LEANDRO KONDER

Filósofo marxista brasileiro. Doutor em Filosofia pela UFRJ. Professor da Universidade Federal Fluminense e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro

 

 

 

 

 

 

Nota do editor:

Os textos desta série foram publicados pelo autor no jornal carioca Tribuna da Imprensa, ao longo do ano de 1990. No final de cada artigo é indicada a data de publicação. Os artigos foram reunidos e publicados em "Intelectuais brasileiros & marxismo" (Belo Horizonte: Oficina de Livros, 1991). O autor, a quem agradecemos, autorizou a publicação na REA. Também registramos o agradecimento ao Prof. Paulo Cunha.

 

 

Intelectuais Brasileiros & Marxismo

Nélson Werneck Sodré (N. em 1911)

por Leandro Konder*

 

Nélson Werneck Sodré (1911-1999)Nélson Werneck Sodré, historiador veterano, ensaísta combativo, está lançando este ano dois novos títulos pela Editora Oficina de Livros: O fascismo cotidiano e Capitalismo e revolução burguesa no Brasil. É uma boa ocasião para relembrarmos aqui algo da rica e movimentada trajetória desse fecundo escritor e intelectual íntegro, que suscitou – e ainda suscita – tantas controvérsias apaixonadas.

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O primeiro dos dois volumes recém-publicados – O fascismo cotidiano – reúne algumas despretensiosa anotações feitas a partir da leitura  de jornais e revistas, ao longo de 1976, num período em que a ditadura militar já apresentava claros sinais de crise e abria espaço para o avanço de um processo de transição que viria a ser, como sabemos, conduzido de cima para baixo.

Em 1976, Nélson Werneck Sodré estava chegando aos 65 anos. Já tinha escrito e publicado dois volumes com suas recordações: as Memórias de um soldado (1967) e o primeiro volume das Memórias de um escritor (1970), em edição da Civilização Brasileira. Na introdução de O fascismo cotidiano, ele evocou o caminho que percorrera e concluiu: “sinto que completei já minha tarefa de escritor”. E acrescentou, com certa melancolia indisfarçável: “Já não tenho condições para as longas, pacientes, minuciosas pesquisas. É por isso que deixei de lado a obra, prometida desde a mocidade, sobre a propriedade e sua história aqui: não me foi possível consultar as fontes indispensáveis. Não posso, agora, retomar estudos, menos ainda pesquisas, para aquele projeto. Abandonei-o, pois. E já não tenho outros.”

No segundo dos dois volumes publicados agora, entretanto, o historiador mostra, de modo eloqüente, que não desertou da arena onde vem travando tantos combates pela vida afora e continua sustentando seus pontos de vista. Capitalismo e revolução burguesa no Brasil reafirma a análise da sociedade brasileira desenvolvida no livro Formação histórica do Brasil, que apareceu originalmente em 1962. Para Nélson, “só malevolência e ignorância poderiam acusar as teses levantadas naquele livro de esquemáticas”.

Nélson se mostra inabalavelmente convencido de que o monopólio da terra (“o latifúndio feudal”) constituiu a base de um “feudalismo não-codificado”, do qual se beneficiavam as oligarquias provinciais e estaduais, controladoras do poder político. Tivemos na nossa sociedade uma dinâmica em que primeiro se estabeleceu um modo de produção escravista, depois se deu uma “transição regressiva” para o modo de produção feudal e, afinal, ocorreu a passagem para o modo de produção capitalista. Claro que essa sucessão não se realizou aqui tal como se realizara na Europa: “o processo brasileiro difere inteiramente do modelo do Ocidente europeu, que é o modelo clássico”. No entanto – adverte o historiador – o fato de nos afastarmos de um “paradigma” que nos aprisionaria a um esquema formal estreito não justifica que abandonemos o “método”, quer dizer, o meio imprescindível para alcançarmos o conhecimento científico.

Alguns autores – que, para horror de Nélson Werneck Sodré, passam por marxistas –, asseguram que o Brasil, no período que ele caracteriza como feudal, já era capitalista. Nélson reage com bem humorada irritação, declarando sentir em face dessa afirmação a mesma surpresa que teve o professor quando um aluno “afirmou que a palavra aqui era verbo e, instado a conjugá-lo no presente do indicativo, não titubeou, recitando: eu aqui, tu ali, ele acolá, nós na frente, vós atrás, ele no meio”.

