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FLÁVIA
MARA DE MACEDO
Doutora em Literatura Comparada pela Universidade
Sorbonne Nouvelle – Paris III
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O humor revelador da presença do “estrangeiro” na obra infantil
de Monteiro Lobato
por Flávia Mara de Macedo
«L’enfant est essentiellement multiple. Il est capable, d’un
instant à l’autre et sans transition, de s’apitoyer sur son
sort de la façon la plus mélodramatique qui soit, et de rire
lui-même du scénario tragique qu’il vient de mettre au
point...»
(HELD, 1977:201)
A
partir da segunda metade do século XIX, com a urbanização dos
grandes centros e a formação de um incipiente público leitor, vemos
aparecer escritores, tais quais Monteiro Lobato (1882-1948),
interessados nas particularidades infantis e na formulação de uma
literatura “brasileira” para jovens e crianças. Preocupado com o
escasso material literário destinado aos leitores mirins de sua
época, constituído de parcas traduções e raríssimas produções de
qualidade, Lobato trata de dar início à coisa
e utiliza como referência os grandes clássicos da literatura
infantil mundial.
Ao analisarmos os livros do autor de Taubaté, nos damos conta que
uma das lições apreendidas, talvez a mais importante, é a utilização
do humor. O humor lobatiano, através do elemento “estrangeiro”, será
nosso objeto de estudo neste artigo.
1. Aspectos históricos da literatura infantil:
Com a ascensão da burguesia e a consolidação da
família nuclear, a partir do século XVIII,
a criança passa a deter um novo papel na sociedade, motivando o
aparecimento de objetos industrializados (o brinquedo) e culturais
(o livro) ou novos ramos da ciência (a psicologia infantil, a
pedagogia ou a pediatria). Tira-se, desta maneira, o contingente
infantil das fábricas (mão-de-obra barata e disponível) e, quando
este não está sob a responsabilidade da mãe (confinando a mulher ao
“interior”) coloca-o na escola. A figura paterna passa então a
ocupar tais vagas, abandonando, desta maneira, sua antiga condição
de desempregado e potencial subversivo incômodo ao bom funcionamento
dos novos valores burgueses (LAJOLO & ZILBERMAN, 1999:18-19). Este é
o novo quadro familiar que dá lugar de destaque à criança. Mas este
novo status, igualmente no que diz respeito à
literatura infantil, é neste primeiro momento simbólico. A criança,
amparada pela escola e a família, é tida como um adulto em miniatura
e preparada para ser mão-de-obra qualificada no futuro, sendo
negligenciadas suas especificidades. Por sua vez, como afirma Regina
Zilberman, a emergência da literatura infantil deveu-se antes de
tudo à sua associação com a pedagogia, já que as histórias eram
elaboradas para se converter em instrumento dela: “Por tal razão,
careceu de imediato de um estatuto artístico, sendo-lhe negado a
partir de então um reconhecimento em termos de valor estético, isto
é, a oportunidade de fazer parte do reduto seleto da literatura”
(1987:3). Nota-se, desta maneira, como a literatura infantil é,
desde os primórdios da indústria do livro, associada à cultura de
massas, problemática recorrente no gênero até os dias atuais.
Contudo, a partir dos meados do século XIX, a criança
passa gradativamente a ser aceita com suas especificidades e alguns
escritores se voltam para seus leitores não somente com o intuito
moral e pedagogizante como outrora, mas utilizando-se de uma
coerência literária interna e estética e tomando como principal
ponto de partida o imaginário infantil. Nesta época, surgem nomes
tais quais Lewis Carroll, Hans Christian Andersen, Carlo Collodi,
Fenimoore Cooper, Jules Verne, Mark Twain, Robert Louis Stevenson
entre outros, que revisitam as fórmulas de livros de grande sucesso
para a infância (Charles Perrault, Cervantes, Daniel De Foe,
Jonathan Swift) e dão forma ao que se chama comumente de “Idade do
Ouro” da Literatura Infantil Ocidental.
