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TANIA T. S. NUNES
Professora de Letras e Literatura, aluna do
Programa de Pós-graduação Stricto Sensu, Mestrado em
Letras pela Universidade Federal Fluminense – UFF
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A literatura líquida de João Gilberto Noll
por Tania T. S. Nunes
João
Gilberto Noll (1946) vale-se em sua escrita da palavra úmida.
O que podemos chamar de a literatura líquida do autor tem, como
marca singular, a palavra a esvaziar o corpo, a secá-lo em sua
linguagem, como símbolo de uma ausência, uma anomia, em que a vida
se faz na transitoriedade do instante, ou seja, seus personagens
ingerem e expelem pelos orifícios corporais os desencontros da
vida.
Esse autor, em 1970, escreveu seu nome na
historiografia da literatura brasileira como detentor de uma prosa
poética aguçada, mas sua escrita proveniente de um “eu inflamado”[i],
como ele mesmo a denomina, apresenta uma característica peculiar:
produz um choque no leitor. Seu discurso dialoga entre
cinema e literatura, entre ficção e mundo, desvela uma prosa viva e
atualíssima, busca mostrar o homem no seu aqui-e-agora, no seu
estar-no-mundo, que pela fôrma, revela de qualquer forma a si mesmo
ou pela não-afirmação ou pela auto-deformação. No
entanto, há uma história a contar, há uma experiência a narrar: a do
esvaziamento do ser, do corpo[ii].
Noll foi um dos primeiros em nossas letras a levar a
crítica a reconhecer uma mudança na forma e essência do romance
contemporâneo como gênero híbrido e heterogêneo, mas nele não cabe
somente a leitura pela imagem da dialética, pelo contrário, sua
prosa requer sempre um desdobrar-se e desvendar-se do pensamento em
idéias em cada texto para capturar o sentido e a interpretação.
Suas obras
exemplificam plenamente o momento
descorporificado em que o homem vive, quando tudo é fluido, sem
sentido, indefinido e afeta a todos em qualquer condição social[iii].
Suas narrativas desfolham imagens que se esfacelam em segundos no
estilo direto e sábio do escritor de dizer muito com poucas
palavras. Uma narrativa sufocante que, ao mesmo tempo, que é leve,
asfixia e comove. Nela encontram-se vivência,
experimento e tentativa contínua de afetar leitores capazes de
desafiar o mundo real pela representação, pela busca da compreensão
do outro, pela interpretação da condição humana. Interpretar, neste
caso, é a busca de encontrar no “quase-nada” da “contravida”[iv],
quando pelo corpo e com o corpo expele o mundo, o indizível.
Desvendar territórios, somar novas terras em cada página das obras
desse autor, é reconhecer-se nas suas entrelinhas, revelar-se entre
a capa e a palavra final na busca pelo desnudamento de tantas
imagens literárias na travessia de tantos espaços para chegar ao
homem sempre à deriva, à procura de algo que não sabe o que quer,
mas o que não quer, no entanto, sabe muito bem, sabe que tudo é
incerto, por isso mesmo repele o que não aceita.
Mostra o mundo de hoje, fagocitado, engolido
autofagicamente pela velocidade do tempo e pela busca incessante da
construção do “eu”. Apresenta a ressignificação do espaço e do tempo
como território da inquietude e da peregrinação na infrutífera busca
do relacionamento humano dissolvido no mundo. Desvela o homem em seu
limite de suportabilidade entre o público e o privado, o local e o
global, desejos e vontades, buscando um sentido para a vida, numa
concreta e angustiante realidade produzida pelo momento,
sobrevivendo entre a sina e o destino, mas em pleno desatino. Há,
também, um traço político na escrita do autor. Um narrador nos diz:
“eu seria escravo e agora por inteira vocação.” (NOLL, 2006, p. 45)
Neste artigo nos propomos a ler a relação entre
corpo, escrita e excreção nas narrativas que compõem A máquina de
ser (2006), última obra publicada pelo autor. Vamos ler
quais são as representações que apontam para esse mundo caótico do
presente nestes contos.
O escritor inglês Herbert Georges Wells publicou seu
primeiro sucesso de ficção científica adaptado para o cinema
A Máquina do Tempo, em 1895.
Nesta produção seres andróides (meio-humanos e meio-robôs) estão em
cena. João Gilberto Noll teve várias obras suas adaptadas para o
cinema, em A máquina de ser não tem como propósito
abordar personagens que viajam no tempo através de uma máquina
(embora a narrativa não deixe de ser uma viagem!), mas chamar a
atenção para a condição de deslocamento do homem, apontar como este
age diante do caos da vida em seu cotidiano quando tudo se faz leve
e fluido, passageiro e incerto sem perspectivas futuras. Na
literatura líquida de João Gilberto Noll, o leitor “fabrica sua
ilusão utilitária” (NOLL, 2006, p. 125).
