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LEONARDO DA ROCHA
BOTEGA
Professor de História, mestrando em Integração
Latino-americana pela UFSM
MÁRCIA NAIAR CERDOTE PEDROSO
Bacharel em Economia, especialista em Pensamento
Político Brasileiro pela UFSM.
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A integração nos marcos da reestruturação produtiva:
os
dilemas do Mercosul
por Leonardo da Rocha Botega
& Márcia Naiar Cerdote Pedroso
A criação do Mercosul a partir do Tratado de Assunção
abriu novas possibilidades e desafios para a integração dos países
do Cone-Sul. Diferentemente das propostas anteriores de integração,
especificamente a ALADI e a ALALC, tratava-se de um projeto mais
amplo que não tivesse somente a preocupação com as questões
econômicas comerciais, mas sim, uma integração mais global
abrangendo a cultura, a política e a cidadania.
Desta forma, o Tratado de Assunção definiu a
integração de Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai através de
alguns pontos básicos. São eles: a livre circulação de bens,
serviços e fatores produtivos; o estabelecimento de uma tarifa
externa comum e a adoção de uma política comercial comum; a
coordenação de políticas macroeconômicas e setoriais; e a
harmonização de legislações nas áreas pertinentes. Esses seriam os
fatores para alcançar o fortalecimento do processo de integração.
Conforme Averbug:
“(...) a expectativa manifestada no Tratado de
Assunção (1991) consistiu na criação de um espaço de
livre-circulação e união aduaneira que culminasse com o mercado
comum e fornecesse a inserção competitiva na economia global. O
Tratado identificou a integração como veículo para consolidar a
democracia e a modernização da estrutura produtiva de bens e
serviços, resultando em maior crescimento econômico e de
bem-estar da população” (AVERBUG, 2002:77).
O Tratado de Assunção gerou uma expectativa muito
positiva em relação ao futuro do bloco, com a integração econômica e
a consolidação da democracia configurando a centralidade o nascente
projeto regional.
Porém, passado mais de uma década da criação do
Mercosul verifica-se que apesar dos avanços relativos às trocas
comerciais entre os países membros, especialmente Brasil e Argentina
muitos ainda são os desafios, entre eles o da livre circulação de
fatores produtivos, mais especificamente de trabalhadores.
Este talvez seja o passo mais decisivo e mais
complexo a ser dado no rumo da integração. Não somente por que
pressupõe um alto grau de integração, mas também pelas pressões
estruturais que o processo de mundialização tem exercido sobre o
mundo do trabalho.
Conforme Chesnais, o processo de mundialização do
capital “bem mais do que apenas outra etapa no processo de
internacionalização, tal como o conhecemos a partir de 1950”, sendo
na verdade uma “nova configuração do capitalismo mundial e nos
mecanismos que comandam o seu desempenho e regulação” (CHESNAIS,
1996:13).
Conforme o autor:
“A mundialização é o resultado de dois resultados
interligados, mas distintos. O primeiro pode ser caracterizado
pela mais longa fase de acumulação ininterrupta do capital que o
capitalismo conheceu desde 1914. O segundo diz respeito às
políticas de liberalização, de privatização, de
desregulamentação e de desmantelamento de conquistas sociais e
democráticas, que foram aplicadas desde o inicio da década de
1980, sob o impulso dos governos Thatcher e Reagan” (Idem,
p.34).
Este processo de mundialização do capital tem sido a
grande fonte de tensão no cenário das novas relações internacionais,
pois este processo criou uma hipertrofia do mercado em relação às
demais instituições centrais das economias modernas, os Estados e as
empresas, sobretudo, com as transformações das relações entre os
mercados e as empresas, onde estas tiveram que reestruturar a sua
produção, tornando-a mais flexível e com relações de trabalho
precárias, para assim poder atuar diante de um mercado cada vez mais
competitivo.
Em relação ao Estado, este acabou redefinindo sua
função à medida que, diferentemente dos anos 1930 e 1940, onde o
Estado de Bem-Estar Social foi gestado, agora os mercados,
principalmente o financeiro, podem gerar muito mais capitais do que
o próprio Estado. Desta forma, o Estado se volta cada vez mais a sua
função política e repressiva para a garantia da realização dos
lucros no mercado. Isto explica a forte influência que os Organismos
Internacionais de Breton-Woods, o Fundo Monetário Internacional e o
Banco Mundial, exercem sobre os governos para que assim orientem os
seus Estados a partir da realização de reformas econômicas e
administrativas de cunho neoliberal.
