FLÁVIA MARA DE MACEDO

Doutora em Literatura Comparada pela Universidade Sorbonne Nouvelle – Paris III

   

O humor revelador da presença do “estrangeiro” na obra infantil de Monteiro Lobato

por Flávia Mara de Macedo*

 

«L’enfant est essentiellement multiple. Il est capable, d’un instant à l’autre et sans transition, de s’apitoyer sur son sort de la façon la plus mélodramatique qui soit, et de rire lui-même du scénario tragique qu’il vient de mettre au point...»[1]

(HELD, 1977:201)

 

Monteiro LobatoA partir da segunda metade do século XIX, com a urbanização dos grandes centros e a formação de um incipiente público leitor, vemos aparecer escritores, tais quais Monteiro Lobato (1882-1948), interessados nas particularidades infantis e na formulação de uma literatura “brasileira” para jovens e crianças. Preocupado com o escasso material literário destinado aos leitores mirins de sua época, constituído de parcas traduções e raríssimas produções de qualidade, Lobato trata de dar início à coisa[2] e utiliza como referência os grandes clássicos da literatura infantil mundial[3]. Ao analisarmos os livros do autor de Taubaté, nos damos conta que uma das lições apreendidas, talvez a mais importante, é a utilização do humor. O humor lobatiano, através do elemento “estrangeiro”, será nosso objeto de estudo neste artigo.

1. Aspectos históricos da literatura infantil:

Com a ascensão da burguesia e a consolidação da família nuclear, a partir do século XVIII[4], a criança passa a deter um novo papel na sociedade, motivando o aparecimento de objetos industrializados (o brinquedo) e culturais (o livro) ou novos ramos da ciência (a psicologia infantil, a pedagogia ou a pediatria). Tira-se, desta maneira, o contingente infantil das fábricas (mão-de-obra barata e disponível) e, quando este não está sob a responsabilidade da mãe (confinando a mulher ao “interior”) coloca-o na escola. A figura paterna passa então a ocupar tais vagas, abandonando, desta maneira, sua antiga condição de desempregado e potencial subversivo incômodo ao bom funcionamento dos novos valores burgueses (LAJOLO & ZILBERMAN, 1999:18-19). Este é o novo quadro familiar que dá lugar de destaque à criança. Mas este novo status, igualmente no que diz respeito à literatura infantil, é neste primeiro momento simbólico. A criança, amparada pela escola e a família, é tida como um adulto em miniatura e preparada para ser mão-de-obra qualificada no futuro, sendo negligenciadas suas especificidades. Por sua vez, como afirma Regina Zilberman, a emergência da literatura infantil deveu-se antes de tudo à sua associação com a pedagogia, já que as histórias eram elaboradas para se converter em instrumento dela: “Por tal razão, careceu de imediato de um estatuto artístico, sendo-lhe negado a partir de então um reconhecimento em termos de valor estético, isto é, a oportunidade de fazer parte do reduto seleto da literatura” (1987:3). Nota-se, desta maneira, como a literatura infantil é, desde os primórdios da indústria do livro, associada à cultura de massas, problemática recorrente no gênero até os dias atuais.

Contudo, a partir dos meados do século XIX, a criança passa gradativamente a ser aceita com suas especificidades e alguns escritores se voltam para seus leitores não somente com o intuito moral e pedagogizante como outrora, mas utilizando-se de uma coerência literária interna e estética e tomando como principal ponto de partida o imaginário infantil. Nesta época, surgem nomes tais quais Lewis Carroll, Hans Christian Andersen, Carlo Collodi, Fenimoore Cooper, Jules Verne, Mark Twain, Robert Louis Stevenson entre outros, que revisitam as fórmulas de livros de grande sucesso para a infância (Charles Perrault, Cervantes, Daniel De Foe, Jonathan Swift) e dão forma ao que se chama comumente de “Idade do Ouro” da Literatura Infantil Ocidental[5].

