|
ADRIANO CODATO
Professor de Ciência Política na Universidade
Federal do Paraná, editor da
Revista de Sociologia e Política e coordenador do Núcleo de
Pesquisa em Sociologia Política Brasileira da UFPR
|
|
Princípios de visão e princípios de
divisão do mundo político
por Adriano Codato
Todas as práticas sociais
se orientam pelas formas como os indivíduos percebem o mundo social,
separam, classificam, ordenam e hierarquizam aquilo que percebem.
Isso vale inclusive, ou
tanto mais, para a política. O mundo político é um mundo dividido
desde o princípio, não importa a taxonomia que se utilize ou a
topografia que o descreva: governantes e governados, oposição e
situação, fortes e fracos, “nós” (nosso grupo, partido, facção) e
“eles” (o outro grupo, partido, facção). Possivelmente a divisão
mais conhecida e típica do mundo político seja a separação entre
esquerda e direita; tão conhecida é ela que, mais do que as
primeiras, determina a visão que se possui (ou que se possuía) desse
universo.
Há algum tempo essa visão
sobre a política e essa divisão dos políticos em duas bandas opostas
vem sendo desacreditada, e para isso não faltam evidências. A mais
expressiva é a praticada (ou aceita como uma fatalidade, depende de
quem olha) pelo governo Lula. Sua base política conta com mais de
uma dezena de partidos (sim, nunca antes neste País tantos
partidos...) e seus articuladores políticos, desde o líder no Senado
(Jucá), passando pelo ministro das Relações Institucionais (José
Múcio), até seu representante junto ao PMDB (Sarney) não possuem
exatamente um currículo “de esquerda”, no sentido intuitivo ou
efetivo da expressão. O último lance dessa política hiper-realista
foi a nomeação do senador Edison Lobão para o Ministério das Minas e
Energia. O senador merece qualquer homenagem, menos a de ter sido um
socialista histórico. Portanto, sustenta-se, a divisão
esquerda-direita não faz mais sentido porque, na prática, ela não
existe.
A outra evidência desse
fracasso classificatório pode ser retirada da política
internacional. Os presidentes da Venezuela, Bolívia e Equador
parecem encarnar, para seus críticos, um figurino ultrapassado: são
de esquerda quando nem mais a esquerda o é. Nessa versão do
argumento, a distinção entre esquerda e direita existe, mas não faz
mais sentido.
Talvez fosse o caso de ir
pouco mais adiante dessas constatações dos “sábios aparentes da
aparência” (Bourdieu), e propor uma classificação diferente para o
problema, e uma conclusão diferente para o dilema.
Há duas maneiras de
responder à pergunta sobre a persistência da distinção entre a
esquerda (isto é, os políticos, seus partidos, suas ideologias) e a
direita (idem). Cada uma dessas representações do problema – mais
sofisticada, menos sofisticada – comporta, por sua vez, duas
versões.
Na primeira versão, mais
simples, a resposta é “não”. Não se pode mais ver a política a
partir dessa divisão primitiva, seja porque o capitalismo, o
liberalismo e os valores tidos como de direita no fim de tudo
ultrapassaram o socialismo, o estatismo e suas idéias generosas, mas
erradas, seja porque, na falta de um oponente, não há mais como,
logicamente, sustentar essa oposição.
Na segunda versão, a
resposta é “sim”: apesar de tudo, nem a História acabou, nem os
conflitos sociais foram superados para todo o sempre. A oposição
esquerda-direita ainda rege o mundo político, pois os valores, as
idéias, os projetos de cada uma dessas posições ainda estão aí
brigando entre si. Se a esquerda continua defendendo a igualdade em
primeiro lugar, a direita continua defendendo a liberdade acima de
tudo. Essa agenda, que se firmou no século XIX, atravessou o XX,
prossegue no XXI. Enquanto os adeptos da esquerda, na sua versão
menos combativa e revolucionária, celebram o Estado de bem-estar e
suas políticas assistenciais, os partidários da direita homenageiam
as virtudes do mercado e sua capacidade mágica de distribuir de
maneira mais eficaz e justa os bens que a sociedade produz.
Na terceira versão da
resposta, o argumento para recusar essa partilha do mundo político
em apenas dois lados é mais afetado: a classificação das posições
tanto no mundo político quanto no mundo social deve ser tão mais
complexa quanto mais diferentes forem os atores políticos –
portanto, quanto mais posições houver. Não existe mais desavença
entre o branco e o preto, mas entre os muitos tons de cinza. Se
repararmos bem, a política da igualdade/desigualdade, baseada num
mundo bipolar (trabalhadores versus capitalistas) deu lugar à
política da identidade: antes de ser de esquerda ou de direita, e se
definir como membro de uma classe social, se é mulher, homem, negro,
branco, cristão, muçulmano etc., e todas as combinações possíveis
entre essas personalidades sociais. Elas nos definem e informam
nossas escolhas políticas.
Por último, o princípio
tradicional da divisão política esquerda-direita não apenas faz todo
sentido para quem vê de fora o mundo político, mas, e essa
provavelmente seja a razão da sua resiliência, é ele quem dá sentido
ao mundo político.
Essa oposição organiza as
posições dos diferentes agentes no campo do poder definindo, para
eles próprios, adversários e aliados. Ela é uma maneira útil de
sinalizar, para os políticos, quem (ainda) é quem. Daí que sua
função seja menos orientar os de fora (nós) e mais pautar as tomadas
de posição nesse campo para os de dentro (alianças com A ou B,
pronunciamentos a favor de C ou D e assim por diante). Mesmo que o
rótulo não corresponda exatamente ao conteúdo, os profissionais da
política, a partir dessa divisão, sempre podem calcular os ganhos e
perdas derivadas do investimento que se faz ora na imagem de um
político “de direita” (a favor do mercado, contra o Estado); ora na
imagem de um político “de esquerda” (contra o mercado, a favor do
Estado), só para mencionarmos polarizações muito simples.
Enfim, ela ainda existe
porque os políticos precisam dela, acreditam nela e agem em função
dela.
Professor de Ciência Política na Universidade Federal do
Paraná, editor da
Revista de Sociologia e Política e coordenador do Núcleo
de Pesquisa em Sociologia Política Brasileira da UFPR.
|
|
versão para imprimir (arquivo em pdf)

|