Reflexões sobre a prática docente
por Antonio Ozaí da Silva
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Nota aos
leitores: os textos aqui
reunidos foram publicados em meu blog e, portanto,
corresponde aos objetivos e estilo do mesmo (ver
Por que um blog? e
Sobre o blog). São escritos de
reflexão, sem pretensão acadêmica e científica e
limitados a no máximo 3.100 caracteres. Exprimem
reflexões inspiradas em leituras, observações do
cotidiano, angústias e interrogações sobre a práxis
educativa, a política, em suma, a vida. Enquanto
tal, não mantém necessariamente uma continuidade,
mas mantém de alguma forma vínculos entre si. São
reproduzidos aqui seguindo a ordem cronológica em
que foram publicados no blog (identificados pelos
subtítulos e data). Parece-me que a publicação neste
espaço se justifica pela atualidade, extensão e
diversidade do público leitor.
Comentários, críticas e sugestões são bem-vindos e
podem ser postados diretamente no blog e/ou enviados
pelo email pessoal:
antonioza@gmail.com. |
Pequenos
ditadores
Num texto pouco
lembrado, “Carta sobre o Stalinismo”, Lukács identificou o
autoritarismo na URSS sob domínio de Stalin a uma espécie de
pirâmide, em cujo vértice estava o ditador, e que, “alargando-se
sempre, na direção da base, compunha-se de “pequenos stalins”,
os quais vistos de cima, eram objetos, e vistos de baixo, eram
os produtores e mantenedores” [da pirâmide].
As ditaduras políticas
são a expressão da imposição violenta, quando a política assume
abertamente a sua face mais trágica e aterrorizante, o poder
legitimado pela força bruta. As palavras do pensador húngaro
mostram que mesmo os sistemas políticos mais opressivos são
criações humanas e também se legitimam pela adesão consciente ou
passiva. Os ditadores não resistiriam muito tempo sem o uso
permanente do terror – toda sociedade ditatorial é governada
pelo medo. Mas também não sobreviveriam sem o apoio da pirâmide,
isto é, dos pequenos ditadores que reproduzem e mantém a cultura
e poder autoritários.
Costumamos pensar o
autoritarismo sob a perspectiva do Estado, enquanto opressão do
poder político. Muitas vezes esquecemos que a sociedade também
apresenta traços e cultura autoritários. No Brasil, por exemplo,
persistem manifestações autoritárias que herdamos do passado
colonial e escravista. A cultura autoritária, por sua vez, se
manifesta no nível micro, nas relações cotidianas na família, no
trabalho e na universidade pública. Talvez seja um paradoxo que
a instituição que deveria favorecer a crítica, o diálogo e a
liberdade, seja também o locus onde as relações de
poder, a despeito da fachada democrática e da racionalidade
burocrática e científica, apresentem caráter opressivo. Nas
universidades por este Brasil afora há quem, eleito ou não,
ocupe postos chaves na estrutura burocrática e age como pequeno
ditador.
Mais paradoxal ainda é
estes indivíduos se apresentarem como revolucionários. Eles se
imaginam profetas do novo mundo e parecem crer que os cargos são
trincheiras da luta pelo bem da humanidade, ainda que esta
desconheça. Amam a humanidade, mas são incapazes de respeitar os
que compartilham o mesmo o ambiente. Atuam como feudais, erguem
muralhas e fossos de proteção. São protetores do dogma e não
toleram os infiéis, os que teimam em não segui-los. Agem
autoritariamente e transformam o cargo em meio de proteção da
“panelinha”, dos que professam a mesma ideologia. Usam o poder
que a função confere para dificultar ou interditar o acesso dos
“outros” aos direitos e recursos públicos. Não é surpresa que,
em muitas das universidades, o ambiente de trabalho seja
estressante e muitos estejam esgotados diante das relações
(des)humanas.
Não surpreende que um
conservador seja autoritário. Também não é mistério que um
liberal seja conservador. Afinal, há muito que o liberalismo se
limita a defender o status quo. Mas é surpreendente que alguém
que se considere revolucionário tenha em relação aos colegas de
trabalho uma postura, conservadora, autoritária e desrespeitosa.