2. Humor e literatura infantil:
A partir deste momento, entre a utilização do
fantástico, dos contos de fadas (maravilhoso) e da aventura, nós
encontramos um elemento decisivo que se tornou quase indispensável
ao livro para crianças: o humor (PRAAG, 1987: 21). Para Jean Perrot,
o sucesso de um livro entre os exigentes “críticos” infantis
dependeria exclusivamente desta capacidade que possuem raros autores
de «faire jouer/fazer brincar» o que a criança traz em si, e
este “jogo do riso” (PERROT, 1987:17) seria uma das condições
necessárias para a sua aceitação. Todavia, vale lembrar que através
do risível, da chacota, da brincadeira, as histórias podem
igualmente ser mordazes, procurando revelar o avesso do cenário: o
lado mesquinho, ridículo da criatura humana, encarnado muitas vezes
por um anti-herói
que entre vagabundo e inocente acaba sempre por vencer, auxiliado
pela esperteza ou astúcia (COELHO, 1981:329). É a vitória dos
“fracos”: do polegar/poucet (FLAHAUT, 1972) face ao
incompreensível mundo dos “grandes” (pensemos no pequeno polegar de
Perrault e na Alice de Carroll) e à dialética entre o “pequeno e do
grande” de Swift (SORIANO, 1975:501) que faz com que o grande assuma
o papel do pequeno e este o daquele. Igualmente as “anacronias” (cf.
SALIBA, 2002) são passíveis de provocar o riso, sobretudo no que diz
respeito à confrontação do mundo “arcaico” com as “modernidades” de
todos os tempos. Desta forma, o riso carnavalesco, ambivalente e
dessacralizador, do “pequeno” que ri do “grande”; riso franco e
debochado do ser “desprovido”, que procura a “vingança” intelectual
como forma de alívio à sua “impotência”, pode igualmente ser
associado a oposições que nos remetem sempre a um Outro, à
alteridade, não raramente incômoda. Por isso, o humor, sobretudo na
literatura infantil, mostra-se essencial por funcionar como um
catalisador ou mais exatamente como uma “válvula de escape” (FREUD,
2003), instrumento capaz de permitir uma reviravolta de situação,
que a própria criança utiliza para minimizar suas “deficiências” e
medos, ligados às limitações “infantis”.
3. O humor lobatiano:
Ao longo das histórias do ciclo do Sítio do
Picapau Amarelo, escritas entre os anos 1920 e 1944, nós
encontramos o humor desmistificador, satírico, muitas vezes naïf,
inspirado pelos seus mestres de juventude de Lobato: Mark Twain (The
Adventures of Tom Sawyer – 1876 e The adventures of
Huckleberry Finn – 1885) e Alphonse Daudet, com o seu
Tartarin de Tarascon; vale mencionar igualmente os nomes de
Lewis Carroll e sua Alice (1865) e de Jonathan Swift com seu
Gulliver (1726). Essas leituras nos parecem decisivas à
construção de uma “matéria” lobatiana, formada de estereótipos bem
escolhidos em seu tempo histórico: “estrangeiros”, “cientistas”,
“nobres”, “instituições” e “heróis” vão provocar o riso e contribuir
para a construção de um grupo mítico, O Sítio do Picapau Amarelo.
Sobre a modernização brasileira, que permite o
surgimento da indústria do livro no Brasil e o aparecimento de
autores como Monteiro Lobato neste início de século, Lajolo e
Zilberman lançam um olhar arguto:
“Em primeiro lugar, entre 1890 e 1920, com o
desenvolvimento das cidades, o aumento da população urbana, o
fortalecimento das classes sociais intermediárias entre
aristocracia rural e alta burguesia de um lado, escravos e
trabalhadores rurais de outro, entra em cena um público virtual.
Este é favorável, em princípio, ao contato com livros e
literatura, na medida em que o consumo desses bens espelha o
padrão de escolarização e cultura com que esses novos segmentos
sociais desejam apresentar-se frente a outros grupos, com os
quais buscam ou a identificação (no caso da alta burguesia) ou a
diferença (os núcleos humildes de onde provieram).
Mas teve percalços a modernização brasileira.
Imposta de cima para baixo, não levou em conta as peculiaridades
de uma sociedade que queria abafar, num projeto de renovação
aparente, a realidade social de um país que recentemente abolira
a escravidão e cuja economia não apenas se fundara na estrutura
arcaica do latifúndio, da monocultura e da exportação de
matérias-primas, como não tinha o menor interesse em modificar
essa situação.” (1999:27).