O que Noll faz nesta narrativa aquosa pela solidão do
homem do seu tempo e “engessado” na experiência da perda, é pensar o
mundo pela palavra que fabrica. O escritor nos apresenta uma
máquina-de-ser não a que tomou o lugar do homem na produção, mas o
homem-ser-máquina, traduzindo existencialmente em seu comportamento:
hábito e ação, na sua identidade de máquina, a transitoriedade
absurda da vida, na sociedade consumista do imediatismo, em que os
relacionamentos estão engendrados nessa rede de exigüidade e
ausências de humanos em que tudo se transforma e transmuta em nada,
em vazio e em segundos, tudo é descartável.
No entanto, tudo tem também o seu preço em meio a
tantos avanços tecnocientíficos e biotecnológicos, o homem vê-se
saturado de modernidade e paga com a corporeidade e o sacrifício do
ser as conseqüências de sua utopia desenvolvimentista. Hoje o homem
sem liberdade está destituído de pensar o futuro. No mundo
consumista os seres humanos despem-se de si mesmos e vêem-se em
contínuo abismo identitário, temporal e espacial, onde muitos não
sabem aonde ir. A solução para sobrevivência futura ainda é um
enigma e esbarra em algumas indagações a serem respondidas: como
dividir o pouco que se tem com tantos que nada têm? Como fixar laços
de relacionamentos? Voltaremos à época das tribos em que cada um
convive com seu grupo ou já estamos nela?
Mas, em A Máquina de Ser, que homem
integra essa fábrica que é a narrativa de João Gilberto Noll? O que
se pode afirmar é que o autor fabrica sua escrita talvez ainda
querendo acreditar em uma saída, em um consolo na potência afetiva
do encontro com o “outro”, na busca contínua da tradução identitária
pelo corpo, pela troca e pelo encontro de vários outros “eus”.
O primeiro conto obra-prima deste livro: No dorso
das horas, aparece o narrador transformado em imagem e guiado
rapidamente no tempo da luz pelo olhar de um homem através de uma
câmara, corre ao encontro do que não sabe, até no escuro do espaço
deparar-se com um corpo ao qual se une sexualmente, o corpo da
filha.
Entre esse e o último conto da obra, que apresenta um
alter-ego do autor, João, Noll mostra o quanto
a travessia da escrita está pautada na idéia da solidão, da
renúncia, demonstrando que no mundo em conflito e sem qualquer
fronteira, segurança ou certezas, o corpo também é atingido pelo
medo-cósmico (medo de tudo o que nem se sabe). Zygmunt Bauman alerta
que “a demarcação entre o corpo e o mundo exterior está entre as
fronteiras contemporâneas mais vigilantemente policiadas. Os
orifícios do corpo (os pontos de entrada) e as superfícies do corpo
(os lugares de contato) são agora os principais focos do terror e da
ansiedade gerados pela consciência da mortalidade.” (BAUMAN, 2001,
p. 210)
Em Noturnas doutrinas, o escritor diz que “uma
umidade lacrimosa corria pelos prédios” (NOLL, 2006, p. 80) No
entanto, é no conto que intitula a obra, A Máquina de Ser que
João Gilberto Noll presenteia seu leitor com mais um narrador
anônimo, andarilho em uma cidade estrangeira. Neste, entretanto,
como em Lorde (2004)[v],
demonstra talvez uma saída para a condição de vida do protagonista
que quer escoar e extravasar a energia pulsional que traz dentro de
si: “Lembrei que eu agora só sabia beber um cálice de vinho às
portas da madrugada”. “Isso já me bastava para aventurar um pouco
minhas idéias que logo retornavam porém a seu leito natural -, por
onde as águas desciam em sua mansa sina, dando a funcionar mais uma
vez minha máquina de ser.” (NOLL, 2006, p. 120)
Há nestas narrativas a presença de um moto contínuo a
alimentar a máquina da criação. Na cidade imaginária de João
Gilberto Noll, o estrangeiro em sua máquina de ser sofre uma
metamorfose de andarilho a Messias, já que passa a buscar a
mercadoria mais preciosa do planeta: trabalho; deseja sua própria
morte, diz ter uma missão: pôr a “cabeça a trabalhar por uma causa
útil, que naqueles tempos tinha a forma de sondagens em prol de um
firme intercâmbio tecnológico entre os nossos dois povos.” (NOLL,
2006, p. 122) Imagina este protagonista a sua terra natal com
“máquinas agrícolas novinhas.” Agora tinha uma razão para continuar,
assinar papéis na Embaixada para que alguns funcionários tivessem
motivo de voltar no dia seguinte. Uma prática redentora que mostra o
senso de continuidade de uma função para manter o emprego do
“outro”, quando o mercado local das grandes cidades se vê encolhido
pelo desemprego, fruto das negociações comerciais globalizadas em
que até o dinheiro é movente e está a serviço das “forças do
mercado”.