2. Humor e literatura infantil:

A partir deste momento, entre a utilização do fantástico, dos contos de fadas (maravilhoso) e da aventura, nós encontramos um elemento decisivo que se tornou quase indispensável ao livro para crianças: o humor (PRAAG, 1987: 21). Para Jean Perrot, o sucesso de um livro entre os exigentes “críticos” infantis dependeria exclusivamente desta capacidade que possuem raros autores de «faire jouer/fazer brincar» o que a criança traz em si, e este “jogo do riso” (PERROT, 1987:17) seria uma das condições necessárias para a sua aceitação. Todavia, vale lembrar que através do risível, da chacota, da brincadeira, as histórias podem igualmente ser mordazes, procurando revelar o avesso do cenário: o lado mesquinho, ridículo da criatura humana, encarnado muitas vezes por um anti-herói[6] que entre vagabundo e inocente acaba sempre por vencer, auxiliado pela esperteza ou astúcia (COELHO, 1981:329). É a vitória dos “fracos”: do polegar/poucet (FLAHAUT, 1972) face ao incompreensível mundo dos “grandes” (pensemos no pequeno polegar de Perrault e na Alice de Carroll) e à dialética entre o “pequeno e do grande” de Swift (SORIANO, 1975:501) que faz com que o grande assuma o papel do pequeno e este o daquele. Igualmente as “anacronias” (cf. SALIBA, 2002) são passíveis de provocar o riso, sobretudo no que diz respeito à confrontação do mundo “arcaico” com as “modernidades” de todos os tempos. Desta forma, o riso carnavalesco, ambivalente e dessacralizador, do “pequeno” que ri do “grande”; riso franco e debochado do ser “desprovido”, que procura a “vingança” intelectual como forma de alívio à sua “impotência”, pode igualmente ser associado a oposições que nos remetem sempre a um Outro, à alteridade, não raramente incômoda. Por isso, o humor, sobretudo na literatura infantil, mostra-se essencial por funcionar como um catalisador ou mais exatamente como uma “válvula de escape” (FREUD, 2003), instrumento capaz de permitir uma reviravolta de situação, que a própria criança utiliza para minimizar suas “deficiências” e medos, ligados às limitações “infantis”.

3. O humor lobatiano:

Ao longo das histórias do ciclo do Sítio do Picapau Amarelo, escritas entre os anos 1920 e 1944, nós encontramos o humor desmistificador, satírico, muitas vezes naïf, inspirado pelos seus mestres de juventude de Lobato: Mark Twain (The Adventures of Tom Sawyer – 1876 e The adventures of Huckleberry Finn – 1885) e Alphonse Daudet, com o seu Tartarin de Tarascon; vale mencionar igualmente os nomes de Lewis Carroll e sua Alice (1865) e de Jonathan Swift com seu Gulliver (1726). Essas leituras nos parecem decisivas à construção de uma “matéria” lobatiana, formada de estereótipos bem escolhidos em seu tempo histórico: “estrangeiros”, “cientistas”, “nobres”, “instituições” e “heróis” vão provocar o riso e contribuir para a construção de um grupo mítico, O Sítio do Picapau Amarelo.

Sobre a modernização brasileira, que permite o surgimento da indústria do livro no Brasil e o aparecimento de autores como Monteiro Lobato neste início de século, Lajolo e Zilberman lançam um olhar arguto:

“Em primeiro lugar, entre 1890 e 1920, com o desenvolvimento das cidades, o aumento da população urbana, o fortalecimento das classes sociais intermediárias entre aristocracia rural e alta burguesia de um lado, escravos e trabalhadores rurais de outro, entra em cena um público virtual. Este é favorável, em princípio, ao contato com livros e literatura, na medida em que o consumo desses bens espelha o padrão de escolarização e cultura com que esses novos segmentos sociais desejam apresentar-se frente a outros grupos, com os quais buscam ou a identificação (no caso da alta burguesia) ou a diferença (os núcleos humildes de onde provieram).

Mas teve percalços a modernização brasileira. Imposta de cima para baixo, não levou em conta as peculiaridades de uma sociedade que queria abafar, num projeto de renovação aparente, a realidade social de um país que recentemente abolira a escravidão e cuja economia não apenas se fundara na estrutura arcaica do latifúndio, da monocultura e da exportação de matérias-primas, como não tinha o menor interesse em modificar essa situação.” (1999:27).