Lobato, através do seu universo literário, vai
“utilizar-se” de seu momento histórico com muita irreverência e
inteligência na construção de seu microcosmo fantástico-maravilhoso.
Estes estereótipos não correspondem somente a personagens exteriores
ao grupo principal, formado por Dona Benta, Tia Nastácia, Pedrinho,
Narizinho, Emília, Visconde, Rabicó, Quindim e Conselheiro, mas
circulam igualmente dentro deste. O herói lobatiano é também origem
de riso já que saído do mundo rural (mesmo se ávido de ciência e
modernidade) e por isto um “desajustado”, atormentado pela
“velocidade” da cidade que invade o seu território e,
contraditoriamente, à qual ele aspira avidamente. Este inadaptado
(sobretudo Emília,
Visconde e Rabicó) encarna esse cômico de essência chaplinesca
(BOSSETTI, 1987:320) e utiliza o humor como uma forma de
extravasamento e alívio, tornando mais leve seu contato com o
incompreensível mundo adulto e, consequentemente, o do leitor das
narrativas, representado no texto pelos picapauzinhos. A
essência deste jogo lobatiano será a capacidade de questionamento
realizado pelas personagens (através do metatexto) no que diz
respeito à própria matéria da qual é composta suas camadas de
compreensão. Seguindo este raciocínio, os vários mundos, verdadeiros
ou parcialmente falsos de Lobato, serão sacudidos pelo elemento que
circunscreve e explode a narrativa e todo dogma nela contido: o
humor. O que irá englobar o “todo” e ao mesmo tempo preservar a
estabilidade da comunhão individual do “grupo” será o riso, a
sátira, a possibilidade de contestação através desta faculdade que
nos faz críticos revelando nossas insuficiências. Da mesma maneira,
no que diz respeito ao encontro do estrangeiro (mundo) e o nacional
(sítio), nós vemos o surgimento do “outro” nacional: o mestiço que,
no entanto, poderá ver sua identidade distanciada ou abafada, visto
a potência que assume a auto-derisão no grupo. Neste sentido,
poderíamos ver a utilização do humor no trato de temáticas sérias
como distanciador (humor salvação e perdição...)
e, no entanto, revelador.
4. O “estrangeiro” que provoca o riso:
Vejamos, por exemplo, a situação de Nastácia no grupo.
Vinda de Angola (Minotauro, 1960:158; Geografia de Dona
Benta, 1960:214) ou do Moçambique (História de Tia Nastácia,
1960:189) sabemos que tia Nastácia fora escrava outrora (Geografia
de Dona Benta, 1960: 214) e é analfabeta (Aritmética da
Emília, 1969:172; História do Mundo para Crianças,
1960:135), o que certamente a coloca em situação de inferioridade
face às outras personagens visto a importância dada ao “saber”
livresco no grupo. Esta condição de inferioridade do negro na obra
lobatiana pode certamente ser associada à situação paradoxal do
negro na sociedade brasileira, presença tão «essencial» quanto
«marginal».
Assim, ao mesmo tempo que a cor de Nastácia determina sua condição,
ela ocupa um papel preponderante ao funcionamento da narrativa e ao
desenvolvimento das ações. Sabe-se, por exemplo, que Nastácia é a
personagem que mais trabalha no sítio “é ela que mais trabalha no
sítio!”(Viagem ao Céu, 1960:07) e seus dons tanto culinários
quanto de criação de objetos mágicos são igualmente destacadas pelo
narrador e pelas personagens «/…/ Tia Nastácia é uma danada para
inventar Interjeições. Danada para tudo, aquela negra…» (Emília
no País da Gramática, 1960:70); «E que cozinheira! Como sabe
manejar o violino do «gostoso» e tirar dele mil harmonias! O mais
simples guisado, um picadinho com batatas, um virado de feijão com
torresmos, um vatapá, tudo/.../ Perfeitas obras-primas.» (Minotauro,
1960:151). No entanto, os saberes artesanais de Nastácia, ainda
que essenciais e admirados “nas coisas práticas da vida é uma
verdadeira sábia” (Memórias de Emília, 1960:145) serão
questionados pelas outras personagens. Uma das formas de destacar a
«inferioridade» de Nastácia é confrontar sua “ignorância” com o
saber livresco dos «mestres», o que provoca, não raras vezes, o
riso, devido ao contexto criado dentro da narrativa lobatiana. Sua
principal detratora é a boneca Emília, conhecida por seus
comentários ácidos: “Nasceu preta e ainda mais preta há de morrer!