A piada é boa, porém não basta para descartar as dúvidas e as objeções; e Nélson sabe disso. Uma vasta experiência no campo das batalhas políticas e das polêmicas literárias lhe endureceu a pele, mas não anestesiou sua sensibilidade. O apreço por suas próprias idéias e a firme disposição de defendê-las em combate não impedem o ensaísta de refletir sobre a força que podem ter os argumentos alheios.

Na dialética da cultura, o ponto de vista mais avançado deve incorporar, no seu enriquecimento, no seu aprofundamento, o que há de mais estimulante no ponto de vista mais estreito (e por isso mais atrasado). Nélson, que nasceu numa família de escritores, viveu num ambiente culto e desde cedo se dedicou à literatura, tem plena consciência dessa exigência da busca do conhecimento.

Ainda nos anos trinta, o moço que tinha nascido em 1911 e cursado o Colégio Militar, se dispôs a utilizar uma metodologia “materialista” na abordagem das relações entre a literatura e a sociedade brasileira e escreveu o livro Histórias da literatura brasileira. Seus fundamentos econômicos (publicado em 1938). Retomou suas concepções pouco após, numa Síntese do desenvolvimento literário no Brasil, lançada em 1943. Insurgindo-se contra o “critério nominativo” e sua “precariedade” (contra a transformação das histórias da literatura em uma vasta coleção de nomes de escritores), teve a audácia de examinar os movimentos da literatura sem mencionar os nomes dos autores das obras literárias. Tratou de observar os fenômenos culturais em conexão com “os processos de produção”, reconhecidos como “influenciadores de todos os rumos sociais, de todas as características de um povo, de que a manifestação literária não é mais do que uma sensível exteriorização”.

Essas formulações indicam, certamente, contato de Nélson com preocupações sociológicas; e sugerem a existência de fontes de “esquerda” na formação do seu pensamento. Mas o historiador estava longe de ter adotado posições de esquerda conseqüentes, naquele período. Ele mesmo diria, mais tarde, que seu livro Panorama do Segundo Império (de 1939) era “um livro conservador, com evidentes laivos reacionários”. E, referindo-se à Síntese do desenvolvimento literário no Brasil, afirmaria que o livro mostrava “quão fracos” eram, então, os seus “conhecimentos de materialismo histórico e de dialética marxista” (ambas as avaliações autocríticas se acham nas Memórias de um escritor).

Na organização da perspectiva teórica de Nélson Werneck Sodré foram significativas as influências de autores materialistas vulgares como Haeckel e Buechner, que na época tinham notável ressonância nos intelectuais brasileiros de esquerda. Creio que foi somente nos anos cinqüenta que o historiador aprofundou seus estudos de literatura marxista e reformulou suas posições. E, de qualquer maneira, é certo que em suas atividades no Iseb, durante o qüinqüênio presidencial de Juscelino Kubitschek, Nélson já se mostrava amplamente familiarizado com o pensamento de Marx e de Engels.

Outra coisa: na terceira edição, integralmente refundida, da História da literatura brasileira, lançada pela José Olympio em 1960, o autor não só se apóia em Marx como também, pioneiramente no Brasil, se serve das teorias do marxista húngaro Georg Lukács, classificando-o como “um crítico autorizado”.

A segunda metade dos anos cinqüenta e o começo dos anos sessenta representam, na trajetória de Nélson Werneck Sodré, um período de intensíssima atividade pública: além dos cursos que ministra, ele publica um ensaio sobre O Tratado de Methuen, outro sobre As classes sociais no Brasil, o livro Introdução à revolução brasileira, o livro A ideologia do colonialismo, o texto de uma conferência a respeito das Raízes históricas do nacionalismo brasileiro e o famoso estudo sobre a Formação histórica do Brasil, onde está desenvolvida a tese do feudalismo no Brasil, que deu ocasião para tão ásperos debates. Nessa mesma época, ele organizou um grupo de jovens historiadores que se dispunham a produzir um material didático que difundisse uma visão crítica das transformações ocorridas com a sociedade brasileira, estimulando uma consciência democrática, necessária à luta contra as deformações elitistas e violentamente autoritárias que as classes dominantes têm imposto às nossas instituições.