Lobato, através do seu universo literário, vai “utilizar-se” de seu momento histórico com muita irreverência e inteligência na construção de seu microcosmo fantástico-maravilhoso. Estes estereótipos não correspondem somente a personagens exteriores ao grupo principal, formado por Dona Benta, Tia Nastácia, Pedrinho, Narizinho, Emília, Visconde, Rabicó, Quindim e Conselheiro, mas circulam igualmente dentro deste. O herói lobatiano é também origem de riso já que saído do mundo rural (mesmo se ávido de ciência e modernidade) e por isto um “desajustado”, atormentado pela “velocidade” da cidade que invade o seu território e, contraditoriamente, à qual ele aspira avidamente. Este inadaptado (sobretudo Emília[7], Visconde e Rabicó) encarna esse cômico de essência chaplinesca (BOSSETTI, 1987:320) e utiliza o humor como uma forma de extravasamento e alívio, tornando mais leve seu contato com o incompreensível mundo adulto e, consequentemente, o do leitor das narrativas, representado no texto pelos picapauzinhos. A essência deste jogo lobatiano será a capacidade de questionamento realizado pelas personagens (através do metatexto) no que diz respeito à própria matéria da qual é composta suas camadas de compreensão. Seguindo este raciocínio, os vários mundos, verdadeiros ou parcialmente falsos de Lobato, serão sacudidos pelo elemento que circunscreve e explode a narrativa e todo dogma nela contido: o humor. O que irá englobar o “todo” e ao mesmo tempo preservar a estabilidade da comunhão individual do “grupo” será o riso, a sátira, a possibilidade de contestação através desta faculdade que nos faz críticos revelando nossas insuficiências. Da mesma maneira, no que diz respeito ao encontro do estrangeiro (mundo) e o nacional (sítio), nós vemos o surgimento do “outro” nacional: o mestiço que, no entanto, poderá ver sua identidade distanciada ou abafada, visto a potência que assume a auto-derisão no grupo. Neste sentido, poderíamos ver a utilização do humor no trato de temáticas sérias como distanciador (humor salvação e perdição...)[8] e, no entanto, revelador.

4. O “estrangeiro” que provoca o riso:

Vejamos, por exemplo, a situação de Nastácia no grupo[9]. Vinda de Angola (Minotauro, 1960:158; Geografia de Dona Benta, 1960:214) ou do Moçambique (História de Tia Nastácia, 1960:189) sabemos que tia Nastácia fora escrava outrora (Geografia de Dona Benta, 1960: 214) e é analfabeta (Aritmética da Emília, 1969:172; História do Mundo para Crianças, 1960:135), o que certamente a coloca em situação de inferioridade face às outras personagens visto a importância dada ao “saber” livresco no grupo. Esta condição de inferioridade do negro na obra lobatiana pode certamente ser associada à situação paradoxal do negro na sociedade brasileira, presença tão «essencial» quanto «marginal».[10] Assim, ao mesmo tempo que a cor de Nastácia determina sua condição, ela ocupa um papel preponderante ao funcionamento da narrativa e ao desenvolvimento das ações. Sabe-se, por exemplo, que Nastácia é a personagem que mais trabalha no sítio “é ela que mais trabalha no sítio!”(Viagem ao Céu, 1960:07) e seus dons tanto culinários quanto de criação de objetos mágicos são igualmente destacadas pelo narrador e pelas personagens «/…/ Tia Nastácia é uma danada para inventar Interjeições. Danada para tudo, aquela negra…» (Emília no País da Gramática, 1960:70); «E que cozinheira! Como sabe manejar o violino do «gostoso» e tirar dele mil harmonias! O mais simples guisado, um picadinho com batatas, um virado de feijão com torresmos, um vatapá, tudo/.../ Perfeitas obras-primas.» (Minotauro, 1960:151). No entanto, os saberes artesanais de Nastácia, ainda que essenciais e admirados “nas coisas práticas da vida é uma verdadeira sábia” (Memórias de Emília, 1960:145) serão questionados pelas outras personagens. Uma das formas de destacar a «inferioridade» de Nastácia é confrontar sua “ignorância” com o saber livresco dos «mestres», o que provoca, não raras vezes, o riso, devido ao contexto criado dentro da narrativa lobatiana. Sua principal detratora é a boneca Emília, conhecida por seus comentários ácidos: “Nasceu preta e ainda mais preta há de morrer! /.../ Não é à toa que é preta como carvão. /.../ Mais malvada que ela só o Barba Azul. Você é porque é novo nesta casa e não a conhece. Tia Nastácia não tem dó de nada. Pega aqueles frangos tão lindos e – zás! – torce-lhes o pescoço.” (Reinações de Narizinho, 1979:138); “Perdemos o anjinho por sua culpa só. Burrona! Negra beiçuda! Deus que te marcou, alguma coisa em ti achou. Quando ele preteja uma criatura é por castigo./.../ Emília! Repreendeu Dona Benta, respeite os mais velhos![11]” (Memórias de Emília, 1972:277). Contraditoriamente, a boneca afirma ser “produto” de Nastácia, feita por suas mãos negras e saída desta mesma cultura “popular”, que ela rejeita:

