O “Chutzpah” e a educação do desejo
por Raymundo de Lima
“Eu não procuro, acho”
Pablo Picasso
Há
pessoas que são determinadas, vão à luta, demonstram garra,
gana, pique, audácia. Outras demonstram falta de iniciativa,
acomodam-se, não se empolgam, parecem não ter vontade própria e
até transmitem desânimo ou falta de sentido de vida. Essa
segunda não explora os seus talentos, lembrando a parábola
bíblica.
Os judeus têm a palavra “chutzpah”, que em
iídiche (dialeto alemão falado pelos judeus europeus) para se
referir a algo como audácia, gana, garra, se virar, ter
iniciativa ou coragem para ir à luta. Tem “chutzpah” o sujeito
que não fica esperando que o governo tome iniciativa, ou que os
outros façam por sua conta e risco.
Michel Kepp
considera três sentidos para chutzpah: positivo,
negativo ou ambivalente. Positivo, quando ela exprime algo
saudável como a auto-estima e a iniciativa de servir ao bem
comum. A iniciativa de alguém para consertar brinquedos e
distribuí-los para as crianças carentes, ou prestar serviços
voluntários, ou para a preservação da Amazônia e do planeta são
chutzpah positiva. Mas, a cara-de-pau de negar tudo do
deputado Paulo Maluf, e dos corruptos cínicos, mesmo depois de
serem condenados pela justiça é “chutzpah negativa”. Já o
sentido ambivalente
é quando o ato de coragem tem um traço de arrogância. Em 2004,
quando estava apenas atrás de Pelé em número de gols Romário
disse: "eu me considero o mais importante jogador desde 1970".
Ronaldo reagiu, chamando o rival de pretensioso. Essa atitude de
Romário é um exemplo de “chutzpah” ambivalente.
Chutzpah X Abulia X Vitimização
Postura oposta ao chutzpah é
a abulia. Wilhel Stekel (1966), que junto
com Freud foram pioneiros da psicanálise, descreveu os abúlicos
como sendo pessoas sem vontade própria, sem iniciativa, e sem
capacidade para tomar decisões.
O desânimo, apatia, o esvaziamento de interesse
pela vida ativa são sintomas de depressão que estão presentes em
alguns tipos de esquizofrenia. Mas, a abulia não
necessariamente indica doença psíquica, mas um jeito de ser e de
viver sem iniciativa, sem audácia, sem garra de lutar por algo;
falta-lhes “vontade de ferro”, diziam os antigos. Falta-lhes
“chutzpah”, dizem hoje os judeus de New York. “Elas
experimentam algo assim como se sua vontade tivesse travada”,
observa Stekel. Revelam-se incapazes de reunir energia
suficiente para se lançarem numa ação ousada se arriscando
ganhar ou perder. No fundo, falta-lhes coragem necessária para
“dar a sua cara pra bater” se sua iniciativa fracassar;
falta-lhes coragem para assumir responsabilidades e correr risco
de executar um ato que pode mudar as coisas.
Há pessoas que depois de muita cobrança suspendem
artificialmente sua modorra, por exemplo, para fazer um curso,
que poderá mudar sua vida. Conheço alunos matriculados para
“fazer o curso por fazer”, mas que não se esforçam para serem
“estudantes”.
Tais alunos ocupam a vaga de outro que poderia aproveitar melhor
o curso para vir a ser um pesquisador ou um profissional
apaixonado pela sua profissão,
enfim, um verdadeiro estudante. Há pessoas que se dirigem ao
serviço de seleção das empresas com pés de chumbo, às vezes
chegam demasiado tarde, perdendo assim a oportunidade do
emprego. Não raro, elas inventam defeitos naquele que seria seu
emprego, dizendo coisas como: o salário é baixo, a empresa fica
muito longe, as tarefas seriam aborrecidas, o chefe é um
carrasco, etc. É um momento propício para ela evocar o
“mecanismo das uvas verdes” da conhecida história infantil, da
raposa não conseguindo alcançar as frutas diz: “ora, elas estão
verdes”. Também, a desculpa rasteira que coloca toda a
culpa de insucesso pessoal no sistema político só faz o abúlico
refinar tal racionalização se auto-enganar de vítima infeliz.
Nas escolas e universidades os abúlicos
geralmente se fazem de vítimas eternas do seu ofício.
Professores repetem compulsivamente queixumes por sua situação
de miséria estresse. Como se somente o magistério carregasse a
pedra de Sísifo. Algumas vezes, quando respondi que era
professor, ouvi um colega dizer: “Ah! Você é meu companheiro de
sofrimento”. Um colega,
constrangido com tal chiste, pergunta-lhe: “A senhora sofre de
quê?”.
É verdade que a geração atual de alunos dá mais
trabalho porque vem mal educada de casa, que o nosso sistema de
ensino é excessivamente burocrático e não dá continuidade às
políticas educacionais; que os conteúdos vivem defasados e as
capacitações dos professores geralmente não conseguem responder
aos problemas concretos da sala de aula, tudo isso termina
causando nesses profissionais, confusão, insegurança, estresse.