/.../ Não é à toa que é preta como carvão. /.../ Mais malvada que
ela só o Barba Azul. Você é porque é novo nesta casa e não a
conhece. Tia Nastácia não tem dó de nada. Pega aqueles frangos tão
lindos e – zás! – torce-lhes o pescoço.” (Reinações de Narizinho,
1979:138); “Perdemos o anjinho por sua culpa só. Burrona! Negra
beiçuda! Deus que te marcou, alguma coisa em ti achou. Quando ele
preteja uma criatura é por castigo./.../ Emília! Repreendeu Dona
Benta, respeite os mais velhos!”
(Memórias de Emília, 1972:277). Contraditoriamente, a boneca
afirma ser “produto” de Nastácia, feita por suas mãos negras e saída
desta mesma cultura “popular”, que ela rejeita:
“Pois se eu sou asneirenta, é porque aquela burra
da tia Nastácia me fez assim. Ela foi a minha natureza. Natureza
preta como carvão.” (Aritmética da Emília, 1972:370).
“É isso mesmo. Sou tudo isso e ainda mais alguma
coisa. Pode ficar como está. Cada um de nós dois, Visconde, é
como tia Nastácia nos fez. Se somos assim ou assado, a culpa não
é nossa – é da negra beiçuda.” (Memórias da Emília,
1960:117)
Ela parece compreender que deve fugir do mundo da
oralidade “primitiva”, da “natureza”, para atingir o outro lado, da
“cultura erudita”, que ela sabe ser contrapartida igualmente, já que
ávida de mudança e reforma “O mundo é mal feito” (cf. A Reforma
da natureza, A Chave do Tamanho ou a Gramática da Emília
entre outros). Emília é intermediária (assim como Nastácia, negra,
mas fazendo parte do espaço “branco”) e faz a ponte oscilante entre
os dois mundos; ela é desta maneira feita de fragmentos emprestados
a um e a outro termo. Este conflito de intenções faz todo o
interesse da boneca que, com seu humor, é provocadora desta economia
de sentimento da qual nos fala FREUD (1988:402-403) ao comentar a
obra de Marc Twain. Para Freud, a economia realizada em matéria de
piedade é uma das origens mais freqüentes do prazer humorístico. Ele
cita uma cena evocada pelo escritor americano, na qual seu irmão,
empregado numa grande empresa de construção de rodovias, fora certa
vez projetado pela explosão prematura de uma mina que o fizera cair
em um lugar extremamente distante de seu local de trabalho; esta
cena pode certamente nos provocar uma certa piedade em relação a
este acidentado e mesmo suscitar perguntas com relação ao seu estado
de saúde. Porém, para nossa surpresa, Twain nos revela a continuação
da história de seu irmão dizendo que este “viu-se descontado de um
dia e meio de salário por ter-se afastado de seu local de trabalho”,
o que nos desvia completamente da piedade, nos coloca o riso nos
lábios e nos torna quase tão duros quanto os próprios empresários,
completamente indiferentes a uma eventual degradação da saúde do
funcionário. Este parênteses nos remete a Monteiro Lobato. Quando
tia Nastácia entra na sala onde está o grupo de princesas em visita
ao sítio no livro Reinações de Narizinho, Emília, incomodada
pelo aparecimento repentino da cozinheira, tenta explicar sua
presença neste meio onde circulam as principais personagens da
cultura livresca universal:
“Pois não sabem? – respondeu Emília, com carinha
malandra. – Nastácia é uma princesa Núbia que certa fada virou
em cozinheira. Quando aparecer um certo anel, que está na
barriga dum certo peixe, virará princesa outra vez. Quem vai
danar com isso é Dona Benta, que nunca achará melhor
cozinheira.” (Reinações de Narizinho, 1979:127)
Quando Nastácia oferece café às princesas, Branca de
Neve recusa: “Tenho medo que o café me deixe morena”; Emília não
perde a ocasião: “Faz muito bem – disse Emília. – Foi de tanto tomar
café que tia Nastácia ficou preta assim…” (Reinações de
Narizinho, 1979:127). Sem dúvida, neste trecho, há um
alívio da parte do leitor que não nos parece gratuito, pois a