Nas linhas finais da narrativa a solução: “Era só
acionar a máquina de ser, que tinha no meu corpo um intérprete. E
mandar ver... pronto para seguir vivendo... Era preciso, era
preciso, a vida se fazia de minuto a minuto”. (...) Peguei um lenço
do bolso. E limpei meu suor ...” O suor do fazer nascer a escrita, o
suor do corpo a expelir. (NOLL, 2006, p. 122)
Em outros contos, como Na correnteza,
encontra-se a presença dessa escrita que busca a identidade dos
protagonistas, umedecida pela palavra: “eu tinha ficado ilhado e
pronto”, ou ainda, “entrei no cinema, na tela tudo me estranhava.
Não entendia bem a história, a razão de tantas escapadas, tantas
pessoas se ferindo ao léu do enredo em correnteza.” O enredo em
correnteza é também o narrar compulsivo de Noll, em que as cenas são
rápidas, mas não se desgastam, pelo contrário, se encadeiam, mostram
imagem após imagem, perfazendo uma narrativa frenética em que o
olhar, o interpretar, a leitura e o leitor têm de correr atrás da
narrativa para não perder o tempo da linguagem, do seu acontecer,
quando o autor põe na voz do narrador o prazer de relatar, e de
expor as experiências corporais. (NOLL, 2006, p. 144;147)
Mas neste caso, não só o corpo é intérprete, como o
autor alude, mas também salvador do mundo através de sua excreção: “Essa
parte da lida [mijou] se alongava mais e mais e sempre, como se ele,
depois do beneplácito do banho involuntário, tivesse toda a água do
mundo para devolver à terra”.
(NOLL, 2006, p.129)
Em suma: o corpo é também linguagem e como tal vem
sendo receptáculo de todas as interdições e espaço da escrita
vivencial do homem. Uma escrita
permeada pelo não-sentido da vida, pelo vazio do ser, pela fluidez
da identidade e, sobretudo, pela insatisfação em existir, quando o
homem desconhece o outro e até a si mesmo na estranha sensação de
ser coisa-nenhuma.
Referências:
BAUMAN, Zygmunt. Identidade.
Trad. Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.
_________________. Vidas
desperdiçadas. Trad. Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro:
Zahar, 2005.
_________________. Modernidade
líquida. Trad. Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,
2001.
NOLL, João Gilberto. A máquina de
ser. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.
_________________. Mínimos,
múltiplos, comuns. São Paulo: Francis, 2003.
Professora de Letras e
Literatura, aluna do Programa de Pós-graduação Stricto
Sensu, Mestrado em Letras pela Universidade Federal
Fluminense – UFF.
O título deste artigo provém do arcabouço-teórico do
filósofo Zygmunt Bauman detentor do conceito de “modernidade
líquida”. A relação deste conceito com a obra de João
Gilberto Noll diz respeito à presença do líquido na
linguagem do autor com a idéia de desfazimento, em
plena interação com os corpos dos personagens desde seu
primeiro romance. Um dos narradores anuncia: “Viu a
virilha molhada. Notou que
toda sua
massa se diluía
pelos
poros. O corpo,
ah, se desdobrava em
córrego.” (2003, p. 106)
[i]
Entrevista. In: Coleção autores gaúchos. Porto
Alegre: Instituto Estadual do Livro, 1998, v. 23.
[ii]
O “esvaziamento do ser” na contemporaneidade é marcado pelo
“desvanecimento do sujeito”. Foucault em “As palavras e
as coisas” aponta o ocaso de uma forma histórica do
sujeito, ou seja, a dissolução do “eu” preconizada pela
modernidade. “Na representação, os seres não manifestam mais
sua identidade, mas a relação exterior que estabelecem com o
ser humano.” (2002, p. 431)
[iii]
Consoante Zygmunt Bauman, em “Vidas desperdiçadas”,
“a geração X (rapazes e moças nascidos na década de 1970)
está polarizada de modo mais agudo que a precedente. É
verdade que a desconcertante volatilidade da posição social,
a redução de perspectivas, o viver ao deus-dará, [...] a
imprecisão das regras – tudo isso assombra a todos eles sem
discriminação, gerando ansiedade, destituindo todos os
membros dessa geração, ou quase todos, da autoconfiança e da
auto-estima. (2005, p. 23)
[iv]
Palavras usadas em Mínimos, múltiplos, comuns (2003),
p. 29
[v]
Lorde é o último romance de João Gilberto Noll
publicado pela Editora Francis. Nele, o autor aponta o
processo de mutação de um escritor brasileiro que vai para
Londres e vive a difícil experiência de conviver no
estrangeiro sem negar sua identidade, nacionalidade, cor e
religião.
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