JOÃO
DOS SANTOS FILHO
Bacharel em Turismo pelo Centro Universitário
Ibero-Americano de São Paulo (Unibero) e bacharel em
Ciências Sociais pela PUC/SP. Mestre em Educação: História e
Filosofia da Educação pela PUC/SP. Professor-convidado na
Faculdad de Filosofia e Letras da Universidad Nacional de
Heredia (UNA), em San José da Costa Rica. Professor
concursado pela Universidade Estadual de Maringá. Autor do
livro “Ontologia do turismo: estudo de suas causas
primeiras” EDUSC, Universidade de Caxias do Sul.
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Reciprocidade, resguardo da soberania ou interesses do Capital
por João dos Santos Filho
Quando
a Bolívia nacionalizou, a filial da Petrobrás em seu território, a
multinacional brasileira do petróleo foi objeto, de uma onda natural
e compreensível de nacionalismo. Parte da elite nacional exigia
medidas drásticas, de retaliação por parte do governo brasileiro,
para com o país vizinho, alguns membros da classe política chegaram
a sugerir o envio de tropas militares à Bolívia, outros
desclassificaram seu presidente, chamando-o de ditador fascista e
comunista.
Tudo passou, Evo Morales brigou e cedeu, o Brasil
amadureceu e renegociou, e a América Latina cresceu politicamente no
campo econômico, cristalizando laços para uma luta coletiva, e
sinalizando a formação de um bloco de poder latino, independente e
voltado aos interesses de um nacionalismo de resultados.
Hoje, as velhas estruturas de poder, que nos
saquearam por séculos, estão cientes que não podem continuar, com
essa tosca prática de manejo de poder “colonialista”. Porque, existe
um bloco de poder constituído na América do Sul, no campo da
negociação coletiva, em que os interesses do continente latino
começam a ensaiar um processo de auto-cooperação política, econômica
e social intra e entre paises latinos.
O que significa afirmar, que o Capital, também divide
o campo político, para poder acelerar e ampliar o processo de geral
e transnacional de acumulação, garantindo certa autonomia para as
negociações políticas locais. Com isso, a maioria dos
latino-americanos tidos como “turistas” barrados nos aeroportos
europeus, não devem considerar-se como objeto de perseguição por
parte dos países europeus, mas, sim resultado dos interesses do
Capital.
É evidente que a tradução desse processo
explicita-se, por meio, de preconceitos diversos que são aflorados
no interior da relação de hospitalidade, que se dá entre o “turista”
latino e o europeu, como: etnocentrismo; racismo; concorrência no
mercado de trabalho e o fetiche com referência a mulher e ao
homem latino. Mas nada, é tão forte como o apelo ao erotismo e
exotismo da mulher brasileira, que ainda toma conta de parte da
mídia que mandamos para fora, bem como, publicações que de forma
indireta timbram as brasileiras como concordes com o turismo sexual.
Uma das inúmeras publicações, que insinuam para tal
estigma, pode ser visualizada e lido em um guia editado em inglês
direcionado para turistas (homens) estrangeiros da editora Solcat.
Em que o tratamento dado a mulher brasileira é extremamente
humilhante e fere os princípios básicos dos Direitos Humanos.
Essa publicação já foi objeto de estudos acadêmicos,
no qual o autor faz o seguinte comentário:
É desta forma que fica
autorizado o capítulo “How to deal with Brazilian Women”
(p. 113, ver o Grupo de Imagens II), em que a exemplo do
que Borba fizera nas páginas anteriores, Nogueira também define
os “quatro tipos da mulher brasileira (além da garota normal)”.
São elas: as Britney Spears, contrapartes femininas dos
Preppy-types e talvez a tradução possível para o que
chamaríamos de “Patricinhas”, que são “as filhinhas de papai,
...lindas, mas que não deixam ninguém paquera-las”, sendo
recomendado ao leitor nem se chegar perto delas; as Hippies
ou Ravers que, sejam lá quem forem, são “fáceis de se
chegar, boas de papo, difícil de beijar, fácil de beber e
se divertir com elas” (grifo meu), praticamente dando
como caminho das pedras e da cama embebedar tais garotas; a
genérica categoria the 30 year old, de mulheres mais
velhas que gostam de “se divertir, dançar, beber e beijar”,
sendo recomendado que sejam tratadas “como damas, pois assim ...
tratarão [o turista] como um rei, talvez não esta noite, mas
amanhã com certeza”; e, por fim, as Popozudas, que são
“maquinas de sexo, ... [que] malham, vestem calças apertadas,
... pintam o cabelo de louro e fazem de tudo para ficarem
lindas. Um bom investimento, já que o motel é sempre uma
possibilidade com estas gatas”. A categorização das cariocas,
que segundo o guia “acreditam de coração que são as Garotas de
Ipanema” (p.112), é feita portanto a partir da possibilidade do
playboy/leitor construído pela publicação ter sexo ou não com
elas, aparentemente a única interação possível.
Diante desses fatos, o governo é contraditório,
investe em propagandas contra o turismo sexual, mas permite o uso da
“Marca Brasil” em publicações de apelo sexual a mulher brasileira e
especificamente carioca. Para não dizer, que o problema é
gravíssimo, devemos entender que os fluxos de turistas estrangeiros
que buscam a prática do turismo sexual no território brasileiro, são
os compradores desse guia (Rio For Parties), pois o mesmo, é vendido
no Brasil e no exterior.
Nesse sentido, não podemos abrir mão da
reciprocidade, no tratamento ao turista estrangeiro, pois é uma
questão de soberania em todos as circunstancias que a mesma possa
significar. Ser barrado pela polícia no desembarque, quando chegamos
a Europa pode ser expresso por referências de normas legais exigidas
pelo país “hospitaleiro” , mas fazendo, uma análise profunda
percebemos que a questão gira em torno dos interesses do Capital.
O Estado exige, e impõe as leis, como garantias para
preservar a empregabilidade dos nacionais e diminuir os gastos do
governo para com a assistência ao emigrante, como podemos perceber,
mas seguintes normas gerais:
1. O
passaporte só pode vencer três meses após o termino da viagem,
ou seja, não pode extrapolar os 90 dias que o estrangeiro tem o
direito para conseguir visto de viagens a negócio ou de
turismo;
2. Apresentar
reserva de hotel, passagem de ida e volta e seguro saúde com
cobertura de 30 mil Euros;
3. Para
ter acesso livre a Espanha, deve-se levar 57,06
Euros para cada dia de permanência. Em Portugal, são 75 Euros.
A idéia, que sustenta o ato de coibir a mobilidade
geográfica dos indivíduos fere os direitos mais elementares de
liberdade humana, e atende aos interesses do Capital, que necessita
preservar a empregabilidade, para sua mão de obra nacional e manter
um equilíbrio suportável do exército industrial de reserva. Essa é a
verdadeira razão, do por que os Estados Nacionais estão afunilando a
entrada de emigrantes, que podem vir, travestidos de turistas e
estudantes.
Por isso, a manifestação do ato de barrar a entrada
de brasileiros, nunca é explicitada pelos fatores acima expostos,
mas sim, por meio de um velho etnocentrismo colonizador que se
traduz pela humilhação ao brasileiro, por isso, devemos fazer uso do
direito de reciprocidade e divulgar os atos de barbárie do qual
somos objeto.
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