situação poderia simplesmente se cristalizar em pesar. Primeiro, ao
ver que Nastácia não é somente vista e desclassificada pela sua cor
e condição, mas que também, mesmo se indiretamente inferiorizada,
faz parte do grande “evento” e das reinações (princesa
enfeitiçada...); segundo, porque todos os dois comentários nos
afastam completamente da piedade em relação a um racismo velado que
eliminaria a discussão da questão racial na narrativa e,
consequentemente, num contexto mais abrangente. Emília poderia
ter-se calado nas duas ocasiões e Nastácia teria mais uma vez sua
função e individualidade ocultadas. A “besteira” de Emília é risível
e, sem dúvida, nos põe ao seu lado. Dona Benta, no entanto, uma
personagem tida como detentora da autoridade no sítio, não pode
exteriorizar seus preconceitos; fazendo parte de um “projeto
iluminista” de esclarecimento intelectual das novas gerações, a avó
não pode confessar abertamente preconceitos (ainda que eles existam
“diluídos” no texto) “intrínsecos” à sua classe e ser provocadora, a
despeito de si mesma, de um racismo velado e vil. Dona Benta
completa a dupla, formando a tríade fundamental: Nastácia – Emília –
Dona Benta. Deste modo, Emília vai se tornar emissora de um
significado oculto que ligará os dois pólos opostos. Vejamos como a
boneca, quase imperceptivelmente, irá “revelar” o preconceito com
relação ao outro em Dona Benta:
“Lá no sítio de Dona Benta – lembrou Emília, MONO
quer dizer macacão. O tio Barnabé, que mora perto da ponte, Dona
Benta diz que é um verdadeiro mono.
- Sei disso – declarou a velha rindo-se, mas em
grego, significa único.
- Único macacão?
- Cale-se, Emília – por favor! – “pediu a
menina.” (Emília no País da Gramática, 1960:92)
A boneca diz alto e forte os preconceitos de seu meio
e, como uma criança, revela inocentemente os segredos “familiares”,
provocando o riso. Talvez sua associabilidade seja o que mais nos
fascina em Emília: “Emília tem a mania de ser franca. Nunca viveu em
sociedade” (Reinações de Narizinho, 1979:65). Mestiça
intelectual, “esperta” – a boneca acredita que não há nada mais
importante que a esperteza que vence sempre a força: “Ser esperto é
tudo. O mundo é dos espertos.” (Memórias de Emília,
1972:275); ela tenta, desta forma, esconder suas origens
“duvidosas”, distanciando-se e tentando aliar-se, não sem
dificuldades, à cultura “erudita” das outras personagens, ao ponto
de virar escritora em Memórias de Emília e “gente de verdade”
em A Chave do Tamanho: “Emília foi evoluindo e
insensivelmente passou de boneca a gente de verdade, conservando o
tamanho inicial – 40 centímetros de altura. É o símbolo da
independência mental e da habilidade para enfrentar todas as
situações...” (1960:01). Por outro lado, nós sabemos que a “vítima”
Nastácia pode ser igualmente geradora de oposição e comicidade;
assim, ela é a principal detratora de outro “estrangeiro”, Elias, o
Turco. Definido por sua nacionalidade, como Nastácia é definida por
sua cor, ele é constantemente repreendido pela dama negra, que o
acusa de vender produtos falsificados a seus clientes e de roubá-los
com seus preços. Nastácia se torna assim “carrasco” (ela assume o
papel mais forte, como anteriormente Emília) e, à sua maneira, faz o
“Turco” pagar um preço alto. No livro O Picapau Amarelo, o
grupo de Lobato recebe a presença de várias personagens da
literatura mundial. Entre elas, Dom Quixote e seu escudeiro glutão
Sancho Pança. Este último é satisfeito ao encontrar a “melhor
quituteira do mundo” (Os Doze Trabalhos de Hércules I,
1972:90): tia Nastácia, mas está à procura de vinho para acompanhar
as guloseimas. Nastácia, com sua espontaneidade, fala da venda de
Elias, o turco, mas faz algumas ressalvas:
«E vinho? Não há por aqui algum verdasco da
Andaluzia? – perguntou o guloso.