Ou é ingenuidade surpreender-se?!
De qualquer forma, é
inadmissível manifestações permeadas pelo sarcasmo quanto ao
trabalho e tema de pesquisa do outro. É inadmissível, por
exemplo, o uso do poder de chefia para prejudicar os que não são
da “turma”. Há quem fale em mudar o mundo, mas não consegue
transformar nem mesmo as relações de poder do pequeno mundo do
seu departamento.
Os indivíduos que agem
como pequenos ditadores, os “pequenos stalins”, são os
sustentáculos da ordem política e social autoritária. Suas ações
no nível micro expressam bem o que são capazes de fazer se
conquistarem o poder do Estado e da sociedade. Marx nos livre de
tais indivíduos!
Biblioteca
pública, uso privado
Aos trabalhadores da Biblioteca
Central da Universidade Estadual de Maringá
Sou assíduo freqüentador da biblioteca da
Universidade Estadual de Maringá. Estes dias, conversava com a
senhora que gentilmente me atendia e, de supetão, perguntei: “Já
pensou se não existissem bibliotecas públicas”. Ela me olhou com
certa perplexidade. Não sei o que pensou, mas passou a impressão
que considerava natural a existência da biblioteca. Ainda tentei
argumentar de que nem sempre foi assim, mas despedi-me
agradecendo.
E se tivéssemos que comprar todos os livros que
utilizamos para estudar, pesquisar, preparar aulas, etc.? Apenas
a minoria teria condições de arcar com o custo. E os estudantes?
Muitos nem conseguem manter os gastos com cópias, que dirá
comprar todos os livros que precisam. E muitas vezes gastamos
mais do que podemos para adquirir obras não disponíveis na
biblioteca.
Quem mantém as bibliotecas públicas? A resposta
parece óbvia. Mas quantos usuários, os quais se consideram
cidadãos, se perguntam sobre isso? Muitos até acham que é o
governo quem mantém as bibliotecas. As verbas, afinal, são
repassadas pelo poder público. Geralmente é esquecido que
governantes não produzem dinheiro e, mesmos eles, com seus
privilégios, nepotismo e atitudes nem sempre republicanas e
éticas, também são mantidos pelas riquezas produzidas pela
sociedade e transformadas em impostos. Portanto, quem mantém as
bibliotecas públicas é a sociedade, isto é, cada indivíduo que,
direta ou indiretamente, paga impostos. Isto significa que o
investimento em bibliotecas retém recursos que poderiam ser
utilizados em outras áreas, como a saúde pública. Não pense o
leitor que sou contrário ao investimento na melhoria das
bibliotecas e das condições salariais e de trabalho dos que a
fazem funcionar. Quero enfatizar o significado e importância das
mesmas enquanto órgãos mantidos pela sociedade.
Agir conscientemente é zelar pelos livros e
outros recursos que as bibliotecas oferecem. Infelizmente, nem
sempre é assim. É comum encontrar livros rabiscados e
maltratados (outro dia vi um livro que parecia um arco-íris,
pois os leitores o grifaram e rabiscaram com canetas de várias
cores; de outra feita, encontrei um livro sujo de gordura e é
comum os estropiados). Este tipo de leitor usa as obras como se
fossem propriedade privada. Pior, pois talvez não agissem assim
se os livros fossem adquiridos com recursos próprios. No fundo
imagina que o bem público não pertence a ninguém – ou é do
governo. Assim, justifica o injustificável. Tais leitores são
analfabetos políticos.
Paradoxalmente, os que têm a liberdade para
cometer estes pequenos delitos, sem que sejam
importunados, terminam por contribuir com aqueles que não gozam
da liberdade de ir e vir. São os presidiários que restauram os
livros destruídos por usuários pouco ou nada cuidadosos. Um
convênio entre a UEM e a Penitenciaria Estadual de Maringá (PEM),
garante o trabalho de restauração das obras. A UEM treina os
presos para o serviço. Estes, em troca, recebem uma pequena
quantia a título de pecúlio e têm a pena reduzida.