Há ainda o fato de a sociedade não valorizar o profissional do
ensino, mas daí se tornar vítimas eternas, posar-se de coitados,
se acomodar, e fazer propaganda negativa porque é professor, é
demais. Tal vitimização só aumenta a desvalorização do
professorado pela sociedade.
A propósito, um psicoterapeuta se pergunta: essas
falsas justificativas fornecem uma proteção real ou de vidro aos
abúlicos ou vitimizados? Como um pai, cônjuge ou professor devem
se posicionar diante dos queixumes e do marasmo? Que defesa
psíquica os alunos devem arrumar diante de professores
ressentidos, cujas aulas transparecem baixo astral? Que fazer
para educar filhos para irem à luta em vez de filhos acomodados,
sem iniciativa, e sem sonhos? É melhor conviver com pessoas
dotadas de chutzpah ou de abulia? A cultura tem alguma
influência na formação desses estilos de ser-na-vida?
Natureza, cultura e educação
Há culturas
que influenciam o desenvolvimento da auto-estima, para o sujeito
ir à luta no trabalho, estudos, esportes, na vida. É mais
valorizado quem tem "cojones”, como
dizem os hispânicos. Outras, porém, não trabalham
desde cedo o “chutzpah” nas crianças. Contudo, há aqueles que,
por necessidade, muito cedo se obrigam desenvolver um “chutzpah”
medido pela sua sobrevivência, muitas vezes abdicando do seu
sonho maior.
Dizem que as mães judias instilam em seus filhos
a idéia de que nenhum objetivo está fora do seu alcance. Kepp
(ibid) observa que os judeus são educados para desenvolverem o
“chutzpah”.
As mães judias instilam em seus filhos a idéia de que nenhum
objetivo está fora de seu alcance. Os anglo-saxônicos
também empurram desde cedo a criança para se virar em casa, na
rua, na escola; é comum o pai introduzir o filho pequeno nas
empresas, para realizar pequenas tarefas. Os japoneses que aqui
estabeleceram educaram os filhos com “chutzpah”. O resultado
hoje é visível: seus filhos e netos entram nas melhores
universidades e se tornam excelentes profissionais e bons
cidadãos. E a nossa cultura latino-americana educa nessa linha?
Uma característica das famílias latino-americanas
é a superproteção aos filhos. Filhos de classe média, no Brasil,
cada vez mais são mimados, e assimilam que não precisam se
esforçar para conseguir as coisas. Os pais compram tudo o que
eles pedem, rompendo assim com certos valores e limites
necessários num projeto de vida próprio. Hoje, o leva-e-traz dos
filhos às escolas e as casas dos amigos, na hora que eles
exigem, faz com que os pais pareçam seus escravos.
Principalmente as mães com seus excessos de agradinhos e vozinha
adequada para lidar com bebês, no fundo, desejam eternizar a
infância dos filhos. Assim, os pais passam-lhes a falsa idéia de
que na vida basta querer e terá. As meninas de classe média e
alta são consideradas bonequinhas de luxo, e, como tal, são
dispensadas das tarefas domésticas. Que moça hoje tem
iniciativa para arrumar a casa, fazer comida, lavar suas
peças íntimas? Que menino hoje toma iniciativa de também
ajudar nas tarefas domésticas? Que menino hoje se oferece para
segurar a lâmpada enquanto o pai conserta algo? Falta ou não
“chutzpah” no nosso modo de educar os filhos?
Que fazer com o seu talento?
Pergunto: devemos educar nossos filhos para irem
à luta, ou para se acomodarem? Eles devem aprender a se virar
sozinhos desde cedo ou ser dependentes dos pais, com medo de
sair de uma imaginária bolsa-canguru? E os professores, orientam
seu ensino para irem à luta, lutar por seu espaço profissional?
Qual é o efeito educativo do professor que age como se fosse
“mãezona” dos alunos, fornecendo grandes mamas com leite
infinito para eles mamarem a vida toda? Queremos que nossos
alunos sejam discípulos ou sujeitos que ousam pensar por si
próprios?
Para Stekel “A maioria dos pais não sabem que
a educação da vontade, da independência, do domínio de si mesmo,
em todos os aspectos é o mais valioso bem pedagógico”. Os
professores, idem.
No mundo de hoje, complexo, competitivo, incerto
e inseguro, a nova geração precisa de uma educação que propicia
o fortalecimento da vontade, que estimula a audácia e a
construção de um projeto de vida ativa para conviver com o mudo
dos adultos, de preferência voltado para o bem coletivo. Na
década de 1960, Hanna Arendt alertava que a educação
contemporânea caminha na contramão das exigências de um mundo
cada vez mais complexo. Em vez de contribuir para ‘adultecer’, a
educação pós-moderna infantiliza a nova geração. No início de
1982, também Neil Postman constata um “desaparecimento da
infância” – das brincadeiras tradicionais – e a ascensão de um
adulto-infantilizado.