- A Luzia aqui não anda não, Seu Sancho – nosso
vinho é a água do pote. Se quer, mando buscar uma garrafa na
venda do Elias Turco – mas juro que bebe uma vez e nunca mais.
Falsificadíssimo! Aquele raio de homem é a peste aqui no bairro,
Seu Sancho. Eu ainda peço pra D. Quixote ‘chucha’ ele com a ‘naça’.
Falsifica tudo – até cebola…» (O Picapau Amarelo,
1960:34)
Além disso, Emília não discriminará somente Nastácia,
mas todos os “estrangeiros” (alemães, franceses, americanos,
suecos…) que se oponham ao funcionamento de suas “besteiras”, de sua
“criatividade” e apontem suas deficiências. No que diz respeito às
oposições sítio, lugar “arcaico”, versus a “civilização”, detentora
da “modernidade”, nós nos damos conta que a última só adquire
direito de existência via sítio, podendo se tornar mesmo “arcaica”
face a este nos livros O Minotauro e Os Doze Trabalhos de
Hércules que discutem inteligentemente a diacronia através de um
mergulho nos tempos greco-romanos. Em Os Doze Trabalhos de
Hércules, as personagens de Lobato ensinam ao semi-deus nacional
grego (que serve, no entanto, num primeiro momento, de “modelo” para
os picapauzinhos) entre outras coisas, os mistérios do
faz-de-conta e do pó de pirlimpimpim para a realização de seus doze
trabalhos. Os “mitos” da antiguidade clássica, desmitificados face
às personagens “modernas”, podem, desta forma, se tornar motivo de
riso: “Hércules tinha vergonha de contar coisas da Grécia perto do
seu escudeiro, o qual sabia de todos os assuntos muito mais que ele
– deu a palavra ao Visconde.” (Os Doze Trabalhos de Hércules,
1960:160); “Hercules entendia bem pouco de tudo aquilo, mas estava
gostando de ouvir. Era como uma música nova – a música dos tempos
futuros. Emília não parava.” (Os Doze Trabalhos de Hércules
I, 1972:22)
Da mesma maneira, em A Reforma da Natureza
(Dr. Zamenhoff), Caçadas de Pedrinho (Sr. Fritz Muller), O
Poço do Visconde (Mister Kalamazoo), Viagem ao Céu
(astrônomo sueco) os picapauzinhos, graças ao riso, podem
“tirar a forra” face ao prestígio, ao dinheiro e à tecnologia
irrefutável das personagens estrangeiras. Assim, quando os
“estrangeiros” não aceitam as regras do grupo e participar do
“faz-de-conta” local, seguindo o exemplo de Elias ou Nastácia,
correm o risco de desaparecer no espaço, como o dono do circo
alemão, em Caçadas de Pedrinho, Sr. Fritz Muller. Quando este
vem ao sítio recuperar o rinoceronte Quindim, Emília providencia o
desaparecimento do “cara melada”:
«Emília foi mexer nos guardados de Pedrinho e
trouxe uma pitada de pó de pirlimpimpim num pires.
- Vamos resolver esta questão dum outro modo –
disse ela ao voltar. Tenho aqui este tabaco, que vou dividir em
duas porções. O senhor toma uma pitada e ali o «cara melada…»
/.../O advogado e o alemão acharam muita graça
naquilo, e sem desconfiança nenhuma resolveram tomar a pitada de
pó de pirlimpimpim, certos de que não espirrariam. Era dose
pequena demais para fazer espirrar dois homões como eles,
acostumados ao fumo forte. Tomaram a pitada, sorridentes e…
fiunnn! – ninguém nunca soube onde foram parar! Sumiram-se no
espaço.