Não seria o caso de oferecer aos destruidores de
livros e bibliotecas públicas um estágio sem remuneração na PEM?
Quem sabe seriam estimulados a tratar o bem público de maneira
adequada. É preciso conscientizar a todos de que o público não é
do governo, muito menos privado (e nisto nós, educadores,
podemos contribuir). Talvez seja necessário agir com mais rigor.
De qualquer forma, ainda bem que existem bibliotecas públicas e
devemos agradecer aos que cuidam dela: leitores diligentes,
presidiários restauradores e, em especial, os funcionários.
Obrigado!
Público
e privado
Houve uma saraivada de críticas ao texto
Biblioteca pública, uso privado. O autor foi acusado de ser
favorável à exploração de trabalho carcerário, de aderir à onda
punitiva, de não atentar para as questões principais que
envolvem a sociedade e gastar tempo com temas secundárias, etc.
Até aventou-se a hipótese de que ele defende a pena morte.
Pasmei! Fiquei mesmo a pensar se sou o que afirmam.
Quem escreve deve esperar críticas e se manter
aberto para aprender. Isto pressupõe o respeito e tolerância. O
que eu não esperava era o tipo de críticas expressadas por
alguns leitores. Alguns argumentos até me alertaram para
questões que não foram objetos da minha reflexão.
Tinha o mero objetivo de alertar para a necessidade de se
respeitar o bem público. Seria isto supérfluo? Significa que os
livros são mais importantes do que as pessoas? A afirmação de
“X” não implica necessariamente negar “Y” ou vice-versa. Negar
“A” não significa que se afirme “B”. A realidade tem nuances que
as dicotomias e os julgamentos maniqueístas desconsideram.
Herdamos a cultura política que concebe o público
para uso privado, que aposta na tutela do Estado ou mesmo aceita
seu caráter autoritário, desde que ele atenda interesses
almejados. Nesta lógica, os recursos públicos mantidos pelo
esforço da sociedade viram patrimônio dos que detém o poder de
distribuí-los. Os eleitores, por exemplo, esperam que os
políticos atendam interesses privados, numa relação
assistencialista. Os políticos distribuem benesses e constroem a
imagem de amigos do povo. Direitos sociais são transformados em
favores. O que deveria ser obrigação do poder público é tido
como coisa de político bonzinho. Os valores se invertem. A
sociedade gasta milhões para manter o sistema político. Mas os
políticos, em geral, não se vêem como servidores, empregados da
nação, mas sim como privilegiados. Consomem os recursos
públicos, distribuem migalhas e ainda se passam por protetores
dos pobres. À relação desvirtuada entre representante e
representado, caracteristicamente assistencialista e tutelar,
soma-se o nepotismo e o empreguismo. O dinheiro e os recursos
públicos são “socializados” entre poucos. Abocanham o patrimônio
público de forma privada.
Muitos condenam tais práticas, mas consideram
normal comportamentos semelhantes no nível micro e cotidiano.
São pequenos “pecados”. A cultura é a mesma. Na medida em que
uso o bem público como se fosse meu, aproprio-me privadamente.
Nesta relação não me responsabilizo pelo que é público, apenas
uso. É a velha história de exigir ética na política, mas não
agir eticamente no dia-a-dia. No fundo, trata-se de uma relação
verticalizada com o Estado, de uma concepção estatista que
produziu fenômenos bem conhecidos no século XX. Também aqueles
que se auto-proclamavam socialistas se apropriaram do Estado.
Público e estatal são diferentes, embora sejam tomados como
semelhantes.
O objetivo, portanto, foi pensar a relação dos
indivíduos e da sociedade com o que denominamos de caráter
público. O tema não era o trabalho dos presos. Estes aparecem no
final para demonstrar o paradoxo que vivemos. “Paradoxalmente”,
escrevi, são os que prisioneiros quem cuidam dos livros,
restaurando-os. Será necessário explicar o que é paradoxo?