Com o golpe de Estado de 1964, Nélson e seus colaboradores foram rudemente golpeados. O Iseb foi fechado. Os jovens historiadores que participavam do projeto da “História nova do Brasil” foram presos. O próprio Nélson amargou uma temporada numa prisão militar.

Os novos tempos, sombrios, sinistros, não conseguiram, entretanto, reduzir o historiador ao silêncio. Sua voz insistia em se fazer ouvir. No próprio ano do golpe – 1964 – apareceu o livro História da burguesia brasileira. No ano seguinte foram lançados vários volumes: Ofício de escritor, O naturalismo no Brasil, As razões da independência (com “orelhas” de Astrojildo Pereira) e História militar do Brasil. Em 1967 saiu a História da imprensa no Brasil, acompanhada das Memórias de um soldado. E em 1970, acompanhando o primeiro volume das Memórias de um escritor, foi lançada uma Síntese de história da cultura brasileira. A bibliografia do escritor crescia, assumia dimensões imponentes, dando testemunho não só do prosseguimento dos seus estudos como também da sua vontade de resistir à onda obscurantista.

Os anos setenta foram anos sofridos, difíceis. A esquerda, derrotada, dividida, enfraquecida, precisou enfrentar o desafio de repensar, dramaticamente, sua avaliação dos ideais do socialismo, seus métodos e suas idéias a respeito da sociedade brasileira. Nélson foi visto, então, muitas vezes, como o principal símbolo do pensamento corporificado no Partido Comunista Brasileiro. As críticas ao seu trabalho se misturavam muito com a discussão em torno da linha teórico-política adotada pelo PCB.

Nestas últimas duas décadas, Nélson foi atacado com uma veemência que chega a espantar. Um crítico que em geral costuma medir palavras a que recorre deixou de lado toda e qualquer prudência para investir contra o que chamou de “marxismo cristalizado”, “esquemático e apressado”, “ortodoxo e linear”, com seus “parâmetros pedestres”, na obra de Werneck Sodré (as expressões se encontram no importante livro Ideologia da cultura brasileira, de Carlos Guilherme Mota, editado em 1977). Também Jacob Gorender, em seu denso estudo sobre O escravismo colonial, cedeu à tentação da contundência, desprezando eventuais possibilidades de diálogo, quando escreveu que Nélson não tinha “o cuidado de evitar elementares contradições lógicas” em sua construção teórica, “dissociada dos fatos objetivos”, uma construção que afinal não passava de “ficção arbitrária”.

Apedrejado, o historiador reagiu lançando pedras contra seus agressores e revidou as invectivas com acrimônia, através de artigos que foram reunidos num volume lançado há cinco anos pela Editora Global e intitulado História e materialismo histórico no Brasil. Feridas abertas justificam – é claro – movimentos de impaciência. Não se pode pedir a quem está sob o efeito de dores intensas que aja de acordo com um manual de civilidade.

Agora, contudo, as condições históricas mudaram; o quadro em que vivemos é outro. Num tempo de “perestroika”, o reconhecimento da necessidade de transformações profundas no pensamento socialista já é mais tranqüilo. Os intelectuais socialistas estão democraticamente irmanados pela busca de novos caminhos e estão se debatendo com dúvidas semelhantes, aparentadas pela radicalidade. Estamos todos (ou quase todos) nos tornando mais serenos, diante de dificuldades maiores.

Por isso, tenho a impressão de que está na hora de empreendermos uma releitura da obra de Nélson Werneck Sodré, que no ano que vem deverá completar oitenta anos de idade. Creio que mesmo aqueles que confirmarem suas discordâncias substanciais com a perspectiva adotada pelo veterano historiador (renitente defensor da tese de um feudalismo brasileiro) já não se sentirão encolerizados, não prorromperão em explosões de raiva; e até – quem sabe? – se sentirão inclinados a dialogar com ele.

3-12-1990

 

In: KONDER, Leandro.

Intelectuais Brasileiros e Marxismo.

Belo Horizonte: Oficina de Livros, 1991, pp. 59-64
 


* Filósofo marxista brasileiro. Doutor em Filosofia pela UFRJ. Professor da Universidade Federal Fluminense e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

   

 

 

 

 

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