De volta à “Big Easy”: quase três anos depois de Katrina
por Eva Paulino Bueno
Quando
o furacão Katrina alcançou a costa em 29 de agosto de 2005,
afetando os estados da Luisiana, Alabama e Mississipi,
matando umas 1.200 pessoas e custando (até agora) por volta
de 82 bilhões de dólares, este tipo de fúria da natureza não
era o primeiro a chegar aos Estados Unidos. Como a história
nos mostra, quase todos os anos existem furacões neste país,
e os mais destrutivos são os que se destacam. Por exemplo,
em 1900 um furacão de categoria 4 praticamente destruiu a
cidade de Galveston, no Texas, matando 8.000 pessoas e
custando (em valores aproximados para hoje), uns 80 bilhões
de dólares. Em 1926 outro furacão de categoria 4 custou o
equivalente a 90 bilhões e matou cerca de 800 pessoas da
cidade de Miami. A Flórida, como se sabe uma península
localizada em um dos corredores mais ativos para furacões,
tem sido vítima de muitos destes fenômenos, que aparecem
quase todos os anos, mas outros estados sulistas, como as
Carolina do Norte e do Sul, também já sofreram devastações
causadas pelos ventos e a chuva torrencial que caracterizam
os furacões. E, para quem pensa que os ventos fazem estragos
só na região costeira, basta lembrar que as nuvens seguem
seu caminho para o norte, levando em seu rastro de morte,
destruição e grandes prejuízos. Esta parte da história de um
furacão raramente chega aos noticiários nacionais, muito
menos aos internacionais.
Mas Katrina ainda continua, pelo menos no
imaginário americano, como um exemplo à parte, como uma
ferida ainda aberta. Em minha recente visita à cidade de
Nova Orleans, na Louisiana, a primeira que fiz desde 2004,
antes do furacão, foi inevitável tentar ver algo sobre os
efeitos de Katrina, e sobre o que está acontecendo na
cidade.
Primeiro, preciso esclarecer que passei
somente dois dias na cidade, e que fui a trabalho. Isto
significa que não pude caminhar com folga conversando com as
pessoas locais, como é de meu costume. Mas é impossível
ir-se a New Orleans e não visitar o famoso French Quarter,
que é considerado o “coração cultural” da cidade. Ali estão
os músicos nas ruas, as lojas de bugigangas de carnaval, os
restaurantes com a deliciosa comida “cajun,” os bares que
ficam abertos a noite inteira. E, logicamente, ali se
concentram os turistas.
Nesta parte do French Quarter, não se vê
nenhum sinal de Katrina. Algumas vezes, um cheiro meio azedo
se levanta do chão. Talvez seja um resquício da inundação.
Talvez seja o sempre presente cheiro causado pela umidade e
pelo calor. Mas os prédios não têm, na superfície, nenhum
sinal do que aconteceu em agosto de 2005, e que vimos pela
televisão por dias e dias naquelas fatídicas semanas de fins
de agosto e de setembro.
Mas houve grandes estragos na cidade. Onde
estão os sinais? Para entender o nível da devastação em New
Orleans, devemos recordar que uma parte da cidade está
construída abaixo do nível do mar. Esta parte é mantida seca
pelo sistema de barragens construídas pelo Army Core of
Engineers, e coincidentemente, esta parte é habitada em sua
maioria pela população negra e pobre. E foi justamente esta
região de New Orleans que inundou com o rompimento das
barragens. Das cerca de 800 pessoas que morreram na cidade,
a grande maioria estava nesta parte. Hoje em dia, o turista
com mais tempo e mais curiosidade, pode ir “visitar” esta
parte destruída se pagar no mínimo trinta e cinco dólares
por uma tour de uma hora e meia. Ou, para os ainda mais
afoitos e com mais dinheiro, pode-se pagar até 80 dólares
para uma tour de três horas. Conversando com uma pessoa que
oferece tais tours, ela disse que parte do dinheiro
arrecadado é doado para o esforço de reconstrução. Acredite
quem quiser.
Uma das pessoas com quem tive a oportunidade
de conversar longamente sobre a tempestade e seus efeitos
foi uma brasileira que mora com a família em New Orleans há
16 anos. Juntamente com seu marido e dois filhos, ela esteve
entre os que conseguiram sair da cidade antes que o furacão
chegasse. Ela disse que no começo se sentiu aliviada por ter
conseguido salvar sua família. Mas este sentimento foi quase
concomitantemente substituído pela preocupação com amigos e
vizinhos que tinham resolvido não sair da cidade, e depois
pela preocupação com o que poderia estar acontecendo com sua
casa. Ela foi com a família inicialmente ao Mississipi, onde
tinham
parentes,
mas depois tentaram encontrar um lugar mais permanente para
morar no norte da Luisiana até que New Orleans se
normalizasse. Seu marido fez várias viagens de volta assim
que as águas baixaram, para certificar-se que a casa estava
intacta. Mesmo depois de quase três anos, esta mulher disse
que às vezes acorda durante a noite e fica com medo de outro
furacão chegando, sem aviso, e levando tudo.