Sugiro a consulta ao Aurélio...
Não entrei no mérito do caráter do trabalho dos
presos, não era essa a questão em foco. Informei o link para a
matéria do jornal com o objetivo de oferecer mais informações
aos leitores. Em suma, até concordo com algumas das críticas.
Mas se os tiros foram certeiros, atingiram o alvo errado.
Campo
acadêmico, ideologias e incoerências
Em nossa sociedade, a ideologia está impregnada
em tudo. Ela está presente em todas as atividades humanas.
Porém, a ideologia que predomina na sociedade, enquanto cultura,
modo de vida e senso comum, aparenta ser natural. A ideologia
liberal-conservadora “funciona de maneira a apresentar suas
próprias regras de seletividade, tendenciosidade, discriminação
e até distorção sistemática como “normalidade”, “objetividade” e
“imparcialidade científica”.
Querem que aceitemos determinados valores como naturais, sem que
esbocemos a mais leve crítica. Se ousamos duvidar, os ideólogos
liberais-conservadores nos criticam e afirmam que somos
ideológicos, parciais, não-científicos, como se eles fossem
axiologicamente neutros, imparciais, objetivos e científicos. É
uma estratégia de desqualificação da crítica, sempre em nome da
“objetividade” e da “ciência”.
Mas também a crítica à ideologia
liberal-conservadora tende a recair no mesmo equivoco, isto é, a
reivindicar o status de ciência desvinculada da
ideologia. Por outro lado, esta crítica tende a ficar
prisioneira das disputas intestinas da política acadêmica, a ser
utilizada como combustível para a ocupação de cargos e a
consolidação do poder burocrático e dos interesses
particularistas. A crítica ideológica torna-se mero discurso
legitimador da política interna ao campus e carregada de
sentido maniqueísta.
A ideologia liberal-conservadora está entranhada
em nosso ser. Sua capacidade de legitimação é imensa. Mesmo os
mais revolucionários são influenciáveis e influenciados por ela.
Se a retórica é crítica, as atitudes nem sempre o são. Nossas
ações se pautam por necessidades imediatas e tendemos a
reproduzir o que é predominante na sociedade. Assim, é possível
ser crítico à predominância dos valores mercantis e ser um
consumidor quase obsessivo e aceitar acriticamente estes mesmos
valores como critério de ascensão no campus.
Por outro lado, há comportamentos de adaptação à
estrutura do Estado, ainda que abominável no âmbito da retórica.
O que é a política acadêmica senão a disputa ferrenha e
apropriação por grupos e indivíduos dos recursos estatais?
Claro, as forças em disputa no campo acadêmico precisam
metamorfosear seus interesses particularistas no discurso
universal da defesa da universidade pública, da comunidade
acadêmica e da sociedade (e até mesmo, da humanidade).
Temos, portanto, algumas situações no mínimo
irônicas. O anti-capitalista radical no âmbito da retórica corre
atrás de patrocinadores capitalistas para o bancar eventos
acadêmicos, nos quais, invariavelmente, predominam o discurso da
revolução anti-capitalista. O crítico da propriedade privada e
do Estado busca os recursos privados e estatais. O
revolucionário de plantão nega a política burguesa e o Estado,
mas luta politicamente para ocupar cargos na instituição estatal
e garantir a sua gratificação – poder e moeda corrente.
Não quero julgar, mas apenas observar o quanto
somos incoerentes. Estamos vinculados ao sistema ideológico
dominante e este influencia nossas ações. Vivemos sob
determinada ordem social e, por mais que a neguemos, somos
contraditórios. Nem sempre teoria e prática se complementam.
Terminamos por reproduzir a ideologia dominante, ainda que
ideologicamente a neguemos. Portanto, não deveria ser surpresa
quando observamos que, no campo acadêmico, críticos do sistema
vigente e profetas do paraíso na terra, reproduzem as mesmas
atitudes que criticam nos opositores. Recorrem, muitas vezes, a
meios semelhantes, encobertos pela retórica crítica e
universalizante.