“Pois se eu sou asneirenta, é porque aquela burra da tia Nastácia me fez assim. Ela foi a minha natureza. Natureza preta como carvão.” (Aritmética da Emília, 1972:370).

“É isso mesmo. Sou tudo isso e ainda mais alguma coisa. Pode ficar como está. Cada um de nós dois, Visconde, é como tia Nastácia nos fez. Se somos assim ou assado, a culpa não é nossa – é da negra beiçuda.” (Memórias da Emília, 1960:117)

Ela parece compreender que deve fugir do mundo da oralidade “primitiva”, da “natureza”, para atingir o outro lado, da “cultura erudita”, que ela sabe ser contrapartida igualmente, já que ávida de mudança e reforma “O mundo é mal feito” (cf. A Reforma da natureza, A Chave do Tamanho ou a Gramática da Emília entre outros). Emília é intermediária (assim como Nastácia, negra, mas fazendo parte do espaço “branco”) e faz a ponte oscilante entre os dois mundos; ela é desta maneira feita de fragmentos emprestados a um e a outro termo. Este conflito de intenções faz todo o interesse da boneca que, com seu humor, é provocadora desta economia de sentimento da qual nos fala FREUD (1988:402-403) ao comentar a obra de Marc Twain. Para Freud, a economia realizada em matéria de piedade é uma das origens mais freqüentes do prazer humorístico. Ele cita uma cena evocada pelo escritor americano, na qual seu irmão, empregado numa grande empresa de construção de rodovias, fora certa vez projetado pela explosão prematura de uma mina que o fizera cair em um lugar extremamente distante de seu local de trabalho; esta cena pode certamente nos provocar uma certa piedade em relação a este acidentado e mesmo suscitar perguntas com relação ao seu estado de saúde. Porém, para nossa surpresa, Twain nos revela a continuação da história de seu irmão dizendo que este “viu-se descontado de um dia e meio de salário por ter-se afastado de seu local de trabalho”, o que nos desvia completamente da piedade, nos coloca o riso nos lábios e nos torna quase tão duros quanto os próprios empresários, completamente indiferentes a uma eventual degradação da saúde do funcionário. Este parênteses nos remete a Monteiro Lobato. Quando tia Nastácia entra na sala onde está o grupo de princesas em visita ao sítio no livro Reinações de Narizinho, Emília, incomodada pelo aparecimento repentino da cozinheira, tenta explicar sua presença neste meio onde circulam as principais personagens da cultura livresca universal:

“Pois não sabem? – respondeu Emília, com carinha malandra. – Nastácia é uma princesa Núbia que certa fada virou em cozinheira. Quando aparecer um certo anel, que está na barriga dum certo peixe, virará princesa outra vez. Quem vai danar com isso é Dona Benta, que nunca achará melhor cozinheira.” (Reinações de Narizinho, 1979:127)