A vitória da Emília foi saudada com berros e
palmas. Até o rinoceronte aplaudiu com urros, contentíssimo do
feliz desfecho do incidente.”(Caçadas de Pedrinho,
1960:114)
Por outro lado, não podemos esquecer que a oposição
entre o sítio e a cidade nos revela que as forças da “modernidade”
são também um acessório indispensável no jogo de interesses que
estabelece a formação desta amostra de humanidade “ideal” que é o
Sítio: “Por isso acho que o único lugar do mundo onde há paz
e felicidade é no sítio de Dona Benta. Tudo aqui corre como num
sonho. A criançada só cuida de duas coisas: brincar e aprender.” (Memórias
de Emília, 1972:291). Certamente, a “cidade” que esquece suas
origens agrárias e guia-se somente pelas regras vindas do “exterior”
caminha precipitadamente e aos trancos e barrancos (a pedagogia da
escola de Pedrinho em São Paulo é arcaica e fora de moda em relação
à pedagogia de Dona Benta; os livros vindos da capital merecem ser
“passados a limpo”; a boneca que Pedrinho traz da cidade à
Narizinho, loira e de porcelana, é rapidamente deixada de lado, e é
Emília, bruxa de pano, feia e desajeitada, a preferida da menina;
etc.). No entanto, não esqueçamos, a experiência e ciência do grupo
de estrangeiros no livro O Poço do Visconde são vitais quando
aliadas aos parcos meios dos picapauzinhos, para a descoberta
do petróleo no sítio. É proclamada neste dia, a segunda
independência do Brasil: “A descoberta do petróleo representa um
fato de significação mais alta do que podemos conceber. Representa
algo mais importante do que a própria independência do Brasil...” (O
Poço do Visconde, 1972:327)
Todas estas considerações sido feitas, vemos que o
confronto com o “estrangeiro”, a “modernidade”, o “outro” se faz
inalienável para a construção do grupo mítico lobatiano. Riso e
auto-derisão acompanham o grupo, ao longo de toda obra lobatiana,
formada de 23 livros, até sua última história, escrita em 1944,
Os Doze Trabalhos de Hércules. Lobato fecha o círculo e
demonstra, ao longo de sua carreira de escritor para crianças, por
um lado, a construção de uma pretensa “nacionalidade”, e por outro,
os paradoxos de tal busca.
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Ellug, 1987.
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ZILBERMAN,
Regina; MAGALHÃES, Ligia Cademartori. Literatura infantil:
autoritarismo e emancipação. São Paulo, Ática, 1987.
A
criança é essencialmente múltipla. Ela é capaz, num instante
e sem transição, de se apiedar de seu destino da maneira
mais melodramática que seja, e de rir de si mesma e do
roteiro trágico que acaba de elaborar. (tradução nossa)
“Ando com várias idéias. Uma: vestir à nacional as velhas
fábulas de Esopo e La Fontaine, tudo em prosa e mexendo nas
moralidades. Coisa para crianças. Veio-me diante da atenção
curiosa com que meus pequenos ouvem as fábulas que Purezinha
conta. Guardam-nas de memória e vão recontá-las aos amigos –
sem, entretanto, prestarem nenhuma atenção à moralidade,
como é natural. A moralidade nos fica no subconsciente para
ir se revelando mais tarde, à medida que progredimos em
compreensão. Ora, um fabulário nosso, com bichos daqui em
vez dos exóticos, se for feito com arte e talento dará coisa
preciosa. As fábulas em português que conheço, em geral
traduções de La Fontaine, são pequenas moitas de amora do
mato – espinhentas e impenetráveis. Que é que nossas
crianças podem ler? Não vejo nada.
Fábulas assim seriam um começo da literatura que nos falta.
Como tenho um certo jeito para impingir gato por lebre, isto
é, habilidade por talento, ando com idéia de iniciar a
coisa. É de tal pobreza e tão besta a nossa literatura
infantil, que nada acho para a iniciação de meus filhos.”
A Barca de Gleyre: Quarenta anos de correspondência
literária entre Monteiro Lobato e Godofredo Rangel, carta de
08.09.1916 (LOBATO,1960:104)
Lembremos da maldição bíblica de Cam, recuperada pelos
colonialistas durante o século XIX, o «racismo
evolucionista”, para justificar as atitudes colonialistas na
África. Alfredo BOSI, «A Maldição de Cham”, in A
Dialética da Colonização, p. 398.
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