Reflexões
sobre a práxis docente
É comum que a lei seja vista enquanto expressão
real dos interesses universais da sociedade. A justiça é
apresentada como a guardiã da sociedade e o direito como se
fosse neutro diante dos interesses contraditórios e antagônicos
dos indivíduos, grupos e classes sociais. E muitos acreditam! A
ausência de análise crítica e a naturalização dos fenômenos
sociais e políticos talvez explique o porque.
Em minha experiência como docente, em especial no
curso de direito, impressiona a convicção na imparcialidade da
lei e a ingenuidade dos que não se fazem simples perguntas: quem
faz a lei? A quem a ela serve? Quem protege?
A letra da lei pode até ser bela, sua aplicação
prática nem sempre. É nítido o diferencial de acesso e
aplicabilidade desta diante das diferenças sócio-econômicas. Os
que têm status social elevado podem pagar os melhores
advogados para defenderem-nos. As chances de não punição
diminuem na proporção da riqueza e influência na sociedade. O
braço da justiça alcança os pobres, mas nem sempre demonstra a
mesma eficiência com os bem-nascidos. “Os juízes,
condenando o ladrão, mantém a barreira entre pobres e ricos",
escreve Balzac em “Ilusões Perdidas”. Em pleno século
XXI, muitos teimam em manter ilusões.
Muitos dos que estudam na universidade pública e
gratuita se recusam-se a pensar numa perspectiva crítica. E
serão futuros advogados, promotores, juízes. Eles têm
disciplinas como Sociologia e Ciência Política. Mas estas também
podem reforçar os seus argumentos. E para parte dos discentes
são apenas disciplinas que precisam estudar para passar de
ano. Para muitos, nem são disciplinas que mereçam maior
atenção. Há até quem questione porque fazem parte do curso.
Confesso que isto me deixa pasmo. Mas, pelo menos, é tipo de
comentário sincero. Muitos talvez pensem assim, mas não ousem
afirmar. Afinal, precisam da nota para passar de ano e é melhor,
imaginam, não enfrentar o professor! Não obstante, e felizmente,
há as exceções.
Os discentes não estão sós. São acompanhados e
influenciados por professores que partilham da mesma crença na
imparcialidade da lei e do direito. Também há exceções. Isto não
significa que uns e outros não tenham posturas políticas. Mesmo
quando se afirmem apolíticos, ou não se importarem com a
política, se posicionam politicamente. Foi no curso de direito
que encontrei os discursos mais radicalizados contra o MST, por
exemplo; que observei a tendência ao gosto autoritário e
comportamentos preconceituosos e elitistas. Alguns argumentos
contra a adoção de cotas para negros nas universidades beiram o
racismo. Lógico, comportamentos e idéias deste tipo se espalham
pelo campus e a sociedade.
Fiquei tão impactado com o que vi e ouvi que
escrevi
“Por que a universidade resiste às cotas raciais” (REA,
nº 65, outubro de 2006). Provavelmente os alunos não leram. Não
obstante, devo agradecer. Reconheço que são instigantes, mesmo
quando se limitam a “fazer o curso”. No mínimo, me fazem pensar
sobre suas atitudes e argumentos e me impelem a ler e aprofundar
mais e, é claro, escrever. Alguns dos textos que produzi
resultaram dessas reflexões, já que, para mim, a aula não começa
nem termina na sala.
Gosto do que faço e procuro ser tolerante na
relação com os discentes. Isso faz com que certas situações
desgastantes sejam suportáveis Tenho clareza de que a minha
função como docente não é “fazer cabeças”. Estimulo os debates e
procuro fazer com que tenham acesso a todas as posições sobre o
tema em discussão. E, acima de tudo, ainda que discorde
plenamente, respeito-os.