Quando Nastácia oferece café às princesas, Branca de Neve recusa: “Tenho medo que o café me deixe morena”; Emília não perde a ocasião: “Faz muito bem – disse Emília. – Foi de tanto tomar café que tia Nastácia ficou preta assim…” (Reinações de Narizinho, 1979:127). Sem dúvida, neste trecho, há um alívio da parte do leitor que não nos parece gratuito, pois a situação poderia simplesmente se cristalizar em pesar. Primeiro, ao ver que Nastácia não é somente vista e desclassificada pela sua cor e condição, mas que também, mesmo se indiretamente inferiorizada, faz parte do grande “evento” e das reinações (princesa enfeitiçada...); segundo, porque todos os dois comentários nos afastam completamente da piedade em relação a um racismo velado que eliminaria a discussão da questão racial na narrativa e, consequentemente, num contexto mais abrangente. Emília poderia ter-se calado nas duas ocasiões e Nastácia teria mais uma vez sua função e individualidade ocultadas. A “besteira” de Emília é risível e, sem dúvida, nos põe ao seu lado. Dona Benta, no entanto, uma personagem tida como detentora da autoridade no sítio, não pode exteriorizar seus preconceitos; fazendo parte de um “projeto iluminista” de esclarecimento intelectual das novas gerações, a avó não pode confessar abertamente preconceitos (ainda que eles existam “diluídos” no texto) “intrínsecos” à sua classe e ser provocadora, a despeito de si mesma, de um racismo velado e vil. Dona Benta completa a dupla, formando a tríade fundamental: Nastácia – Emília – Dona Benta. Deste modo, Emília vai se tornar emissora de um significado oculto que ligará os dois pólos opostos. Vejamos como a boneca, quase imperceptivelmente, irá “revelar” o preconceito com relação ao outro em Dona Benta:

“Lá no sítio de Dona Benta – lembrou Emília, MONO quer dizer macacão. O tio Barnabé, que mora perto da ponte, Dona Benta diz que é um verdadeiro mono.

- Sei disso – declarou a velha rindo-se, mas em grego, significa único.

- Único macacão?

- Cale-se, Emília – por favor! – “pediu a menina.” (Emília no País da Gramática, 1960:92)

A boneca diz alto e forte os preconceitos de seu meio e, como uma criança, revela inocentemente os segredos “familiares”, provocando o riso. Talvez sua associabilidade seja o que mais nos fascina em Emília: “Emília tem a mania de ser franca. Nunca viveu em sociedade” (Reinações de Narizinho, 1979:65). Mestiça intelectual, “esperta” – a boneca acredita que não há nada mais importante que a esperteza que vence sempre a força: “Ser esperto é tudo. O mundo é dos espertos.” (Memórias de Emília, 1972:275); ela tenta, desta forma, esconder suas origens “duvidosas”, distanciando-se e tentando aliar-se, não sem dificuldades, à cultura “erudita” das outras personagens, ao ponto de virar escritora em Memórias de Emília e “gente de verdade” em A Chave do Tamanho: “Emília foi evoluindo e insensivelmente passou de boneca a gente de verdade, conservando o tamanho inicial – 40 centímetros de altura. É o símbolo da independência mental e da habilidade para enfrentar todas as situações...” (1960:01). Por outro lado, nós sabemos que a “vítima” Nastácia pode ser igualmente geradora de oposição e comicidade; assim, ela é a principal detratora de outro “estrangeiro”, Elias, o Turco. Definido por sua nacionalidade, como Nastácia é definida por sua cor, ele é constantemente repreendido pela dama negra, que o acusa de vender produtos falsificados a seus clientes e de roubá-los com seus preços. Nastácia se torna assim “carrasco” (ela assume o papel mais forte, como anteriormente Emília) e, à sua maneira, faz o “Turco” pagar um preço alto. No livro O Picapau Amarelo, o grupo de Lobato recebe a presença de várias personagens da literatura mundial. Entre elas, Dom Quixote e seu escudeiro glutão Sancho Pança. Este último é satisfeito ao encontrar a “melhor quituteira do mundo” (Os Doze Trabalhos de Hércules I, 1972:90): tia Nastácia, mas está à procura de vinho para acompanhar as guloseimas. Nastácia, com sua espontaneidade, fala da venda de Elias, o turco, mas faz algumas ressalvas:

«E vinho? Não há por aqui algum verdasco da Andaluzia? – perguntou o guloso.