Logicamente, basta ler-se uma revista sobre
Katrina, ou dar uma busca na internet, ou no youtube, e se
podem ler e ver comentários, imagens, depoimentos sobre o
que o furacão fez com a vida de tantos. Mas é diferente
quando se está conversando com alguém que passou pelo trauma
da quase destruição da cidade.
Para
aquela brasileira, a experiência foi extremamente dolorosa,
e ela disse, várias vezes, que ela e sua família foram
privilegiados, porque tinham carro, dinheiro, e saíram a
tempo. Mas eles também tiveram seu sofrimento, e não pouco
dele um sentimento de culpa, porque outros ficaram para
trás, e outros morreram.
E quem ficou para trás tinha a opção de
buscar refúgio no estádio Astrodome. Infelizmente, como
sabemos, a força dos ventos arrancou parte do telhado da
estrutura, causando ainda mais pandemônio às milhares de
pessoas que não tinham podido fugir a tempo. Para quem tinha
parentes e amigos em New Orleans, deve ter sido excruciante
ver as imagens na televisão, e não poder fazer nada. Foi
excruciante para todos nós, com certeza.
Algumas coisas foram ditas durante aquele
período e ficaram na memória. Uma delas foi o inepto
presidente George W. Bush congratulando Mike Brown, o
diretor da FEMA—Federal Emergency Management Agency (Agencia
Federal para o Gerenciamento de Emergências) enquanto a
desordem e a falta de gerenciamento era gritante na cidade:
“You’re doing a hell of a good job” — “Você está fazendo um
excelente trabalho.” (Mike Brown acabou demitindo-se dia 12
de setembro, sob pressão pela incompetência durante a
crise). Outra coisa que foi dita, e que a brasileira me
recordou, apareceu em alguns jornais, em cartas dos
leitores. Alguns deles disseram que o que tinha acontecido
em New Orleans era punição divina pelos pecados da cidade.
Para a brasileira que mora em New Orleans,
tal idéia revela uma estupidez e uma ignorância sem tamanho.
A maioria dos mortos na cidade não foram as prostitutas, nem
os vendedores de drogas, nem os cafetões, nem os ladrões e
outros bandidos. Foram os pobres, os velhinhos, os
abandonados pelo sistema, que não tinham nem dinheiro nem
condições de se locomover até algum lugar para serem
resgatados das águas. Muitos dos que morreram foram
encontrados nos sótãos de suas casas, para onde tinham
fugido quando as águas subiram. Se o furacão foi punição,
puniu os mais inocentes.
Caminhando pelas ruas do French Quarter,
olhando as lojas de camisetas coloridas apregoando o seu
carnaval (Mardi Gras), ou experimentando as maravilhosas
máscaras feitas de pena, ou rindo dos copinhos contendo
partes genitais, ou entrando em algum dos inúmeros bares e
restaurantes, ou se maravilhando com a música tocada nas
ruas, o turista pode momentaneamente esquecer o que se
passou nesta cidade. Mas para muitos, ainda continuam
vívidas as imagens de gente tentando alcançar um lugar mais
alto, ou das enormes filas de pessoas esperando pelo resgate
enquanto a câmera se dirigia a uma cadeira de rodas contendo
uma pessoa morta. A lembrança do desespero de gente que
merecia ter sido ajudada mais cedo, mais eficientemente, com
mais respeito.
New Orleans é chamada carinhosamente “The Big
Easy” — “A Grande Fácil” — por causa de um salão de danças
que existia na cidade por volta de 1900. Mas a cidade tem
outros apelidos, entre eles, “O Berço do Jazz”, “A Cidade
dos Chefs”, “Paris do Sul”, Rainha do Sul”, “NOLA”, e outros
que enfatizam como a cidade é vibrante, “européia”,
interessante, e misteriosa.
Entretanto, hoje em dia não tem mistério: a
cidade está lutando para recuperar-se financeiramente, e
para atrair de volta as milhares de pessoas que fugiram
durante Katrina, para recompor-se e fazer jus à sua fama.
Mas a brasileira que conheci em New Orleans me disse que os
moradores ainda não têm confiança nas barragens que estão
sendo construídas, e que muitos dos que se foram para outros
estados resolveram ficar por lá mesmo e não arriscar mais
viver em uma cidade parcialmente abaixo do nível do mar.
Enquanto isto, as pessoas que têm carinho por
New Orleans, e tudo o que a cidade representa, estão
voltando aos poucos para visitar, para ajudar a estimular o
comércio, para apreciar a comida e a música e para desfrutar
de outros deleites que a cidade oferece. Talvez em uma ou
duas gerações as imagens de Katrina e do sofrimento dos
habitantes da cidade tenham esmaecido. Talvez.