O resultado deste processo tem sido perverso do ponto
de vista social e totalitário do ponto de vista ideológico. Do ponto
de vista social, o desemprego crescente torna-se crônico, a pobreza
aumenta, as classes médias perdem em qualidade de vida, os salários
médios tendem a ser reduzidos, o trabalho torna-se cada vez mais
precário, a fome e o desabrigo se generalizam em todos os
continentes. Do ponto de vista ideológico produz-se a idéia de que
somente há um caminho para os rumos da humanidade. Conforme Milton
Santos, “as técnicas hegemônicas atuais são, todas elas, filhas da
ciência, e como sua utilização se dá ao serviço do mercado que é
santificado pela ciência, considerada, ela própria infalível”, desta
forma, “o que é feito pela mão dos vetores fundamentais da
globalização parte de idéias cientificas, indispensáveis à produção,
aliás acelerada, de novas realidades, de tal modo que as ações assim
criadas se impõem como soluções únicas” (SANTOS, 2001:53).
Este pensamento único é o centro da visão neoliberal
que tem predominado ao longo das últimas décadas e que, juntamente
com o aumento da competitividade inter-capitalista, levou a
reestruturação produtiva e a profundas transformações no mundo do
trabalho.
Conforme Antunes:
“(...) quanto mais se avança na competitividade
inter-capitalista, quanto mais se desenvolve a tecnologia
concorrencial, maior é a desmontagem de inúmeros parques
industriais que não conseguem acompanhar sua velocidade intensa.
Da Rússia à Argentina, da Inglaterra ao México, da Itália a
Portugal, passando pelo Brasil, os exemplos são crescentes e
acarretam repercussões profundas no enorme contingente de força
humana de trabalho presente nestes países” (ANTUNES, 2002:2).
Nos países mais
pobres ou em desenvolvimento, como é o caso do Brasil e dos países
do Mercosul, os impactos da explosão tecnológica das últimas décadas
fizeram com que os mesmos sofressem as conseqüências mais negativas
do processo, pois esta explosão acontece conjuntamente com uma
abertura comercial descompassada. Como esses países não possuem uma
estrutura produtiva para fazer frente aos países desenvolvidos que
dominam o mercado, acabam se desestruturando economicamente.
Foi necessário
acelerar a reestruturação produtiva que tinha por finalidade
aumentar a competitividade frente às empresas estrangeiras. No
entanto, isso provocou a ruptura parcial em várias cadeias
produtivas, fragilizando importantes setores de atividade econômica
que não se atualizaram à competitividade. As empresas passaram a
importar máquinas e equipamentos, buscaram parcerias e reduziram
custos, principalmente de mão-de-obra. Houve o aumento da
produtividade acompanhado por aumentos na jornada total de trabalho,
seja através do uso de horas extras, ou ocupações sem registro e por
conta-própria que operam em um regime intensivo de trabalho. No caso
do Mercosul este processo de reestruturação produtiva tornou mais
complexa à implantação da livre circulação de trabalhadores pelo
bloco.
As assimetrias
relativas às disparidades econômicas e sociais entre os países
membros do Mercosul, colocam lado a lado duas economias complexas
como Brasil e Argentina e duas economias com menor nível de
industrialização como Uruguai e Paraguai. Aliado a isto as
disparidades no que tange as legislações laborais destes países
agravam ainda mais esta situação. Dessa forma, a complexa
problemática das migrações laborais e de suas conseqüências em uma
processo de integração, exigem que o debate se afirme no sentido de
uma menor disparidade no campo do direito do trabalho, o que leva
necessariamente para a lógica da constituição de uma marco comum de
regulação das relações trabalhistas.
Porém, esta lógica
coloca mais alguns desafios para a integração: Como será diminuída
esta disparidade entre os países membros? Os direitos adquiridos nos
países que possuem uma legislação trabalhista mais completa como
Brasil e Argentina estarão garantidos? Como conter a pressão da
livre circulação de trabalhadores sobre os salários? Como diminuir a
informalidade dos ditos trabalhadores estrangeiros nos demais
países? Algumas destas questões já são uma constante interna aos
próprios países do Mercosul.
Como podemos ver, o
debate sobre a integração nos marcos da reestruturação produtiva em
um bloco como o Mercosul, que tem como um de seus pilares para o seu
aprofundamento a implantação da livre circulação de fatores
produtivos, entre eles os trabalhadores, é bastante complexo.
Somente um debate mais aprofundado que envolva todos os setores
ligados ao mundo do trabalho é que poderá buscar uma saída para este
dilema. Quem sabe a partir deste debate não estaremos aprofundando a
democratização do próprio bloco, caminhando para além das discussões
inter-governamentais e setoriais? Veremos.
Referências
ANTUNES, Ricardo.
Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e a negação do
trabalho. 6º edição. São Paulo: Boitempo Editorial, 2002.
AVERBUG,
Marcelo. Mercosul: Expectativas e Realidade. Revista do
BNDES, v.9, n.17, p.75-98, jun. 2002.
CHESNAIS,
François. A mundialização do capital. São Paulo: Xamã, 1996.
SADER,
Emir & GENTILI, Pablo (Org). Pós-neoliberalismo: as políticas
sociais e o Estado democrático. 4a Edição. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1998.
SANTOS, Milton. Por
uma outra globalização: do pensamento único à consciência
universal. Rio de Janeiro: Record, 2001.
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Imprensa e História Política: Gramsci como
alternativa teórico-metodológica

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