- A Luzia aqui não anda não, Seu Sancho – nosso vinho é a água do pote. Se quer, mando buscar uma garrafa na venda do Elias Turco – mas juro que bebe uma vez e nunca mais. Falsificadíssimo! Aquele raio de homem é a peste aqui no bairro, Seu Sancho. Eu ainda peço pra D. Quixote ‘chucha’ ele com a ‘naça’. Falsifica tudo – até cebola…» (O Picapau Amarelo, 1960:34)

Além disso, Emília não discriminará somente Nastácia, mas todos os “estrangeiros” (alemães, franceses, americanos, suecos…) que se oponham ao funcionamento de suas “besteiras”, de sua “criatividade” e apontem suas deficiências. No que diz respeito às oposições sítio, lugar “arcaico”, versus a “civilização”, detentora da “modernidade”, nós nos damos conta que a última só adquire direito de existência via sítio, podendo se tornar mesmo “arcaica” face a este nos livros O Minotauro e Os Doze Trabalhos de Hércules que discutem inteligentemente a diacronia através de um mergulho nos tempos greco-romanos. Em Os Doze Trabalhos de Hércules, as personagens de Lobato ensinam ao semi-deus nacional grego (que serve, no entanto, num primeiro momento, de “modelo” para os picapauzinhos) entre outras coisas, os mistérios do faz-de-conta e do pó de pirlimpimpim para a realização de seus doze trabalhos. Os “mitos” da antiguidade clássica, desmitificados face às personagens “modernas”, podem, desta forma, se tornar motivo de riso: “Hércules tinha vergonha de contar coisas da Grécia perto do seu escudeiro, o qual sabia de todos os assuntos muito mais que ele – deu a palavra ao Visconde.” (Os Doze Trabalhos de Hércules, 1960:160); “Hercules entendia bem pouco de tudo aquilo, mas estava gostando de ouvir. Era como uma música nova – a música dos tempos futuros. Emília não parava.” (Os Doze Trabalhos de Hércules I, 1972:22)

Da mesma maneira, em A Reforma da Natureza (Dr. Zamenhoff), Caçadas de Pedrinho (Sr. Fritz Muller), O Poço do Visconde (Mister Kalamazoo), Viagem ao Céu (astrônomo sueco) os picapauzinhos, graças ao riso, podem “tirar a forra” face ao prestígio, ao dinheiro e à tecnologia irrefutável das personagens estrangeiras. Assim, quando os “estrangeiros” não aceitam as regras do grupo e participar do “faz-de-conta” local, seguindo o exemplo de Elias ou Nastácia, correm o risco de desaparecer no espaço, como o dono do circo alemão, em Caçadas de Pedrinho, Sr. Fritz Muller. Quando este vem ao sítio recuperar o rinoceronte Quindim, Emília providencia o desaparecimento do “cara melada”:

«Emília foi mexer nos guardados de Pedrinho e trouxe uma pitada de pó de pirlimpimpim num pires.

- Vamos resolver esta questão dum outro modo – disse ela ao voltar. Tenho aqui este tabaco, que vou dividir em duas porções. O senhor toma uma pitada e ali o «cara melada…»

/.../O advogado e o alemão acharam muita graça naquilo, e sem desconfiança nenhuma resolveram tomar a pitada de pó de pirlimpimpim, certos de que não espirrariam. Era dose pequena demais para fazer espirrar dois homões como eles, acostumados ao fumo forte. Tomaram a pitada, sorridentes e… fiunnn! – ninguém nunca soube onde foram parar! Sumiram-se no espaço.

A vitória da Emília foi saudada com berros e palmas. Até o rinoceronte aplaudiu com urros, contentíssimo do feliz desfecho do incidente.”(Caçadas de Pedrinho, 1960:114)

Por outro lado, não podemos esquecer que a oposição entre o sítio e a cidade nos revela que as forças da “modernidade” são também um acessório indispensável no jogo de interesses que estabelece a formação desta amostra de humanidade “ideal” que é o Sítio: “Por isso acho que o único lugar do mundo onde há paz e felicidade é no sítio de Dona Benta. Tudo aqui corre como num sonho. A criançada só cuida de duas coisas: brincar e aprender.” (Memórias de Emília, 1972:291). Certamente, a “cidade” que esquece suas origens agrárias e guia-se somente pelas regras vindas do “exterior” caminha precipitadamente e aos trancos e barrancos (a pedagogia da escola de Pedrinho em São Paulo é arcaica e fora de moda em relação à pedagogia de Dona Benta; os livros vindos da capital merecem ser “passados a limpo”; a boneca que Pedrinho traz da cidade à Narizinho, loira e de porcelana, é rapidamente deixada de lado, e é Emília, bruxa de pano, feia e desajeitada, a preferida da menina; etc.). No entanto, não esqueçamos, a experiência e ciência do grupo de estrangeiros no livro O Poço do Visconde são vitais quando aliadas aos parcos meios dos picapauzinhos, para a descoberta do petróleo no sítio. É proclamada neste dia, a segunda independência do Brasil: “A descoberta do petróleo representa um fato de significação mais alta do que podemos conceber. Representa algo mais importante do que a própria independência do Brasil...” (O Poço do Visconde, 1972:327)