Certamente, tais mudanças já estão contribuindo para um novo
perfil de sociedade e de cidadão. Por exemplo, comparando as
gerações que acompanhamos nos últimos 20 anos na clínica
psicanalítica constatamos que “os adolescentes [hoje] sonham
pequeno”(Ler artigo de CALLIGARIS, 2007).
Hoje, o mundo dos negócios demanda pessoas
empreendedoras, a vida social demanda pessoas comprometidas com
o bem comum. As décadas marcadas pela cultura da Revolução (1950
a 1970) também se valorizava o estilo “chutzpah”, ainda que de
modo velado e pasteurizado do sentido capitalista. A
universidade contemporânea também pressiona professores e alunos
para desenvolver pesquisas e publicar. “Publish or perish”
(Publicar ou morrer), dizem os norte-americanos. O pesquisador
autêntico tem chutzpah; é preciso que haja interesse de
aprender-fazendo, ter iniciativa e desejo de
mais-aprender no desenvolvimento da pesquisa. O professor
universitário com pouco ou nenhum chutzpah não é
convidado para certas tarefas marcadas pela competência e prazos
definidos.
Em verdade, ninguém é obrigado a ser
empreendedor, comprometido com uma causa social ou política, ou
pesquisador na ciência, ou viver refazendo o seu currículo
Lattes.
Tanto no mundo real, competitivo, como no mundo virtual do
Lattes, e até mesmo no mundo subjetivo ou narcísico, é mais
valorizado o estilo que se aproxima do
chutzpah.
No fundo, trata-se de uma “opção desejante” do
sujeito, que “é solitária, não se explica, se faz”, observa
Forbes (2004, p. 45). A psicanálise propõe, primeiro, que as
pessoas se assumam como sujeitos de sua história; segundo, que
cada um deve sustentar o seu desejo, isto é, a não ceder no
que deseja. Torna-se necessário, portanto, descolar a sua
pulsão-desejante primordial da mãe-pai, ousar “atravessar o
conforto das soluções coletivas, fantasmáticas” (ibid) e superar
o pavor da conseqüência de tomar iniciativa, de ir à luta, se
arriscar a ficar pirado, louco de desejo, ou perdido no êxtase
(gozo) próprio de sua condição de sujeito. Esse risco sempre
existe, por isso, “a psicanálise não poderia preconizar nenhum
‘gozo sem limitações (...), pois é precisamente a limitação ao
prazer o que permite ao sujeito aceder ao gozo”(COTTET, 1990, p.
152). Essa “limitação” é a busca de uma ética do desejo.
Complementando, essa ética do desejo visa conduzir o chutzpah
num estilo próprio do sujeito, numa perspectiva da
razoabilidade do Eu (Ego) em relação ao mundo.
Contudo, há limites impostos pela idiossincrasia
da personalidade de cada um. Pessoas de vontade débil
provavelmente nunca desenvolverão uma vontade de ferro, ainda
que estas pertençam a uma cultura que valoriza o “chutzpah”, ou
que realizam um bom percurso psicanalítico. Pelo menos,
elas podem vir a reconhecer o seu desejo, realizar o pouco de
sua vontade e daí fazer do
seu mínimo um máximo.
Referências
ARENDT, Hanna.
ARENDT, H. A crise na educação. In: Entre o passado e o
futuro. São Paulo: Perspectiva, 1972.
CALLIGARIS,
Contardo. “Os sonhos dos adolescentes”. Folha de S. Paulo –
Cad. Ilustrada, 11 de janeiro de 2007.
KEEP, Michel.
"Chutzpah" à brasileira. Folha de S.Paulo – Cad. Equilíbrio,
09/03/06.
POSTMAN, Neil.
O desaparecimento da infância. Rio de Janeiro: Ghafia, 1999.
STEKEL, Wilhelm.Vontade
de viver. São Paulo: Mestre Jou, 1966.
MARQUES JR, Nailor.
Educação para a felicidade. Maringá: Liceu, 2001.
FORBES,
Jorge. Você quer o que deseja?
São Paulo: Best Seller, 2004.
COTTER, Serge.
Freud e o desejo do psicanalista. Rio de Janeiro: 1990.
Psicólogo e professor do Depto. Fundamentos da Educação,
da UEM.
Uma dúvida: Geralmente são os homens que tomam a
iniciativa de abordar a mulher para o ato sexual. Esse
chutzpah é biológico, instintivo, ou é decorrente
da influência da cultura?
Educada segundo alguns princípios judaicos, Hannah
Arendt (1972), escreve que a “A
educação é, também, onde decidimos se amamos nossas
crianças o bastante para expulsá-las a seus
próprios recursos, e tampouco arrancar de suas mãos a
oportunidade de empreender alguma coisa nova e
imprevista para nós, preparando-as em vez disso com
antecedência para a tarefa de renovar um mundo comum”.