado numa camisa-de-força intelectual que comanda ao leitor não
ir além da própria obra e do autor estudado, eventualmente
recorrendo a outras obras, de outros estudiosos, que poderiam estar
em contradição com as idéias de um pensador que afirmava,
justamente, ser a favor do movimento constante de idéias, como
recomendado em seu método “ dialético”. Nesse sentido, a leitura do
Capital deixou de ser um convite ao diálogo com todos os
autores citados, comentados ou criticados por Marx, e limita-se a
ser uma admiração beata de uma obra tomada isoladamente. Não há
melhor definição para a palavra fetiche. |
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