Todas estas considerações sido feitas, vemos que o confronto com o “estrangeiro”, a “modernidade”, o “outro” se faz inalienável para a construção do grupo mítico lobatiano. Riso e auto-derisão acompanham o grupo, ao longo de toda obra lobatiana, formada de 23 livros, até sua última história, escrita em 1944, Os Doze Trabalhos de Hércules. Lobato fecha o círculo e demonstra, ao longo de sua carreira de escritor para crianças, por um lado, a construção de uma pretensa “nacionalidade”, e por outro, os paradoxos de tal busca.

 

Referências bibliográficas:

BOSETTI, Gilbert. Le mythe de l’enfance dans le roman italien contemporain, Ellug, 1987.

BOSI, Alfredo, A Dialética da Colonização, Cia. das Letras, 1992.

COELHO, Nelly Novaes. A literatura infantil: história - teoria - análise (das origens orientais ao Brasil de hoje), SP/Brasília: Quíron, 1981, 4ª ed.

FLAHAULT, François. L’Extrême existence, Paris, François Maspero, 1972.

FREUD, S. Le mot d’esprit dans ses rapports avec l’Inconscient, Folio Essais, Traduit de l’allemand par Denis Messier, 1988.

HELD, Jacqueline. L’imaginaire au pouvoir : les enfants et la littérature fantastique, Collection Enfance Heureuse, Les éditions ouvrières, 1977.

LAJOLO, Marisa; ZILBERMAN, Regina; Literatura infantil brasileira: história & histórias. São Paulo: Ática, 1999, 6ª ed.

LAJOLO, Marisa. “Negros e negras em Monteiro Lobato”. In LOPES, Eliane M.T.; GOUVEA, Maria Cristina  S. (Org.). Lendo e escrevendo Lobato. BH: Autêntica, 1999.

LOBATO, Monteiro. Obras Completas, São Paulo: Brasiliense, 10ª. edição, ilustrações de J.U. Campos e André le Blanc, 1960.

_____. Reinações de Narizinho, ilustrações de Manoel Victor Filho, 1979.

_____. Obras Completas. Brasiliense, ilustrações de Manoel Victor Filho, 13a. edição, 1972.

_____. A Barca de Gleyre. Quarenta anos de correspondência literária entre Monteiro Lobato e Godofredo Rangel. Tomo II, Série Literatura Geral, volume 12, SP: Companhia Editora Nacional, 4ª. edição, 1951.

MACHADO, Ana Maria. Como e Por que Os Clássicos Universais Desde Cedo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.

PERROT, Jean. Du jeu, des enfants et des livres, Editions du Cercle de la Librairie, 1987.

PRAAG, Ganna Ottevaere-van. La Littérature pour la jeunesse en Europe Occidentale (1750-1925) : Histoire sociale et courants d’idées, Editions Peter Lang SA, Berne, 1987.

RENONCIAT, Annie (direction) et en collaboration avec Genéviève PATTE et Viviane FERRATY. Livres d’enfance, livres de France. Paris, Hachette Jeunesse, 1998.

SALIBA, E.T. As Raízes do Riso – a representação humorística na história brasileira, da Belle Époque aos primeiros tempos do rádio. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

SORIANO, Marc. Guide de littérature pour la jeunesse, Flammarion, 1975.

ZILBERMAN, Regina; MAGALHÃES, Ligia Cademartori. Literatura infantil: autoritarismo e emancipação. São Paulo, Ática, 1987.

 

* Doutora em Literatura Comparada pela Universidade Sorbonne Nouvelle – Paris III.