O
exemplo dos acadêmicos
O papel afixado nas paredes do bloco do curso de
Direito da Universidade Estadual de Maringá informa:
“HOJE O CAHRF, MAIS UMA VEZ, COMPRA LIVROS
PARA A NOSSA BCE, CONTUDO, NÃO NOS ESQUEÇAMOS QUE TAL FEITO
DEVERIA SER OBRIGAÇÃO DO GOVERNO! LEMBREMOS
TAMBÉM QUE O MESTRADO DO NOSSO CURSO POSSUI
UMA EXCELENTE BIBLIOTECA JURÍDICA A QUAL NÃO PERMITE
A ENTRADA DOS ACADÊMICOS DA GRADUAÇÃO! UM VERDADEIRO
ATENTADO À DEMOCRACIA DO SABER!”
Está escrito assim mesmo, em letras garrafais e
com grifos. O texto é assumido pelo Centro Acadêmico Horácio
Raccanello Filho – Gestão Atitude 2007.
Não sei quem são os acadêmicos que fazem parte do
CAHRF, nem qual a identidade política e ideológica deles. As
palavras estavam afixadas em lugar público e me chamaram a
atenção. Primeiro, pelo exemplo da doação à Biblioteca Central
da UEM; segundo, pela informação em relação ao Mestrado em
Direito. O CAHFR bem que poderia seguir o “exemplo” e criar uma
“biblioteca particular”, isto é, restrita aos graduandos do
curso de Direito. Porém, ao doar os livros à BCE publicizam o
uso a todos os interessados, de qualquer curso e mesmo da
comunidade externa. A atitude dos acadêmicos – e isso não é um
trocadilho com o nome da Gestão – é elogiável.
A depender do ponto de vista também pode ser
criticável. A cultura disseminada entre nós é que o público é
apenas responsabilidade do Estado. O raciocínio é lógico e
simples: pagamos impostos, temos direitos e devemos reivindicar
ao governo. Nosso papel se reduz a isso! Esse pensamento é
reforçado na medida em que o Estado não cumpre suas obrigações e
a sociedade é chamada a suprir essa ausência através de projetos
como Amigos da Escola e outras coisitas mais. O discurso
neoliberal oferece os argumentos.
Os acadêmicos se resguardam da crítica ao
enfatizarem que não devemos esquecer a “obrigação do governo”.
São precavidos! Na política os anátemas são fatais e é prudente
evitá-los. No entanto, ao contribuírem com o acervo da
biblioteca superam o mero discurso reivindicativo, ainda este
seja necessário. Eles também se responsabilizam pelo bem público
e sinalizam que devemos fazer nossa parte. Há, é claro, o risco
de cair nas armadilhas do ideário neoliberal, mas isto não nos
isenta das nossas responsabilidades e nem deveria servir para
justificar o nada fazer ou apenas reclamar.
A atitude dos acadêmicos é louvável. Mas o que
dizer da interdição do uso público aos recursos de um setor
específico situado no campus, portanto em espaço público
e sob a jurisdição do Estado? O discurso neoliberal também pode
justificar procedimentos deste tipo na medida em que se imagina
que quem faz a receita tem o privilégio do usufruto. É mais ou
menos como afirmar que cada um deve cuidar do seu “feudo”. Seria
o caso de cobrar pelo uso aos que não são do “feudo”? Como
evitar que o apego às estruturas específicas não resulte em
apropriação privada e/ou de grupos específicos do espaço e dos
recursos públicos?
De qualquer forma, não consigo entender a
interdição do acesso à biblioteca, ainda que setorial, instalada
nas dependências de uma universidade pública e gratuita. E isto
pode até não ser expresso em termos diretos – um aviso na porta
“PROIBIDO AOS GRADUANDO” – mas através de exigências que
dificultam e impossibilitam o uso.
Quando li as palavras afixadas na parede
lembrei-me da época em que fui à Fundação Getúlio Vargas (SP) e
queria consultar a biblioteca. As exigências eram tantas que
desisti. Mas compreendi! Afinal, tratava-se da FGV, uma
instituição privada da elite paulistana e brasileira. Também
temos a nossa elite, mas não devemos esquecer o caráter público
da instituição. Ou isso é um engodo e a UEM não é pública?!