[1] A criança é essencialmente múltipla. Ela é capaz, num instante e sem transição, de se apiedar de seu destino da maneira mais melodramática que seja, e de rir de si mesma e do roteiro trágico que acaba de elaborar. (tradução nossa)

[2] “Ando com várias idéias. Uma: vestir à nacional as velhas fábulas de Esopo e La Fontaine, tudo em prosa e mexendo nas moralidades. Coisa para crianças. Veio-me diante da atenção curiosa com que meus pequenos ouvem as fábulas que Purezinha conta. Guardam-nas de memória e vão recontá-las aos amigos – sem, entretanto, prestarem nenhuma atenção à moralidade, como é natural. A moralidade nos fica no subconsciente para ir se revelando mais tarde, à medida que progredimos em compreensão. Ora, um fabulário nosso, com bichos daqui em vez dos exóticos, se for feito com arte e talento dará coisa preciosa. As fábulas em português que conheço, em geral traduções de La Fontaine, são pequenas moitas de amora do mato – espinhentas e impenetráveis. Que é que nossas crianças podem ler? Não vejo nada. Fábulas assim seriam um começo da literatura que nos falta. Como tenho um certo jeito para impingir gato por lebre, isto é, habilidade por talento, ando com idéia de iniciar a coisa. É de tal pobreza e tão besta a nossa literatura infantil, que nada acho para a iniciação de meus filhos.” A Barca de Gleyre: Quarenta anos de correspondência literária entre Monteiro Lobato e Godofredo Rangel, carta de 08.09.1916 (LOBATO,1960:104)

[3] Em carta de 10.01.1917 a seu amigo “literário” Godofredo Rangel, Lobato afirma: “Vamos fazer uma coisa: destrinçar o segredo dos eternamente lidos. Depois seguiremos a maneira deles, mas sem nos afastarmos da observação, do real, do verismo que esta em nossa essência.” A Barca de Gleyre: Quarenta anos de correspondência literária entre Monteiro Lobato e Godofredo Rangel (LOBATO, 1951:128).

[4] Cf. a respeito da história da família moderna e seus antecedentes, os seguintes autores: ARIES, Philippe. História social da criança e da família. Rio de Janeiro, Zahar, 1979; DONZELOT, Jacques. The policing of families. New York, Pantheon Books, 1979; POSTER, Mark. Teoria Crítica da família. Rio de Janeiro, Zahar, 1979; RiCHTER, Dieter. Til Eulespiegel – der asoziale Held und die Erzieher. Kindermedien. Ästhetik und Kommunikation. Berlin, Äuk Verlag, (27) abri. 1977; SHORTER, Edward. The making of the modern family. Glasgow, Fontana/Collins, 1979; STONE, Lawrence. The family, sex and marriage in England 1500-1800. London, Pelican Books, 1979.

[5] Cf., entre outros, Annie RENONCIAT,1998 e Ana Maria MACHADO, 2002.

[6] Na literatura brasileira, o ancestral desta tendência pode ser achado em Pedro Malasartes do folklore luso-brasileiro: “E o símbolo do homem que o povo sempre desejou ser, conhecer, ter como amigo. (...) Malasarte é um repositório de sentimentos reivindicatórios. Ele ridiculariza as leis que são instrumentos dos mandantes, ignora o passado, o presente e o futuro que são os liames manietando o homem; escarnece dos reis; denuncia os criminosos e pune os crimes, levanta o véu do pudor onde o véu ocultava o pecado; distribui a fantasia, adoça a realidade. Com isto, claro, é universal.” (Hernani DONATO, apud COELHO, p. 213)

[7] Emília vem nesta linhagem de personagens ‘malandros’, ‘descendentes’ de Malasartes. Citemos Manuel Antonio de Almeida, Mário de Andrade, Jorge Amado, Ariano Suassuna...

[8] A questão do humor, não raras vezes, alienante, o “rir de tudo”, a “falta de seriedade” fictícia ou real na cultura brasileira associada a uma certa “imaturidade” de ordem estrutural, são questões que poderiam ser mais exploradas ou repensadas abertamente no âmbito social.

[9] Pensemos igualmente no papel do Jeca Tatu na obra lobatiana.

[10] Sobre este assunto cf. LAJOLO (1999) e Benjamin ABDALA JR (1979) entre outros.

[11] Lembremos da maldição bíblica de Cam, recuperada pelos colonialistas durante o século XIX, o «racismo evolucionista”, para justificar as atitudes colonialistas na África. Alfredo BOSI, «A Maldição de Cham”, in A Dialética da Colonização, p. 398.

 

 

 

 

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